Oussama Amine 1 , David R. Baños 2 and Frank Proske 3
II.2 Main Result
O Método das Três Etapas foi desenvolvido por Peter C. Dienel no início dos anos 70 e foi modificado, posteriormente, por Ortwin Renn, com aplicações iniciais na antiga Alemanha Ocidental e nos Estados Unidos. As alterações, segundo Renn (1993), são adaptações em função da cultura política de cada comunidade.
“O modelo é uma tentativa de integrar informações técnicas, valores e preocupação dos investidores, ou grupos de interesse, e preferências dos cidadãos, num procedimento que permita a geração de políticas públicas consensuais” (RENN, 1993, p. 190).
O método é derivado da análise de decisão formal, mas orientado por multi- atores, multi-valores e multi-interesses. Para integrar esses aspectos num procedimento prático de tomada de decisões, ele prevê que cada grupo da sociedade seja encarregado de uma tarefa específica, de acordo com seu conhecimento:
• investidores ou grupos de interesse - conhecimento derivado de interesses sociais e econômicos.
• técnicos, especialistas ou grupo de pesquisa - conhecimento baseado em capacidade e competência técnica.
• cidadãos - conhecimento baseado no senso comum e na experiência pessoal.
Esses três interesses são integrados em uma seqüência de procedimentos em que os diferentes atores recebem tarefas que correspondem aos seus conhecimentos específicos em três etapas consecutivas:
1.ª Etapa - Identificação e seleção das preocupações e dos critérios de avaliação: o primeiro passo em política ou tomada de decisão é a identificação dos objetivos ou metas que o processo deve atender, desde que o problema seja identificado.
A identificação das necessidades, das preocupações e dos objetivos é feita pelos investidores ou grupos de interesse que são, ou poderão ser, afetados pelas decisões. É importante que todos os grupos estejam representados e que a variedade de valores, incluindo econômicos, políticos, sociais, culturais e religiosos estejam integrados na análise.
A técnica utilizada nessa etapa é a Árvore de Valores, na qual os representantes de diferentes grupos de interesse são chamados a identificar seus critérios e objetivos para avaliação das diferentes opções.
Dependendo do contexto político e da natureza da decisão a ser tomada, os valores dos vários grupos podem variar consideravelmente. Para dar a cada grupo o direito de atribuir peso zero a cada critério que considera irrelevante, é possível construir um conjunto ou uma combinação de árvores de valores que demonstram todos os pontos de vista e que podem ser conferidos por todos os participantes.
A Tabela 1 ilustra as seis fases consecutivas de construção da Árvore de Valores.
TABELA 1: As seis fases de construção da Árvore de Valores-Método das Três Etapas.
Fase n.° Descrição
1 Entrevista entre analistas e diversos representantes dos grupos de interesse. 2 Estruturação dos valores, critérios e atributos em ordem hierárquica pelos
analistas.
3 Apresentação da Árvore de Valores para os grupos de interesse até a satisfação com o produto final.
4 Interação do processo até que os grupos de interesse estejam satisfeitos com o produto final.
5 Combinação de todas as Árvores de Valores de grupos específicos numa 'mega-árvore'.
6 Validação da 'mega-árvore' pelos grupos participantes, com a opção de atribuição de peso zero aos critérios que não os agrada.
Nessa etapa, são produzidos os critérios de avaliação das várias opções apresentadas.
2.ª Etapa - Identificação e mensuração dos impactos das diferentes opções:
Os critérios de avaliação derivados da Árvore de Valores, produzida na 1.ª Etapa, são operacionalizados e transformados em indicadores pelo grupo de pesquisa. Esses indicadores são revistos pelos grupos de interesse e, uma vez aprovados por todas as partes, servem como regra para avaliação da performance de cada opção.
Essa etapa também tem por objetivo levantar outras necessidades, ainda não identificadas. Elas podem ocorrer através de seções de 'brainstorming' (tempestade ou chuva de idéias), de entrevistas com os grupos de interesse ou de levantamento de políticas precedentes.
Com diferentes opções e critérios disponíveis, os especialistas representantes das variadas disciplinas acadêmicas e dos diferentes pontos de vista sobre as questões em discussão, são chamados a julgar a performance de cada opção por indicador. Para esse propósito, foi desenvolvido um método especial chamado Grupo Delphi, baseado em grupos de interação - uma modificação do tradicional Método Delphi43.
O objetivo do Grupo Delphi é dividir o grupo de especialistas em pequenos grupos de trabalho, comparar o julgamento desses grupos em uma sessão plenária e identificar as áreas de incertezas entre os especialistas. O grupo que desviar sua classificação da média dos outros grupos é chamado a defender e a dar consistência a seus julgamentos.
Esse procedimento assegura que informações relevantes sejam compartilhadas entre os participantes. Portanto, diferenças de avaliação não são baseadas na ignorância, mas em diferentes interpretações dos dados existentes.
O Grupo Delphi não produz apenas valores numéricos, mas explanações verbais que contribuem para clarificação das questões, levando-se a um consenso ou a formação de campos divergentes com visões diferentes e argumentos correspondentes.
A seqüência típica do Grupo Delphi é apresentado na Tabela 2.
TABELA 2: Seqüência típica do Grupo Delphi-Método das Três Etapas.
Fase Descrição
1-Desenvolvimento Baseado nos critérios e opções, deverá ser desenvolvida uma de questionários escala numeral para tornar mais adequada a obtenção de
julgamentos especializados sobre a performance de cada opção e de cada critério.
2-Seleção de Seleção de especialistas com diferentes pontos de vista sobre Especialistas o assunto e representação de áreas diversas.
3-Primeira sessão plenária Esclarecimentos sobre o assunto em questão, o procedimento do Grupo Delphi e como as opções e os critérios serão derivados. 4-Primeira sessão de grupo Todos os participantes são aleatoriamente divididos em grupos
de 3-4 pessoas. Cada grupo é chamado a completar o questionário. A meta é o consenso, mas posições minoritárias são admitidas.
43 Método Delphi: ferramenta desenvolvida para uso em planejamento que utiliza questionários interativos que
circulam repetidas vezes por um grupo de peritos/especialistas, até que seja obtida uma convergência de respostas, um consenso. O anonimato dos respondentes, a representação estatística da distribuição dos resultados e o feedback de respostas do grupo para reavaliação nas rodadas subseqüentes são as principais características desse método (WRIGHT; GIOVINAZZO, 2000).
5-Segunda sessão plenária Os resultados da avaliação dos grupos são distribuídos a todos os participantes. Os grupos, cuja classificação mais desvia dos valores médios, são chamados a defender seus pontos de vista na frente dos participantes. A defesa é aberta à discussão e gravada para avaliação posterior.
6-Segunda sessão de grupo Os participantes são divididos em grupos pequenos novamente, seguindo o princípio do rodízio sistemático. Os grupos são chamados a completar o mesmo questionário, levando em consideração o que foi exposto na discussão plenária.
7-Interação da sessão As fases 5 e 6 deverão ser repetidas até que não ocorram mais plenária e trabalho mudanças nas respostas dos grupos ou que a posição dos
de grupo participantes esteja estabilizada e todos os argumentos tenham
sido trocados.
8-Avaliação dos resultados A gama de resultados numéricos obtido no final é considerado a melhor estimativa técnica para análise do impacto. Os vídeos provêem argumentos e evidências para a escala final de valores. 9-Validação Os resultados e as justificativas são mandadas aos participantes
para comentários finais ou para revisão do pensamento. Aí, então, os resultados poderão ser revistos por outros especialistas que não participaram do processo.
O Grupo Delphi incorpora vários elementos tradicionais do Delphi convencional, como o retorno das respostas nos sucessivos 'rounds' , a reavaliação dos grupos e a oportunidade dos participantes reverem suas posições, no entanto, o anonimato não é preservado.
Como em outros processos Delphi, é grande o tempo dispendido na preparação do processo, selecionando especialistas, preparando as listas de opções, coletando dados existentes e elaborando os questionários para as oficinas, porém, após iniciado, é consumado em 1 ou 2 dias, enquanto que o tradicional pode demorar meses.
O Grupo Delphi apresenta as seguintes vantagens: • deixam claras as desavenças no painel dos especialistas; • aparecem as razões das desavenças;
• faz teste direto das diferenças para revisão;
• possui habilidade para distinguir desavenças significativas de incidentes mal-entendidos. O objetivo é reduzir conflitos e chegar a um consenso via confronto direto entre os heterogêneos, representantes das preferências e da amostra de especialistas no
assunto. O resultado é um perfil de desempenho para cada opção. Esse perfil especifica a gama de julgamentos especializados, cientificamente legitimados e defensáveis para cada indicador, ilustrando a distribuição das opiniões entre os especialistas comunitários e incluindo justificativas verbais para opiniões que desviam do ponto de vista médio.
3.ª Etapa - Agregação de peso aos impactos esperados e à obtenção das preferências dos cidadãos
A última etapa, chamada Painel dos Cidadãos, reúne cidadãos selecionados aleatoriamente para avaliação de cada opção escolhida nas etapas anteriores.
O objetivo é fornecer aos cidadãos a oportunidade de discutir e de avaliar as opções apresentadas e suas prováveis conseqüências, de acordo com seus próprios valores e preferências, além de aprender as técnicas e as facetas políticas num processo de tomada de decisão.
O painel é conduzido em seminário que pode durar vários dias, dependendo da complexidade do tema abordado.
O modelo de Painel dos Cidadãos proposto por Renn está apoiado num conjunto de condições especificadas na Tabela 3.
TABELA 3: Condições características do Painel dos Cidadãos-Método das Três Etapas. Estrutura Condições
Composição Seleção aleatória de cidadãos diretamente e não diretamente afetados. A porcentagem de cada um pode variar de acordo com o impacto potencial. Pode haver o envolvimento de grupos de interesse e funcionários públicos como ouvintes ou assistentes, não como participantes.
Tarefas Avaliação das diferentes opções de decisão, de acordo com os valores pessoais.
Claro mandato político para redigir recomendações para tomada de decisão legal.
Operação Realização de encontros contínuos.
Processo de educação dos participantes sobre as conseqüências prováveis de cada opção.
Incorporação das incertezas e das discordâncias entre as audiências públicas e videotapes.
participantes Facilitador externo, neutro e sem preconceitos. Baixo envolvimento dos patrocinadores
Organização Pagamento de honorários a cada participante para trabalhar como consultor de valores.
Comitê organizador local para facilitar o processo de convite.
Essas condições ajudam a assegurar um clima de trabalho que pode produzir resultados inovadores e compromissos viáveis.
A Tabela 4 apresenta a seqüência típica do Painel dos Cidadãos. TABELA 4: Seqüência típica do Painel dos Cidadãos-Método das Três Etapas.
Fases Atividades
1 Introdução das questões por meio de leituras e de vistoria.
2 Conhecimento básico adquirido nas de leituras; grupos de discussão; audio- visual; vistorias.
3 Apresentação dos conflitos de interpretação das informações por meio de audiências e de vídeos.
4 Introdução das opções de decisão por meio de leituras (não controversas) e audiências (controversas).
5 Estruturação dos problemas com respeito a cada opção através de sessão de pequenos grupos de discussão plenárias.
6 Introdução da Árvore de Valores e, se desejar, adição de valores na árvore existente.
7 Avaliação das opções obtidas por meio de questionários individuais e de grupos de discussão (registrados em formulários de resposta dos grupos).
8 Redação das recomendações por meio de grupos de trabalho e de sessões plenárias.
9 Articulação de recomendações nos relatórios dos cidadãos por um facilitador após o Painel dos Cidadãos.
10 Retorno do relatório dos cidadãos aos participantes (geralmente num encontro noturno após 2 meses).
11 Apresentação do relatório dos cidadãos aos patrocinadores, à mídea e aos grupos interessados.
Os recursos necessários são:
• Pessoal: facilitador com experiência na técnica. • Local: dimensões adequadas ao público previsto.
• Orçamento: recursos para elaboração de material didático, de divulgação das reuniões e de publicação do relatório.