A relação entre capacidade e plano genético tornou-se assunto amplamente discutido no campo de pesquisa da dotação e do talento. Nesse aspecto, Gagné e Guenther (2012) apontam a necessidade de esclarecer as bases de sustentação biológica do DMGT 2.0 devido a interpretações errôneas de dotação como algo inato.
O sentido geral de “inato” deturpa a compreensão do conceito de capacidade natural. “Capacidades naturais, por si mesmas, não podem ser consideradas ‘inatas’, no sentido de serem fixas e imutáveis” (GAGNÉ; GUENTHER, 2012, p. 25, grifo dos autores). Elas não aparecem repentinamente em determinado ponto da vida de um indivíduo, mas precisam se desenvolver progressiva e espontaneamente (GAGNÉ, 2013).
Gagné e Guenther (2012, p. 24) ainda citam um exemplo muito elucidativo para a situação: “Quando alguém diz que a pequena Mary é uma ‘pianista inata’, certamente não quer dizer que ela começou a tocar piano no berçário do hospital, nem que era capaz de tocar um concerto após algumas semanas de aulas de piano”.
Assim, as capacidades naturais não seriam hereditárias nem definidas estritamente pelo plano genético, mas estariam sujeitas a serem estimuladas ou inibidas tanto pelas predisposições genéticas, quanto pelas interações ativas no ambiente e pelas oportunidades oferecidas durante a vida (GUENTHER, 2006, 2012). O desenvolvimento dessas capacidades naturais ocorreria, em sua maior parte, nos anos mais jovens de uma pessoa, podendo continuar a se desenvolver no decorrer da vida inteira (GAGNÉ, 2009, 2012, 2013).
De acordo com o modelo teórico de Gagné (2013), os fatores biológicos não teriam uma relação direta com o talento em si, mas atuariam nos outros componentes do modelo e suas subdivisões, estabelecendo uma influência indireta.
Nessa direção, “adotando a metáfora de uma ‘casa’ com um andar térreo e uma série de porões subterrâneos, é possível ilustrar os vários níveis de influência da atividade dos genes até à sua expressão em comportamentos” (GAGNÉ; GUENTHER, 2012, p. 36), como demonstra a Figura 03.
Figura 03 – A base biológica do DMGT 2.0
Na Figura 03 é possível notar que o DMGT 2.0 seria o andar térreo da casa, onde os comportamentos tornam-se visíveis e mensuráveis. Abaixo dele se localizam os porões que representam a base biológica mais profunda, o Porão 1 (Basement 1), o Porão 2 (Basement 2) e o Porão 3 (Basement 3) (GAGNÉ, 2013; GAGNÉ; GUENTHER, 2012).
O Porão 3, mais profundo e distante em relação ao DMGT 2.0, é o nível químico do plano genético. Ele envolve as estruturas e processos genotípicos8 responsáveis
pela identificação e expressão, genética, mutações, fenômenos epigenéticos9 e produção de
proteína (DNA e RNA) (GAGNÉ, 2013; GAGNÉ; GUENTHER, 2012).
O Porão 2 representa o nível biológico do plano genético do DMGT 2.0. Nele ocorrem os processos neurológicos, microbiológicos e fisiológicos, como o metabolismo cerebral da glicose e a velocidade de condução nervosa do cérebro – processos cognitivos relacionados ao Quociente de Inteligência (Q.I.). São esses endofenótipos10 que controlam o
desenvolvimento biológico desde a concepção até a morte (GAGNÉ, GUENTHER, 2012; GAGNÉ, 2013).
No Porão 1, são definidas as características anatômicas e morfológicas que atuam nas capacidades e nos catalisadores intrapessoais, definindo os exofenótipos11
(tamanho do cérebro, densidade neuronal, rapidez de crescimento de algumas áreas do cérebro durante o desenvolvimento, altura, flexibilidade, estrutura física, tipo muscular) (GAGNÉ, GUENTHER, 2012; GAGNÉ, 2013).
Nota-se que os catalisadores intrapessoais, as capacidades naturais, o seu desenvolvimento e a consequente transformação da dotação em talento, além de todos os subcomponentes envolvidos no processo têm raízes nas interações realizadas nos três porões (GAGNÉ, 2009, p. 7).
Dessa forma, Gagné coloca em questão um ponto amplamente discutido dentro da área: a influência do plano genético no desenvolvimento da dotação em talento.
Apesar de a maioria dos autores não apresentarem consenso sobre o assunto, ao explicitar a base biológica do DMGT, Gagné possibilita que sejam compreendidos os
8 Segundo Fortuna (2015), o genótipo refere-se à constituição genética de uma pessoa, proveniente de ancestrais comuns, o que define as características das espécies (fenótipos) a partir de dominância e recessividade.
9 Segundo Costa e Pacheco (2013), os fenômenos epigenéticos correspondem a mudanças na expressão gênica que não causem alteração na sequência do código genético.
10 De acordo com os Descritores em Ciências da Saúde (2015), os endofenótipos correspondem a marcadores biológicos mensuráveis, como características biológicas, bioquímicas e anatômicas.
11 “A principal diferença entre o conceito de fenótipo externo ou exofenótipo e o endofenótipo é que no primeiro a expressão gênica pode ser vista diretamente. E, no segundo, seriam “fenótipos internos”, que não podem ser vistas ao olho nu, dependem de inferências” (TAVARES; NEVES; MALLOY-DINIZ, 2014, s/p).
componentes biológicos envolvidos no processo de desenvolvimento da dotação e talento, e dá sustentação à premissa de que eles exercem alguma influência nesse processo.
Nesse mesmo sentido, Guenther (2012, p. 11) afirma que a dotação, ou capacidade natural, é genética, ou seja, “está na constituição do plano genético do indivíduo, na maneira como são ordenadas as cadeias de genes”, embora não seja hereditária.
Assim, a partir desse estudo, Gagné publicou novos modelos de dotação e talento em 2013 baseados no constructo biológico que atua no DMGT 2.0, o Developmental Model for Natural Abilities (DMNA) – ou Modelo de Desenvolvimento para Capacidades Naturais – e o Expanded Model of Talent Development (EMTD) – ou Modelo expandido de Desenvolvimento do Talento.
O DMNA, um modelo resumido em dois macroprocessos, transfere para o lado direito o componente da dotação, abordada como resultado inicial do processo de desenvolvimento. Os três níveis da base biológica do modelo (Porão 1, Porão 2 e Porão 3) são blocos de construção para os fenótipos, comportamentos de capacidade naturais, como pode ser visualizado na Figura 04.
Figura 04 – Modelo de Desenvolvimento de Capacidades Naturais (DMNA)
De acordo com o DMNA, o desenvolvimento das capacidades naturais acontece por meio de aprendizado informal e espontâneo, adquirido, em sua maior parte inconscientemente. Atuam também nesse processo: a maturação, que “cobre uma diversidade de processos biológicos em cada um dos três níveis de porões” (GAGNÉ, 2013, p. 14, tradução nossa) e os catalisadores ambientais e intrapessoais.
Já o EMTD, representado na Figura 05, coloca a dotação no centro da estrutura, ligando o processo de desenvolvimento de capacidades naturais (lado esquerdo) e o processo de desenvolvimento de talento (lado direito). “O EMTD mostra que o desenvolvimento do talento tem suas origens distantes no acúmulo progressivo de capacidades naturais, desde o inicial encontro casual do espermatozoide com o óvulo” (GAGNÉ, 2013, p. 16, tradução nossa).
Figura 05 - Modelo Expandido de Desenvolvimento de Talento (EMTD)
Esse modelo agrupa a atuação da base biológica, dos catalisadores, da maturação e do aprendizado informal no desenvolvimento das capacidades naturais (como está sintetizado no DMNA) e, ao mesmo tempo, o processo de desenvolvimento das capacidades naturais em talento.
Dessa forma, considerando todos os componentes estruturais, inclusive do plano biológico, que sustentam os conceitos de dotação e talento, o subcapítulo 1.4 apresenta a importância da identificação de alunos dotados e talentosos e os indicadores de dotação de acordo com o instrumento de identificação de alunos dotados e talentosos desenvolvido no Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento (CEDET) de Lavras-MG12 e pautado no
modelo teórico de Gagné.