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In document MYCN and microRNAs in neuroblastoma (sider 21-26)

Alguns fragmentos isolados na obra de Quignard desvelam, mais do que outros, o “outrora” situado mais além do passado. Em Todas as manhãs do mundo (1991), o músico Sainte Colombe é invadido por uma melancolia que se intensifica com o passar dos anos.

139 “Je considère que le Jadis, c’est le langage dont, selon a la célèbre formule lacanienne, il n’y a pas de méta.

Le Jadis n’a pas de méta, la faculté de langage s’y superpose dans son pré-langage ou dans son actualisation alors forcément temporelle. L’écriture, c’est l’obstination à penser-sentir cela et à le transmettre.”

Apenas sua música o conforta. Austero e isolado em sua solidão, o grande mestre passa a ser visitado pela esposa, morta. Quignard escreve:

Um dia em que concentrava o olhar nas vagas da ondulação, dormitou e sonhou que entrava na água escura que era a sua morada. Renunciara a todas as coisas que amava neste mundo, aos instrumentos, às flores, aos doces, às partituras enroladas, aos escaravelhos, aos rostos, aos pratos de estanho, aos vinhos (QUIGNARD, 1991, p. 26).

Um dia, dialogando com a mulher defunta, disse: “A minha tristeza é indefinível. Tendes razão para me dirigir tal censura. A palavra não pode dizer nunca aquilo de que pretendo falar, e não sei como hei de dizê-lo...” (QUIGNARD, 1991, p. 61). E, num diálogo comovente durante outra aparição da amada, Sainte Colombe lhe pergunta como era possível que ela viesse visitá-lo:

– Como é possível virdes aqui depois da morte? Onde está o meu bote? Onde estão as minhas lágrimas quando vos vejo? Não sereis, antes, um sonho? Estarei eu louco? – Afastai a vossa inquietação. O vosso barco está podre há muito tempo no ribeiro. O outro mundo é tão estanque como era a vossa inquietação.

– Senhora, eu sofro por não vos tocar.

Ela falava lentamente, como é costume dos mortos. Acrescentou: – Acreditais que não haja sofrimento em ser vento? Às vezes esse vento traz até nós restos de música. Às vezes a luz traz aos vossos olhos fragmentos das nossas aparências (QUIGNARD, 1991, p. 71-72).

No romance Les escaliers de Chambord (1989b), a personagem Édouard evoca, sem ambigüidade alguma, o “outrora” quando reflete sobre outro mundo que teria precedido essa luz em que nos banhamos, um mundo que erra no mundo no qual se vive. Segundo Quignard: “Talvez, no fundo da memória, ele alimentasse a nostalgia do continente de todas as coisas do mundo antes que elas se nomeassem, antes que fossem objetos de troca, que circulassem. A nostalgia do que não se encontra, de um objeto não encontrável, de uma presença que não se consegue surpreender” (QUIGNARD, 1989b, p. 218).140

A personagem Apronenia Avitia, por sua, vez, anota em sua tablettes as “coisas longas e as coisas sem duração”, ou seja, ora a memória se refere aos objetos do passado, aos fatos remotos e ao tempo que parece se “distender”, ora se refere a um tempo além, ou aquém, do rememorado, um tempo cuja duração não seria mensurável em razão da própria atualidade. Apronenia afirma:

140 “Peut-être, au fond dela mémoire, nourrissait-il la nostalgie du continent de toutes choses au monde avant

qu’elles ne se nomment, avant qu’elles ne s’échangent, ne se monnaient, ne circulent. La nostalgie de ce qui ne se trouve pas, d’un objet introuvable, d’une présence qu’on ne parvient pas à surprendre.”

Dentre as coisas que são muito longas eu acrescentaria a infância. O arbusto de buxo. Quando espero por Aulus que está na casa do gramático e que já deveria estar de volta há uma hora. A velhice. A tartaruga marinha. A morte daqueles que estão mortos. A insônia. A gralha. Dentre as coisas sem duração tu não anotaste os deuses imortais e as obras irreprocháveis. Dentre as coisas sem duração é preciso isolar o amor. Ele está para a espécie como o sexo ou os mamilos que o acompanham e que permitem reproduzi-lo e que não definem nada de propriamente humano (QUIGNARD, 1984, p. 116-117).141

No capítulo CVII do mesmo livro, C. Basso emite uma hipótese sobre a origem dos odores, o que, a nosso ver, conduz também a esse tempo prévio, não exatamente situável no passado, no vivido, e cuja memória reporta ao “outrora”. A imagem utilizada pelo escritor para circunscrever tal temporalidade é, como de costume, essa de uma vida sempre antecedente, que pode ser inferida na cadeia da filogênese, uma vez que apenas seus resquícios chegam até nós. Quignard faz Apronenia dizer:

Caio toma a palavra sobre os odores e emite uma hipótese sobre a origem do mau cheiro: – Antes de nascermos somos os cadáveres de uma vida cuja lembrança não temos e flutuamos no fundo do oceano. Desde que nossas mães nos carreguem, inchamos, enchemo-nos de ar, apodrecemos, subimos pouco a pouco para a superfície desse oceano. Bruscamente, o nascimento nos joga sobre a costa. É uma espécie de onda violenta e repentina. T. Lucrécio Caro dizia que cada dia de nossa vida acostávamos sem cessar numa beira de luz. Com o sol batendo, começamos a cheirar [a decompor, a cheirar mau] e começamos a gritar. Com a morte, alcançamos a profundeza e o silêncio e a suavidade inodora do abismo (QUIGNARD, 1984, p. 102-103).142

A “quinta estação” do escritor romano Albúcio remete-nos também à temporalidade do “outrora” apesar de essa figura-conceito não se encontrar ainda plenamente formulada na época da publicação do livro. Dessa forma, para o retórico latino, haveria uma quinta estação, “alguma coisa que não pertence à ordem do tempo e que, no entanto, volta todo ano como o

141 “Parmi les choses qui sont très longues j’ajouterai l’enfance. L’arbuste de buis. Quand j’attends Aulus le

grammairien et qui devrait déjà être de retour depuis une heure. La vieillesse. La tortue de mer. La mort de ceux qui sont morts. L’insomnie. La corneille. Parmi les choses sans durée tu n’as pas noté les dieux immortels et les oeuvres irréprochables. Parmi les choses sans durée il faut retrancher l’amour. Il est à l’espèce comme le sexe ou les mamelles qui l’accompagnent et qui permettent de le reproduire et qui ne définissent rien de proprement humain.”

142 “Caïus prend la parole sur les odeurs et fait une hypothèse sur l’origine de la puanteur: – Avant que nous

naissions nous sommes les cadavres d’une vie dont nous n’avons pas le souvenir et nous flottons au fond de l’océan. Autant que nos mères nous portent nous nous boursouflons, nous nous gonflons d’air, nous pourrissons, nous remontons peu à peu à la surface de cet océan. Brusquement la naissance nous rejette à la côte. C’est une sorte de vague violente et soudaine. T. Lucretius Carus disait sans cesse un rivage de lumière. Le soleil venant à frapper, nous commençons à sentir [à faisander, à puer] et nous commençons à crier. Par la mort nous rejoignons la profondeur et le silence et la douceur inodore de l’abîme.”

outono e como o inverno, como a primavera e como o verão. Alguma coisa que tem seus frutos e que tem sua luz” (QUIGNARD, 1990a, p. 71).143

Em um primeiro momento, essa quinta estação associa-se à infância ou, mais precisamente, ao período infantil em que não é possível falar em linguagem minimamente articulada:

Os dias que antecedem o nascimento e aqueles que o sucedem formam, por si mesmos, uma estação que os antigos Romanos chamavam de ‘não-falante’. Era preciso adicionar nove meses lunares mais dezoito meses sem linguagem humana propriamente falando e essas três vezes nove meses conferem toda a marca do pequeno homem (QUIGNARD, 1990a, p. 71-72).144

Nesse sentido, a infância mencionada por Albúcio reporta-nos ao “outrora” na medida em que é descrita como uma pré-estação errante que visitaria nosso quotidiano durante toda a vida, que estaria na base dos amores, do comportamento de cada um, que apareceria nos sonhos e também nas atividades diurnas. Mas que não deixa de ser perdida. Albúcio descreve aqui os sordidíssimos em sua relação com o “outrora”, isto é, uma temporalidade sempre anterior, incessantemente prévia e que, por isso mesmo, seria determinante. Contudo, a infância não é a única metáfora que figuraria o “outrora” (jadis): a surpreendente “quinta estação” inventada por Albúcio, no entanto, não se resume unicamente a essa pré-estação infante ou primária ou animal que erra incessantemente em nós; o outrora é o próprio passado em nós, “estação que é, em nós, o inalterável Antigo [...]. Inalterável fundação de nós mesmos nas ruínas da não-linguagem em nós [...]. Eterna narração, na realidade, mais velha que os caminhos abertos pelos rebanhos destas presas quando de sua passagem (QUIGNARD, 1995, p. 73-74).145

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