3. TEORI
3.1 Marked
O sítio RS-TQ-58 está dividido em duas partes, no que diz respeito ao cadastro no IPHAN. No mesmo cadastro, sua localização está apontada como pertencente à cidade de Montenegro. No entanto, atualmente sítio arqueológico pertence ao município de Brochier, antigo distrito montenegrino, emancipado em 1988.
Está situado na localidade de Batinga Sul, na base de morraria, por volta de 11 km do centro de Brochier. Sua abertura está voltada para o norte e suas dimensões são 21,4 m de abertura, 8m5 m de profundidade máxima e 8,6 m de altura máxima de aba. As coordenadas geográficas obtidas no local são: UTM 22J 437 953/6727 084 Altitude 80m.
Figura 45: Fachada do sítio arqueológico RS-TQ-58, na estrada interna da propriedade Fonte: Acervo próprio
O vasto material obtido nas escavações, segundo Ribeiro142(1999, p.7), são excelentes identificadores e fontes de informação a respeito da Tradição Umbu. Foram
142 Pedro Augusto Mentz Ribeiro conheceu o sítio em 1981, quando presumiu grande potencial arqueológico do
local. Em 1987, na oportunidade em que identificou mais sítios na região, revisitou o local e publicou o resultado de sua pesquisa (Ribeiro, 1989). No entanto, os trabalhos de escavação no referido sítio aconteceram no período de março a maio de 1989 (Ribeiro, 1999).
encontradas cerca de 500 pontas de projétil143, lâminas bifaciais, facas, raspadores144 de várias formas, vários tipos de lascas, aproximadamente 300.000 microlascas, contas de colar feitas de ossos, dentes de animais (mamíferos145 e tubarão146) e de conchas, chifres de veado (que possivelmente eram utilizados como retocadores), pinças de crustáceo147, anzol, vestígios de moluscos148 e crustáceos, casca de ovo de ema, ossos de mamíferos, répteis e aves, bem como sementes149. Também foram detectadas pedras-de-fogueira, material corante, apresentado em fragmentos de hematita e, curiosamente, um dente humano, que após análise150, foi identificado como de um indivíduo de 9 a 10 anos de idade. Quanto à cerâmica encontrada, foram somados sete fragmentos considerados da Tradição Taquara, apresentando decoração simples, ponteada, ungulada e pinçada.
Diante de todos esses dados e um exame criterioso das implicações dos mesmos no modo de vida de nossos antepassados, Ribeiro constatou que o abrigo teve sua primeira ocupação por volta de 10.000 a 11.000 anos A.P., o que comprova que grupos atribuídos à Tradição Umbu estiveram presentes na região em tempos muito remotos, o que possibilitou dados mais amplos sobre o traçado ou redimensionamento da trajetória humana pré-colonial no território gaúcho e brasileiro:
A Umbu encontra-se na região há mais ou menos 8000 anos A. P., fato comprovado no abrigo, o RS-TQ-58, onde, no nível 170-180cm foi obtida a datação radiocarbônica de 8290±130 anos A. P. Isto vem confirmar a relativa antiguidade da ocupação desta área do Estado e que poderá recuar a 10 ou 11.000 anos A. P. (RIBEIRO, 1989, p. 81).
Quando o homem deu seus primeiros passos nas proximidades do sítio RS-TQ-58, era final da transição do Pleistoceno para o Holoceno, o que indica o período entre 13.000 a
143 A maior parte deste material foi confeccionado em calcedônia. Também foram encontradas ferramentas
líticas confeccionadas em arenito metamorfizado e basalto (Ribeiro, 1999, p. 21).
144 Os raspadores foram confeccionados em arenito metamorfizado.
145 Os dentes são oriundos de caninos e primatas, apresentando perfuração (tinham a função de contas-de-colar)
no centro da raiz e alisamentos (desgaste intencional) (RIBEIRO, 1999, p. 24).
146 A confirmação em relação ao fato do dente ser de tubarão foi dada pelo Prof. Dr. Carolus Maria Vooren, do
Departamento de Oceanografia da Fundação Universidade Federal do Rio Grande. O animal em questão atualmente é encontrado nos Oceanos Pacífico e Atlântico. Seu nome científico é Carcharhinus falciformis (RIBERIO, 1999, p. 24).
147 Analisadas pelo Dr. Danilo de Calazanz, do Laboratório de Crustáceos do Departamento de Oceanografia da
FURG, que não pôde confirmar se a pinça é proveniente de água doce ou salgada (RIBEIRO, 1999, p. 30).
148 Na atualidade, estas espécies são encontradas frequentemente em arroios tributários dos rios Caí e Jacuí. 149 Além das sementes, foi coletado pólen para análise, em vários níveis da escavação. A coleta foi realizada pela
Dra. Maria Luiza Lorscheiter e pelo mestrando na época, Glademir Antonio Lorensi, ambos do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Como os resultados obtidos não foram adequados, devido a grande presença de cinzas, uma segunda coleta foi realizada num banhado nas proximidades do arroio Santa Cruz, a 4km do sítio (RIBERIO, 1999, p. 12).
10.000 A.P. O clima passou de seco e frio a seco e com temperaturas mais altas, o que propiciou o aumento da umidade e conduziu o clima para precipitações até maiores do que as atuais. Os intervalos de tempo que antecederam e sucederam o “Ótimo Climático” foram marcados pela variação da umidade. Diante de tantas alterações vivenciadas, grupos que denotam a Tradição Umbu permaneceram no abrigo de forma ininterrupta por cerca de 10.000 anos, o que comprova que o local caracterizava maiores e melhores condições do que as demais áreas circunvizinhas. Por apresentar certo grau de umidade, foi o lar ideal quando as chuvas foram escassas, proporcionando, ainda, fartura no que diz respeito à fauna e flora:
...Além disso, por sua posição, os habitantes do RS-TQ-58 tinham proteção no inverno, do vento gelado do sudoeste, o “minuano” e, no verão, do forte calor, também pela cobertura vegetal na sua parte fronteira e arredores. São áreas que conservaram umidade em virtude de suas características físicas. No caso do RS-TQ-58, trata-se de uma depressão que drena as águas de vários pequenos cursos d’água. Essa umidade, que no clima atual formou banhados no interior desse “minicânion”, com aproximadamente 7,0x 0,4Km (comprimento e largura) e 50m de altura, permitiu a conservação de vegetação arbustiva, inclusive nas suas encostas. Isso leva a duas conseqüências: a própria proteção do abrigo sob rocha da erosão eólica e pluvial e melhores condições de sobrevivência (RIBEIRO, 1999, p. 36).
Quanto à alimentação, esta era diversificada, pois abrangia as florestas e os campos, o que é comprovado por Rosa (2009) através de análises zooarqueológicas neste sítio. Comprovação dessa hipótese são os ossos de veado campeiro e os fragmentos de casca de ovo de ema, característicos da região campestre. Quando a umidade aumentou e propiciou fartura em moluscos fluviais e marinhos151, esses fizeram parte da dieta de nossos antepassados milenares.
O estudo da distribuição espacial dos instrumentos foi realizado apenas com as pontas-de-projétil e lâminas bifaciais,por apresentarem quantidade justificável. Os resultados mostraram uma ocupação mais intensa da parte frontal do abrigo no período mais antigo e o contrário no mais recente. Isso talvez estivesse vinculado a um período de menor para um de maior pluviosidade. A ocupação foi intensa e ininterrupta, o que se deduz da grande quantidade de fogueiras e cinzas em todos os níveis e, em especial, do meio para o fundo do abrigo [grifo nosso] (RIBEIRO, 1999, p. 37).
O sítio em questão foi revisitado pela arqueóloga Dra. Adriana Schmidt Dias, em junho de 2005, por conta dos trabalhos do Projeto Arqueológico do Vale do Caí (PACA).
151 Enquanto os moluscos de água doce eram obtidos a poucos metros, os marinhos eram alcançados a 170 km de
Nesta oportunidade foi detectada uma gravação rupestre, na parede leste, logo acima da área escavada por Ribeiro na década de 1980, a qual é escrita na ficha de registro arqueológico do PACA, constante nos arquivos do IPHAN:
Na parede leste, acima da área escavada na década de 1980, observa-se a presença não relatada nas publicações anteriores, de uma gravação rupestre de 15 cm de dimensões na forma de um triângulo invertido (raspado), associado na parte superior a duas sequências de pontos paralelos (picoteados) e no lado direito há um traço e outro triângulo incompleto (raspados) (IPHAN, 2004, p. 35).
Em 25/09/2010 revisitamos o local guiados pelo Sr. Garivaldino Rodrigues, proprietário das terras. Percebemos que o sítio arqueológico encontra-se sem perturbações na área ainda não escavada, mas com algumas inscrições recentes nas paredes, mesmo que bastante superficiais.
Figura 46: Condições do sítio arqueológico RS-TQ-58, em 25/09/2010 Fonte: Acervo próprio
O Sr. Garivaldino nos mostrou fotos da escavação, orgulhoso por ter colaborado nos trabalhos. Possivelmente por seu envolvimento com o processo, acredita que agora é o guardião do abrigo sob rocha, tentando impedir que as pessoas cheguem, segundo as palavras dele, com “más intenções”. De acordo com seu relato, foi o arqueólogo Pedro Augusto Mentz Ribeiro que o esclareceu sobre a importância de preservar o sítio arqueológico. O Sr, Garivaldino inclusive nos comentou que estava planejando na época de seu contato com Ribeiro, detornar um enorme bloco arenítico na borda do abrigo sob rocha, para extração de pedras e a descoberta do sítio o fez recuar e entender que isso seria não só prejudicial, mas ilegal.
Percebemos que superficialmente o solo sofre a interferência da ação da fauna local, com pequenos buracos e rastros, assim como da ação dos fenômenos naturais no arenito, que apresenta pontos de provável intemperismo.
Localizamos e fotografamos as gravações rupestres citadas, mostrando-as ao Sr. Garivaldino, que não as conhecia.
Figura 47: Gravações rupestres identificadas em 2005, em 25/09/2010 Fonte: Acervo próprio
Conforme nos mostrou Garivaldino, foram encontrados fragmentos na região de Serra Velha, há dois anos e naquela mesma propriedade de Batinga Sul, próximos ao abrigo, há aproximadamente 17 anos, foram encontrados fragmentos cerâmicos (coordenadas geográficas UTM 22J 0438074 / 6726881 Altitude 75m). Por volta de 150 m do local onde foram encontrados os fragmentos cerâmicos em Batinga Sul, Ribeiro encontrou uma pedra de boleadeira. Também foi encontrado um fragmento de mão-de pilão, mas já não sabia mais precisar o local do achado, apenas que era nas proximidades dos fragmentos cerâmicos, quando trabalhava na plantação.
Figura 48: Fragmentos cerâmicos encontrados em Batinga Sul, Brochier/RS Fonte: Acervo próprio
Figura 49: Fragmento de mão-de-pilão encontrado em Batinga Sul, Brochier/RS Fonte: Acervo próprio
Estimulado pela importância que atribuímos a seus achados, nos mostrou ainda uma pequena coleção de pontas de projétil encontradas aleatoriamente por ele e/ou sua esposa (falecida) na sua propriedade em Batinga Sul, quando ainda morava no local. As localizações dos achados, de acordo com suas lembranças, eram próximas ao morro onde está localizado o sítio arqueológico.
São seis pontas de projétil, todas da Tradição Umbu, sendo três de arenito metamorfizado e três de quartzo, de tamanhos variados.
Ele as guarda como relíquias, até por terem sido também encontradas pela esposa falecida. Mesmo diante do valor sentimental atribuído ao material, por parte do Sr. Garivaldino, aconselhamos que todas as peças deveriam ser doadas ao museu local ou instituição vinculada à atividades de pesquisa onde seriam analisadas e assim poderiam não só evidenciar a relevância do achado de autoria de sua esposa, mas também seriam conhecidas por mais pessoas, colaborando para o esclarecimento da passagem de grupos pré-coloniais pelo Vale do Caí. Eis um bom exemplo de flexibilidade, quando temos conhecimento da legislação e ao mesmo tempo primamos pelo papel social do arqueólogo, como já refletido por Hilbert (2006).
Figura 50: Pontas de projétil encontradas em Batinga Sul, Brochier/RS Fonte: Acervo próprio