Jogar com as palavras relaciona-se com a encenação teatral, constrói-se um local, a poesia, espécie de palco onde todo estereótipo é desfeito, desviado, onde as palavras são corrompidas. A encenação teatral proposta por Barthes, como ponto de partida para uma reflexão sobre a literatura, contribui para a compreensão da poesia de Barros e do jogo teatral de seus paratextos e de sua função autoria.
Outra obsessão teórica de sua poesia é a reflexão a respeito da imagem, em entrevista concedida a Paulo César-Alves, o poeta confessa: “não tenho muito amor pela idéia não. Para o poeta, a coisa mais importante é a imagem.” A preocupação exacerbada com a linguagem é uma característica aparece muitas vezes em sua
107 BARROS, M. Manoel de Barros: (Des)criador de palavras. Disponível em
http://demora.wordpress.com/2008/03/18/entrevista-manoel-de-barros-descriador-de-palavras/. Acesso em 27 de março de 2012. Entrevista concedida a Paulo César-Alves. (grifos meus)
108 BARROS, M. Manoel de Barros faz do absurdo sensatez. Disponível em:
http://www.revista.agulha.nom.br/castel11.html. Acesso em 22 de fevereiro de 2012. Entrevista concedida a José Castello. (grifos meus)
109 Escreve Perrone-Moisés que “jogar com as palavras (trapaceando na língua) é ao mesmo tempo uma
atividade sem finalidade outra senão o próprio jogo (função estética) e uma tática de crítica e transformação da ideologia congelada nas repetições linguageiras (função político-utópica). Essa tática consiste em jouer (jogar) e déjouer (frustrar, baldar)... Por ser uma trapaça, uma esquiva, um logro, esse jogo está ligado ao teatro, ao fingimento. O fingimento, a encenação, são os únicos meios de o sujeito se processar na escritura.” (2007, p.83)
metapoesia. Barros parte da premissa de que existe uma língua das academias e dos manuais, que seria considerada “sagrada”. Contudo, segundo sua proposta poética, esta linguagem é viciada, baseada no estereótipo110. Ele propõe substituí-la por uma “fala primitiva”, “torta”, que seria uma língua “profana”.
A relação com a linguagem, defendida pelo eu lírico, é de profanação do “sagrado”. Procura-se profanar a língua em seus usos cotidianos e ao mesmo tempo desconstruir os valores morais reinantes na sociedade, seus costumes e imposições. Basta observar a recorrência vocabular de sentido sexual: “lascívia”, “erótico” (“A partir da fusão com a natureza esses bichos se tornaram eróticos” [1990i, p. 285]), “coito” (“Neste coito com as palavras!” [1990i, p. 293]), “promíscuo” (“O poeta é promíscuo dos bichos, dos vegetais, das pedras.”, [1990e, p. 171]), “meter” (“Por baixo de cascas podres, esses cascudos metem...” [1990i, p. 284]) “cobrir”, “trepar”, “comer” (“nossa maçã é que come Eva.” [1990g, p. 213]), “foder” (“Ela fode a pedra.” [1990i, p. 293]), entre outros.
Percebe-se uma nítida desconstrução dos valores religiosos ao associar elementos da tradição católica com termos que dizem respeito ao sexo, um dos maiores tabus para esta religião.
As relações de diálogo entre a poesia de Barros e os textos religiosos são essenciais para compreender algumas táticas argumentativas e também seu posicionamento político e filosófico. Na próxima parte do capítulo discutirei este aspecto tão relevante da obra do poeta.
Jean-Paul Sartre (2004) escreve que “ao poeta é vedado se engajar”111, porque imagina que “ao poeta cabe contemplar as palavras de maneira desinteressada”, no sentido político e social. Isto porque, para Sartre, e muitos outros, o poeta deve interessar-se somente pela pesquisa da linguagem em si mesma. Ele também defende que a poesia não pode ser engajada porque “não se serve das palavras... ela as serve.”, atuando na linguagem como um fim último de sua arte.
A constante referência ao discurso religioso na poesia de Barros conduz à dedução de que sua poesia propõe uma ética baseada em certos princípios religiosos.
110 Barthes escreve que “os signos de que a língua é feita, os signos só existem na medida em que são
reconhecidos, isto é, na medida em que se repetem; o signo é seguidor, gregário; em cada signo dorme este monstro: um estereótipo: nunca posso falar senão recolhendo aquilo que se arrasta na língua.” (1997, p. 15).
111 Sartre afirma: “Sem dúvida a emoção, a própria paixão – e por que não a cólera, a indignação social, o
ódio político – estão na origem do poema. Mas não se exprimem nele, como num panfleto ou numa confissão.” (Que é a literatura?São Paulo: Ática, 2004. p. 13-19)
Daí a citação de São Francisco de Assis, metáfora máximo do poeta que ama a natureza, valorizando as coisas inúteis, segundo a ótica do sistema capitalista, e revalorizando os homens marginalizados.
No âmbito temático, as obsessões vocabulares revelam reiteradamente os mesmos seres, objetos, e paisagens. A humanização dos animais e a coisificação do humano assumem grande relevância em seus poemas. A coisificação não é a reificação112, ela se apresenta como o estabelecimento de uma relação harmoniosa entre os homens e o meio ambiente. É uma forma de estabelecer a igualdade entre os seres, não o rebaixamento do homem.
Tal igualdade revela, por um lado, resquícios do cristianismo e, por outro lado, uma maneira muito peculiar de expressar um posicionamento político e ético. Toda obra artística expressa certa “valoração do mundo”, assim, como disse Arfuch, (2010, p. 69), “a dimensão estética, que se delineia na totalidade temática, compositiva e estilística dos enunciados, será então indissociável de uma ética”.
A importância de se discutir o compromisso social da obra de um poeta pode não ser considerada crucial para alguns estudiosos, contudo, em um poeta como Barros, frequentemente denominado “poeta do povo” (Revista Rolling Stones), “poeta do chão”, dentre outros epítetos, o compromisso social assume importância considerável e não pode ser ignorado.
Carpinejar, em sua dissertação de mestrado, nega o compromisso da poesia de Barros com qualquer elemento social, afirmando que a prevalência do lúdico não permite a problematização ou reflexão de questões113. A construção de um autor também passa pela criação de um ser político, já que se exige, como podemos constatar pela dissertação citada, que os escritores mostrem certo compromisso social. Carpinejar atinge o cúmulo de afirmar que Barros
112 Do latim rēs, rēi (coisa) + terminação ficação (tornar). No sentido marxista do termo, rebaixamento do
homem ao nível de coisa, privando-o de sua personalidade e humanidade.
113
“Se Drummond ainda acredita na denúncia da civilização de consumo; Barros demonstra um conformismo em não interferir na ordem econômica e busca a civilização depois do consumo. Se Drummond se rebela e invoca a intervenção da consciência, Manoel de Barros aceita as coisas como elas são, tira proveito da exclusão como um espaço que privilegia a beleza das ruínas e o inconsciente .[...] Entenda-se que Manoel de Barros não perpetua uma crítica aos costumes, ironizando o homem como coisa. Pelo contrário, festeja a inutilidade do homem. Ao invés de denunciar a mecanização do indivíduo, a exploração do trabalho, a insalubridade e impessoalidade dos hábitos, o autor mergulha na contramão e exalta o ócio total e progressivo, o anonimato, a ascese do abandono. ‘Não estarei impregnando de peste
quer o pitoresco da miséria, não a sua erradicação – sua postura é a de revelar a nobreza do sujo, exaltar o imundo. Sua poesia se faz pelo elogio da exclusão, não pela crítica, o que o afasta do sentido estético social de João Cabral. (2001, p.41)
Isto vindo de um estudioso (e poeta) que utiliza sua dissertação sobre um poeta para elogiar outro – Carpinejar compara Manoel de Barros a João Cabral de Melo Neto – e fazer uma crítica quase de gosto pessoal, beirando a difamação quando afirma que Barros “transmite uma idéia depreciativa e machista, rebaixando a mulher a objeto de prazer disponível à coerção masculina.” (2001, p.107).
Seria preciso relembrar ao estudioso a célebre conferência de Theodor Adorno, “Lírica e Sociedade”, onde escreve que “a lírica se mostra mais profundamente assegurada, em termos sociais, ali onde não fala conforme o gosto da sociedade, ali onde não comunica nada” (2003, p. 74). Adorno afirma que o escritor que trata sua língua materna como algo alienado pelo uso cotidiano e que a ela resiste e procura ser o “receptáculo, por assim dizer, da idéia de uma linguagem pura” (2003, p. 87), criando seu estilo na negação das imposições da sociedade, estabelecendo assim uma “língua imaginária” para a expressão de seus conteúdos, demonstra profundo compromisso social. O combate revolucionário do escritor se realiza, segundo ele, também na linguagem.
Neste sentido, também escreve Barthes:
Alguns esperam de nós, intelectuais, que nos agitemos a todo momento contra o Poder; mas nossa verdadeira guerra está alhures: ela é contra os poderes, e não é um combate fácil: pois, plural no espaço social, o poder é, simetricamente, perpétuo no tempo histórico: expulso, extenuado aqui, ele reaparece ali; nunca perece; façam uma revolução para destruí-lo, ele vai imediatamente reviver, re-germinar no novo estado de coisas. A razão dessa resistência e dessa ubiqüidade é que o poder é o parasita de um organismo trans-social, ligado à sua história política, histórica. Esse objeto em que se inscreve o poder, desde toda eternidade humana, é: a linguagem – ou, para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua. (BARTHES, 2007, p.12)
Em Barros, o compromisso social aparece de maneira sutil, pela negação de elementos da sociedade (o sujeito bem definido e isolado em seu individualismo- egoísmo, a utilidade capitalista, a língua, o poder da ciência, dentre outros). Sua poesia não tem a pretensão de criar poemas-manifestos ou poemas-panfletos. O principal embate de sua poesia é, no entanto, com a língua.
Carpinejar afirma que o aspecto lúdico de sua poesia, aquele prazer com as palavras, eliminaria a possibilidade de um posicionamento crítico frente às questões políticas e sociais. Contudo, também aí podemos localizar o compromisso social de sua poesia:
A mim me parece que é mais do que nunca necessária a poesia. Para lembrar aos homens o valor das coisas desimportantes, das coisas gratuitas. Vendem-se hoje até vistas para o mar, sapos com esquadrias de alumínio, luar com freio automático, estrelas em alta rotação, laminação de sabiás, etc. Há que ter umas coisas gratuitas pra alimentar os loucos de água e estandarte... Além disso a poesia têm a função de pregar a prática da infância entre os homens. A prática do desnecessário e da cambalhota, desenvolvendo em cada um de nós o senso do lúdico. Se a poesia desaparecesse do mundo, os homens se transformariam em monstros, máquinas, robôs.114
Assim, se como disse Octávio Paz, a revolução começa na linguagem115, Barros empreende um ato engajado de transformação das mentalidades por meio de sua poesia. Conforme escreve Leyla Perrone-Moisés sobre a obra de Barthes, “transformar o mundo é transformar a linguagem” (2007, p.58) e “combater os estereótipos é pois uma tarefa essencial, porque neles, sob o manto da naturalidade, a ideologia é veiculada, a inconsciência dos seres falantes com relação a suas verdadeiras condições de fala (de vida) é perpetuada.” (2007, p.58)
Segundo Oscar Wilde, “toda má poesia é sincera”116, ataca de maneira direta e às vezes pueril o problema por meio da temática ingenuamente engajada. Partindo de tal premissa, devo insistir no caminho apontado por Adorno, segundo o qual a poesia, nos melhores casos, não mostra seu compromisso de maneira explícita.
Observe-se as palavras de Barros:
Não sou alheio a nada. Não é preciso falar de amor para se transmitir amor. Nem é preciso falar de dor para transmitir o seu grito. O que escrevo resulta de meus armazenamentos ancestrais e de meus
114BARROS, M. Só dez por cento é mentira. Revista Grifo, Campo Grande. Entrevista concedida a José
Otávio Guizzo. Disponível em: http://www.facebook.com/topic.php?uid=176788818883&topic=17863. Acesso em 10 de Outubro de 2011.
115
Com isso concordam os teóricos do neo colonialismo. Para John Coetzee, citado por Bonicci, a literatura pós-colonialista deve ser um “modo alternativo de expressão que precisa ser encontrado pelos povos outrora subjugados pela escravidão e pela colonização” (apud Bonicci, 2000, p. 43). Assim, a “nova” literatura se apresenta como uma forma de resistência, de luta por uma nova forma expressão, o que pressupõe a mudança radical em todos os aspectos (formal, lexical e temático).
116
apud BLOOM, H. A Angústia da Influência: Uma Teoria da Poesia. Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 20.
envolvimentos com a vida. Sou filho e neto de bugres andarejos e portugueses melancólicos. Minha infância levei árvores e bichos de chão. Essa mistura jogada depois na grande cidade deu bora: um mel sujo e amargo. Se alguma palavra minha não botar desse substrato, morrera seca. “As correntes subterrâneas que atravessam o poeta, transparecem no seu lirismo”, disse Theodoro Adorno. E disse mais; “Baudelaire foi mais fiel ao apelo das massas do que todas a poesia gente-pobre de nosso tempos.” Falo descomparando. (BARROS, 1990k, p. 312)
A citação de Adorno por Barros é essencial para a compreensão de seu peculiar compromisso social, que se estabelece no embate com a linguagem e na seleção temática. No aspecto temático sua poesia, ao propor a “teologia do traste”, termo retomado por Carpinejar (2001), procura estabelecer uma revalorização dos seres rejeitados pela sociedade capitalista. De maneira recorrente seus poemas trazem homens e objetos que foram descartados e que na poesia são elevados à categoria de sagrado, por isso o uso de “teologia” e do verbo “sacralizar”.
Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia
(...)
(2001, p. 11)
O ser que na sociedade é chutado como uma barata – cresce de importância para o meu olho. (1998, p. 27)
Li em Chestov que à partir de Dostoievsky os escritores começaram a luta por destruir a realidade. Agora a nossa realidade se desmorona.
Despencam-se deuses, valores, paredes.
Estamos entre ruínas. A nós, poetas destes tempos, cabe falar dos morcegos que voam por dentro dessas ruínas. Dos restos humanos fazendo discursos sozinhos nas ruas. A nós cabe falar do lixo sobrado e dos rios podres que correm por dentro de nós e das casas. Aos poetas do futuro caberá a reconstrução – se houver reconstrução. Porém a nós, a nós, sem dúvida – resta falar dos fragmentos, do homem fragmentado que, perdendo suas crenças, perdeu sua unidade interior. É dever dos poetas de hoje falar de tudo que sobrou das ruínas – e está cego. Cego e torto nutrido de cinzas.117
Sartre escreve que o “silêncio é um momento da linguagem; calar-se não é ficar mudo, é recusar-se a falar – logo, ainda é falar.” (2004, p. 22). Contudo, Barros não se
117 BARROS, M. Só dez por cento é mentira. Revista Grifo, Campo Grande. Entrevista concedida a José
Otávio Guizzo. Disponível em: http://www.facebook.com/topic.php?uid=176788818883&topic=17863. Acesso em 10 de Outubro de 2011.
cala, ele escreve e toda escrita expressa um gesto político, como nos diz Jacques Rancière (1995).
Segundo Aquino (2010, p. 237) “o sujeito lírico de Barros ironiza e rechaça o consumismo através da exaltação do restolho.” Neste sentido, muito é dito por essa poesia de Barros que prega o lúdico, mas que resgata seres e coisas desprezados pela sociedade capitalista, que almeja um mundo onde os homens finalmente possam encontrar a paz.
A utilização de paratextos é essencial para a realização da obra de arte literária. Como escreve Genette (2006, p. 9), constituem o arcabouço que sustenta o texto: “título, subtítulo, intertítulos, prefácios, posfácios, advertências, prólogos, etc.; notas marginais, de rodapé, de fim de texto; epígrafes; ilustrações; errata, orelha, capa, e tantos outros tipos de sinais acessórios, autógrafos ou alógrafos [...]”. Desta forma, percebe-se que a utilização de paratextos é inerente ao texto literário, possibilitando a constituição de sua estrutura textual.
Os poetas, via de regra, empregam a maior parte dos paratextos listados acima. Pode-se perceber que certos paratextos são empregados com mais freqüência, o que demonstra, em parte, uma preferência de cada poeta, e em parte, uma tradição que impõe certos limites de uso. Manoel de Barros, poeta que não aceita palavras e práticas desgastadas pelo uso, emprega os paratextos de maneira inusitada, como já foi demonstrado anteriormente.
Neste capítulo farei um levantamento e breve reflexão sobre outros paratextos empregados por Barros. Como afirma Genette (2006, p. 7), “O inconveniente da busca, é que de tanto buscar, acontece que se acha aquilo que não se buscava”. Acredito que o pouco tempo e as limitações de uma dissertação não permitem expandir demasiadamente a reflexão sobre a utilização de todos os tipos paratexto na poesia barroseana, por isso optarei por realizar um levantamento dos tipos mais frequentes e de maior relevância, tais como didascálias, epígrafes, adivinhas, ditados, ilustrações, dentre outros.