Por que ligar valores humanos às atitudes pró-ambientais? Primeiro, porque os valores, assim como a cultura, fornecem a lente através da qual se enquadrarão a compreensão dos problemas ambientais, os aspectos que se destacarão como preocupantes e as soluções usadas para a resolução destes problemas (Schultz et al., 2005). Segundo, porque aumenta a cada dia o número de produções científicas que buscam (1) explicar as atitudes ambientais a partir dos valores, e (2) identificar perfis valorativos capazes de auxiliar em intervenções eficazes para a promoção de comportamentos pró-ambientais (Schultz & Zelezny, 1999). E, terceiro, porque tomando como base uma estrutura teórica hieráquica de Homer e Kahle (1988), na qual os valores embasam atitudes que por sua vez, orientam comportamentos, é possível explicar as atitudes e os comportamentos de aceitação das tecnologias alternativas em função do perfil valorativo das pessoas.
O desenvolvimento de pesquisas melhora o entendimento e a explicação do papel dos valores humanos, nas atitudes e nas ações favoráveis à aceitação das propostas direcionadas ao cuidado ambiental. Além disso, a realização deste tipo de estudo permite indicar os padrões valorativos que precisam ser promovidos como bons condutores das
128 atitudes e comportamentos pró-ambientais. A importância da discussão dos valores humanos nas questões relacionadas ao cuidado ambiental é defendida por Shepherd, Kuskova & Patzelt (2009), afirmando que à medida que a questão voltada para o cuidado ambiental ganhou destaque, cresceu o interesse em analisar a relação entre esta temática com os valores humanos. Sabe-se que os padrões valorativos são úteis na definição e direcionamento de metas, estruturação das atitudes e julgamentos avaliativos que levam ao comportamento.
Stern, Dietz, Kalof e Guagnano (1995) observaram correlação positiva da disposição para comportamentos pró-ambientais com valores biosféricos, e negativa com valores egoístas. Complementando esta relação Vaske e Donnelly (1999) pesquisaram a operacionalização de um esquema de cognição hierárquica composta por: orientação valorativa → atitudes → intenção comportamental. Os autores constataram que a orientação valorativa (biocêntrica/antropocêntrica) se apresenta como preditora de atitudes frente à preservação de florestas, e que estas mediam à relação entre a orientação valorativa e a intenção comportamental de votar a favor da preservação das florestas. Utilizando a tipologia de Schwartz (1992, 1994), Karp (1996) observou que auto-transcendência e
abertura à mudança apresentaram influência positiva no comportamento pró-ambiental,
enquanto autopromoção e conservação apresentaram direção inversa. Resultados semelhantes foram encontrados por Schultz e Zelezny (1998, 1999). Estes consideraram os tipos motivacionais de valores como preditores de atitudes ambientais, universalismo, que faz parte da categoria autotranscendência, explicou mais fortemente as atitudes ambientais
ecocêntricas. Este mesmo tipo motivacional predisse positivamente as atitudes ecocêntricas, enquanto os tipos motivacionais poder e tradição o fizeram negativamente.
129 As atitudes antropocêntricas foram preditas positivamente pelos tipos motivacionais poder,
tradição, conformidade e segurança, e negativamente, por benevolência.
Procurando entender diferenças culturais nos antecedentes das atitudes ambientais, Cordano, Welcomer, Scherer, Pradenas e Parada (2010) realizaram uma pesquisa com estudantes de administração dos Estados Unidos e do Chile. Para tanto, basearam-se na
Teoria da Ativação da Norma (Schwartz, 1977), a Teoria da Ação Racional (Ajzen &
Fishbein, 1985) e o modelo Valores-crenças-normas de Stern et al. (1999). Verificou-se que os estudantes chilenos eram mais altruístas que os americanos, além de sentirem mais pressão por parte dos seus pares para se engajarem em comportamentos pró-ambientais. Ademais, os estudantes chilenos apresentaram maior nível em consciência dos problemas ambientais, obrigação em proteger o ambiente, intenção em limitar os direitos de propriedade e em se envolverem em comportamentos pró-ambientais. Esta pesquisa tem implicações no papel da educação ambiental para a consciência dos problemas e para promover o comportamento altruísta voltado para o ambiente.
Coerentemente com as pesquisas previamente descritas, Coelho et al. (2006) observaram no contexto brasileiro que o tipo motivacional universalismo foi consistentemente o que melhor explicou o ecocentrismo, corroborando o que tem sido observado em estudos anteriores (Karp, 1996; Schultz & Zelezny, 1999). As pessoas que pontuaram mais fortemente na dimensão auto-transcendência apresentaram em maior grau atitudes ecocêntricas e o compromisso em participar de atividades em favor do meio ambiente; as pessoas que pontuaram mais alto em universalismo apresentaram mais predisposição a agir de modo que favorecesse o ambiente.
Evidências nacionais complementares podem ser encontradas no trabalho de Coelho (2009). Este autor testou a hipótese hierárquica cognitiva/emocional: Valores/emoções →
130 atitudes → habilidade de conservação de água, em uma amostra paraibana. Adotando a Teoria
Funcionalista dos Valores Humanos (Gouveia, 1998, 2003), verificou-se que os valores centrais
são subjacentes às atitudes de preservação e os pessoais às atitudes de utilização. A variável emoção apresentou incremento do percentual de explicação do modelo da habilidade de conservação de água. O teste do modelo hierárquico cognitivo emocional valores/emoções → atitudes → habilidade de conservação de água apresentou evidências de sua pertinência, permitindo identificar antecedentes e consequentes do comportamento pró-ambiental, especificamente a habilidade de conservação de água, dentro do marco teórico funcionalista.
Em resumo, vários estudos reúnem evidências corroborando o modelo hierárquico cognitivo/emocional → atitudes → comportamento. Este modelo tem se mostrado útil para explicar os comportamentos ambientais, como evidenciado por Milfont (2007) e Coelho (2009). Portanto, parece pertinente que atenda a outras questões ambientais, como é o caso das fontes renováveis de energia. Este aspecto orientou a presente tese cujo objetivo é testar o modelo valores/inclusão ambiental → atitudes frente às fontes renováveis de energia → intenção de uso da energia por fontes renováveis.
131
P
PAARRTTEE
IIII::
EESSTTUUDDOOSS
EEMMPPÍÍRRIICCOOSS
132