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CHAPTER 6: DISCUSSION AND CONCLUSION

6.1 Main Findings

Muitos autores afirmam que a psicose infantil apresenta a mesma estruturação da psicose no adulto (KUPFER/PETRI, 2000; CALLIGARIS, 1989; COTTES, 2003). Acrescentam estes autores, contudo, que na infância nos defrontamos com uma problemática específica: um dos efeitos da eclosão de uma crise na infância é a obstacularização do desenvolvimento (JERUSALINSKY, 1989). Calligaris, como não se refere à categoria de desenvolvimento, faz uma observação aproximada, nos seguintes termos: na criança, estaríamos diante de algo que fracassa na própria constituição da psicose, o que pode promover o que ele nomeia como um quadro de estado crepuscular permanente. Cottes (2003) irá afirmar que o hiato entre as duas formas – psicose infantil e neurose infantil – é confirmado pelo fato de que, no primeiro caso, o termo infantil qualifica a estrutura – o que seria uma tautologia – enquanto no segundo se qualifica a forma clínica ou um período no formulário. A neurose infantil corresponderia a um tempo na neurose, enquanto a psicose na criança corresponderia ao próprio processo de psicose em um assunto que é a criança.

Cottes (2003) observa não ter encontrado nenhuma menção a diferenças essenciais entre as psicoses na infância e as psicoses na idade adulta nas indicações que Lacan dá a esta questão. Isto se confirma na leitura de Robert e Rosine Lefort (1997) que propõem uma unidade do campo da psicose. Lacan consideraria esta unidade de campo ao abordar os fenômenos observados e a estrutura da relação entre a fala e a linguagem na psicose, utilizando categorias nosográficas como crônico, psicose alucinatória e esquizofrenia, mas em nenhum momento invocando a categoria infantil. Em suma, Cottes parte da tese de que, para Lacan, haveria uma unidade estrutural do campo das psicoses na idade adulta como na infância41.

41

“In this regard, I have found no mention of essential differences between psychosis in childhood and psychosis in adulthood in the indications that Lacan gives on this question. To the contrary, in the discussion of the wolfboy, little Robert, about whom Rosine Lefort came to speak do Wolfboy, in Lacan's seminar of 1954, the outcome is that

As categorias nosográficas de psicose infantil e autismo surgem no contexto de solidificação do discurso científico. Como vimos, o tratamento conferido aos “anormais” não diferenciava as crianças que apresentavam deficiência ou debilidade mental das crianças que apresentavam uma relação atípica com a linguagem e com o outro. Atualmente, quando se fala da psicose na infância as discussões dizem respeito ao autismo e à esquizofrenia. A paranoia não produz dificuldades na relação da criança com o saber, nem uma visível desorganização corporal ou produção delirante, elementos que chamam a atenção daqueles que atuam junto à criança, particularmente médicos e educadores. Não há surto paranoico na infância, o que há é uma forma particular de operar com a linguagem que, de um modo geral, não produz obstáculos no que diz respeito à sociabilidade. Também se pode recolher da experiência clínica um dado importante: algumas crianças que se organizam segundo as linhas gerais da esquizofrenia podem produzir, com o tempo, um tipo de defesa paranoica. De um estado que chamaríamos crepuscular ou profundamente despedaçado em relação ao corpo e à linguagem, a criança pode estruturar uma relação com os objetos e o eu a partir de uma posição paranóica:

[...] Eric Laurent assinala que na infância domina mais o campo da esquizofrenia que o da paranóia , pois os fenômenos não se colocam tanto em termos de uma reconstrução delirante, mas em “como fazer função de órgão” [...] O gozo retorna de maneiras distintas no real para fabricar um corpo condensador de gozo (TENDLARZ, 1997, p. 18).

A noção de foraclusão do Nome-do-Pai, como vimos, opera como denominador comum que permite unificar as proposições no campo da psicose. Mannoni apresenta a posição psicótica, por exemplo, nos termos de uma não entrada em uma situação triangular:

O destino do psicótico se fixa a partir da maneira pela qual foi excluído por um ou por outro dos pais de uma possibilidade de entrada numa situação triangular. É isso que o destina a não poder jamais assumir qualquer identidade. Preso desde o seu nascimento num quadro de palavras que o fixam reduzindo-o ao estado de objeto parcial, é preciso, para que possa entrar um dia como sujeito no tratamento, que o sistema de linguagem no qual se

there is a unity of the field of psychosis, whether in child or adult, as to the observed phenomena such as the structure of the relation to speech and to language. One can note that in this lesson concerning a child subject, Lacan shows no reluctance to discuss very precisely the diagnostic, and he uses the nosographic categories of chronic, hallucinatory psychosis or schizophrenia, but at does he invoke the infantile categories. In sum, for Lacan there is a structural unity of the field of psychosis in adulthood as in childhood.” (COTTES, JEAN-FRANÇOIS.

Psychosis and the child teachings of Jacques Lacan: consequences for an Institution. In: Courtil Papers. Belgic,

2003).

encontra aprisionado se modifique de início. É em seguida somente que vai poder ser resolvido pela linguagem (MANNONI, 1987, p. 124).

A cura, para Mannoni, dependerá da maior ou menor possibilidade de introduzir a criança em um mundo ordenado a partir das interdições fundamentais: o incesto e a antropofagia. Não se trata aqui de cura da estrutura, mas da possibilidade de ocupar um lugar a partir do qual o sujeito possa enunciar sua palavra. Para Mannoni, como abordamos no primeiro capítulo, é fundamental o questionamento de um tipo de relação perversa que se institui socialmente com a palavra do psicótico. A interdição, nesse caso, diz respeito à própria instituição. É da castração da instituição que se trata. Retomaremos essa discussão adiante.

Jerusalinsky (1996) analisa os fenômenos elementares da psicose (levando em conta a criança), organizando-os nos eixos da linguagem, da percepção, do corpo e da motricidade. Vejamos o que encontramos nessa apresentação da questão e os pontos que já elencamos na abordagem da psicose segundo a Psicanálise.

2.7.1 Linguagem

No que diz respeito à fala, Jerusalinsky aponta a fala dessubjetivada. Na esquizofrenia o sujeito fala, fala, mas as palavras são vazias: “o que diz está esvaziado de significação, é uma espécie de esvaziamento da linguagem” (JERUSALINSKY, 1996, p.155). Na paranoia, aparece o delírio ou a alucinação auditiva, sob a forma de uma linguagem plena: “alguém fala para o sujeito e diz tudo o que precisa ser dito, fecha o sentido com um mandato” (op. cit, p. 155). Jerusalinsky fala de um paciente que, num cinema pornô, escuta a voz de seu pai: “saia imediatamente daí de olhos fechados”. O Outro comparece aí numa posição de controle – sem barra – sobre seus pensamentos e sua vida erótica. Indicaríamos aqui a posição do sujeito na alucinação, como bem precisa Neusa Souza:

Um dado comum perpassa todas as formas das alucinações verbais: é a queixa do sujeito de ouvir. Ouvir aqui designa uma atitude receptiva com a qual o sujeito acolhe as palavras sem que ele queira ou espere. Ouvir aqui não implica de modo algum na percepção de um som, [...] mas numa atitude receptiva, e a atitude receptiva em relação às palavras é ouvir. As vozes, ameaçadoras ou protetoras, a incentivam ou a ridicularizam o sujeito, comentando seus atos e pensamentos ou antecipando-os. As vozes evidenciam uma dimensão essencial da experiência da loucura: a posição de exterioridade do sujeito em relação ao conjunto do aparelho da linguagem. É dessa posição de exterioridade que o

sujeito testemunha que uma linguagem que está fora, que se forma no Outro, fala sozinha e impõe suas leis (SOUZA, 1991, p. 25).

Essa relação com a linguagem equivale à posição que o Outro ocupa na psicose: posição invasiva, de apropriação do sujeito, que fica então à sua mercê. Esta posição do Outro podemos ver no delírio de Schreber, em que Deus lhe manipulava os órgãos, usava seu corpo como se usa uma carcaça e queria assassinar sua alma. Para Schreber, o plano de Deus era assassinar sua alma e violar seu corpo. O médico que o acompanha, Fleschig, passa a ser incluído neste sistema: Fleschig, com Deus, planejam seu assassinato e sua violação. O surto é o momento em que o sujeito se encontra à mercê, objeto deste Outro que lhe manipula, retira seus pensamentos, comenta seus gestos, xinga, faz operações no corpo... A paranoia é paradigma deste Outro ameaçador, persecutório, o que aparece nos envenenamentos dos quais Van Gogh se dizia objeto e também nos comentários maldosos de todos que estavam contra ele:

Parece que corre entre as pessoas daqui uma lenda que as faz ter medo da pintura, e que na cidade andam falando nisso. Bom, eu sei que na Arábia é a mesma coisa, e contudo temos um monte de pintores na África, não é verdade? [...] O que prova que com um pouco de firmeza podemos modificar estes preconceitos, ou ao menos continuar pintando ainda assim. O mal é que estou bastante propenso a me deixar impressionar, a sentir eu próprio as crenças de outrem e a nem sempre questionar o fundo de verdade que possa existir no absurdo. [...] Tendo já ficado mais de um ano aqui, tendo ouvido falar praticamente todo o mal possível sobre mim, sobre Gauguin, sobre a pintura em geral, por que eu não aceitaria as coisas tais como são, enquanto aguardo a partida daqui? (VAN GOGH, 2002).

O Outro tirânico é a apresentação mesma do que seria a nossa relação com o outro se não houvesse uma separação elementar, fundamental, que faz com que, por exemplo, eu acredite que meu pensamento não pode ser ouvido por ninguém. Assim como o sujeito pode ser manipulado, escutado, roubado no que lhe é mais íntimo, também suas próprias palavras podem ser tomadas como vindas de fora. A alucinação verbal, as vozes, são palavras ou frases ouvidas, vindas de fora, e que têm essa particularidade de serem intrusivas. Na psicose, o mundo faz barulho, um barulho infernal, “uma espécie de zumbido infernal, verdadeira zorra, rumor aturdido do significante onde nem mesmo os objetos inanimados são poupados de fala: '...os objetos falam... quando tá tudo bem, meu querido... e quando não, veado, veado! A imagem de Cristo fala: não fume...”. (SOUZA, 1991, p. 26). Van Gogh, depois do que chamava de crises, diz encontrar ainda “vestígios da superexcitação precedente em minhas palavras, mas isto nada tem de surpreendente

já que nesta boa região tarasconesa todo mundo é um pouco doido” (VAN GOGH, 2002). Tomado por palavras e timbres que parecem vir de um Outro, diz falar como as arlesianas:

Quando eu saí do hospital com o bom Roulin, eu imaginava que não tinha tido nada, somente depois é que percebi que eu estivera doente. O que você quer? Há momentos em que eu fico tomado pelo entusiasmo ou pela loucura ou pela profecia como um oráculo grego em seu trípode. Tenho então muita presença de espírito com as palavras e falo como as arlesianas, mas sinto-me tão fraco com tudo isto (VAN GOGH, 2002).

2.7.2 Percepção

A ênfase, neste ponto, recai sobre as alucinações. Na esquizofrenia a percepção produz a alucinação, sobretudo visual, referida a um objeto delirante. Na paranoia os objetos persecutórios se apresentam, mas não necessariamente são vistos ou escutados: sua instalação é discursiva e apoiada na certeza. Se um paciente fala de microfones instalados na parede (porque alguém o escuta), ele não os vê, mas sabe que estão lá (JERUSALINSKY, 1996).

Se observamos a posição do sujeito na alucinação e sua relação com a posição do sujeito em relação ao conjunto da linguagem, gostaríamos de enfatizar agora a referência de Jerusalinsky às alucinações visuais na esquizofrenia. Em relação à criança essa é uma especificação importante, pois tanto na bibliografia como na nossa experiência, encontramos indicações de que a criança é confrontada com objetos atados à ordem visual:

As alucinações são mais difíceis de captar [...]. Não obstante, numerosas descrições permitem supor sua existência – como as de Alex, que tampa abruptamente seus ouvidos, ou as de terror descritas por Emilio Rodrigué em uma criança autista. Esta última, de três anos, apresentava dois tipos de alucinação: visões que o atraíam ou que o aterrorizavam. Rodrigué observa: compreendi que estava escutando algo que vinha da direção do teto, a maneira com que olhava para cima e prestava atenção era inequívoca. Também parecia estar vendo coisas projetadas no teto, porque seguia com os olhos a órbita invisível de um objeto. O olhar de medo e seus gestos bruscos aos perscrutar os lados levam o analista a considerar a presença de perseguidores, mas a criança não delira em nenhum momento. Em um segundo momento do tratamento, Raul responde a estas alucinações escondendo-se ou procurando desvencilhar-se delas, como, por exemplo, fazendo gestos para que algo saísse pela janela (TENDLARZ, 1997, p. 20).

Uma das crianças do nosso estudo se refere insistentemente a “sonhos” que tem quando está em casa ou a situações em que “aparece” um babau. O babau é o significante comum a 148

vários objetos que são aí descritos: babau-carrinho (com pés de rodas), babau-água, babau-fogo... Outra criança apresenta reações fóbicas diante de alguns seres, como baratas, cachorros, gatos. Poderíamos pensar: ah, mas quase todas as pessoas apresentam reações parecidas... Mas a diferença é a reação desencadeada – a criança fica terrificada, o corpo treme e segue em qualquer direção – e o fato de que esses seres parecem se localizar no real. Sua aparição causa perplexidade. Interrogamo-nos se não estaríamos aí num momento primitivo em que alguns objetos ficam sem “imagem”, sem inscrição, e se justamente esses objetos não serão aqueles que irão retornar colocando o sujeito em posição de trabalho. Refiro-me ao trabalho de completar o que surge aos pedaços, como as frases “cortadas” que se impõem nas alucinações verbais:

O mundo se transforma num vasto lençol de hieróglifos. A palavra que perde o sentido torna-se signo, representa algo para alguém, algo enigmático que é preciso interpretar, algo que força, coage, obriga a decifrar. Tudo se torna signo: gestos, sensações, atos, fatos, olhares, falas, escritos. Entretanto, na psicose está em falência a propriedade mesma de significar em consequência do desastre que impossibilitou a construção da metáfora paterna e o advento da significação fálica. Aqui, nenhuma significação é dotada de consistência para barrar o movimento incessante que obriga compulsivamente a pensar. “Eu não paro de pensar, dizia Ella, 'penso demais, tudo, penso qualquer coisa...” (SOUZA, 1991, p. 22)

Nos estudos observaremos a particularidade do comparecimento das alucinações visuais na criança.

2.7.3 Corpo

Ao abordar o corpo, Jerusalinsky retoma a diferença entre esquema e imagem corporal. A imagem é provocada pelos efeitos do simbólico sobre o imaginário. O real se refere ao impossível enquanto limite corporal, enquanto impossível lógico e enquanto impossível ético. O esquema corporal reconhece os limites provocados pelo registro do real orgânico (um membro pode quebrar se o torcemos além de certa medida, corremos até um certo limite de velocidade etc.), registro que somente é possível quando o campo da palavra o diferencia, distinguindo então real, simbólico e imaginário. As perturbações no nível do simbólico produzem transformações no nível da imagem corporal, conferindo ao corpo o estatuto de objeto delirante. Se o que claudica na simbolização, na esquizofrenia, é o olhar do outro como “unarizante” (JERUSALINSKY, 1996, p. 159), a consequência é a fragmentação no nível da imagem corporal.

Aprofundando a indicação de Jerusalinsky, retomemos a proposição lacaniana de que o imaginário é o registro que responde pelas imagens e pela libido. É o registro responsável pela imagem corporal na medida em que a relação com a imagem é sustentada fundamentalmente pela forma e consistência do corpo. É nessa medida que o corpo do qual falamos não equivale ao corpo de uma perspectiva biológica, pois aqui o corpo é uma construção que articula o real da pulsão à sua amarração simbólica – o que tem como efeito uma “imagem do corpo”.

O estágio do espelho é uma experiência em que, a partir da captura de uma imagem refletida, o sujeito apreende a si como um outro. É como “fora de si” que o ser humano apreende a si mesmo como algo passível de assumir uma imagem e também uma localização. Imagem que fascina – como Narciso –, que captura o investimento libidinal e institui toda a erótica e a agressividade das relações do eu com o semelhante. O júbilo que acompanha o reconhecimento da própria imagem no espelho se relaciona com a cobertura imaginária da experiência de fragmentação e descoordenação motora da criança. A imagem cumpre assim a função de antecipação de um amadurecimento que não é mais do que uma ilusão de plenitude, de acabamento, de unidade. O eu joga com essa imagem alienada de um outro uno que se coloca por cima de uma experiência de precariedade e insuficiência. Por isso falamos dessa função de cobertura que confere unidade à dispersão das pulsões parciais.

O estágio do espelho, embora tenha sido proposto por Lacan como uma “aventura” que ocorre por volta dos seis meses de vida, assume seu mais alto valor não como etapa de uma genética necessária ou natural, mas como paradigma das relações do sujeito com o semelhante. A ambivalência encontra aqui sua figura, marcando a experiência humana por uma tensão fundamental entre o caos das pulsões e o fascínio da imagem. Esse é o registro do “eu ou o outro”, da vida de um e morte do outro, da intrusão e exclusão. O filme Cisne Negro (2011) nos mostra como funcionam as coisas nesse reino: a emergência de um implica no aniquilamento do outro, a vida de uma só é possível com a morte da outra. Essa dimensão mortífera do ou, ou só pode ser dialetizada com a entrada em cena do nem, nem. E é justamente neste ponto que se coloca a problemática da relação com o semelhante na psicose.

Estamos nos referindo à dimensão mortífera que pode predominar em uma relação onde o imaginário não pode ser dialetizado pela introdução da diferença, da falta, portanto, pela lei do desejo. Então estamos falando de um imaginário amputado de simbólico e que não joga com o real. De fato, não seria possível habitar a realidade sem a concorrência do imaginário, pois estaríamos fadados à impessoalidade da combinatória simbólica, onde o sentido não se

apresentaria. Observe-se que quando Lacan propõe três registros para ordenar a experiência subjetiva, não há prevalência valorativa de um sobre outro, mas certas consequências que podem ser apreendidas de acordo com os modos de enodamento dos registros. Nos interessa, particularmente, interrogar a experiência esquizofrênica e, nesse caso, o modo como o imaginário aí se apresenta.

Se, como vimos, na psicose não há um significante que opere como Nome-do-Pai, a experiência do sujeito fica sem ancoragem simbólica. A hipertrofia do imaginário, como também observamos, vem suprir essa carência. O surto é o momento em que essa compensação não se mantém à altura, não consegue mais dar conta de sustentar um mundo para o sujeito. Então, vejamos: a hipertrofia do imaginário, marcando a relação do esquizofrênico com a linguagem e a realidade, é um recurso da estrutura que permite ao sujeito habitar a linguagem em, dessa forma, construir um mundo. O desencadeamento da psicose, o surto propriamente dito, só advém quando esse recurso se apresenta insuficiente. A criança vai nos colocar diante de uma problemática específica: trata-se, aqui, de interrogar a possibilidade de construção desse recurso. Por isso muitos autores falam que a psicose na infância bloqueia a possibilidade de desenvolvimento e de aquisições básicas no campo da linguagem e do saber. Não estamos lidando aqui com um sujeito que manteve-se estável com seu recurso e, por volta dos 21 anos, vive o fracasso desse recurso. Aqui é da própria construção do recurso que dependerá a possibilidade de habitar, do seu modo, um mundo.

2.7.4. Motricidade

Na esquizofrenia comparece uma gestualidade imitativa (em espelho) e o delírio motor, o que se apresenta na passagem de um objeto a outro, sem se deter em nenhum, sobretudo na criança que está pouco iniciada nos recursos linguísticos. No adulto este mesmo funcionamento toma a forma do delírio taquilálico, que indica uma fala acelerada e sem intervalo. Na paranoia, há uma alternância entre a ação agressiva e a passividade, resultantes da posição do Outro (ora o sujeito está identificado ao Grande Outro não barrado, ora é objeto de sua invasão).