Analise-se a relação que Gonzaga mantém com seu compadre Romualdo de Araújo. O descendente do fundador do Rio vive em casa aristocrática, que embora pertencente a uma família em decadência, ainda é capaz de impressionar o narrador pela amplitude dos cômodos e pela opulência dos móveis. Romualdo mora no subúrbio, em habitação dividida em duas. Gonzaga é oficial da Secretaria dos Cultos, ao passo que Romualdo, mesmo que funcionário
65 da mesma repartição, é servente. O protagonista romanesco possui um amplo patrimônio intelectual e uma consciência apurada do funcionamento do sistema social, enquanto seu compadre encontra-se alienado diante de sua posição de explorado. Em suma, relacionam-se dois homens “tão diferentes de condição e educação” (VM, p. 605), porém partilhantes de uma amizade profunda.
Como vimos em nosso primeiro capítulo, o desnível social é exigido pela prática do favor, que na primeira fase de Machado de Assis, tanto pode conduzir o dependente à classe de cima, quanto pode se transformar em barreira intransponível para o beneficiado que sabe bem o seu lugar de parte fraca. Há também uma distância social entre os dois compadres do texto barretiano, e, de fato, não se pode dizer que o favor inexista no romance, pois Romualdo é protegido de Gonzaga, como logo depois será o pequeno Aleixo, que após a morte do pai, é adotado pelo padrinho como se fosse seu próprio filho.
O oficial assume assim a função de protetor de pessoas em posição social desfavorecida. Na relação, o protagonista de Lima Barreto acaba se ligando a uma figura que em nada se aproxima de seu perfil individualista, como se sabe, recusante da posição de chefe de família. Romualdo não conta nem com o passado familiar que dá certa segurança a seu compadre, nem se oferece como herdeiro intelectual, ocupado que está com as obrigações cotidianas de pai de família. Em outras palavras, Romualdo não é dono de nenhum dos requisitos que fizeram com que Gonzaga se decidisse a não tomar parte na família burguesa. Ao contrário do outro amigo da personagem principal, Augusto Machado, o pai de Aleixo é um típico chefe familiar, de família desfavorecida, de esposa e filho de cor.
O temperamento original do biografado não encontra nenhuma ressonância em seu compadre, que aparece como personagem mais associada à rotina social. Apesar do aparente afastamento, o texto mostra que a relação entre os dois é mais antiga que o próprio compadrio católico, que aparece para legitimar uma ligação que já existia antes. Basta mencionar que a personagem principal se apresenta como agente de inserção do servente. Mesmo não querendo casar, o filho dos Sá prepara o matrimônio de Romualdo, reconhecendo que ainda pode haver um caráter dignificante no casamento, se o caso for o homem desprovido, que não dispõe da sustentação de atributos intelectuais ou não conta com um tronco familiar de quatrocentos anos. O sujeito narrativo, que não é casado e se declara inimigo do namoro, não duvida das razões do seu herói, encarando a união oficial entre as pessoas humildes e de cor
66 como proteção de situações sociais nada honrosas. Leiamos a passagem abaixo, resultado das ilações de Augusto acerca da sogra de Romualdo, no velório deste:
A gratidão devia ser grande. Aquele homem agora morto lhe dera as mais gratas satisfações de sua vida humilde. Casara com a filha, apoiara com o seu prestígio de homem a sua fraqueza de condição de menina, arrebatara-a ao ambiente que cerca as raparigas de cor, dignificara-a, ela, a quem quase todo o conjunto da sociedade, sem excetuar os seus iguais, admitem que o seu destino natural é a prostituição e a mancebia (VM, p. 609).
A introdução da pessoa de origem modesta, mediante práticas de aceitação social, imobiliza momentaneamente a indisposição do livro contra o casamento. Todavia, explorando outros desdobramentos do romance, o que se destaca é um substrato paternalista aproveitado com desvios, mais do que uma simples reconciliação com o que a personagem principal rejeita. Neste sentido, pese-se a pessoa do padrinho, que acaba encabeçando a relação sozinho, sem o par feminino que a tradição católica e patriarcal exigiria. Popularmente, até hoje, costuma-se dizer que compete ao padrinho e à madrinha ampararem os afilhados caso os pais biológicos faltem. Há uma função de segundo pai e segunda mãe que envolve tais figuras, que constituem um núcleo familiar simbólico a testemunhar o nascimento de um outro , amparando sua formação. Gonzaga não se exime desta tradição, entretanto, exercendo- a sozinho, como se não existisse a madrinha. Escolástica se torna protetora da criança, mas a alcunha de madrinha não lhe é atribuída uma única vez na narrativa, como se fosse preciso desviar o texto do que pudesse remeter a um modelo mais canônico de organização familiar. O caso é recorrente nos textos de Lima. Policarpo Quaresma (TF, 2006) também exerce sozinho sua função de padrinho, tal como Marramaque (CA, 2006), na ampla linha de heróis solteirões dos romances de Lima.
As heranças patriarcais se fazem presentes ao inserir o dependente nas relações de proteção típicas do sistema, mas com considerável refração, pois o protagonista não é senhor de família convencional e nem o favor possui força de obrigação recíproca entre beneficiador e cliente. Isto quer dizer, pois, que Romualdo não tem nada a oferecer a seu compadre. Principalmente porque não é objetivo de Gonzaga manter prestígio ou posição política, muito menos, garantir um número extenso de protegidos, em sociedade em que a quantidade destes é status de poder. No Brasil paternalista, estar cercado de grande número de parentes, amigos, afilhados, agregados significa garantir um vasto círculo de aliados, conforme expõe Eni de Mesquita Samara (1983, p. 14).
67 A personagem que nomeia a ficção não quer ser pai, mas aceita ser compadre e padrinho. Não há prejuízo para a organização artística, pois a decisão segue a mesma trilha das observações que expusemos há algumas páginas. Recorde-se que se argumentou sobre o perfil moralizante de uma aristocracia cujos representantes aparecem solitários, como a figura de D. Pedro II, admirada por Gonzaga pela iniciativa de intelectualizar os protegidos. Existem permanências desta mesma visão no fato do filho dos Sá cuidar desinteressadamente do seu compadre e do seu afilhado, com a ressalva de que sua dedicação se concentra de forma especial no indivíduo de cor. Relembre-se o velho Inácio, agregado desde sempre da casa das encostas de Santa Teresa. Do mesmo modo, o menino Aleixo Manuel, que pelo lado materno é tão mulato quanto o narrador Augusto Machado. Este, a despeito de não ser um amparado no sentido material, apresenta-se como herdeiro intelectual, já que é Augusto quem conta a história, quem está mais próximo da fortuna do pensamento e do passado de seu herói, ainda, para quem o oficial da Cultos deixa seus livros depois de morrer.
Sobre o apadrinhamento, que envolve a figura de Aleixo Manuel, é necessário distanciar um pouco a postura do narrador da de Gonzaga de Sá, considerando que os dois não esboçam precisamente a mesma visão acerca do futuro do menino.
Ainda que não se dê bem com os padrões sociais, o descendente de Salvador de Sá não faz papel de conservador, pois à medida que se volta ao passado, ele também não deixa de crer no futuro. Gonzaga admira a topografia do Rio de Janeiro, a fisionomia própria da cidade que não parece com nenhum lugar do mundo e só possui a obrigação de ser como ela mesma, fugindo do perigo da uniformização dos centros urbanos dos Estados Unidos (VM, p. 577). Mesmo amando o perfil individualista da cidade, o relevo de morros que faz com que o deslocamento entre pontos próximos da urbs carioca acabe exigindo bastante tempo, Gonzaga acredita que no futuro, com a abertura de túneis e com a aviação (VM, p. 578-579), os inconvenientes de um Rio isolado entre seus pontos serão sanados.
A cultura, sob a perspectiva de Gonzaga, também pode ser um agente libertador. Ao criticar o absurdo das teorias racistas, ao elegerem raças inferiores, o protagonista ressalta que se as vítimas do cientificismo tivessem mais cultura, teriam força para argumentar em defesa própria. Este, aliás, é o ponto-chave que afasta a voz do biógrafo da de seu mestre. Para o narrador, a iniciativa do Padrinho, que quer fazer com que o Afilhado derrube as barreiras
68 sociais por meio da instrução e da educação, apenas serviria para avolumar os infortúnios interiores do pequeno órfão.
A postura do sujeito narrativo sobre Aleixo parte de uma interpretação bem próxima da que ele faz de si. Para Augusto, a educação possui o caráter de fundadora de inadequados que não conseguem inserir-se socialmente, tal qual ocorre na anedota do escriturário que vai estudar as línguas sagradas na Europa e, quando retorna ao Brasil, tem de se contentar com o isolamento intelectual em emprego burocrático. Sem ser arrivista, sem ter coragem para atropelar a moralidade, sem a ignorância filosófica do homem médio, o destino do eu é o afastamento do mundo. De acordo com a personagem-narradora, a situação de solidão de quem tem consciência de suas desventuras ainda pode favorecer a separação entre o indivíduo e a família, como se vê na citação abaixo, na qual o biógrafo fala de si, motivado pelas figuras com as quais se depara em um bonde:
Gente fácil de rir, pensei eu. Enfim, o riso brota de acordo com a inteligência de cada um. O “subúrbio” já estava em movimento. Deixei de observar os quatro curiosos personagens, virei o rosto e, pela portinhola, pus-me a ver a paisagem, os morros altos e azulados, o verde-claro das campinas, o verde-escuro das encostas, as fagulhas de luz, as hastilhas de alegria no ar, as palmeiras melancólicas... Um dia viria que tudo isso havia de fugir dos meus olhos... Por que não sou assim como aquele barrigudo senhor, inconscientemente animalesco, que não pensa nos fins, nas restrições e nas limitações? Longe de me confortar a educação que recebi, só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado, dando-me ódios e talvez despeitos! Por que ma deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! se eu pudesse apagá-la do cérebro! Varreria uma por uma as noções, as teorias, as sentenças, as leis que me fizeram absorver; e ficaria sem a tentação danada da analogia, sem o veneno da análise (VM, p. 602).
Deve-se mencionar que apenas algumas linhas depois do trecho supracitado, continuando as digressões sobre si, o amanuense muda de opinião, inocentando a educação de causar seus sofrimentos: “Os culpados do que eu sofria não eram minha educação nem a minha instrução. Era eu mesmo” (VM, 602), afirma. Entretanto, à medida que o narrador se projeta na figura de Aleixo Manuel, ele vai mostrando que não se convence totalmente de suas últimas palavras. Ao observar o filho de Romualdo, Augusto sente muito de si no menino, como aquele que pelo perfil inteligente promete muito, mas que no futuro acaba se desiludindo do mundo, com grande contribuição da cultura recebida. Na última página do romance, sua conclusão mostra a falta de certeza ante a mudança de opinião exposta acima. Com a educação, é inevitável que Aleixo receba uma dose de autoconsciência que o tornará infeliz. Indica-o a passagem que se segue, sobre o destino do menino após a morte do Padrinho:
69 A tia levou o menino até o fim, com todo carinho e abnegação.
Bênçãos a ambos, que, na sua missão educadora, souberam ser bons, sem interesse e sem cálculo de espécie alguma, apesar de todos os dois terem concorrido para ampliar, com o hábito da análise e da reflexão que o estudo traz, a consciência da criança que devia ficar restrita aos dados elementares para o uso do viver comum, sem que viessem surgir nela uma mágoa constante e um fatal princípio permanente de inadaptação ao meio, criando-lhe um mal-estar irremediável e, conseqüentemente, um desgosto da Vida mais atroz que o pensamento sempre presente da Morte! (VM, p. 634).
O filho dos Sá, ao contrário, já se mostra mais otimista no que diz respeito ao Afilhado, como se disse, ele acredita no futuro e na cultura mais do que seu herdeiro intelectual. Como padrinho, resolve encaminhar seu protegido na vida, embora a atitude acabe ficando nas mãos da tia Escolástica, por causa da morte de Gonzaga. Ainda assim, promete fazer de Aleixo Manuel um Tito Lívio de Castro5, ao passo que Augusto Machado não consegue esconder uma nota pouco esperançosa acerca do compromisso assumido por seu mestre. “Eu tive um pensamento aziago e, de mim para mim, perguntei: Viveria Gonzaga para tanto? Valeria a pena?” (VM, p. 617), questiona.
Contudo, não é da boa intenção da personagem principal que Augusto duvida, antes, do tipo de sociedade que receberá Aleixo, como espaço que não deixa chances para que o indivíduo ascenda mantendo a dignidade. Na visita que o sujeito narrativo faz com Gonzaga ao teatro Lírico, o biógrafo reconhece que a matriz de suas angústias tem outras causas além do preconceito de cor, pois o seu mesmo sangue, ele vê correr por aqueles que formam a alta roda da sociedade nacional. Acresce que a mesma elite tinha atingido posições por desrespeitar quaisquer preceitos morais, sem se importar com as mulheres, com os pobres e com os imigrantes que seriam sacrificados pelo caminho. O narrador então se revolta contra a sua incapacidade de proceder da mesma forma, porque ele ainda possui um norte de conduta que o faz conservar os escrúpulos que a gente poderosa não possui. Eles “tiveram coragem, enquanto eu... Oh! Algumas vezes por aí, umas pândegas e muito álcool!” (VM, p. 629).
Resulta daí, que Augusto duvide que Aleixo, que já mostra grande capacidade para os estudos aos oito anos, chegue a confirmar as esperanças de um futuro promissor. Além da barreira da cor que sempre perseguiria o menino, para alcançar posições o Afilhado teria de
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Tito Lívio de Castro (1864-1890), médico e ensaísta, destacou-se por suas posturas sobre a situação do negro, da mulher, da educação. Vítima de racismo por ser mulato, sofreu muitas injustiças ao longo de toda a vida. Ainda assim, sua sensibilidade para o pensamento social e filosófico foi capaz de lhe conferir algum respaldo, embora não o tenha livrado do temperamento melancólico e da morte prematura, apesar do otimismo de Gonzaga. Consulte-se o estudo de Ana Maria Araujo de Almeida (2008), sobre o referido pensador.
70 descer tão baixo quanto os poderosos do Lírico, hipótese que nunca se confirma nas previsões para a criança, que para o biógrafo, seria sempre um afastado dos lugares de prestígio. O sujeito narrativo interpreta Aleixo como devir de si mesmo, portanto, um futuro incapaz de pactuar com as práticas que trocariam a dignidade pela posição de destaque. Contemplar o menino para o amanuense torna-se momento de encontro consigo mesmo, com seu próprio passado de promessas e choques com o meio hostil. Comprova-o a citação seguinte:
Vendo aquela criança, não sei que longínquas lembranças da minha infância me vieram. Eram as esperanças da minha iniciação nas coisas obscuras do alfabeto. Eram os afagos e espantos da minha professora; eram também os dolorosos desenganos desta minha mocidade irrequieta e desigual... Não viu o que invocava em mim aquela criança, com a sua rígida fronte inteligente e a sua forte e redonda cabeça de homem de caráter! (VM, p. 630).
Mediante tal perspectiva, o apadrinhamento, prática típica da tradição patriarcal brasileira, vê-se questionado em um de seus traços mais significativos, ou seja, seu papel de inserção do protegido na sociedade. Ao realizá-lo, o romance livra a relação de seu caráter de contrato, cordializando-a e, ao mesmo tempo, desagregando-a por passar a significar a família como núcleo formador de inadequados. Se não insere o sujeito, o entrecho de Vida e morte também livra o compadrio de seu sentido interesseiro, cuja representação bem paradigmática na literatura nacional nos é dada por Machado de Assis (2008, p. 535-540), no conto “O caso da vara”. No texto, o afilhado Damião não passa de legitimação da aliança entre o pai, senhor patriarcal, e o padrinho João Carneiro. No conto machadiano, o apadrinhamento está livre de razões mais desinteressadas, visto que João Carneiro se encontra moralmente descompromissado com o afilhado, tendo como preocupação básica não se indispor com o compadre, do qual depende.
Desviando-se relativamente do substrato patriarcal, o livro de Lima também acaba por fundar um paternalismo mais fraterno, afetivo na medida em que esquece o interesse e elege a sinceridade do compromisso que não é negócio. “Os protetores são os piores tiranos” (DI, 2006, p. 1213), escreve Lima Barreto, ao que tudo indica, referindo-se a seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto. Longe de defendermos o texto literário como caso de consciência de quem o escreveu, é curioso que apesar da aparente revolta pessoal do autor, o aspecto do compadrio e do apadrinhamento seja justamente o oposto na obra barretiana, repleta de padrinhos e afilhados se sacrificando uns pelos outros. Olga enfrenta a tirania política e do
71 matrimônio para interceder em favor do padrinho preso (TF, 2006). Marramaque acaba morto por tentar proteger a afilhada das investidas do lascivo Cassi Jones (CA, 2006).
Mas se por um lado o texto de Lima possui acento moralizante, por colocar um padrinho que age sem interesse, o oposto de João Carneiro, por outro, acaba pagando a um individualismo que deixa o protegido sem acolhida no meio social. A tradição da família extensa acaba redirecionada por tal tônica, aproximando Gonzaga, Augusto e Aleixo um do outro como representantes da linha de personagens sem conciliação com mundo, para as quais Osman Lins (1976) reservou a classificação de insuladas.
O protagonista, também um ilhado, afasta-se do narrador quando faz força para crer que seu isolamento não atingirá o Afilhado. A propósito, a posição de Gonzaga a este respeito não se restringe ao menino. Relembre-se que mesmo se recusando ao casamento, o descendente do fundador do Rio casa Romualdo de Araújo. A mesma reflexão pode ser tirada da sentença que Gonzaga repete quatro vezes para seu narrador ao longo do livro, “Vênus é uma deusa vingativa”, alertando o jovem amigo a namorar antes que se arrependa. O quadro se completa com a tentativa do Padrinho de dar um futuro a Aleixo, de o inserir, quando ele mesmo não quis colocações para si.
Para o homem sem recursos como Romualdo, com o mínimo de atributos materiais e intelectuais, sem raízes aristocráticas de quatrocentos anos, a família ainda pode representar um ponto de apoio. Para Augusto, a dívida contraída por se estar à margem talvez não valha as agitações interiores. O namoro, primeiro passo do ritual social de formação da família, antecedendo noivado e casamento (ARAÚJO, 1993, p. 97-124), apresenta-se como possibilidade de inserção do biógrafo, avolumando o individualismo de Gonzaga de Sá, que parece pouco disposto a querer criar um sujeito tão socialmente insulado quanto ele. Para Aleixo, há a esperança de seu padrinho de que o mérito conviva com a cooptação, o que acaba deixando, de forma bem tímida, a promessa de um futuro menos desigual, em que o eu encontra correspondência com a sociedade.
Assim, importa que a obra analisada traz a seu centro um traço significativo da tradição patriarcal nacional, ou seja, as relações de compadrio e apadrinhamento, sem que a ligação seja esvaziada criticamente. O apadrinhamento não entra no estoque de recusas do protagonista. Mesmo assim, é questionado como vínculo mais fraterno, quando mais livre de obrigações dadas à parte beneficiada, não salva o sujeito íntegro da incomunicabilidade com o
72 mundo. Em seu papel de protetor, Gonzaga sente o quanto custa sua posição singular e não quer que aqueles que lhe são próximos padeçam do mesmo isolamento. O oficial da Cultos, não obstante, encontra-se distante da esfera que garante futuro ao protegido, pois ele não mantém acordos com o estrato social de prestígio. Resta acreditar no mérito do Afilhado para conferir destaque, previsão na qual Augusto não confia.
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