2.3 Metodeutvikling
2.3.2 Markørdeteksjon
Na notícia “Engenheiro da linha-4 amarela diz que não tem pistas sobre as causas do acidente” (30/04/07) o jornal informava, no subtítulo, que representante do Consórcio Via Amarela, o engenheiro Márcio Pellegrini Ribeiro, não descartava a possibilidade da ocorrência de novos acidentes na obra. Contudo, fugindo aos padrões de realce de determinados aspectos das declarações das fontes, o jornalista não destacou detalhe inusitado e que, pelos valores/notícia, deveria ter sido levado para o título, e, conseqüentemente, integrar o lead36. Trata-se, como
veremos, de declaração espantosa, baseada no senso comum, contrastando com a formação acadêmica do engenheiro: Deus teria se omitido de proteger a obra. Isso
36 Lead é o primeiro parágrafo de textos noticiosos. O lead cumpre duas funções: resumir o
acontecimento em no máximo cinco linhas e destacar aquilo que seja tido como mais interessante ou importante. É produzido a partir dos valores/notícia, entres os quais estão o inusitado ou o bizarro, como é o caso de um técnico de nível superior proferir afirmativa em completo desacordo com sua condição intelectual.
não foi levado em conta pelo jornalista. A matéria começou com texto informativo e a seguir assumiu o aspecto de entrevista pingue-pongue. Na última resposta encontraremos a visão do engenheiro, aquela que, pela sua condição bizarra – a omissão de Deus –, deveria ter ganho relevância:
Na semana que completou cem dias do maior acidente da história do metrô de São Paulo, com sete vítimas engolidas por uma cratera na estação Pinheiros da futura linha 4-amarela, dois representantes do Consórcio Via Amarela dizem não acreditar que tenham errado e minimizam a responsabilidade do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) em revelar as causas conclusivas da tragédia.
Engenheiro-chefe da linha 4 e diretor do contrato, Fábio Gandolfo, 46, apóia-se num estudo internacional para dizer que, em 40% dos acidentes com túneis, os motivos não são identificados. Se representantes do governo do Estado adotam um discurso de total confiança nos laudos a serem concluídos pelo IPT no segundo semestre, os discursos das construtoras são diferentes. Embora evitem críticas, ressaltam estar realizando uma apuração paralela, negam haver até pistas dos motivos da abertura da cratera e antecipam que vêem com naturalidade a possibilidade de divergência no final das investigações. Gandolfo passou a noite do acidente hospitalizado, com pressão alta, e não falou à imprensa nos dias seguintes. Concedeu entrevista à Folha na última terça-feira, acompanhado do engenheiro Marcio Pellegrini Ribeiro, 52. Os dois trabalham há mais de 20 anos para a Odebrecht, líder do Via Amarela. Eles preferiram não ser fotografados.
[...]
FOLHA - Antes da cratera da estação Pinheiros, houve uma série de acidentes na linha 4. Não era sinal de que havia algo errado? GANDOLFO - Eu não vou dizer que é normal esse acidente de Pinheiros, foi uma coisa absolutamente imprevista e imprevisível. Mas os acidentes anteriores são absolutamente normais nesse tipo de escavação.37
FOLHA - O consórcio soltou uma nota depois do acidente culpando a chuva, avaliação muito criticada. O que vocês dizem hoje?
GANDOLFO - Qualquer fator pode ter influência no acidente. Acreditamos, pelo histórico, que não é uma causa, mas uma somatória de algumas causas que ocorrem naquela hora. A água é um fator que não pode ser descartado. O consórcio não falou que a água foi fator determinante. Falou que é um dos fatores que podem ter contribuído. Mas há "ene" fatores possíveis. Nós temos uma equipe e não temos as causas ainda.
[...]
FOLHA - O relatório do IPT vai ser conclusivo na definição das causas?
GANDOLFO - A gente espera que sim. Mas no acidente do aeroporto de Heathrow, em Londres [quando um trecho do túnel que ligaria uma estação desabou, em 1994], eles fizeram um trabalho de investigação que levou dois anos para chegar a uma conclusão das causas. E eles fizeram também um histórico dos principais acidentes com túneis no mundo. Concluíram que em 60% as causas foram identificadas e, em 40%, não. É um dado histórico.
FOLHA - Vocês não acreditam que erraram? GANDOLFO - Não.
FOLHA - Por quê?
MARCIO PELLEGRINI RIBEIRO - É um projeto que está nas mãos da nata da engenharia brasileira. Há vários consultores que são os mais renomados e experientes do país.
[...]
FOLHA - É possível afirmar que não haverá novos acidentes na obra?
GANDOLFO - Não.
RIBEIRO - Só lá com Ele [aponta as mãos em direção ao céu]. A obra que nós trabalhamos é efetivamente de risco. Ele vai estar sempre presente (GANDOLFO e RIBEIRO, 2007, grifos nossos).
O jornalista trouxe para o lead apenas um relatório, um report, contrariando todos os princípios do saber narrativo, essencial à elaboração de uma abertura noticiosa bem feita. No caso o fato de o engenheiro ter deixado à conta de Deus a responsabilidade de permitir ou impedir a ocorrência de tragédias. Esse seria o aspecto importante da matéria. Aquele que mais causaria impacto ao leitor, já que é paradoxal técnico especializado atribuir a Deus, ao sobrenatural, a responsabilidade, a competência e o zelo impedidores de algo similar a uma hecatombe ao mesmo tempo em que nega ter havido falha humana. Deus, portanto, seria o “encarregado da obra”. Os engenheiros não asseguravam a confiabilidade do seu próprio trabalho e a Ele deveriam ser feitas as cobranças. O profissional recorria a elemento de fé, em vez de sustentar opinião em argumento setorial típico. Mesmo assim, houve colisão entre a fé e a técnica, quando afirmou estar a obra sendo tocada pela “nata da engenharia brasileira” – não por Deus. A rigor, se essa requerida autoridade profissional fosse fator que impedisse o acidente valeria a acurácia dos especialistas como elemento garantidor da segurança da obra, não a proteção divina. Na seção Painel do Leitor o geólogo Antônio Pereira de Sousa alertara desde o dia 17 de janeiro:
Cratera no metrô "Como geólogo, tenho absoluta convicção de que
Deus, São Pedro ou qualquer outro santo não têm culpa nenhuma em relação ao lamentável acidente ocorrido nas obras do metrô de São Paulo. Muito menos a "geologia" tem qualquer responsabilidade. Temos excelentes geólogos, geofísicos e engenheiros, em São Paulo e no Brasil, com sobeja capacidade não só para analisar e interpretar este episódio com sabedoria e perspicácia, como para atuar na concepção de projetos desse porte e no monitoramento de seu processo de execução, com o objetivo de minimizar os riscos de ocorrência de eventos dessa natureza." (SOUZA, 2007).
O registro das observações de Kucinski, em capítulo anterior, já acusava de que forma o noticiário seria conduzido: de maneira a impedir desgaste da imagem de Serra em longo processo de defesa jornalístico, com a utilização do noticiário. O mesmo se deu com os editoriais-comentários, notícias opinativas, mídia espontânea e artigos de alguma maneira a ele favoráveis, apesar da inclusão da palavra de atores que punham em dúvida a credibilidade dos trabalhos de construção do túnel.