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Mannheim Mulithalle

Essa categoria reflete a relação entre esses jovens e sua vivência escolar. Os principais elementos identificados no campo dentro dessa categoria são: Objetivo na escola/motivo do abandono; Outros aprendizados na Escola.

5.2.9.1 Objetivo na Escola / Motivo do abandono

A categoria escola é trazida para compreender o significado dessa instituição na vida dos entrevistados. Todos em algum momento de suas vidas abandonaram a escola.

Dentre eles, os que tiveram vivência de rua, passaram por uma instituição chamada Escola de Meninos e Meninas do Parque, que é destinada especificamente para meninos e meninas em situação de rua. Devido a essa instituição apresentar especificidades, abordaremos separadamente o sentido da escola para os jovens que tiveram apenas passagem pela escola tradicional e para os que passaram por essa instituição.

Os entrevistados que passaram apenas pela escola tradicional apontam que o principal motivo de estarem na escola era obter uma profissão focando um título que lhe garantisse empregabilidade (“Sinceramente eu só esperava um diploma, por que aprender mesmo eu não a aprendi nada na escola”). Não se trata se um espaço de aprendizagem, mas de uma forma de investimento de tempo que mecanicamente gerará acesso a um emprego que fornecerá dinheiro. Dentro dessa lógica, quando o jovem desenvolve a percepção de que pode obter dinheiro de maneira facilitada e rápida no tráfico, a permanência na escola perde o sentido (“eu comecei a vender lança, eu fui desinteressando pela escola, eu fui vendo que na droga o dinheiro era mais fácil”; “Eu perdi tempo. Fui vender droga”). Outro motivo trazido por João para permanência na escola é o simples cumprir frequência como forma de “estar na linha”, cumprir o que é esperado, ser comportado (“A eu não sei, eu não gosto nem de ir pra escola não. Eu só vou por que minha mãe manda [...]Não, não me obriga não. Pede pra mim ir pra mim não ficar nessa vidinha aí].

O conteúdo da aprendizagem não ganha destaque nenhum nas falas. Pelo contrário, como afirma João: “Sei lá, eu nem gosto de falar de negócio de escola, não. Eu não gosto nem de escola. [...] Ah, sei lá, os professor é muito chato. Tem professor que é chato, eu mesmo já não gosto de fazer continha, negócio de matemática eu não gosto não”.

Para os entrevistados com vivência de rua, a escola é posicionada de forma diferente. Ambos denotam o impacto da escola em suas vidas. No caso de Paulo, essa instituição contribuiu com um fator específico: “Aprendi a ler e a escrever, [o entrevistado ri] e somar várias coisas. Eu aprendi o básico, que, meu irmão, é triste e foda, viu? Quem não sabe ler, nem escrever tem que depender dos outros pra tudo”. Para Paulo, a escola trouxe alguns instrumentos para desenvolvimento de sua autonomia, o que reconhece como positivo. Porém, a escola não teve nenhum impacto fora dessa questão funcional.

Já no caso de Carla, à vivência na escola é atribuída um impacto significativo em sua vida (“Se hoje em dia eu sou quem eu sou é por causa da escola”). Para a

entrevistada, a experiência da escola foi contraditória. Vejamos seu relato: “Então, assim, pra mim era meio que eu ia pra escola, meio que tipo eu não consigo entender porque na verdade eu era muito confusa, porque eu não queria sair da rua, mas ao mesmo tempo eu ia em busca de... A partir do momento que você vai pra dentro de uma escola, você conclui toda a sua trajetória escolar, seu currículo escolar, aí você vai embora. Você quer alguma coisa, aí ao mesmo tempo, eu me renegava isso. Eu sempre falava que eu não queria nada, então quando vinha essas questões meio que sociais aí ‘você tem direito disso, você tem direito daquilo’.”

Conforme seu relato, sua vivência escolar abordou dois aspectos. Primeiro, o que a entrevistada chama de matéria básica ou cumprir o currículo e o segundo, a formação cidadã. Em relação a esses aprendizados, Carla afirma: “eu aprendia o básico das matérias, mas o outro lado da escola era muito difícil de entrar na minha cabeça, porque assim, a professora vinha com uma história que você tinha que ser um cidadão direito. Como é que você vai ser um cidadão direito morando na rua? Como você vai ser um cidadão direito se todos os seus direitos foram violados? Não tem como você ser isso.”

A formação para a cidadania, desenvolvida pela entrevistada tanto no espaço da escola, quanto em outros movimentos sociais, demarcou o desenvolvimento de uma posição crítica e reflexiva de sua situação. Carla enfatiza em seu relato a importância da aprendizagem sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e da Constituição Federal na sua vida: “foi quando a gente começou a estudar mais sobre o ECA, estudar mais sobre a Constituição. Para mim era um processo tão chato, mas depois de um tempo eu comecei a ver que quando o policial vinha e dizia ‘a porque você pode fazer eu falar não posso fazer isso’, quando um policial vinha me abordar eu falava ‘você não tem direito de fazer isso comigo”’ O policial virava e perguntava como eu sabia. Eu respondia: tá escrito em tal lugar e em tal lugar que você não pode fazer isso comigo a não ser uma policial feminina. Então eu tirava meio que uma onda com isso aí. Aí neguim ficava ‘porra essa guria mora na rua e tem todo um entendimento disso’. O pessoal fala que morador de rua é burro, e se quiser ser burro velho tem muitos aí. Que, tipo assim, tem uma megaestrutura hoje em dia, você tem escola, hoje em dia você tem uma biblioteca dessa [a entrevista foi realizada ao lado da Biblioteca Nacional, que compõe o Conjunto Cultural da República, localizado ao lado da Rodoviária, principal local de vivência de rua de Carla] que você pode vim aqui acessar alguma coisa, ler alguma coisa. Aí neguim tá pouco se lixando. Aí você torna-se burro se você quiser”.

Essa relação que a educação tomou com seu contexto de vida, impulsionou a jovem a permanecer no processo escolar. Verificamos esse ímpeto a partir de uma mudança em seu cotidiano e na gradativa transformação de sua relação com a Escola. Inicialmente, Carla somente ia para Escola dormir. No entanto, passa a ampliar seu comprometimento de aprender e se desenvolver.“Eu sempre ia atrás de conhecimento, quando as pessoas vinham trazer informações. Eu sempre buscava receber mesmo se eu tivesse ruim, porque você passar a noite todinha acordada usando droga e no outro dia você ir pra dentro de uma sala de aula tá ouvindo o professor falar um monte de coisa que você não entende bulhufas de nada é chato, mas eu sempre fazia um esforço de presta atenção, me esforçava e era isso.”

Outro ponto a ser destacado são as relações estabelecidas na escola para a aprendizagem. Embora a entrevistada afirme que “quem faz a escola é o aluno [...]quando você coloca na cabeça que você vai conseguir suas coisas, você vai em frente”; Carla também destaca a importância dos educadores em sua história. Relatando de maneira genérica, porém trazendo as referências de sua vivência, Carla apresenta a seguinte visão: “Tem profissionais bacanas. Tem, mas são profissionais que só tão empenhados em dar o básico que te pede. Eu acho que quando você é professor, você pode ser muito além de só passar lição pro aluno. Professor é meio pai, meio mãe, ele e meio médico e meio psicólogo. Ele tem que ser meio tudo. Que você chega lá e fica uma coisa tão fria. O moleque vai aprender o conteúdo o outro não, se tiver dúvida vai lá tira uma duvidazinha e acabou. Então você não tem uma relação com o aluno. Então quando encontra profissionais que tão dispostos a te abraçar mesmo, a te dar atenção, quando você precisar de atenção e te dar bronca quando você precisar, eu acho que na educação de verdade falta isso porque os profissionais estão visando mais e salário, mais bem estar pra eles que do que para os alunos. Eu não vejo nenhum professor desses aí reivindicando uma sala de aula digna, eu vejo eles reivindicando salários. Isso pra mim é meio estranho.” Nesse relato, Carla demonstra de maneira indireta, a importância que educadores tiveram em sua vida. Os educadores que impactaram sua trajetória foram aqueles que tanto estabeleciam um encontro autêntico entre duas pessoas, como também apresentavam uma posição de autoridade, de referência moral e de conhecimento.

Para a entrevistada a escola não teve como objetivo ensinar tudo, “as coisas que eu não aprendi na escola, é a vida que vai ensinar mesmo”, contudo, afirma que “ao

mesmo tempo dentro da escola eu aprendi a ser mais forte, a querer buscar mesmo, quando tudo tá contra você.” Assim, o espaço escolar, que na vida de Carla se mesclou com diversos espaços de educação social, foi fundamental para o desenvolvimento de uma posição crítica e reflexiva sobre seu contexto de vida. Esse espaço estabeleceu relações diretas com a vida – não foi somente uma promessa de diploma.

5.2.9.2 Outros aprendizados na Escola

Dois entrevistados destacaram a relação do espaço escolar com as drogas. Rodrigo, ao ser perguntado se aprendeu algo sobre o mundo das drogas na Escola, afirma que somente a utilizá-la: “A usar sim, pois na escola você aprende a usar. Todo mundo leva maconha, lança [lança-perfume] e lá se vai. Tu conhece tudo.” André afirma que quase não aprendeu nada na escola, já que sempre saía da escola com colegas para namorar, beber e usar maconha próximo à Escola. É importante destacar que ambos não possuem vivência de rua.

As vivências escolares de Carla e Paulo se opõe a de Rodrigo e André. Para os primeiros a inserção na escola possibilitou aprendizado fundamental para se impor na situação de rua (ao aprender a ler e escrever para não ser enganado, no caso de Paulo, e aprendendo sobre leis para se proteger da violência policial, no caso de Carla), bem como, especialmente para Carla, a escola foi fundamental para desenvolver uma postura crítica e reflexiva perante a vida. Já para Rodrigo e André a escola os aproximou do mundo do tráfico. Não se tratou de uma vinculação pela apresentação de conteúdo sobre drogas no espaço educacional, mas efetivamente pelas relações do mundo das drogas que já estarem presentes no espaço escolar.