9. Analyse, konklusjoner og drøftinger
9.3 Makt og empowerment
Para além das festividades cíclicas, comemoradas pelas Casas dos Açores, a devoção ao Divino Espírito Santo, intimamente ligada às comunidades da diáspora, está igualmente presente no calendário de atividades das Casas, tendo algumas um papel proactivo na sua realização.
As festas em louvor do Divino Espírito Santo38 realizam-se tanto no Brasil – cuja emigração está cronologicamente mais distante – como na América do Norte com uma emigração mais recente, o que demonstra o forte enraizamento desta tradição no seio da comunidade açoriana. As festas acontecem desde a primavera até os meados do verão.
No Brasil, estas festas são promovidas em São Paulo e no Rio de Janeiro pelas respetivas Casas dos Açores (Andrade, 1997:27). Também nos estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul as festas do Divino Espírito Santo marcam presença e atingem um “particular brilhantismo” (Andrade, 1997:27). Desde 2003 a Casa dos Açores da Ilha de Santa Catarina participa nas festas que se realizam na comunidade de Santo António de Lisboa no norte da ilha de Santa Catarina39. Porque a presença açorina
38 Conjunto de cerimónias de caracter religioso em honra e louvor do Espírito Santo, organizada por irmandades independentes da igreja, e que escolhem entre os seus membros o seu imperador (quem organiza a festa). Os festejos incluem distribuição de sopas (tradicionalmente caldo de carne servido com pão e repolho) à população (Leal, 1997:27-8).
39 Blog da Casa dos Açores da Ilha de Santa Catarina, 2014. Acedido em abril de 2014 em: http://caiscblog.wordpress.com/
se faz sentir em quase todo o território brasileiro, nos últimos anos, têm sido sinalizados outros estados com tradição nestas festas. É o caso da cidade de Espírito Santo, no estado de Santo Espírito e Sergipe (Castanho, 2013).
Em Lisboa, as festas começaram por ser organizadas pela Irmandade do Espírito Santo, criada em 1931 e sediada na Casa dos Açores. Em 1989, a festa do Espírito Santo transformou-se no “Dia do Açoriano”. Para a inauguração da sede da Casa dos Açores do Algarve, a 9 de junho de 1996, na cidade de Faro, foi servido um jantar do Espírito Santo, com sopas à maneira da ilha de Santa Maria. A Casa dos Açores do Norte, na cidade do Porto, também está ligada à realização destas festas, promovendo-as desde 1986 (Andrade, 1997:32-4).
No Canadá, as festas em louvor do Divino Espírito Santo também fazem parte das festividades de todas as comunidades açorianas. Por exemplo, desde 2010, a Casa dos Açores do Ontário organiza um jantar do Divino Espírito Santo. Também organiza as Grandiosas Festas do Espírito Santo cujo almoço com as tradicionais sopas, acontece no salão da Casa dos Açores do Ontário.40
As festas do Espirito Santo realizadas nos Estados Unidos, para além da sua dimensão religiosa são, segundo Leal (2002:29), «um dos principais marcadores da identidade étnica açoriano-americana», representando uma comunidade unidade na paisagem multicultural do país de acolhimento. Na Califórnia o movimento de recriação das Festas remonta a 1882 – data da fundação da Irmandade do Espírito Santo de Alvarado Street em San Leandro, que se destinava sobretudo à celebração deste culto – e desde então foram criadas 144 irmandades do Espírito Santo, 99 das quais existiam pelo menos até ao ano de 2002 (Dias, 1982:48; Andrade, 1997:29; Leal, 2002:28).
A criação das Grandes Festas do Divino Espirito Santo da Nova Inglaterra remonta a 1986 e estas realizam-se todos os anos no último fim-de-semana de agosto, em Fall River. A festa dura cinco dias, de quinta-feira – dia da inauguração do arraial – à segunda-feira seguinte, altura em que é realizado um banquete de encerramento. Durante o dia de sábado realiza-se um cortejo etnográfico (ou parade, designação pela qual também é conhecida nos Estados Unidos), que serve o propósito inicial da fundação das Festas que é o de «ligar melhor a comunidade a nível da (…) América do Norte, incluindo o Canadá» (Anastácio, 2000 citado em Leal (2002:36). Para isso, são
convidadas a desfilar no cortejo as irmandades do Espírito Santo da América do Norte, organizações da comunidade luso-americana, outras entidades de relevo para a comunidade açor-americana, assim como autoridades politicas açorianas e norte- americanas. É de salientar a participação da Casa dos Açores da Nova Inglaterra nas Grandes Festas de 2000, como nos indica João Leal (2002:35).
Toda a sumptuosidade da festa parece consubstanciar, segundo Mayone Dias (1982:50-51), uma mensagem dirigida aos nativos do país de acolhimento. A comunidade ao mostrar que, sem abdicar dos seus valores regionais e da sua religiosidade, conseguiu atingir um certo nível económico e social, realça – perante uma audiência exterior ao grupo – o grau de realização conquistado em terra estrangeira. Para além disso, é de salientar que este culto ganhou o seu lugar na sociedade de acolhimento. Como Graça Castanho (2012) refere, «O Espírito Santo, levado por nós em sucessivos fluxos migratórios, hoje, não é só nosso, uma vez que já foi integrado pelas comunidades de acolhimento que o vivem, veneram e incluem nas agendas culturais e religiosas das sociedades onde residem».41
Tomando em consideração a importância da “autoafirmação do emigrante” em terra adotiva (Dias, 1982:50), as festas do Divino Espírito Santo são também importantes para dar visibilidade às Casas dos Açores. Elas implicam uma saída para o exterior da sede (como, por exemplo, a organização e participação na parade) e uma forma de as Casas poderem publicitar a sua existência (Forte, 1991:76).
Diz-nos Mayone Dias (Dias, 1982:50) que as festas «para além da inequívoca manifestação de identidade cultural, representam uma oportunidade quase única de convívio». Elas servem ao mesmo tempo para divertir e para reunir os membros da comunidade que por razões geográficas, profissionais ou outras, não mantêm um contacto regular. Assim, as Casas dos Açores ao organizarem ou ao participarem das festividades concorrem para uma vida comunitária saudável ao mesmo tempo que proporcionam a continuidade das tradições açorianas.