• No results found

Mass balance 2003

Uma ferramenta deve ser considerada em ligação com seu complemento de matéria, na exata dinâmica do im- pulso manual e da resistência material. Ela desperta ne- cessariamente um mundo de imagens materiais.

A designação dos períodos pré-históricos como Idade da Pedra Lascada, Idade da Pedra Polida e Idade dos Metais é evidentemente referida aos utensílios produzidos pelo homem, numa cronologia de ferramentas. Flusser vê a história da humanidade como uma história da fabricação e também a divide em períodos: o das mãos, o das ferramentas, o das máquinas e o dos aparelhos eletrônicos (Flusser, 2007: 36).

Inspirada nesse e em outros textos Flusser, propomos dividir a história em gestos nômades, gestos sedentários e gestos neo-nômades.

O dos gestos nômades seria o período da mão livre e dos quatro movimentos que as mãos executam: apropriação, conversão, aplicação e utilização (Flusser, 2007: 36), incluin- do-se os gestos das mãos e os de seu prolongamento - “homem-mão” e “homem-ferramenta”80.

Os gestos nômades priorizam o sentido do tato, conhecem com as mãos, são os da mídia presencial, os gestos do aqui e do agora, de um corpo com outro corpo. Por milhões de anos, o homem foi nômade, “como a caça e como o vento; ao andar (como o vento) toca e apreende o mundo” (Baitello, 2005: 3). O nomadismo obriga o homem a deslocar-se, a locomover-se, em alemão, fahren. Ao se deslocar com seus pés, surge outra habilidade, que é efahren, ou conhecer, e a palavra “experiência” é erfahrung81.

Figura 25 – Concha etrusca em bronze, com a imagem de uma mão desenhada em relevo, encontrada numa

sepultura em Cerveteri, Itália, V a.C.

80 Flusser escreve sobre a classificação em homem-mão, homem-ferramenta, homem-máquina e homem-aparelhos

eletrônicos (Flusser, 2007: 37).

Segundo Flusser82, o processo de hominização constitui uma primeira catástrofe,

engendrada pelo uso de ferramentas de pedra, pois, a certa altura, o homem já não podia mais enfrentar os desafios da natureza sem tomar algumas providências.

Do primata ao primeiro possuidor de utensílios, a fronteira não está no nível das possibilidades técnicas: “a passagem para o utensílio encontra-se funcionalmente justificada pela transferência do campo de relação para a mão” (Leroi-Gourhan, 1965: 41).

O utensílio do bípede de mão livre também brota literalmente do dentes e da unhas, primeiramente. O valor do gesto não se encontra, pois, na mão livre, mas na marcha vertical e nas sequências que derivam de um enriquecimento progressivo da sensibilidade tátil e do dispositivo neuromotor, sem alterar a natureza da aparelhagem fundamental: a mão (Leroi- Gourhan, 1965).

Para Flusser, ferramentas, utensílios ou instrumentos são prolongamentos de ór- gãos do corpo:

[...] dentes, dedos, braços, mãos prolongados. Por serem prolongações, alcançam mais longe e fundo a natureza, são mais poderosos e eficientes. Os instrumentos simu- lam o órgão que prolongam: a enxada, o dente; a flecha, o dedo; o martelo, o punho (Flusser, 1985: 26).

Sendo as ferramentas prolongamentos das mãos83, elas também têm um caráter di-

nâmico, apesar do distanciamento. Segue valendo a psicologia do Homo faber, pois são diferentes o gesto da mão nua e o gesto da mão com um instrumento, pois “a mão apetrecha- da recalca todas as violências da mão nua” (Bachelard, 2008: 30).

82 Flusser fala em três catástrofes: a hominização, a civilização e a consequente sedentarização e que vivenciamos

atualmente, ainda não nomeada.

83 O trabalho focaliza as mãos, mas os óculos são prolongamento dos olhos, a mamadeira, do seio materno, o avião,

É difícil descrever, diz Leroi-Gourhan, dada a falta de documentos, como um inci- sivo se transforma num chopper84, isto é, de que modo um único instrumento de ação cortan-

te, transportado na ponta das mandíbulas, se desloca para a mão pela ação incisiva de uma pedra lascada (Leroi-Gourhan, 1965: 41).

Junto aos esqueletos do Homo habilis85, foram encontrados instrumentos como las-

cas de pedras que datam de 1,75 milhões de anos. Talvez tenham aprendido a usar elementos naturais como ossos, dentes e chifres na produção de instrumentos de trabalho (instrumentos como adaptações de restos esqueléticos de antílopes e animais semelhantes) para escavar, cortar, serrar, raspar e alisar (Montagu, 1969: 56-57).

Associados aos restos esqueletais do Homo habilis, havia um sem-número de arte- fatos típicos, entre os quais um instrumento de osso como uma espécie de lissoir, um utensí- lio para se trabalharem e polirem peles de animais e transformarem-nas em couro utilizável. Junto ao material, foram encontradas grandes quantidades de sobras de tartarugas e bagres, animais de apresamento relativamente fácil -ainda não caçavam animais de grande porte, mas aproveitavam a carcaça dos já mortos. Usavam o lissoir para preparar as peles, fabricar roupas e esteiras, assim como coberturas para as habitações (Montagu, 1969: 56-57).

Os primeiros gestos técnicos estão ligados à mão em motricidade direta, ou seja, o processo que projeta progressivamente todos os instrumentos para fora do homem surge tão nítido como o que caracteriza o utensílio manual: as ações dentais passam para a mão, que maneja o utensílio amovível, em seguida, este se afasta ainda mais e, finalmente, na máquina manual, é uma parte do gesto que se destaca do braço (Cf. Leroi-Gourhan, 1965: 43-44).

84 O equipamento técnico dos antropídeos mais antigos, australantropos e arcantropos são os percutores, de choppers

de gume rudimentares, de hastes de veado partidas em forma de pau, para escavar, de bolas-projéteis etc. O movimento se molda diretamente no dos gestos anteriores (Leroi-Gourhan, 1965: 41).

A cada mudança, a cada conquista técnica, transforma-se o gesto, transforma-se o homem. Por exemplo, desde que Monsieur Debout86 (Homo erectus) domesticou o fogo,

mudamos nossa maneira de dormir, de nos alimentar e de nos proteger. O controle do fogo permitiu outras descobertas técnicas, e toda a organização do grupo se transformou, pois, ao invés de direcionar o corpo para o vizinho, para se aquecer, se o direciona para a fogueira (Cyrulnik, 1997: 257).

Entre a mão e o utensílio, começa uma amizade que não terá fim. Focillon diz que ignora se existe ruptura entre a ordem manual e a ordem mecânica, mas, na extremidade do braço, a ferramenta não contradiz o homem: “não é um gancho de ferro aparafusado a um coto; entre eles, está a divindade em cinco pessoas que percorre a escala de todas as grandezas, a mão do pedreiro das catedrais, a mão dos ilustradores de manuscritos” (Focillon, 2001: 114).