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3   Criticisms

3.5   A Mafioso made of straw?

Flávio Desgranges (2002; 2008; 2010; 2011; 2012) traz uma importante contribuição acerca da sistematização da prática da mediação voltada às Artes Cênicas no Brasil. Apesar da dificuldade de elencar uma prática ou questões conceituais do autor que sejam relevantes para esta pesquisa (pois quase todas são), escolhi o Projeto Formação de Público26

desenvolvido pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo entre os anos 2001 e 2004. Desgranges (2008; 2011) descreve e analisa os procedimentos pedagógicos do último ano

26 Em nota de rodapé Desgranges (2011, p. 152) esclarece que o projeto “contou com a curadoria de Gianni

Rato, a orientação geral de Flávio Aguiar, a orientação de Maria Silvia Betti, Luiz Fernando Ramos, Silvia Fernandes e Flávio Desgranges, além da participação de nove coordenadores pedagógicos e quarenta e sete monitores” bem como funcionários da Secretaria de Cultura.

de ações pedagógicas (2004) do qual participou e sobre o qual falarei a seguir. Nesta etapa “participaram da ação um total de 305 escolas municipais, com um público estimado de 257.000 alunos. Eram 11 grupos teatrais que circulavam com seus espetáculos, apresentados durante o ano letivo” (2008, p. 76).

De acordo com Desgranges (2011, p. 160) as três principais linhas de atuação pedagógica adotadas por ele no projeto foram: os debates entre artistas e espectadores após a apresentação da peça; os cursos de formação oferecido aos professores; e os “ensaios de

desmontagem, procedimentos pedagógicos de mediação teatral oferecidos nas escolas, antes

e depois dos espetáculos, aos alunos participantes, visando dinamizar a recepção da obra”. O primeiro (debate com os artistas) objetivava “a revelação dos meandros da arte teatral e o convite a que os espectadores formulassem concepções pessoais da cena”. O segundo “tinha como objetivo preparar os professores das escolas para que, aprimorando seu conhecimento sobre teatro, pudessem mediar o encontro de seus alunos com esta arte” (p. 162). O terceiro,

ensaios de desmontagem, são as mediações propriamente ditas, realizadas nas escolas antes

e após o espetáculo, chamadas respectivamente pelo autor de ensaios de preparação e

ensaios de prolongamento. Tinham em vista “tanto a sensibilização prévia para o evento,

quanto o estímulo para a efetivação de uma leitura acurada da obra assistida” (p. 166), reforçando a coautoria, além de propor prolongamentos criativos, nos quais os espectadores eram convidados a produzir artisticamente.

De acordo com Desgranges (2011, p. 166) os ensaios de desmontagem se utilizavam de “exercícios teatrais semelhantes aos que os artistas realizaram no processo de construção do espetáculo” levando “os participantes a experimentarem, ainda que por curto período, algumas atividades que os próprios criadores da cena poderiam ter experienciado durante o processo de concepção da montagem teatral”. Com isso objetivavam criar uma intimidade entre o público e as possibilidades expressivas utilizadas na obra. Cabe dizer que as mediações não pretendiam segundo o pesquisador “dar conta de todos os múltiplos e complexos aspectos de uma encenação, mas [optavam] por selecionar ângulos de ataque, alguns aspectos marcantes da montagem teatral em questão” (p. 170). A escolha desses “ângulos de ataque” levavam em consideração tanto as características e especificidades da obra cênica quanto o trabalho que já estava sendo desenvolvido com o grupo de participantes e seu contexto.

O “curso para professores se dava em consonância com a frequentação aos espetáculos que integravam o projeto” (DESGRANGES, 2011, p. 163). Era realizado com

os professores um processo semelhante à mediação feita com os estudantes, isto é, aqueles eram estimulados com espetáculos, oficinas e análises assim como os educandos também o seriam posteriormente. Almejando-se com isso “que os professores conquistassem a consciência plena de um processo de ensino e aprendizagem a ser desenvolvido com os alunos, calcado, como lhes foi proposto, na experimentação e análise de exercícios teatrais em oficina” (p. 164). Dessa forma, primeiramente o corpo docente era inserido nos processos de mediação para em seguida auxiliar a imersão dos estudantes.

Um último aspecto do Projeto Formação de Público que considero relevante mencionar é a formação dos mediadores que, assim como a formação dos professores, seguiu os mesmos princípios da mediação, ou seja, considerou os profissionais (futuros mediadores) como educandos envolvidos nos processos de desmontagem do espetáculo. Ou seja, Desgranges (2011), assumindo o papel de mediador, concebeu e executou os ensaios de

preparação e de prolongamento com os mediadores com vistas à prepara-los para que

posteriormente estes organizassem suas próprias oficinas para os educandos. Assim os profissionais puderam compreender na prática como a mediação pode acontecer. Esta formação proposta pelo autor – etapa que chamo na atual pesquisa de treinamento de equipe – pode apontar soluções para os problemas levantados anteriormente a respeito de como treinar/formar mediadores.

Podemos verificar que o Mediato se assemelha ao formato e a alguns conceitos acima expostos. Conversa com artistas, encontro com professores e mediações antes e após o espetáculo compôs a estrutura de ambos os projetos. Seus objetivos também se aproximam: de sensibilização, produção poética por parte dos estudantes, dentre outros. Contudo, vale ressaltar que essa compreensão do professor como um participante da mediação faltou ao Projeto Mediato, conforme dito anteriormente, e se assemelha ao que o professor Ulisses (Teatro, Gama-DF) apontou em entrevista: “daí existe outra sugestão, articular com mais professores para eles também fazerem a mediação. Não! Não fazerem a mediação, participarem do processo enquanto estudantes, enquanto alunos para aprender a ler a linguagem do espetáculo”. De alguma forma foi isso que Desgranges (2011) fez no Projeto Formação de Público do Estado de São Paulo com os docentes, e que possivelmente me apropriarei para os próximos trabalhos.

Cabe dizer que no ano anterior à concepção do Mediato tive conhecimento deste projeto realizado em São Paulo por meio do livro do pesquisador. Todavia, não dei a devida atenção ao que Desgranges (2011) propõe nas duas etapas (treinamento de mediadores e

formação de professores), a saber: a compreensão de professores e mediadores como educandos em um processo que é estético e pedagógico, unindo a forma ao conteúdo. Talvez por um conforto com a apropriação e transposição de ações bem sucedidas realizadas no âmbito das Artes Visuais para o Teatro, acabei repetindo o que observei por sete anos no CCBB no que diz respeito ao treinamento de mediadores. Treinamento este, não me furto o elogio aos mestres, amplamente fundamentado e com excelentes resultados.