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Análisis de Requisitos

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3. Planificación del proyecto

3.4. Análisis

3.3.1. Análisis de Requisitos

É no século XVII, e, sobretudo, no século XVIII, que se observa a ruptura filosófica humanista/racionalista que pretende separar o Homem da Natureza. Acessá-la, a partir deste momento, demandaria uma racionalidade humana, responsabilidade da Ciência articulada a algumas práticas que no contexto histórico foram produzidas. As experimentações empíricas, com o auxílio de máquinas e instrumentos produzidos por artesãos, as novas técnicas e métodos inspirados nas práticas políticas de Estados burocráticos e absolutistas, fundamentaram o perfil da Ciência, tornando-a “revolucionária” (SOARES;1995, p.491-505).

Os pesquisadores no século XVII, que eram chamados “curiosi rerum naturae” ou virtuosos, rapidamente ampliaram seu círculo, alcançando outros países da Europa. Na Inglaterra, a “Royal Society for Promotion of Natural Knowledge”, em 1660, com a instalação da monarquia inglesa; na França em 1667 com a oficialização da primeira sociedade de pesquisadores, “Académie Royale des Sciences”. Os acadêmicos, assim, construíram seus espaços privilegiados de debate. Iniciadas pelos “virtuosi”, estenderam-se para outros países, não sem alguns problemas com a Igreja, que não via com bons olhos os “curiosi”. Na segunda metade do século XVII, as associações de pesquisadores franceses preocuparam-se com a criação de um órgão divulgador das produções científicas e trabalhos originais e editaram o primeiro periódico “Journal des Sçavans”. (PAPAVERO & PUJOL- LUZ;1997, 26 ).

Ora, até o século XVIII, as associações científicas e academias tiveram um fluxo de informação de pesquisa muito maior que as Universidades. Compostas por voluntários, tinham por finalidade estimular as pesquisas que se processavam em âmbitos particulares, em algumas situações com recompensas para aqueles que concretizavam suas pesquisas com êxito, além é claro, do reconhecimento da comunidade. Enquanto as Universidades assistiam às mudanças renascentistas aferradas aos princípios filosóficos e científicos da Idade Média, uma erudição científica mais ao gosto do Estado Moderno ganhava prestígio. Tratava-se de um conhecimento científico, um novo horizonte de difusão intelectual que se desenvolvera num cenário de diversificação, dado pelo intercâmbio cultural assinalado por uma crescente tecnologia e um novo campo de visibilidade que se constituíra em toda sua espessura.

Nos séculos XVII e XVIII é o trabalho dos viajantes que ganha uma nova conotação, quando então, buscam uma sistematização de agrupamento dos seres da natureza em ordem científica relacionada ao conhecimento do universo. As primeiras evidências da construção do momento histórico do observador no Brasil tem seu legado pré-científico registrado pela permanência dos holandeses no Nordeste, no século XVII. São observações de caráter puramente científico ou físico, dentro de um entendimento moderno, no qual a relação estabelecida com a natureza, pelos holandeses, não é mais regida pela crença religiosa e preocupações morais.

Com a fundação da Companhia da Índias Ocidentais em 1621 – nos moldes da sua congênere oriental existente desde 1602 – a Holanda lançou-se sobre as

colônias ibéricas, uma vez que a centralização do mercado encontrava-se já há muito tempo nas mãos dos Países Baixos. Estes intermediavam transações entre produtores da colônia e o resto da Europa. A disputa pelo tráfico colonial levou a Holanda a firmar-se como a maior potência do século XVII. Com significativa frota naval, voltada para as possessões ibéricas do oriente, o capital mercantil não perde de vista os domínios que se estendem para além do Atlântico.

Desta forma, os Países Baixos exercem um poderio na colônia de Nova Amsterdã, hoje New York (E.U.A.), e após alguns anos tomam de assalto importantes pontos da costa africana e se apossam também do tráfico negreiro a partir de 1617. Com uma trajetória ofensiva da África ao Novo Mundo, não é de se admirar que a invasão holandesa chegasse ao nordeste do Brasil. O peculiar trato com seus domínios, dada a relação mercantil, não lhes permitia maiores envolvimentos com o setor produtivo, o que transformaria Recife em importante empório, além de estabelecerem uma aliança política comercial dos produtores de açúcar - donos de engenho - com os chamados flamengos.

A invasão holandesa transformara o Recife em cidade moderna, com inovações urbanas, pontes palácios e jardins; é do senso comum atribuir tais feitos ao Conde de Nassau, chamando-se tal época de “período mauriciano”. Sem tirar-lhe o mérito, é preciso esclarecer as características de uma prática mercantilista flamenga, que não prescinde das necessidades básicas do ponto de vista administrativo, como seja, o ambiente de trâmite para a comercialização com aqueles que, de resto, tinham um estilo de vida bastante diverso dos “senhores de Engenho”.

Uma outra questão para ser pensada é o sistema colonial flamengo contrastante com o sistema português, ainda aferrado a uma política econômico- administrativa em termos absolutistas, enquanto da parte dos holandeses havia uma grande tolerância cultural e religiosa. Daí não se atribuir o sucesso da modernização e florescimento cultural do período holandês no Brasil, somente aos princípios “Humanistas” de Maurício de Nassau. Ademais, ao revestir-se de suntuosidade e intelectualidade a capital de Pernambuco, Recife, vivia um reflexo de aspirações européias, quando a filosofia, as ciências e as artes eram o almejo de muitos príncipes (Teixeira: 1995, p.89 -114).

Deste arrebatador almejo dos nobres não descuidou Nassau. Tão logo assumiu a condição de Governador-geral da colônia holandesa no Brasil (1636- 1644), deu azos aos seus interesses pelas áreas da ciência natural e arquitetura. Fundou a cidade de Maurícia, na ilha de Antonio Vaz – circundada pelos rios Capibaribe e Beberibe – nela fez construir dois grandes palácios, e situou um parque, verdadeiro laboratório para seus cientistas que ali reuniam espécimes de animais e plantas de várias procedências geográficas e ecológicas, inclusive das Índias, África e Ásia. Assim, dividindo o mesmo espaço, cresciam lado a lado, o ébano e a tamareira da África, mangueiras da Ásia, além de espécies coletadas pelo naturalista Geog Marcgrav e pelo médico e também naturalista Willem Pies no interior do sertão nordestino.

O paisagismo enquadrava-se dentro de uma concepção renascentista, contudo os elementos medievais ainda estavam presentes, uma vez que o cultivo misturava plantas medicinais, aromáticas, ornamentais, hortaliças e pomares, sendo

os mesmos agrupados e estudados dentro de uma única área (tanto física como de conhecimento). Tudo isso, circundado por uma média de dois mil pés de coqueiro, que, já adultos, foram cuidadosamente retirados de seu ambiente (cerca de três a quatro milhas de distância) para serem transplantados. Para que o empreendimento da cidade Maurícia fosse possível, foi necessário – dada a aridez e a pouca fertilidade do solo da ilha – adubá-la, o que o Conde fez com o auxílio da população. Fato explicado pela intenção de se produzir alimentos, um artigo de luxo na capital Recife, conquanto farta em dinheiro (Bruni: 1995, p.19 -20).

A Companhia das Índias Ocidentais, em face das despesas e o alto custo dos empreendimentos da colônia, chamava a atenção do Governador-geral Maurício de Nassau, para a necessidade de cortes nas despesas. Entre as sugestões de contenção estava a redução da concentração de tropas, solicitações que encontravam uma total resistência e protestos por parte do Governador-geral. Até que, em 1643 – talvez num blefe – pediu demissão, que foi aceita imediatamente pelo Conselho da Companhia. Desta forma, em 1644 retornava para a Europa. Dono de uma grande sagacidade político-administrativa, Maurício de Nassau, embora calvinista-protestante, manteve uma relação de tolerância com outras religiões, mesmo com judeus, portugueses e indígenas que lamentaram seu retorno à Holanda. Com sua ausência, a ciência e mesmo as relações político-econômicas da colônia holandesa entraram em declínio. Em 1645 eclode a revolta do Maranhão; a Companhia das Índias Ocidentais sofre a derrota no Guararape pelos portugueses e, finalmente, com a falta de abastecimento do Recife, cada vez mais são os holandeses obrigados a cederem terreno. Com significativa indenização paga por Portugal, em 1661 encerrava-se a invasão holandesa no Brasil. De Maurício de

Nassau, Capistrano de Abreu descreve resumidamente os últimos anos de seu governo:

“Da obra de seu administrador nada sobrevive; seus palácios e jardins consumiram- se na voragem de fogo e sangue dos anos seguintes; suas coleções artísticas enriqueceram vários estabelecimentos da Europa e estão estudando-as os americanistas; os livros de Barlaeus, Piso, Markgraf, devidos a seu mecenato, atingiram uma altura a que nenhuma obra portuguesa ou brasileira se pode comparar, nos tempos coloniais; parece mesmo terem sido pouco lidos no Brasil apesar de escritos em latim a língua universal da época, tão insignificantes vestígios encontramos deles” (Capistrano: 1982, p.107).

Note-se que tal opinião foi emitida em 1907, e que os materiais, resultado da coleta das expedições holandesa, ainda teriam um longo caminho por diferentes contextos políticos.

Da trajetória meteórica da invasão holandesa no Brasil, muitas foram as direções histórico-interpretativas. Como já nos referimos, a atribuição dos feitos e importância científica ao Conde de Nassau – desconsiderando o contexto político- econômico – um outro dado relevante é considerar que a Companhia das Índias Ocidentais não estava interessada no reconhecimento científico e geográfico da Colônia. Desde a metade do século XVI, os navios a serviço da Inglaterra, Portugal e Espanha recrutavam marinheiros holandeses. Estes, nas travessias África/América, recolheram informações que mais tarde foram utilizadas pelos Países Baixos.

Da espionagem minuciosa resultou a estratégica invasão do Nordeste, entendendo que ali existiam duas fortes razões que justificavam a tentativa. Primeira, uma fragilidade de defesa do Império Espanhol (União Ibérica); e segunda, uma prosperidade econômica açucareira. Sem dúvida, era de interesse da

Companhia das Índias Ocidentais aumentar o conhecimento dos territórios conquistados ou por conquistar. Não é por acaso, que a equipe que acompanha o Governador-geral Conde de Nassau, é formada por cartógrafos, recenseadores, engenheiros, cientistas, médico e artistas. Aliás, os pilotos tinham ordens expressas de fazerem todas as anotações de acidentes geográficos, ancoradouros, baías, informações que posteriormente eram transformadas em mapas, entregues à Administração da Companhia, que os mantinham em segredo3.

Johan Maurits von Nassau-Siegen (ou Maurício de Nassau) estimulou os cientistas e artistas a irem além dos registros geográficos do território, com o entusiasmo que os direcionavam as riquezas que representavam a flora, a fauna e as etnias do Brasil. Desta forma, destacaram-se Willem Pies, médico e naturalista de Amsterdã, que muito se interessaria pelas doenças e símplices encontrados por ele no Brasil Colonial, e também o naturalista alemão Georg Marcgrav que se dedicou mais a identificar a flora e fauna. Do relato de ambos, resultaram as obras De Medicina brasiliensi e Historiae Naturalis Brasiliae, editadas pela primeira vez em 1648. Nelas, as descrições fogem de qualquer imaginário ou fábula, despindo-se de toda fantasia. Um novo paradigma, uma profusão de materiais; informações sobre os variados aspectos da história natural do Novo Mundo, colhidos nas diversas expedições pelo interior do sertão nordestino. O suficiente para abastecer os museus de universidades da Europa, coleções particulares e o próprio gabinete do Conde de Nassau. Uma importante coleta, pela riqueza de registro de plantas medicinais, patologias, flora e fauna de um período, que distava apenas um século do “descobrimento”.

Quanto à parte artística, esta ficou a cargo dos pintores Albert Eckhout e Frans Post, cujo trabalho registrou a rica Natureza dada a conhecer no Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae, o Theatrum era composto de quatro volumes que se dividiam da seguinte maneira: volume 1: 65 esboços a óleo e cinco desenhos de peixes, cefalópodes e crustáceos; volume 2: 110 esboços a óleo e um desenho de pássaros; volume 3: 56 esboços a óleo e nove desenhos de nativos, mamíferos, répteis, insetos e aranhas; volume 4: 171 esboços a óleo e uma guache de frutos, plantas e flores. Tal acervo se manteve em posse do Conde Nassau. Este se encarregaria de contribuir para com a formação de uma imagem do Brasil na Europa, dada a generosidade com que distribuía as coleções brasileiras para reis, príncipes e pessoas influentes a fim de obter vantagens e concessões políticas.

Da sua última doação feita a um primo, Frederico-Guilherme de Branderburgo, posteriormente, constituiu o grande tesouro da Biblioteca Estatal Prussiana de Berlim, justamente o Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae que foi encadernado, somando quatro volumes com 417 desenhos e esboços, conservando-se os originais sem nenhuma cópia para manuseio até o século XX. Em 1938, mais especificamente, foi pesquisado pela última vez. Depois disso, desapareceu por quarenta anos.

Da maior importância para o pesquisador do século XVII, a coleção de desenhos da flora e da fauna brasileira, além do cunho artístico encerra valiosas informações da natureza, por estarem diretamente ligadas aos livros de Pies e Marcgrav, que as usaram como base para as gravuras (xilogravuras), que acompanham as descrições e relatos.

No que diz respeito ao ecossistema, o pesquisador Dante Teixeira refere-se ao valor do acervo como realidade documentada, do que foi a vasta floresta Atlântica nordestina, hoje não mais que 1% de área primitiva, naquela região do nordeste brasileiro. Este acentuado declínio parece ter levado a um autêntico processo de extinção em massa, tanto mais grave se considerarmos a presença de numerosos endemismos e as flagrantes perdas de determinados tipos de ambientes mais acessíveis à ação antrópica. (Teixeira: 1995, p.112).

Consequentemente, assim como muitas espécies zoológicas e botânicas não alcançaram nosso século, saberes indígenas – e mesmo os europeus – acerca das patologias e plantas medicinais então conhecidas no Brasil do século XVII, também se encontram hoje “sepultados” na obra do médico e naturalista Willem Pies que acompanhou e serviu Maurício de Nassau em seu domínio holandês no nordeste brasileiro.

Vale lembrar que logo após a derrocada do domínio Holandês no nordeste brasileiro no século XVII, até o século XVIII, por conta de uma política administrativa centralizada e protecionista do Marquês de Pombal (1699-1782), o sigilo cercou as colônias portuguesas durante este período. Somente no século XIX outra expedição de grande magnitude seria empreendida no território brasileiro com a vinda dos naturalistas Johann Baptist von Spix, Friederich Philip von Martius, Johan Natterrer, Giuseppe Raddi, Thomas, Johann Emmanuel Pohl que, entre outros cientistas, chegaram ao Rio de Janeiro em 15 de julho de 1817 a convite da corte portuguesa, que no Brasil se radicara.

A obra de Willem Pies, juntamente com a de Georg Marcgrav é considerada hoje como a mais importante contribuição à História Natural desde Aristóteles e Plínio (Teixeira: 1995: 93). Como exemplo da importância poderíamos lembrar aqui que em suas obras Pies e Marcgrav procedem à metodologia até hoje usada na catalogação de herbários. Sérgio Buarque de Holanda afirma que “A obra de Pies é de tal relevância e sem continuadores por mais de uma centúria, que foi de consulta obrigatória sobre o nosso país, até o século XIX” (Holanda: 1960, v.1, p.246). Prova disto é que a De Medicina brasiliensi foi até o século XIX, obra de referência a todo médico ou boticário europeu.

Para esses novos observadores, a natureza não trazia mensagens divinas para que os homens as interpretassem, não está localizada dessa ou daquela maneira pela providencia de Deus. Neste momento como resultado dos estudos liderados por Piso e Marcgrav, a botânica e a zoologia davam seus primeiros passos no Brasil.

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