Discutir sobre a crise entre marxismo e movimento sindical nos remete a refletir se o marxismo, enquanto teoria ou doutrina revolucionária, ou crítica dialética do sistema capitalista, está invalidada, ou seja, se o corpo teórico do pensamento de Marx está superado
historicamente por causa do fim do “socialismo real” no Leste Europeu e da supremacia do
desenvolvimento científico-tecnológico nas sociedades capitalistas face às socialistas. Ora, se, por um lado, houve a derrocada do projeto socialista soviético, como foi originalmente concebido, para se contrapor ao sistema capitalista, por outro lado, a profunda crise estrutural do sistema do capital está muito longe de ser, em si e por si, solucionada pelos agentes do mercado e por seus governos de Estado, para suprir as necessidades básicas da sociedade e combater suas desigualdades. Como afirma Mészáros,
A “crise do marxismo”, sobre a qual nas últimas décadas muito se escreveu, na
verdade, denotava a crise e a quase completa desintegração dos movimentos políticos que outrora professavam sua lealdade à concepção marxiana de
socialismo. O clamoroso fracasso histórico dos dois movimentos principais – a
socialdemocracia e a tradição bolchevique metamorfoseada em stalinismo – permitiu uma avalanche de todos os gêneros de propaganda triunfalista para celebrar a morte da idéia socialista como tal. Os efeitos negativos desta propaganda não podem ser enfrentados simplesmente com a identificação dos interesses materiais que escoram as celebrações anti-socialistas, pois o que aconteceu não aconteceu sem causas históricas de peso.65
A presente discussão visa, pois, tentar fazer um esclarecimento do porque houve um distanciamento do movimento sindical de esquerda, e até dos partidos políticos de esquerda – senão um recuo teórico –, das ideias de Marx sobre o sistema capitalista e sua superação para
o socialismo como sistema de transição ao comunismo, ao “Reino da Liberdade”. Para
Mészáros, se não houver
[...] um exame rigoroso das décadas intermediárias do desenvolvimento – orientado para o referencial teórico estratégico de alternativa socialista tanto quanto para suas
64
TROTSKI, Escritos sobre sindicato p. 98-99.
65
exigências organizacionais radicalmente alteradas – o projeto socialista não pode renovar-se.66
Segundo Mészáros, portanto, não podemos atribuir a uma experiência histórica de socialismo em um canto do mundo, ou, melhor dizendo, imputar à prática de um modelo de marxismo o fim da teoria de Marx, a saber, um corpo de ideias marxistas que trata das contradições e dos antagonismos do sistema capitalista de valorização do valor. Pois, nas
palavras de Mészáros, “Os acontecimentos pós-revolucionários, consolidados sob Stalin,
seguiram a linha da menor resistência em relação às estruturas socioeconômicas herdadas,
permanecendo assim presas dentro dos limites do sistema do capital.”67
Lênin, em O Estado e a revolução, discorrendo sobre o “aviltamento do marxismo
pelos oportunistas”, já dizia que a questão das relações do Estado e da revolução social foi de
pouca preocupação para os teóricos da II Internacional (1889-1914), ou seja, da revolução em geral. Ao evitar tal questão, alguns desses teóricos – Kautsky e Bernstein – alimentaram o oportunismo e descaracterizaram o marxismo a ponto de edulcorá-lo completamente. Em outras palavras, enquanto Marx afirmava que era preciso quebrar o Estado burguês, demoli-lo e transformá-lo numa organização proletária, Kautsky e Bernstein diziam que bastava aos proletários chegarem ao poder estatal e controlarem o parlamento, para realizar gradualmente o socialismo. Na verdade, tanto Kautsky quanto Bernstein, segundo Lênin, não compreenderam as lições da Comuna nem a doutrina de Marx, quando o primeiro propõe manter a máquina do Estado burguês, sem destruir sua estrutura de dominação burocrática, e
o segundo se esquiva da ideia de “democracia primitiva”68
, quando a chama de
“democratismo doutrinário”.
Na concepção de Lênin, o que marca o recuo de Kautsky em relação às lições de Marx é justamente a sua defesa das mais variadas formas de empresas (burocráticas, sindicalistas, cooperativas, individualistas etc.) e da organização burocrática sob o controle do operário. Deveras, para Lênin, em nada se distingue uma organização burocrática sobre as estradas de ferro, por exemplo, de uma empresa da grande indústria mecânica ou de uma fábrica capitalista, pois em todas elas prescrevem a disciplina rigorosa e a pontualidade no cumprimento de parte do trabalho. Os delegados, que participarem de uma espécie de Parlamento fiscalizador da administração burocrática, tornar-se-ão não mais que puros
66
MÉSZÁROS, op.cit., p. 43-44.
67
Ibid., p.50.
68 A “democracia primitiva” é fundamental para o regime socialista, pois diz respeito à participação
independente da massa, não só nos votos e eleições, mas também na administração cotidiana num regime socialista. Em outras palavras, no regime socialista, toda gente governará e se habituará a que ninguém governe. Cf. LÊNIN. O Estado e a revolução. São Paulo: HUCITEC, 1987. p. 147.
burocratas burgueses. Há em Kautsky, segundo Lênin, tanto uma veneração supersticiosa pelo Estado como uma crença supersticiosa pela burocracia. Kautsky abandona então – diz Lênin – o marxismo pelo oportunismo, e Bernstein identifica o marxismo com o proudhonismo. Começa a partir daí a crise do marxismo na II Internacional, a crise de interpretação errônea do pensamento de Marx, distorcido tanto por Kautsky quanto por Bernstein; em outras palavras, há uma leitura equivocada do pensamento marxiano com relação à questão do Estado e da revolução. Eis então um primeiro momento da crise do marxismo.
No Prefácio de o Conceito marxista de homem, Erich Fromm trata o pensamento de
Marx como uma filosofia, mas uma filosofia que “representa o protesto contra a alienaçã o do homem, contra sua perda de si mesmo e contra sua transformação em objeto; é um movimento oposto à sua desumanização e automa tização do homem, inerente à evolução do industrialismo ocidental.”69 Por conseguinte, Fromm admite que, para determinados leitores infectados com a atitude contemporânea de resignação, a filosofia de Marx parecerá obsoleta, fora de moda, utópica. No entanto, ele pondera dizendo que não podemos compreender o verdadeiro sentido do pensamento de Marx sem diferenciá-lo do pseudomarxismo russo e chinês70, ou seja, não podemos identificar o marxismo e socialismo com o capitalismo de Estado soviético71 e o totalitarismo chinês. Contudo, Fromm ressalta que se abstém de apresentar desacordos com o pensamento de Marx, pois o importante é resgatar a potencialidade reflexiva do marxismo para criticar e transformar a realidade capitalista.
Noutro texto72 bem contundente, Hobsbawm faz um balanço sobre a influência do pensamento de Marx na contemporaneidade do século XX, a saber, seu auge e sua crise depois de 1956, a partir do XX Congresso do PCUS. Para ele, depois de cem anos da morte de Marx, parece este viver nas ideias dos grandes intelectuais de renome em vários países da
Europa oriental e ocidental. “As idéias de Marx tornaram-se as doutrinas que inspiraram os movimentos operários e socialistas na Europa.”73
Segundo Hobsbawm, as ideias de Marx se tornaram a quintessência da doutrina internacional da revolução social no século XX, através de Lênin, da Revolução Russa. Nenhum pensador laico como Marx alcançou tal posição de destaque, se comparado aos pensadores religiosos. Hobsbawm deixa claro que as ideias
69
FROMM, Erich. Prefácio. In: Conceito marxista de homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983. p. 7.
70
Cf. FROMM, op. cit., p. 10.
71
Ferenc Fehér, Agnes Heller e György Márkus, da Escola de Budapeste, rejeitam a teoria do capitalismo de Estado, à medida que tais interpretações reduzem as sociedades de tipo soviético a formas extremas de capitalismo. Cf. ARNASON, J. P. Perspectivas do marxismo crítico no Leste europeu. In: HOBSBAWM, Eric J. História do Marxismo XI. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. p. 243.
72
Cf. HOBSBAWM. O marxismo hoje: um balanço aberto. In:_____. História do Marxismo XI. p.13-66.
73
originais de um pensador estão sempre distantes das doutrinas que as põem em prática, seja de governos ou regimes constituídos em nome de Marx. Por outras palavras, o conjunto de ideias sobrevive a quem o elaborou, logo pode deixar de estar confinado ao âmbito do conteúdo e das intenções originais. Assim como também foi o cristianismo em relação às ideias de Cristo, citadas pelos evangelistas. O que fica claro para Hobsbawm é que a prática política marxista não mais se conforma ao modelo de revolução bolchevique, ou seja, ela não se reduz ao leninismo. Porém, o que autentica as ideias de Marx como forças motrizes revolucionárias é a sua capacidade de mobilizar politicamente as massas.
Entretanto, Marx sobreviveu a mais de um século do fogo concêntrico dirigido contra suas ideias, pois o marxismo tem sido constantemente combatido por se identificar com fortes movimentos políticos no mundo que ameaçavam o status quo, sobretudo depois de 1917, com a Revolução Russa. O marxismo, na verdade, foi uma crítica revolucionária do status quo, e, por isso, exerceu uma extraordinária capacidade de atrair intelectuais de alto nível que desejavam desenvolver ou criticar suas teorias. O marxismo ficou, de certo modo, circunscrito ao movimento político partidário soviético, de caráter monolítico e monocêntrico, que impediu o seu desenvolvimento teórico-prático, causando mal-estar nos intelectuais marxistas ocidentais, sobretudo, porque uma forma ortodoxa de se compreender e divulgar as ideias de Marx obstacularizou o marxismo a se confrontar e/ou se relacionar melhor com outros conhecimentos surgidos no século XX. A falta de interação da ortodoxia marxista soviética com outros movimentos de reflexão sobre a realidade impediu um maior desenvolvimento do pensamento de Marx nesses países, a partir do contato com outros conhecimentos. Logo, a Universidade foi o refúgio desses intelectuais, o campo livre para a reflexão fora do âmbito partidário monolítico, sobretudo, nas Universidades europeias ocidentais.
Por causa da rigidez ortodoxa do marxismo partidário russo ou chinês, muitos dissidentes dos países socialistas passaram a identificar Marx e o marxismo exclusivamente com tais regimes totalitários. Como consequência, houve certa rejeição a Marx por muitos intelectuais dissidentes que abandonaram a perspectiva comunista como sistema de superação do capitalismo. No entanto, a maioria dos marxistas foi obrigada a voltar à posição que os socialistas tinham antes de 1917, a saber, concebia o socialismo como solução dos problemas criados pelo capitalismo, como esperança para um futuro, mas como algo de pouca efetividade na prática histórica, devido à péssima experiência socialista na União Soviética. Com a quase ruptura contemporânea entre URSS e China desde 1962, cujas tropas soviéticas e chinesas se enfrentaram no rio Usuri (1969), as divisões da esquerda foram ainda mais
bloco soviético, pois sua revolução foi realizada por mendigos, ladrões, camponeses e não por um proletariado industrial organizado, como afirmou Mao Tse-Tung. Depois da China (1949),
a revolução “socialista” na Ásia se encerrava com as guerras do Vietnã (1962-1975), da
Coréia (1950-1953), invasão do Afeganistão pelos russos (1979-1989) e os conflitos na Mongólia (Estados sob direção marxista).
Deste outro lado do mundo, movimentos de esquerda na América Latina74, insurrecionais ou não, terminavam em trágicos fracassos como na América Central: a revolução sandinista na Nicarágua (1979-1990) e os guerrilheiros da FMLN (Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional) em El Salvador (1980-1984), “exceto” a Revolução em Cuba (1959); e na América do Sul: no Chile com o governo socialista de Allende (1970- 1973), na Colômbia com as guerrilhas (FARC/FLN), no Peru com movimentos foquistas (Sendero Luminoso), no Brasil com a Guerrilha do Araguaia (1972) e na Bolívia com o
Guevarismo (1968). No entanto, enquanto durou o período “terceiro-mundista”, o pensamento
marxista foi por ele poderosamente influenciado, pois os marxistas desta área do mundo dirigiam sua atenção para análise de outras classes como a camponesa, as comunidades indígenas etc. Pois, justamente uma parcela considerável da teoria marxista e não marxista foi dedicada à questão agrária e camponesa no início dos anos 1960, ou melhor, a literatura marxista nesse campo foi muito vasta, devido aos interesses terceiro-mundistas que forneceram uma contribuição forte ao desenvolvimento de uma antropologia social marxista.
Todavia, foi o movimento radical do final dos anos 1960 que alcançou o marxismo sob dois ângulos principais: primeiro, multiplicou-se o número de pessoas que produziu, leu e adquiriu os textos de Marx ou marxistas, como aumentou o volume de debates e teorias marxistas; segundo, o movimento foi tão imprevisto e inesperado, pelo menos em alguns países, isto é, tão inédito, que houve a necessidade de rever amplamente muitas coisas que eram consideradas óbvias para a maior parte dos marxistas, como a Revolução de 1848. Essa maré radical começou com um movimento de jovens intelectuais, de estudantes, quer dizer, um movimento dos filhos e das filhas de classe média dos países desenvolvidos e subdesenvolvidos, como França, Alemanha e Itália, tendo, portanto, um caráter internacional, sobretudo, com os movimentos de 1968, na Iugoslávia, Hungria, Polônia e Tchecoslováquia, assim como no Brasil, México e Estados Unidos. Uma nova esquerda surgiu a partir de 1968 que se voltou para além dos confins do marxismo tradicional, pois há o renascimento de
74
Sobre os fracassos das lutas armadas na América Latina com suas várias organizações guerrilheiras, os Golpes Militares e a Revolução Cubana, cf. PORTANTIERO, Juan Carlos. O marxismo latino-americano. In: HOBSBAWM, op. cit., v. XI, p. 333-357.
tendências anarquistas, maoístas ocidentais, ou travestidas de marxistas, ou, também, tendências de formas apolíticas ou antipolíticas.
A menção desses fatos históricos nos leva a compreender como o marxismo, que teve uma efervescência forte nos anos 1960-1970 – mesmo com críticas voltadas para o modelo de socialismo praticado no Leste Europeu em sua versão stalinista e pós-stalinista –, começou a
entrar em “crise”, a partir do fracasso do socialismo real, simbolizado pela queda do muro de
Berlim em 1989. Sabemos que, com a morte de Stalin em 1953 e com o XX Congresso do PCUS em 1956, Nikita Krushev abalou o mundo, sobretudo, os partidos de comunistas tradicionais, denunciando os crimes de Stalin. Foi realmente um grande escândalo político para os partidos de esquerda no mundo ocidental. Daí, o marxismo começar a ser questionado
como “teoria se fazendo prática”, e muitos intelectuais começaram a rever suas posições
políticas e/ou teóricas. Como afirma Hobsbawm,
[...] entre 1956 e o fim dos anos 60, o descontentamento com a política dos partidos comunistas, às vezes – como na França – concentrado em suas organizações estudantis, tinha levado a expulsões ou cisões periódicas, que forneceram um novo contingente aos potenciais militantes e dirigentes do que viria ser a “nova esquerda.75 Isso repercutiu negativamente em grande parte dos partidos e sindicatos europeus ocidentais ligados ao marxismo. E aí temos dois tipos de comportamento político-ideológico a serem ressaltados nesses dissidentes: 1) o da “nova esquerda”, nos países socialistas, que assumia a forma de um comunismo crítico ou reformista e, assim, corria em paralelo aos
desdobramentos internos da “velha esquerda” ocidental; e 2) o daqueles que rejeitavam a
análise marxista com base na doutrina oficial, logo rechaçavam também o regime soviético em seu todo e todas as suas realizações, não se predispondo, porém, a serem catalogados numa esquerda de outro tipo. Portanto, se a Revolução Russa de 1917 foi, de fato, o acontecimento histórico que enterrou as teses reformistas da II Internacional, baseadas num socialismo evolucionista, pacífico, desencadeando, assim, a primeira crise do marxismo, pela falta de uma interpretação fidedigna do pensamento de Marx, ou mesmo sua distorção, o advento do stalinismo e do pós-stalinismo (com o khrushevismo) e suas consequências foi outro fato que trouxe certo desencanto para muitos marxistas ocidentais e orientais quanto à realização do socialismo na sua forma genuína.
Diferentemente, para neutralizar essa decepção político-ideológica com o “socialismo
realmente existente”, o capitalismo também sofria um período de recessão econômica,
configurando sua nova fase. Isso despertou em muitos intelectuais a fazerem uma análise
75
marxista sobre a economia capitalista efetiva, ou seja, muitos marxistas (Baran, Sweezy e Michel Kidron) e não marxistas (John Kenneth Galbraith) ou ex-marxistas se lançaram rapidamente num exame analítico e sistemático dessa nova fase do capitalismo. Como diz Hobsbawm,
[...] as tendências renovadas para analisar o capitalismo do pós-guerra como uma nova fase específica do desenvolvimento capitalista se manifestaram amplamente com base num alargamento do interesse sempre vivo entre os marxistas pelo terceiro mundo, através de uma extensão da análise sobre as “multinacionais”, durante muito tempo consideradas entre os principais fatores de exploração dos países dependentes.76
A crise geral dos anos 1970 e 1980 fizeram com que os marxistas ficassem embaraçados, pois, convivendo com uma economia capitalista ocidental controlada, planificada ou mesmo possuída pelo Estado do bem-estar social, ou seja, numa economia keynesiana do pós-guerra, eles não tinham soluções plausíveis a oferecer, a não ser retomar o interesse pelo problema das “ondas longas” do desenvolvimento capitalista, isto é, pelo ciclo de Kondratieff (prosperidade, crise e depressão). Por outro lado, eles não poderiam se referir às economias socialistas que estavam em dificuldades de realizar conquistas no desenvolvimento econômico, invocando-as como um sinal de superioridade face às economias capitalistas. O período khruscheviano comportava, assim, as contradições internas das economias socialistas, a saber, os defeitos de planejamento e de gestão, os problemas econômicos gerais, a corrupção burocrática, a obsolescência tecnológica etc.
Concomitantemente, a derrota da “primavera de Praga” e a emigração forçada de muitos
intelectuais judeus da Polônia no final dos anos 1960 desencadearam uma nova discussão crítica sobre as economias de planejamento centralizado por parte dos marxistas ocidentais. Para Hobsbawm,
O efeito imediato dessa crise geral, por isso, foi o de encorajar a análise marxista concreta da economia capitalista mundial e reavivar as demonstrações de suas contradições econômicas, embora, ao mesmo tempo, se tenham reforçado as dúvidas e as incertezas dos marxistas acerca das realizações e das perspectivas econômicas daquilo que a doutrina oficial na URSS e nos Estados a ela ligados chamou de
“socialismo realmente existente”77
Não podemos deixar de mencionar, no entanto, a importância dos jovens intelectuais e do marxismo acadêmico como protagonizadores do desenvolvimento do pensamento de Marx a partir dos anos 1950, isto é, a mudança na base social do marxismo e as transformações do capitalismo mundial. Na concepção de Hobsbawm, ao contrário do que ocorreu na II e III Internacionais, o desenvolvimento do marxismo, depois de 1950, se deu através de um estrato
76
HOBSBAWM, op. cit., v. XI, p. 36.
77
social cada vez mais importante, a saber, os intelectuais e, sobretudo, jovens. Antes o marxismo tinha raízes sociais nos movimentos e partidos de trabalhadores manuais, formando o militante operário autodidata, através de círculos sociais, de cursos didáticos, das bibliotecas e de institutos ligados ao movimento operário, onde ele recebeu sua formação intelectual. Os trabalhadores organizados nesses movimentos aceitavam, valorizavam e assimilavam a doutrina marxista (a ciência proletária) como parte da sua consciência política, como também a grande maioria dos intelectuais, vinculados a esse movimento, se considerava a serviço da classe operária, de um movimento de emancipação da humanidade.
Entretanto, a partir do momento em que a classe operária começou a melhorar de vida, a publicidade comercial manipulou os desejos dos trabalhadores enquanto consumidores e, principalmente, se privatizou a vida da classe operária, houve então o enfraquecimento da coesão das comunidades operárias, tão importante para determinar a força dos partidos e dos movimentos de massa do proletariado. O paradoxo dessa melhoria é que os filhos e filhas da classe operária começaram a ingressar em ocupações não manuais e, ipso facto, ingressaram também nas escolas secundárias e superiores, formando-se em novos potenciais quadros de proletários e dirigentes do movimento operário, capazes de leitura e estudo.
Sendo assim, podemos inferir que os novos sujeitos proletários poderiam ser os coveiros do capitalismo, pois o número de trabalhadores não manuais crescia em termos de quantidade, autoconsciência e força. Porém, o desenvolvimento do capitalismo ocidental – e dos movimentos operários em seu interior – parecia tornar essa perspectiva mais difícil de acontecer. Se por um lado, os trabalhadores não tinham mais aquela confiança na história dos movimentos socialistas por causa da crise do regime stalinista, por outro lado, os partidos marxistas – mesmo que acreditassem na possibilidade de realização do socialismo, como orientação para se construir uma estratégia política e revolucionária, – estavam desorientados