No capítulo 4, discutimos as diversas dificuldades a que Barbará SA era submetida para a sua conti- nuidade operacional na cidade de Caeté após a Revolução de 1930. Caracterizamos suas dificuldades logísti- cas de expedição, que limitavam a empresa quanto ao cumprimento dos prazos contratuais assumidos, além das dificuldades adicionais, de abastecimento do ferro-gusa, que lhe eram impostas pelo Cartel Mineiro do Gusa. Mostramos, também, os tropeços industriais que lhe foram interpostos pelo mesmo cartel, quando Barbará SA se dispôs a adquirir o seu próprio alto-forno também na cidade de Caeté.
Baldome- ro Barbará não era um arrivato – um recém-chegado; provável “testa de ferro” de outros interesses - nas ati- vidades econômicas mineiras, como pareciam pensar, levianamente, os seus opositores: Euvaldo Lodi, seus mentores e seguidores, membros do Cartel Mineiro do Gusa. Encontramos uma forte indicação sobre esse engano no telegrama de J. Cavalier e M. Vicaire para PaM, no qual estes afirmam : “Informações sobre origem de Barbará são errôneas.” Ora, para aqueles negociadores de PaM, que pretendiam usar Barbará S.A .como massa de manobra para forçar melhores condições de negociação na aquisição do controle da Usina Gor- ceix, a situação que encontraram na usina daquela, em processo de desmontagem e transferência, era uma visão inesperada e surpreendente. Foram surpreendidos por uma avaliação irreal, induzida por informações errôneas sobre a pessoa e a organização industrial de Baldomero Barbará, informações essas que, certamen- te, tiveram origem no próprio Cartel Mineiro do Gusa.
Não temos conhecimento completo sobre as múltiplas atividades financeiras, comerciais e industri- ais desenvolvidas por Baldomero Barbará, mas podemos indicar que, em 1940, eram as seguintes as suas empresas e suas inversões de capital: 182
- Grande acionista do Banco do Rio Grande do Sul;
- Companhia Metalúrgica Barbará.- Usinas de centrifugação, em São Paulo e Barra Mansa;
- Cimento Monte Líbano – Cimenteira no Estado do Espírito Santo; arrendada a Barbará pelo governo do Es- tado do Espírito Santo e, posteriormente, adquirida por Barbará;
- Barbará & Cia. Ltda.
- Distribuidora de tubos, conexões, equipamentos para adução e distribuição de água,e equipamentos con- gêneres;
- Frigorífico de Uruguaiana– Na cidade de Uruguaiana, RS, exportando carnes enlatadas para o Japão;
- Indústria de estamparia - estamparia e galvanização de latas para acondicionamento de alimentos, no Rio Grande do Sul;
- Empresa Rural de Colonização- No Estado do Rio de Janeiro, com propriedades que se estendiam da região de Rodeio e Vassouras, até à região de Búzios;
- Concessionário das Loterias do Estado do Espírito Santo;
- Concessionário das Loterias do Estado de Minas Gerais;
- Concessionário da distribuição de leite na cidade do Rio de Janeiro
- Águas de Lambari – Concessionário do engarrafamento e distribuição de águas minerais na cidade de Lam- bari-MG, para os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo;
Sobre as duas últimas atividades de Barbará, tão marcantes elas eram junto à população servida, que forjaram um dito jocoso, na época, assegurando ser a cidade do Rio de Janeiro abastecida com “o único leite que já vinha com um peixinho dentro..” Esse dito, maldoso para alguns, de qualquer forma demonstrava a popularidade das atividades comerciais de Barbará. Aqui, a maledicência popular aproximava a sua conces- são para a distribuição de leite pasteurizado, com a distribuição da água mineral de Lambari.
Quando sentiu chegado o momento de deixar Caeté e transferir sua indústria de fundição centrifu- gada para outro local, impôs-se alguns parâmetros fundamentais, que seriam os norteadores das suas deci- sões futuras: 1)- O novo local deveria ser capaz de uma logística de expedição bastante eficaz; 2) o local de- veria atender aos requisitos de abastecimentos de insumos de forma direta e sem transbordos; 3) o local de- veria estar próximo aos centros supridores de energia, e em particular do carvão vegetal, além de dispor de abundância de água, insumo essencial para uma indústria siderúrgica e da qual eram muito carentes em Cae- té.
O primeiro requisito já colocava o local desejável como situado ao longo da via férrea ligando Rio de Janeiro a São Paulo; não só porque aqueles eram os dois maiores centros consumidores dos seus produtos, mas porque também, através dessa via férrea alcançaria os portos de mar capazes de efetuar suas expedi- ções para os estados sulinos e nordestinos, bem como exportações para o mercado sul-americano. O segun- do requisito, conduzia às proximidades de Cruzeiro, no Estado de São Paulo, ou às proximidades de Barra Mansa, no Estado do Rio de Janeiro, tendo em vista que nessas duas localidades, além da linha férrea da EFCB, também chegavam os trilhos da RMV, de bitola métrica, pela qual o minério de ferro e o calcário, pro- veniente de Minas Gerais, poderiam ser transportados e recebidos.
Uma inspeção cuidadosa dos locais conduziu a escolha para uma região situada um pouco além da parada de Volta Redonda, e antes da cidade de Barra Mansa, no Estado do Rio de Janeiro. Eram as terras de uma fazenda, de nome Barra Mansa, situada às margens do rio Paraíba do Sul e na barra do ribeirão também denominado Barra Mansa; constituída por várzeas bastante altas, que não eram inundadas durante as cheias anuais daqueles rios; seu limite Oeste era a linha férrea da RMV que, vindo de Belo Horizonte, através Divinó- polis, Iguatama, Campo Belo e Barra Mansa, atingia o porto de Angra dos reis; o seu limite Norte era o rio Pa- raíba do Sul, e dentro desse limite ficava o traçado da EFCB que, vindo de Barra do Piraí, também ligava o Quadrilátero Ferrífero ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Muito embora as rodovias fossem, na época, estradas um pouco mais que carroçáveis, convém seja lembrado que a ligação rodoviária entre Rio de Janeiro e São Paulo – que no futuro próximo se transformaria na Rodovia Presidente Dutra - passava por Barra Mansa, en- fatizando a sua localização estratégica. Para a nova indústria, o rio Paraíba do Sul era importante e inesgotá- vel fonte de abastecimento de água para as necessidades da nova indústria que, em sendo siderúrgica, era forte consumidora desse meio de refrigeração, em seus equipamentos e processos.
A região era relativamente bem abastecida em energia elétrica, posto que a Usina de Fontes, do sis- tema Light, situada no sopé da Serra de Petrópolis, em direção ao Rio de Janeiro, não distava dali mais que 60 km. As matas eram abundantes na região, principalmente nas proximidades da Serra do Mar, em suas ver- tentes interioranas dos sertões de Angra dos Reis e de Bananal, na divisa com o Estado de São Paulo.
Era elevada a precipitação pluviométrica naquela região, donde uma regeneração mais rápida das matas, possibilitando a exploração florestal em termos muito convenientes para a prática de um carvoeja- mento sustentado.
Baldomero Barbará, por força das suas atividades distribuidoras de leite, conhecia muito bem essa região do Vale do Paraíba, onde adquirira sólida reputação de homem industrioso e negociador confiável. Dessa forma, em meados de 1936, apalavrou a aquisição das terras que lhe seriam necessárias, passando a
planejar e, depois, construir a nova usina, preocupado que estava com os problemas de logística de expedi- ção e do boicote que passara a sofrer quanto ao seu abastecimento de ferro-gusa.
Em junho de 1937, Baldomero contratara a realização do seu primeiro alto-forno com José Gerspa- cher, o que confirma que já havia, ao menos, apalavrado a aquisição da Fazenda Barra Mansa, cujo prévio contrato particular de compra e venda não nos é conhecido. A própria Companhia Metalúrgica Barbará, que aparece como “outorgada compradora” na escritura definitiva de compra e venda daquela fazenda, fora regis- trada em 23 de agosto de 1937, na JUCERJ, como nova razão social e adquiridora dos direitos e compromis- sos da extinta Companhia Brasileira de Metalurgia. 183 Contudo, são os depoimentos de José Vinciprova e de Jarbas Oliveira Carmo (ver Capítulo 4) que nos permitem situar o ano de 1936, como o de início da efetiva construção da usina de Barra Mansa.
Seria ilustrativo da capacidade e visão industrial de Baldomero Barbará o conhecimento exato dessa data, demarcando o início da construção da usina de Barra Mansa, da CMB. Eis que, somente cinco anos mais tarde, a Comissão Siderúrgica Nacional viria a confirmar aquele como o melhor sítio para a instalação da grande siderurgia no Brasil: Volta Redonda, sede da nova Companhia Siderúrgica Nacional. De qualquer mo- do, o acontecimento é ilustrativo da modernidade do pensamento industrial de Baldomero Barbará.