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As similaridades encontradas nas entrevistas das meninas se referiam ao uso de maquiagem, acessórios como pulseiras e tiaras, unhas postiças, sapatos, brinquedos e aparelhos tecnológicos, embora também tenham relatado outras semelhanças que não relacionadas a bens materiais.

Aí ela queria botar tiara, botava tiara. Ah, fulana tá de tiara, eu tô de tiara. (Mãe 02)

Se Fernanda e Ana Teresa trouxerem o mesmo Furby, cada uma tem um Furby bom, elas trazem. Aí fica, além da amizade que elas tem os Furby têm. Aí fica dizendo tipo (pausa longa) Ela fica, em relação ao Furby, tá dizendo “Oh que bom, que coincidência nós somos Furbies bons”, aí a outra diz “é, somos mesmo”. (Menina_12:8)

É aquele sapato que tá na moda que fechado na frente e aberto atrás (se referindo aos calçados da marca Crocs). Todo mundo... a minha sala todinha já tá cheia de

sapato desse. (Menina_16:11)

Elas podem usar os bens para serem semelhantes às amigas e reforçarem o

sentimento de pertencimento ou escolherem consumir para participarem da moda do grupo,

como a Menina_16:11, que comentou sobre sua próxima compra seria um sapatinho que todas as crianças da sua sala estavam usando.

Os itens relacionados à beleza feminina, como a maquiagem, por exemplo, foi observado com um objeto de similaridade entre os membros dos grupos. Foi um item citado pelas meninas e suas mães que descreveram que as filhas usavam ou já teriam usado maquiagem com frequência para ir à escola.

Acho (as amigas semelhantes)... Assim, na roupa, maquiagem, cabelo. (...) As

pulseiras (Menina_11:12).

A coisa que ela mais liga é maquiagem, lápis de olho, ela gosta de pintar os olhos.

E o negócio de maquiagem, esmalte pra ela pintar as unhas quem dá sou eu. (Mãe 17)

Tem a fase de se maquiar pra ir pra escola, mas já passou. Elas sempre têm essa

fase, com nove, dez anos, vão pra escola que parece que vão pra uma festa (Mãe

01).

Questão de maquiagem, as meninas gostavam muito de ser maquiadas [...] Era

muito de ir maquiada pra escola. [...] Questão de maquiagem, as meninas gostavam muito de ser maquiadas, não iam... mas era muito de ir maquiada pra escola e ela dizia: mainha, fulaninha vai maquiada, e ir mais arrumada.

Maquiada e cabelo alisado, sabe? Mas até que ela diminuiu mais, mas teve um tempo no começo que ela, eles eram muito de olhar a outra que foi maquiada, foi

de batom, foi de sombra pra escola. (Mãe 02)

O uso da maquiagem é um fator que possibilita a similaridade entre os grupos de meninas. Porém o uso maquiagem pode ser percebido como algo inadequado ao ambiente escolar, como relatou a Menina_13:10.

Hm... ficam comentando, “ai que bonitinho, não sei o que” (imitando as outras crianças). Eu não, nam, muito chamativo, desnecessário, se fosse pra alguma

festa, mas pra escola, vai suar, aí depois fica borrado “estou borrada, ai meu

Deus!”[ironizando as amigas] (Menina_13:10).

O uso de maquiagem é interpretado como reflexo da necessidade das meninas de se aproximarem do universo adulto, corroborando os apontamentos de McNeal (2000) e Cody e Lawlor (2011). Pode ser a necessidade de parecerem mais velhas e esforço de vaidade para ficarem mais bonitas, esta ultima parece ser uma preocupação não apropriada com a idade, mas segundo os autores supracitados faz parte da fase liminar.

A importância da similaridade para as meninas pôde ser percebida pela fala da Menina_03:11, que ao escolher seu caderno da escola. Ela optou por um que não considerava tão bonito, mas que por estar sendo usado por suas amigas com quem se identifica despertou seu interesse levando-a a comprá-lo.

Petit Poá [marca de caderno] é de umas meninas que tem [tema do caderno é ilustrado por desenhos de meninas]. O mesmo caderno que minhas amigas

também têm, a gente comprou lá no Modelo [nome de papelaria] em frente à

minha escola. [...] Não, não é muito bonito não... (Menina_03:11).

Mesmo que não tenha verbalizado, sua atitude reflete o “conforto” de ser semelhante ao grupo através da similaridade dos produtos exibidos. Apesar de não preferi-lo ela se sentiu bem com sua escolha.

Na época da pesquisa havia uma moda de pulseiras de elástico em todas as escolas das crianças entrevistadas, das duas cidades, se configurando como um fenômeno difundido entre classes altas e baixas. Todos ficaram semelhantes por causa do uso ou confecção das pulseiras, fossem meninos ou meninas. Alguns disseram gostar mais e outros menos, mas possivelmente todos aderiram à moda.

O Menino_14:11, quando questionado sobre a moda das pulseiras no primeiro momento teve o impulso de criticar as meninas chamando-as de ‘chatas’ porque ficavam ‘chateando’ os meninos tentando fazê-los usar as pulseiras. Porém, no decorrer da entrevista, foi possível perceber que ele chegou a usar algumas e até a confeccioná-las, provavelmente para não ‘ficar de fora’ e não correr o risco de ser diferente de uma forma negativa, pois além das meninas, seus amigos também faziam as pulseiras. Fica claro em seu discurso, que quando um tipo de moda chega ao colégio, acaba havendo aderência de todos os grupos:

Achava legal. Muitos achavam que era sem graça só que depois são... Eu vi que era

interessante. No Motiva tem esse negócio que infecta um, infecta outro.

(Menino_14:11)

Tem o momento de moda. Atualmente é a moda das pulseiras de liga, então de

repente eu vejo Menino_09:9 fazendo pulseira (Surpresa). [...] Como assim, né?

“Ah eu quero, quero pulseira de liga, quero pulseira de liga!” (Mãe imitando o filho) e a pessoa fica sem saber, eu achava que ele não ia fazer era nada e tá lá o tempo

todo, virou uma fábrica de fazer pulseira de liga porque todo mundo na escola está fazendo pulseira de liga, inclusive virou um comércio. (Mãe 09)

Para a surpresa da Mãe 09 seu filho aderiu à tendência e chegou a confeccionar e vendê-las e sua observação é de que isso aconteceu porque ele foi influenciado pelos pares. Algumas das crianças fabricavam as peças, independente do sexo ou classe social, nas duas cidades em que as entrevistas foram feitas.

Alguns deles as vendiam pelo valor de um a dois reais. Nesse contexto as pulseiras eram símbolos de semelhança entre as crianças dos dois gêneros e também uma fonte de renda para alguns. O comércio dessas poderia ser motivado dentre outras pela possibilidade de ter um dinheiro extra além do que lhes era dados por seus responsáveis, ou até em substituição do que poderiam pedir aos seus pais, como era o caso da Menina_11:12 que contou cobrir seus pequenos gastos com esse dinheiro.