Resumo: É objetivo deste trabalho estudar a forma como o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) no exílio recebeu os apelos e movimentações políticas em torno da unidade europeia em 1948 e 1949 e perceber que modelo político defendeu para a unificação. Em Espanha, a ditadura de Franco sobreviveu ao desfecho do conflito. Tenta- se perceber a influência do estatuto de partido exilado e de oposição do PSOE na forma como se apropriará da ideia de unidade europeia. Conclui-se que o PSOE usa a construção europeia como estratégica de oposição à ditadura, mas vai além disso, mostrando-se partidário de um modelo federal e defendendo a integração de uma futura Espanha democrática. O discurso do PSOE clama por um internacionalismo socialista, vendo a federação como veículo de um socialismo a aplicar a toda a Europa, recebendo influência da social-democracia europeia nesta época, nomeadamente dos franceses.
Palavras-chave: socialismo, integração europeia, Espanha, federalismo.
Title: The United States of Europe between ideology and political strategy – the Spanish socialist opposition federalist acclamation in 1948-1949
Abstract: This work aims at studying the way the Spanish Socialist Workers Party (PSOE) in exile has conceived the political movement and claims to European unity in 1948 and 1949 and to understand what kind of political model has it defended for a European unification. Franco dictatorship survived the end of the war. We try to understand the influence of the status of PSOE as an opposition and exile party in the way it will perceive and develop the idea of European unity. We conclude that PSOE uses European construction as a political strategy for opposition to Spanish dictatorship, but it goes beyond, showing itself as a partisan of an European federation model and defending the integration of a future democratic Spain. PSOE discourse claims a certain socialist internationalism and sees federation as a means for applying socialism to all Europe. This is seen as an influence of European social democracy, mainly from France.
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Introdução
O pós Segunda Guerra Mundial será pródigo no ressurgimento do apelo à unificação europeia, que já se tinha feito sentir após a Primeira Guerra. Agora, a ideia de unidade ou os Estados Unidos da Europa, tão apregoados pela intelectualidade dos séculos XVIII e XIX, são definitivamente retirados das prateleiras literária e filosófica para serem acreditados pela política. Governos, partidos de oposição e agremiações cívicas reúnem- se num consenso sobre a necessidade de união. A isto não ficam alheios os partidos socialistas, mesmo os excluídos de participação democrática no seu país, como o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). 1948 e 1949, com a realização do Congresso da Haia e a criação do Conselho da Europa (CdE), presenciam um certo idealismo numa aspiração ambiciosa por uma federação europeia. Como recebe o PSOE, oposicionista à ditadura da Espanha de então, estas ideias e movimentações e como, ou será que, as insere numa futura democratização do país?
Para responder à questão, ter-se-á como base o discurso do PSOE no exílio, através de uma análise qualitativa ao seu jornal oficial, o El Socialista41, em 1948 e 194942. Daremos particular atenção às reações ao Congresso da Haia e à constituição do CdE, embora se considerem também algumas manifestações sobre a Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE), uma vez que também no seu seio se aventou a evolução para uma construção política através da colaboração económica. Existindo na documentação utilizada um considerável número de artigos de opinião que não estão assinados, assume-se que veiculam a posição do jornal e inerentemente do PSOE. Este estudo pretende contribuir para o aprofundamento do conhecimento sobre a relação do PSOE com a integração europeia, sobre os partidos socialistas e social-democratas europeus e a integração europeia, cujo posicionamento se caracteriza pela heterogeneidade43. A investigação nesta área está desenvolvida essencialmente no caso de partidos dos países fundadores das Comunidades Europeias, estando menos nos da Península Ibérica. Relativamente ao PSOE, existe alguma investigação, relativa ao período franquista, incidente na relação do partido com os congéneres e outras
41 Fundado em 13.03.1886, o semanário El Socialista é publicado desde Toulouse, durante o período em
que o partido está sedeado no exílio, evidenciando influência do congénere francês. Castillo, Santiago. “Spain”. In The Formation of Labour Movements: an international perspective, 1870-1914, ed. Marcel Van der Linden e Rojahn, Jurgen Leiden: E.J. Brill, 1990, 227.
42 Contam-se, nesse período, 59 notícias publicadas sobre projetos de cooperação europeia, entre elas 19
sobre o Congresso da Haia e a constituição do CdE e 23 que discutem a ideia de Estados Unidos da Europa.
43 Featherstone, Kevin. Socialist parties and European integration. Oxford: Manchester University Press,
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organizações europeias, abordando, de uma forma geral, a favorabilidade/desfavorabilidade do partido relativamente à integração europeia.44 Assumindo-se a posição europeísta do PSOE no pós-guerra, indiciada pelos estudos já realizados, pretende-se com esta análise detalhar a ideia do partido sobre a unidade europeia, nomeadamente, que modelo político preconizava para uma Europa unida. Atualmente, enquadramos o PSOE na família política da social-democracia europeia, que inclui os designados partidos socialistas, trabalhistas e social-democratas45. Traçaremos agora uma breve história e caracterização do partido.
Entre a prática social-democrata e a teoria marxista
É quase um século depois da sua fundação que o PSOE abdica da designação de partido marxista, no congresso extraordinário de 1979. Denotando a fraca influência do revisionismo de Bernstein em Espanha, foi sob a aura marxista que Pablo Iglesias e outros trabalhadores de tipografia fundaram o PSOE em 1886. A simplicidade teórica46 com que é fundado, ditará uma evolução que se fará sob uma espécie de compromisso tácito entre a retórica revolucionária e uma ação reformista47.
Depois de uma experiência colaboracionista com a ditadura de Rivera, o partido abandona a parceria para se aliar à coligação antimonárquica, que declara a Segunda República48, não sem registar dissidências internas. Pode resumir-se as três fações, direita, centro e esquerda, a duas principais: a moderada, liderada por Indalecio Prieto, com uma opção pragmática e revisionista, que defendia a aliança com os republicanos em defesa do liberalismo político, e a de esquerda, com Largo Caballero, mais dogmática, com enfoque
44 Mateos, Abdón. “Europa en la política de presencia internacional del socialismo español en el exilio”,
Espacio, Tiempo y Forma, 2 (1989): 339-358; Luxán, Adolfo de, e Alonso Puerta. El Socialismo Español en el Exilio y la Construcción Europea. Madrid: Fundación Acción Socialista Europea, Fundación Indalecio Prieto, 2003; Anaya, Pilar Ortuño. Los socialistas europeos y la transición española (1959-1977). Madrid: Marcial Pons, Ediciones de Historia, 2005; Sebastião, Dina. “Socialistas ibéricos e a unidade europeia no pós-guerra: 1946-1974”. Revista Portuguesa de História 45 (2014): 321-351. DOI: http://dx.doi.org/10.14195/0870-4147_45_14 .
45 Nem sempre a designação pode corresponder à caracterização ideológica, como no caso do português
PSD (Partido Social-Democrata).
46 Gillespie, Richard. The Spanish Socialist Party. Oxford: Clarendon Press, 1989, 16; Vilar, Pierre.
Historia de España. Barcelona: Crítica, 1978, 161.
47 Com nomes como Indalecio Prieto, Julián Besteiro e Fernando de los Ríos, que embora não abdicando
da terminologia marxista, defendem o parlamentarismo como via para as reformas socialistas. Gillespie, The Spanish Socialist Party, 17, 18. A tendência reformista incrementar-se-á a partir de 1921, com a saída dos ortodoxos para formar o Partido Comunista Espanhol.
48 Kennedy, Paul. “The Spanish Socialist Party.” In Spanish political parties, ed. David Hanley e John
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nas questões operárias, classificando os republicanos como dominados pela classe burguesa49. O partido entrará na guerra civil com estas tendências agudizadas.
A instauração do franquismo, a repressão e as dificuldades de sobrevivência no interior, levarão o PSOE a ser praticamente um partido de exílio, que também ultrapassará divisões, entre a fação do México e a de França, sanadas em 1948, sob a liderança de Rodolfo Llopis, da representação de Toulouse50. No exílio, o partido iniciará relações com a Internacional Socialista (IS), com partidos socialistas e social-democratas e grupos e instituições europeias que afastarão cada vez mais a sua prática da dialética marxista e o aproximarão da social-democracia51. No interior, emerge uma nova geração que vai reclamar representação nos órgãos executivos do partido, mas que o exílio resiste em conceder. Isto levará à divisão entre PSOE renovador e histórico. Uma separação de gerações, com a fação renovadora a reclamar maior conhecimento da realidade interna de Espanha, contrariando os exilados em que a queda de Franco se faria pela asfixia económica, pois a situação económica do país tinha evoluído muito desde a década de 5052. Com a mediação da IS, o diferendo resultou no reconhecimento do PSOE renovador53, que em 1974 elege Felipe González como líder e votará, no congresso extraordinário de 1979, a abdicação formal da designação de partido marxista54. Assumindo a sua característica de partido de centro-esquerda, e com uma atuação pragmática, o PSOE assumirá uma política europeia para Espanha, que começara a ser expressa nos tempos de exílio.
Testemunha do auge da exaltação da unidade europeia
Ao contrário do regime franquista, que no dealbar do pós-guerra era apartado do sistema internacional que se desenhava, com o afastamento da ONU e, consequentemente, do Plano Marshall e da NATO55, os socialistas espanhóis aparecem inseridos nos eventos e
49 Gillespie, The Spanish, 35, 38, 39. 50 Idem, 88, 91.
51 Cierva, Ricardo de la. La historia perdida del socialismo español. Madrid: Editora Nacional, 1972, 282.
Apesar disto, partido permanece relutante em renunciar ao marxismo. “And even in the post-Franco years, when gradually Marxism was played down, any suggestion that the party had become social-democratic remained an anathema to all but a few party members.” Gillespie, The Spanish, 219.
52 Sobre a divisão do partido e sua resolução ver Gillespie, The Spanish, 219-286.
53 Anaya, Pilar Ortuño. Los socialistas europeos y la transición española (1959-1977). Madrid: Marcial
Pons, Ediciones de Historia, 2005, 45-54.
54 Kennedy, The Spanish, 47, 48.
55 Telo, António José e Hipólito de la Torre Gómez. Portugal e Espanha nos sistemas internacionais
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organismos políticos de debate sobre a unidade europeia. O PSOE enquadrava-se no movimento dos socialistas, que, com o dos democratas-cristãos56, deu fôlego político à ideia de unidade europeia a partir de 1945. Indalecio Prieto, personalidade carismática e pragmática do partido, está presente e discursa no Congresso da Haia e na Conferência dos Partidos Socialistas da Europa, realizada em Paris, a 24 e 25 de abril de 1948, em que se aprova uma resolução para a constituição dos Estados Unidos da Europa57. Indalecio será uma das personificações europeístas do partido no exílio58.
Os diversos títulos do El Socialista59 deixam antever um partido que acompanha a
discussão sobre a unificação europeia que se começa a libertar do preconceito utópico e romântico de 700 e 80060. A abundância do debate europeu no El Socialista contrasta com a contenção da imprensa oficial do regime, concretamente nos momentos chave de construção da Europa, como a criação da OECE e da CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), uma estratégia simulada de Franco, para que o isolamento internacional espanhol passasse despercebido, pois, efetivamente, o regime interessava-se pela integração económica europeia, como via de atenuação das consequências da sua autarcia económica.61
Os textos em análise expressam o interesse da oposição socialista pela Europa, como palco de defesa dos valores democráticos e projeção do seu ideal para Espanha. Esta manifestação não se reduz a uma mera estratégia oposicionista, pois, como detalharemos a seguir, ela alarga-se a um sentido de pertença civilizacional, a um ideário socialista e internacionalista para o futuro de Espanha e da Europa. Mas que construção europeia
56 Ribeiro, Maria Manuela Tavares. A Ideia de Europa: uma perspectiva histórica. Coimbra: Quarteto,
2003, 57.
57 “La Conferencia Socialista europea se reunirá en París el 24 de abril”, El Socialista, 16.04.1948, 2;
“Intervención de Indalecio Prieto, presidente del PSOE, en la Conferencia de Partidos Socialistas”, El Socialista, 30.04.1948, 1;; “Conferencia Socialista Internacional”, El Socialista, 7.05.1948, 1;; “El Congreso de La Haya, un Gobierno de la España democrática podría participar en la Europa Unida – importante discurso de Indalecio Prieto”, El Socialista, 13.05.1948, 1.
58 D. José Carlos Gibaja, “España en Europa: la concepción europeísta de Indalecio Prieto durante el exilio”
In Luxán, Adolfo de e Alonso Puerta. El Socialismo Español en el exilio y a construcción europea. Madrid: Fundación Acción Socialista Europea, Fundación Indalecio Prieto, 2003, 63-96.
59 “Por la unificación de Europa” (dois artigos), “Orígenes del federalismo en Europa”, “Sobre la Unión
Federal de Europa”, “Hacia la creación de los Estados Unidos de Europa”, “Los Estados Unidos Socialistas de Europa” (3 artigos), “Los Estados Unidos de Europa han nacido”, “Es necesario crear un Parlamento europeo”, “Sobre los Estados Unidos de Europa”, “Un gobierno de la España democrática podría participar en la Europa unida”, “Serán una realidad los EE.UU. de Europa?”, “La Asamblea Europea de Estrasburgo” (3 artigos), “La Asamblea Europea ha terminado sus deliberaciones”.
60 Boer, Pim den. “Europe to 1914: the making of an idea.” In The History of the Idea of Europe, ed. Kevin
Wilson, Jan van der Dussen, London: The Open University, 1993, 75-77.
61 Cavallaro, Maria Helena. Los Orígenes de la Integración de España en Europa – desde el franquismo
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apregoa o El Socialista? Que ideia de Europa veicula o PSOE? Como insere ele a Espanha de Franco e pós-Franco num projeto de unidade europeia? Como definem os socialistas espanhóis esse projeto? Pelo título dos artigos publicados no jornal, podemos deduzir que o partido é a favor de uma unidade europeia. Porém, sendo diversas as formas de unidade, o que entender disso? “Federación hasta sus últimas consecuencias!” São as consequências e causas da ideia europeia na conceção socialista espanhola que procuraremos entender.
Estados Unidos da Europa: uma Europa dos povos plena é com a Espanha do povo
Na defesa de uma Europa que não se quer de Estados, nem de soberanias, os socialistas espanhóis irão defender a integração europeia de uma Espanha democrática, diferente da de Franco. Para a criação de uma Europa natural, uma nação de populações, de que fala Ortega Y Gasset, a Espanha do povo será imprescindível.
España, “piedra de toque de la unidad europea”62
O facto de Espanha não ter sido aceite no Plano Marshall, nem signatária do Pacto de Bruxelas, forneceu argumentos de oposição ao PSOE, exibindo a antítese do regime com a natureza democrática da Europa. “Solo una España con un régimen legal y democrático podrá beneficiar del plan Marshall.”63 A ideia de exclusão é reforçada em notícias seguintes64, a par de informações sobre o afastamento também do Pacto de Bruxelas, com realce para as declarações de Paul-Henri Spaak – “Todas las dictaduras, de derecha o de izquierda, están excluidas del pacto, y, por lo tanto, no puede admitir-se en él a la España franquista.”65 Ao vaticinar que “el régimen de Franco morirá por asfixia económica”66, a exclusão serve a tática política dos socialistas espanhóis.
Mas mais do que uma abordagem oposicionista sobre estes projetos de cooperação europeia, o partido manifesta a esperança de que o Pacto de Bruxelas e a OECE possam ultrapassar os seus prementes objetivos económicos e de segurança e serem o embrião de uma “unidad europea... también moral y política.” Em tal unidade, seria inadmissível a
62 Título de artigo de opinião. Gordlan Troeller, El Socialista, 11.11.48, 4. 63 El Socialista, 16.01.1948, 2.
64 Alguns exemplos: “España no será admitida en las conversaciones sobre el plan Marshall”, El Socialista,
20.02.48, 1;; “Lo que si creo, y en esto descansa mi esperanza, es que la España de Franco no entrará en el Plan Marshall, y si no entra, el régimen de Franco Morirá por asfixia económica”, El Socialista, 09.04.48, 6.
65 “Unas declaraciones de Spaak”, El Socialista, 23.04.1948, 4. 66 “Lo que si creo…”
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presença de uma Espanha ditatorial67, ao contrário da de uma democrática. Tal assunção implica outra: a de que a Espanha serve de “piedra de toque de la unidad europea”68, de “prova dos nove” da unidade europeia. Pela subjacência da democracia a um projeto de unidade europeia, Gordlan Troeller reivindica que a democratização de Espanha é essencial à plena unidade da Europa: “Si queremos que la lucha iniciada entre el totalitarismo y el federalismo sea ganada por éste, el régimen franquista, último obstáculo de la Europa occidental, debe ser sustituido por un Gobierno democrático.”69
Neste sentido, a luta pelo derrube da ditadura espanhola é responsabilidade de todas as democracias ocidentais. Só esse empenho indicará “si la Unidad Europea ha de ser una conglomeración de anticomunistas que el miedo y el oportunismo habrá temporalmente reunido en el mismo campo, o bien una asociación de pueblos libres que quieren sinceramente construir una unidad superior sobre la base del respeto de la personalidad humana.”70 É o prelúdio de uma Espanha do povo inserida numa Europa dos povos.
A Espanha do Povo na Europa dos Povos – reminiscências
No Congresso da Haia, Indalecio Prieto apoiou a resolução de bloquear o acesso da Espanha ditatorial a uma futura Europa unida. “Pero conviene distinguir entre esa España oficial, de estructura despótica, y el pueblo español, esencialmente liberal.”71 Esse que sofre da “no-intervención” e do “modelo de hipocresía de la comunidad internacional. (…) El pueblo español creía tener derecho a gozar del triunfo obtenido sobre el nazismo y el fascismo.”72 Espanha fazia permanecer a crise dos nacionalismos. O destronamento do nazismo no desfecho da Segunda Guerra não acarretou o mesmo destino para a Península, onde permaneciam regimes similares ao que traumatizou o século XX73. A cumplicidade da comunidade internacional para com Franco levou a “un olvido fundamental: el Pueblo español (...).”74
67 “La Conferencia Socialista Europea y la España franquista”, El Socialista,12.03.48, 1. 68 Gordlan Troeller, “España, piedra de toque de la unidad europea”, El Socialista,11.11.48, 4. 69 Idem, ibidem.
70 Idem, ibidem.
71 “Un Gobierno de la España Democrática podría participar en la Europa unida”. In El Socialista,
13.05.1948, 1.
72 Idem, Ibidem.
73 D’Appollonia, Ariane Chebel. “The European Nationalism and European Union” In The idea of Europe,
from antiquity to the European Union, ed. Anthony Padgen, EUA: Woodrow Wilson Center Press and Cambridge University Press, 2007, 179.
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Assistimos neste discurso do PSOE a uma instrumentalização política dos valores fundamentais de democracia. Será uma Espanha sujeita “al restablecimiento de la libertad y al apoyo del Pueblo”75 que poderá incluir a futura unidade europeia e completar a identidade do continente. “Una serie de motivos económicos, geográficos, históricos, culturales y políticos exigen la presencia en la comunidad democrática de Europa ... de una España democrática.”76 Mais do que uma opção, a integração seria para os socialistas uma consequência natural de uma Europa como a vê Ortega Y Gasset: “It was historical realism which taught me to understand that unity of Europe as a society is not an ideal but a fact of a very ancient everyday life.”77 Consonante com este ideário, está a atitude de Indalecio Prieto que, na Conferência dos Partidos Socialistas da Europa, dá o seu apoio ao projeto “la Federación de Pueblos Libres de Europa”78.
Aprendida a lição dos nacionalismos com duas guerras devastadoras, sedimentava-se a consciência de necessidade de uma união da Europa, “con objeto que esa agrupación internacional lo sea de pueblos auténticamente libres, y en ella encuentren su base y su modelo los futuros Estados Unidos de Europa (…).”79 Ou, novamente, como diria Ortega Y Gasset, uma grande “nação de populações continentais” que ressuscitarão “o pulso da Europa.”80 Vemos como o discurso do PSOE integra reminiscências dos ideais românticos num tempo de realismos e pragmatismos para a unidade europeia. Mas que modelo de união para esses povos concebe o partido?
Estados Unidos da Europa – que modelo de união?
O apelo de Churchill em 1946 galvanizou políticos e a opinião pública para a constituição de uns Estados Unidos da Europa. O termo, liberto das amarras utópicas, mas visionárias, de Victor Hugo81, vivia agora a era de pragmatismos. Mas a expressão assumia conceções diferentes. Se Hugo colocava como pilar da união a constituição de um parlamento, eleito