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Apesar do estado de privação da liberdade de expressão, o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985) representou o amadurecimento do jornalismo político do país. Pode-se afirmar que, diante das perseguições a jornalistas, fechamentos de jornais e proibições de críticas ao regime ditatorial, o jornalismo político brasileiro viu-se diante de duas opões: ou aceitava as condições de repressão e se mantinha no exercício de forma legal, ou se colocava contra a ditadura e, consequentemente, teria que procurar caminhos alternativos para continuar existindo.

Quando falamos em aceitação, é preciso salientar, também estamos nos referindo aos inúmeros donos de jornais que eram vinculados à UDN, partido de orientação conservadora e que, juntamente com os militares, apoiou a deposição do presidente João Goulart, em 1964 (ABREU, 2002). Ou seja, alinhados com o poder vigente, os empresários da comunicação que apoiaram3 o Golpe de 1964 e, por isso, mantiveram relações estreitas com aqueles que o geriram.

Independente da escolha feita, o importante de ser destacado aqui é que a situação de repressão despertou ideais jornalísticos de responsabilidade social. Se antes, como visto na década de 1930, a questão girava em torno de desempenhar o papel de ferramenta relevante

3 É preciso lembrar também que os meios de comunicação dependiam em grande medida dos recursos do Estado. Segundo Abreu (2005, p.54): “Os empresários da mídia, dentro do projeto de modernização dos meios de

comunicação, foram beneficiados pelos militares. Foram concedidos financiamentos para a construção de novos prédios, agora necessários para abrigar novas máquinas e permitir a expansão a mídia – basta lembrar que em torno de 30% das receitas dos jornais eram obtidos dos clientes oficiais, o que significava uma dependência econômica considerável do Estado. As concessões de estações de rádio e de televisão muito beneficiaram os

para as disputas políticas, o jornalismo que se desenvolveu na ditadura já estava ciente de seu papel e precisava agora lutar para defendê-lo.

Além disso, apesar da cumplicidade com os empresários da comunicação, essa relação amigável não evitou que a censura chegasse às redações dos grandes jornais e perseguisse os jornalistas. Tudo foi acontecendo progressivamente, na medida em que a ditadura ia sendo consolidada. O marco para se pensar o início do momento crítico para o jornalismo brasileiro veio em dezembro de 1968, com a instituição do Ato Institucional n.º 5 (ABREU, 2005).

A partir daí, a repressão a críticas tornou-se institucionalizada, a produção de notícias tornou-se uma atividade delicada, que podia ter consequências graves para o jornalista que tentasse burlar o cerco. Foi nesse contexto que um posicionamento de “enfrentamento criativo”, conhecido como imprensa alternativa, começou a ganhar força. Como o próprio nome sugere, a imprensa alternativa se colocava como uma opção à imprensa hegemônica, na qual trabalham jornalistas que podiam ser facilmente rastreados. O grande trunfo da imprensa alternativa, então, estava justamente no fato de poder expor seus pensamentos e críticas livremente, sem que seus colaboradores ficassem expostos diante dos militares. Sobre o papel desta imprensa no período Abreu (2002) explica:

A chamada “imprensa alternativa” conheceu grande sucesso na fase mais aguda da

repressão do regime militar. Surgiu no momento em que se tornou visível o fracasso da luta armada, e foi através dela que muitos jornalistas, intelectuais e ex-militantes tentaram construir um espaço legal de resistência política, além de uma frente de trabalho alternativa à imprensa comercial e à universidade (ABREU, 2002, p.19).

A imprensa alternativa que surgia nos anos 1970, então, representava um projeto político, mas também ditava as bases para uma renovação no jornalismo brasileiro. Isso significa que, enquanto questionava e criticava os rumos políticos do país, a imprensa alternativa, enquanto jornalismo, também estava constatando uma necessidade de se impor e reconhecendo as características necessárias para a construção do seu papel de ator político de destaque na sociedade brasileira. “Há, portanto, uma interação complexa entre duas necessidades distintas: a do fazer político e a do fazer jornalístico, que tanto podem se somar como se anular. Na maior parte do grande arco de tempo que vai de 1964 a 1980 elas se somaram” (KUCINSKI, 1991, p.42).

Essa situação de repressão não era apenas a editoria de política que sofria com o controle excessivo dos militares. Tão logo a censura começou a se intensificar, os jornalistas perceberam que deveriam e – poderiam – expor suas críticas em outros planos. Foi assim que

“a imprensa alternativa, as charges, as editorias de economia, as páginas de opinião e as telenovelas foram vetores de crítica ao regime” (ABREU, 2005, p.56), ampliando o espectro de atuação de uma resistência silenciosa.

O interessante de se perceber, analisando este período, é que a forte repressão e a tentativa de enfraquecer a atividade jornalística acabaram por ter efeito contrário. O jornalismo brasileiro, a partir daí, ao lutar pela própria sobrevivência, percebe-se como peça fundamental na sociedade e, com a reincorporação do regime democrático, coloca-se também como seu defensor e como essencial para sua manutenção.

A construção dessa percepção, no entanto, não foi feita de forma isolada, no momento que delimitou a ditadura militar no Brasil, mas levando em consideração todos os outros momentos passados, de luta, de oposição e até de inexatidão de atividades, pelos quais o jornalismo brasileiro passou e, com eles, aperfeiçoou-se. De seu nascimento como folhetim feito por um estrangeiro e impresso em outro país, até as tentativas de burlar a vigilância da censura, muito tempo se passou. Tempo suficiente para amadurecer, assim como se modernizar, incorporar novas técnicas e ressignificá-las de acordo com a própria lógica da cultura local. Tempo suficiente também para se consolidar como ator político.

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