Kapittel 5 Tilvisar i sentral posisjon
5.5 Mangel på tilvisingar?
“A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa.” Eduardo Galeano A dança de São Gonçalo, assim como a terra, é uma herança de família. Ela é transmitida através das sucessivas gerações. Essa transmissão acontece pela oralidade e observação dos passos. Existem também os ensaios, onde os passos serão ensaiados e acertados. O grupo de São Gonçalo é formado por doze mulheres, as dançadeiras e dois homens, os tocadores – um tocando violão, e o outro, o tambor. Todos dançam vestidos com roupas brancas e os pés descalços, com exceção de Seu Joaquim e seu parceiro. Os homens vestem calça e camisa, enquanto as mulheres podem usar vestidos ou blusas e saias. A preferência das dançadeiras é por blusas e saias, pois as deixa “mais comportadas”. Elas também se enfeitam com colares, pulseiras e brincos, mas não utilizam maquiagem ou batom.
Figura 35 – Foto tirada por um dos moradores, em 2012.
Fonte: Acervo Pessoal de Ana Eugênia.
Figura 36 – Foto da dança.
Figura 37 – Fotos da dança de São Gonçalo, realizada com os pés descalços.
Fonte: Acervo Pessoal (2013).
Em todos os estudos apresentados sobre a Dança de São Gonçalo no Brasil são comuns os trajes brancos. Acredito que o branco esteja ligado à ideia de pureza, como destaquei anteriormente. Somente em Sergipe, no povoado da Mussuca, descrito por Bonfim (2006) e Dantas (1976), os homens dançam vestidos de mulheres, com saias coloridas e fitas enfeitando todo o corpo.
Nos estudos apresentados nos tópicos anteriores, o de Queiroz (1958) relata que no município de Jeremoabo/BA são dezesseis participantes, sendo quatro homens e doze mulheres, enquanto Dantas (1976) descreve que em Laranjeiras/SE apenas os homens participam, quatro tocando e oito dançando, assim como em Riachão do Dantas/SE. Bonfim (2006) reforça o que destacou Dantas em Sergipe. Já o grupo descrito por Morais (2005) na Serra de Portalegre apresenta a mesma formação do grupo encontrado no Veiga, mas nem sempre foi assim, como vimos no tópico anterior, nas narrativas dos “mais velhos”. Essas mudanças ocorreram no Veiga com o intuito de garantir a continuidade e manutenção da dança no povoado, no entanto, quando se propõe a voltar “como era antigamente”, ocorre resistência dos “mais velhos”.
No comando da dança está Seu Joaquim, com 76 anos, que recebe o nome de “Mestre”, também por ser “Mestre da Cultura”, escolhido nos editais do Governo do Estado, política pública de incentivo e estímulo às manifestações culturais populares. Seu Joaquim também é o “puxador da dança”, responsável por organizar e administrar o grupo, ou seja, é ele quem inicia entoando os cânticos e as dançadeiras o acompanham e na coreografia também, por isso o termo “puxador” no sentido de dar início, de “puxar”, iniciar os cantos que serão cantados
e a coreografia a ser executada, além de distribuir entre o grupo o dinheiro arrecadado nas danças.
Seu Joaquim, na liderança da dança, precisa de um parceiro que o acompanhe, tocando o violão. Mas como há um desinteresse por parte dos homens, é difícil conseguir uma pessoa que possa fazer essa tarefa. Assim, na última dança ele convidou seu sobrinho Oswaldo, pois já havia tirado outras danças com ele e a parceria tem dado certo. No caso, Oswaldo não assume nenhuma posição de liderança, apenas acompanha o mestre.
A distribuição dos participantes ocorre da seguinte forma: atrás de Seu Joaquim e seu parceiro e sobrinho, Oswaldo, as duas primeiras mulheres são as guias, as quais determinam o compasso da dança, e geralmente são escolhidas por serem mulheres de maior idade em relação às outras dançadeiras:
Figura 38 – Disposição dos participantes no cortejo e na dança
Fonte: Acervo pessoal (2013).
A trajetória de Seu Joaquim como Mestre do grupo começou a partir da observação da dança, e dessa forma ela é passada também para as dançadeiras, observando as mulheres aprendem a dançar. Seu Joaquim me fala:
Mas eu nunca fui acanhado. Às vezes, faltava uma dançadeira, mas nos ensaios né, porque aqui a gente dá uns ensaios pra poder tirar a dança pra poder tirar certo, pra num errar. E aí, a gente erra aqui e acolá, mas conserta de novo: Joaquim faltou uma dançadeira, vamos dançar. Eu: Vamo. E eu no meio das dançadeiras nos ensaios. E as danças eu acompanhava toda vida, porque tinha muita dançadeira e eu era novo. Tinha gente que dizia que se eu não fosse não tinha graça. Aquela moçarada. Aí tudo bem.
Aí até que meu irmão não quis mais tirar, aí meu parceiro foi e disse: Joaquim, agora nós que vamos tirar. Vamos nós dois. E eu disse: e eu sei? Né, daquele mesmo jeito que você dança? Então, vamo. Aí assim foi, aí depois eu tirei mais ele, e sem prestar atenção de como era que começava, como era que findava. Rapaz, vou prestar atenção porque um dia esse povo, esse hômi, sai daqui, aí eu não sei levar a dança pra frente. Aí prestei atenção, até que ele foi embora. Foi pra Santarém, de Santarém foi pra Manaus, e acabou-se por lá, ano passado ele morreu lá. Aí eu fiquei. Daí pra cá já vou ensinando um bocado de gente. (informação verbal)60
A forma como Seu Joaquim aprendeu a dança – executando-a com as dançadeiras – foi diferenciada de como outros mestres aprenderam. Seu Roseno aprendeu ouvindo sua mãe, acompanhado a mãe nas danças e observando. Seu José Roseno, irmão mais velho de Seu Joaquim, foi o primeiro a assumir a dança depois que o Pai Roseno morreu e aprendeu com seu pai, que fazia relatos, ensinava as canções e ele observava como tudo acontecia.
Os “mais velhos” da comunidade elogiam muito Seu José Roseno, pois ele gosta muito da “sinceridade” e de “fazer as coisas certas”, são as frases sempre enfatizadas. Quando acontecia algum problema e alguém errava, ele chamava atenção, não permitia conversa entre as dançadeiras. Isso entre os “mais velhos” é sinônimo de respeito e fé. Para os mais jovens, Seu José Roseno é temido por brigar.
Seu Joaquim, nos intervalos, cumprimenta o público, conversa com as dançadeiras e começa a contar as lendas sobre o Santo, relata como tudo começou:
Aí diz o povo que começou assim, que era aquele festaral danado, aquele mulheral medonho naquelas festas, aí São Gonçalo foi que inventou, aí disse São Gonçalo: rapaz, sabe duma coisa, esse mulherio vai se perder quais tudo, vou ver se salvo um bocado delas. Aí foi e inventou a dança. Inventou a dança, aí quando é de tarde tão cansada, aí vão é dormir. Mas é se for véa. Quando eu era novo eu tirava o dia todim, dançava a noite todinha, e no outro dia vinha nesse sertão longe, nós vinha até de pés, nós vinha, mas quem é novo num cansa não. E assim ele [São Gonçalo] salvou um horror de gente que ia se perder, só naquela brincadeira, aí inventou a dança que nem eu disse... mas aí cansa só se for véi, eu não sentia nada, hoje em dia quando é de tarde eu tô só arquejando... mas muitas vezes tem uma festa e a gente dá umas duas dançadinhas de noite. Pois é, desse jeito. (informação verbal)61
As histórias sobre o Santo, Seu Joaquim aprendeu com seu pai e reproduz até hoje. Faz mais de 50 anos que Seu Joaquim puxa a dança de São Gonçalo. As perguntas em relação ao Santo são frequentes durante o evento, perguntam quem era São Gonçalo e por que se dança, se ele gostava dessas brincadeiras, e ele prontamente responde: “Rapaz, São Gonçalo foi que inventou essa festa, foi nós não. Ele gosta da festa”.
60 Entrevista com Seu Joaquim em janeiro de 2013. 61 Entrevista com Seu Joaquim em janeiro de 2013.
Entre as dançadeiras estão as guias, as quais são escolhidas por serem as mulheres com idade mais avançada do grupo. Assim, na estrutura da dança vão se organizando hierarquicamente as posições, baseadas no critério de idade, pois os “mais velhos” são os detentores do conhecimento do “tempo dos antigos”. As guias têm a tarefa de ajudar a entoar os cantos e marcar o ritmo das coreografias.
Atrás das guias seguem as outras dançadeiras. Hoje não se pode mais identificar os critérios de idade entre as outras dançadeiras, pois quando uma dançadeira morre ou sai do grupo, outra entra no lugar da que saiu. Perguntei a uma das dançadeiras, Teresa Eugenio, como foi que se iniciou na dança:
Eu assistia desde pequena, aí eu achava bonito e tinha muito vontade de aprender. Aí quando foi um dia faltou uma dançadeira, aí ele, o tio Joaquim, me chamou para ensaiar. Aí a partir desse dia eu comecei a dançar [...] Era minha mãe, a Célia, minha avó, minhas tias, minha irmã mais velha e minhas cunhadas, o pessoal da família. Porque aqui é uma família, aqui na comunidade, é uma família só. Aí a Tainara, minha filha, já está dançando e vai passando né, de geração pra geração... Porque é assim, né, já tem outras crianças que já tão dançando também, que é parente da gente também. Aí a gente dança. Sei que o pessoal chama, convida pras danças e gente tá acompanhando. (informação verbal)62
Quando entram no grupo, geralmente as dançadeiras precisam ter um par, ao qual elas chamam de “parea”. Pois como ocorre a divisão em dois partidos, uma fica no partido azul e a outra no rosa, assim, só é possível entrar em dupla. Como relatou Meire, quando iniciou no grupo:
[...] eu vi e fiquei com vontade de dançar e uma amiga minha que já morreu, a gente começou a dançar juntas ‘vamo dançar’ eu sei que faltou, aí começou a ensaiar, aí tinha aquelas danças pra fora ‘vamo dançar pra gente ir pras dança fora’, só que quando nós comecemos a dançar num teve mais essas danças pra fora... Nós só fomos pra pedra branca, só fomos pra lá depois que eu comecei a dançar mais ela, fora ela teve uma dança que eu não dancei, que fez o filme né, eu não dancei [...] aí eu sei que [...] (informação verbal)63
Muitas pessoas de fora da comunidade acompanham assiduamente a dança e sabem como ela é desenvolvida. No entanto, para fazer parte do grupo oficial, é preciso que: 1) algum dos seus membros tenha se afastado, seja por motivo de doença, falecimento ou por conversão a outra religião; e 2) pertencer à “mesma família”, seja por laços de consanguinidade ou afinidade. Por isso, é comum ouvirmos a frase: “eu entrei no lugar de mamãe”, ou da tia, avó, enfim, alguém da família, como forma de legitimar sua presença no grupo.
62 Entrevista com Teresa em abril de 2013. 63 Entrevista com Meire em março de 2013.
A tabela a seguir informa algumas características do grupo que realiza a dança no Veiga, como o nome dos participantes da dança e seu papel, profissão, estado civil e idade, por ordem dos pares:
Tabela 1 – Características do grupo que realiza a dança no Veiga.
Nome Papel Profissão Estado civil Idade
Joaquim Ferreira da Silva
(Seu Joaquim Roseno) Mestre/toca tambor Agricultor Casado 76 anos Oswaldo Ferreira da Silva
(Roseno) Parceiro/ toca o violão Agricultor solteiro 35 anos Teresa F. da Silva (Roseno) Guia Agricultora casada 55 anos Celene Ferreira (Roseno) Contraguia Doméstica solteira 46 anos Teresa Eugênio (Eugênio) Dançadeira Agricultora casada 37 anos Ana Eugênio (Eugênio) Dançadeira Agricultora Solteira 41 anos Tainara Eugênio (Eugênio) Dançadeira Estudante Solteira 17 anos
Zildete F. da Silva (Dodô)
(Roseno) Dançadeira Estudante Solteira 18 naos
Norma F. da Silva (Roseno) Dançadeira Agricultora Casada 42 anos Rita F. da Silva (Roseno) Dançadeira Agricultora Casada 47 anos Bruna F. da Silva (Roseno) Dançadeira Estudante Solteira 13 anos Cibele F. da Silva (Roseno) Dançadeira Estudante Solteira 14 anos
Fonte: Autoria própria.
É evidente que a dança vem passando por transformações. Apesar de todo o grupo estar ligado por laços de parentesco, sendo pertencente às famílias fundadoras da comunidade, Roseno e Eugêncio, muitas dançadeiras que participam da dança foram morar fora da comunidade. Isso dificultou a realização dos ensaios da dança, bem como a presença dessas pessoas em outras atividades religiosas, como as novenas. Porém, apesar das transformações, o vínculo de parentesco não foi quebrado e nem a devoção àquele santo.
Observamos que, no cotidiano, não há diferença entre os que participam da dança e os outros moradores do lugar, até por que a história das suas vidas é praticamente a mesma. Eles trabalham na agricultura ou são aposentados pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), com exceção de uma dançadeira, que não mora na comunidade e trabalha como doméstica em casas localizadas no Dom Maurício. Também com exceção das dançadeiras adolescentes, “mais novas”, a grande maioria pouco frequentou a escola, e apenas uma terminou
seus estudos. Todos são católicos, vão às missas, às novenas e enfeitam suas casas com as imagens dos santos.
Nos dias de dança, diferentemente do cotidiano, os tocadores e as dançadeiras de São Gonçalo têm seu dia, tornando-se o centro das atenções. São eles responsáveis pelo agradecimento do devoto ao santo, e por isso não podem errar os passos, e, igualmente, pela divulgação do ritual.
Neste sentido, há a importância dos gestos, dos movimentos, de ir em busca desses significados. Considero ser fundamental inserir o uso do corpo no seu meio social. O corpo, enquanto viés de investigação, suscita uma totalidade, tal ideia está presente em Marcel Mauss (1974) em As técnicas do corpo. Tentei abordar mais sobre esse tema na descrição do ritual.
A imagem do santo é um símbolo de identidade para os moradores “mais velhos”, ela remete o rito a seu passado de devoção, quando o rito tinha uma importância e um significado social e religioso. Isso marcava a presença de seus antepassados na região e toda sua trajetória de vida, exploração, opressão e racismo, tendo em vista que a narrativa de chegada do rito está associada aos deslocamentos feitos pelos “herdeiros” do cativeiro.
Queiroz (1973, p. 85) destaca que, no sertão do Nordeste, a imagem do santo é, ao mesmo tempo, natural e sobrenatural, cercada de poderes que agem sobre os humanos, ou seja, ela é uma imagem viva:
Relações de tipo familiar se estabelecem entre os devotos e os santos, principalmente entre o padroeiro doméstico e a família que o escolheu para patrono. O caboclo não concebe um santo longínquo, impessoal, habitando o paraíso e inteiramente invisível. Pelo contrário, o santo é muito humano e sua imagem torna-o inteiramente presente ao desenrolar da existência no grupo familiar.
Assim, São Gonçalo “cura sem pôr a mão”, cura de longe. E isso tudo só depende do pedido e da crença dos fiéis, não sendo necessária sua presença.
Desta maneira, observamos que a imagem do santo está associada à própria origem da comunidade, “este São Gonçalo é descendente dos antigos”. E, como os moradores dessas localidade se denominam como pertencendo à mesma família, penso que a imagem pode ser considerada como um “totem”, “um ancestral comum”, “um emblema” que caracteriza os moradores. A imagem também legitima as dançadeiras e os tocadores, conferindo-lhes o poder de interagir entre o santo e seus devotos. E assim como preceitua Durkheim (1989, p. 157), “[...] os ritos que se referem a um totem só podem ser realizados por pessoas desse totem”, já que existe uma afinidade e solidariedade entre eles. Para os devotos, uma legítima dança de São Gonçalo deve ser realizada diante da imagem.
Por fim, analisarei os versos entoados no ritual e sua ligação ao “tempo dos antigos”, manifestando no grupo um sentimento de origem comum e de pertencimento étnico.