Como visto anteriormente, as pesquisas sobre estresse são claras ao enfatizar
que as respostas aos vários estímulos estressantes e o surgimento das doenças não são fatos
simples de se detectar. Essas ligações dependem da inter-relação de vários fatores físicos,
sociais e psicológicos. Portanto, identificar os fatores estressantes e desenvolver métodos que
promovam a profilaxia e tratamento de um quadro de estresse é de fundamental importância
para profissionais que trabalham na área de saúde. Daí surge a importância de se elaborar
instrumentos psicométricos que possibilitem a mensuração do grau estresse a que uma pessoa
está sendo submetida.
Um dos instrumentos muito utilizados por pesquisadores é a Escala de
Avaliação de Reajustamento Social de HOLMES e RAHE, elaborada no ano de 1967. Essa
escala baseia-se no fato de que a energia exigida para que o indivíduo se reajuste à sociedade,
depois de mudanças significativas em sua vida (morte do cônjuge, aposentadoria, gravidez,
perda do trabalho), cria um desgaste que pode levar ao surgimento de doenças.
HOLMES e RAHE examinaram um grande número de históricos de casos
médicos em busca de correlações entre graves problemas de saúde e experiências de vida dos
pacientes, a fim de saber se reviravoltas na vida de uma pessoa poderiam servir de base para a
previsão de uma probabilidade do surgimento de doenças graves.
ALBERECHT (1989) afirma que um dos primeiros pesquisadores a se
século XX. Meyer encontrou uma forte correlação entre crises e doenças. Os pacientes que
passavam por muitos eventos importantes em sua vida, num período muito curto de tempo,
quase sempre apresentavam um quadro de doenças graves.
A fim de elaborar a Escala de Classificação de Reajustamento Social,
HOLMES e RAHE aplicaram a técnica de gráficos de Meyer a mais de cinco mil históricos de
casos, descobrindo que certas mudanças na vida tendiam a se repetir. Posteriormente,
estudando históricos de casos de 2.500 marinheiros em serviço em três cruzeiros, os
mencionados pesquisadores verificaram que 30% dos marinheiros que apresentavam mais alto
escore de mudança de vida ficavam doentes no primeiro mês de um novo cruzeiro, sendo os
índices obtidos na Escala de Classificação de Reajustamento Social muito mais altos do que
dos 30% dos marinheiros que apresentavam os escores mais baixos na escala (ALBERECHT,
1989).
O que se pode perceber da escala elaborada por HOLMES e RAHE é que,
muito embora as situações de mudança gerem adaptações nos indivíduos que podem
desencadear problemas físicos e psicológicos, a mesma não leva em conta as capacidades que
cada indivíduo possui para enfrentar as situações estressantes (coping), como se
necessariamente o indivíduo adoecesse ao enfrentar uma situação de estresse. Essa capacidade
de adaptação envolve um conjunto de esforços cognitivos e comportamentais, utilizados com
o objetivo de lidar com demandas específicas, internas ou externas, que surgem em situações
de estresse e são avaliadas como uma sobrecarga aos seus recursos naturais. Esses esforços
têm a função de manter o equilíbrio emocional do indivíduo evitando, assim, o surgimento de
Outro ponto que convém destacar é o fato de que a escala elaborada por
HOLMES e RAHE não leva em conta o efeito cumulativo dos pequenos eventos estressantes
do dia-a-dia. Esses pequenos eventos podem agir de maneira cumulativa e se transformar em
grandes fontes de estresse, produzindo mais irritação do que ansiedade, levando a uma maior
possibilidade do indivíduo ser acometido por alguma doença oriunda da interação dos efeitos
cumulativos do estresse diário (LIPP, 1984). Além disso, em virtude do avançar dos
conhecimentos relacionados a elaboração de instrumentos psicométricos, a Escala elaborada
por HOLMES e RAHE não preenche certos requisitos psicométricos que possam garantir a
fidedignidade da escala.
Outra escala muito utilizada no Brasil é o Inventário de Sintomas de Stress para
Adultos de LIPP (ISSL), validado por LIPP (2000).
Esse inventário objetiva identificar, de modo rápido e direto, os sintomas de
estresse apresentados pelo indivíduo, se é que ele os tenha, o tipo de sintoma existente
(psicológico ou somático) e a fase de estresse em que se encontra (alerta, resistência, quase-
exaustão e exaustão).
A elaboração do ISSL baseou-se nos conceitos elaborados por Selye, no qual o
organismo sempre tenta adaptar-se a evento estressor, utilizando-se de grande quantidade de
energia adaptativa (LIPP, 2000).
O ISSL é um inventário auto-administrado que pode ser aplicado em jovens
acima de 15 anos e adultos, não sendo necessário que os mesmo sejam alfabetizados,
composto por três quadros que se referem às quatro fases, sendo que um dos quadros é
fase são divididos em físicos e psicológicos, sendo as fases divididas em períodos de tempo
correspondentes a 24 horas (quadro 1), última semana (quadro 2) e último mês (quadro 3),
sendo que alguns sintomas se repetem em virtude de um maior comprometimento da evolução
do quadro de estresse. Por exemplo, enquanto no quadro 1 o item 8 refere-se à “hipertensão
arterial súbita e passageira”, no quadro 3 o item 4 refere-se à “hipertensão arterial continuada”.
Segundo LIPP (2000) a razão dessa se faz necessário uma vez que a fase de
exaustão, coberta no quadro 3, em geral mostra a volta de alguns sintomas da fase 1, com um
maior grau de comprometimento, devido à quebra na resistência.
O processo de validação empírica foi realizado através de uma amostra
composta com 1.849 participantes. Do total de participantes, seis casos foram descartados,
uma vez que as respostas não puderam ser totalmente consideradas por ter algum dado
imprescindível para a realização dos cálculos estatísticos. Assim, a amostra final foi de 1.843
respondentes.
Os respondentes para a validação do ISSL foram recrutados em quiosques
montados em shoppings, em colégios e universidades abrangendo os estados de São Paulo
(1.299 respondentes), Paraíba (352 respondentes) e Rio de Janeiro (198 respondentes). Do
total da amostra 64% (1.184) eram do sexo feminino e 36% do sexo masculino.
As análises estatísticas do ISSL valeu-se do uso de duas técnicas fundamentais
para demonstração da representação da validade do construto: a análise da consistência interna
dos itens e a análise fatorial (PASQUALI, 1997).
A análise da consistência interna dos itens é o ato de calcular a correlação
correlação pressupõe que os itens são somáveis, ou seja, homogêneos e válidos. Em outras
palavras, pressupõe-se que todos os itens constituam uma representação adequada do traço e
de um mesmo traço latente. Além disso, a consistência interna implica que os itens estejam
intercorelacionados, ou seja, que as correlações existentes entre eles sejam elevadas
(PASQUALI, 1997).
O alfa de Cronbach encontrado no ISSL foi de 0,9121. Porém, convém ressaltar
que vários itens que compõem o ISSL tiveram uma carga fatorial abaixo de 0,40, índice
recomendado para a utilização em instrumentos psicométricos (PASQUALI, 1997).
O valor da carga fatorial do item é importante na construção de instrumentos
psicométricos, tendo em vista que quanto menor o valor do coeficiente, menor se torna o
poder de discriminação, fazendo com que item não contribua satisfatoriamente na construção
da escala (LIPP, 2000), sendo esse um ponto negativo para o ISSL.
Já a análise fatorial, técnica que tem como finalidade verificar precisamente
quantos construtos comuns são necessários para explicar as covariâncias (intercorrelações) dos
itens, calcada sobre o pressuposto de que uma série de variáveis observadas, medidas,
chamadas de variáveis empíricas ou observáveis, podem ser explicadas por um número menor
de variáveis hipotéticas, não-observáveis, chamadas precisamente de variáveis hipotéticas ou
variáveis-fonte, mais conhecidas sob o nome de fatores (PASQUALI, 1997), determinou a
extração de dois eixos fatoriais importantes para determinar as relações dos itens, que foram
designados de “fator psicológico” e “fator físico”, composto por sintomas presente durante o
quadro de estresse, sendo essas informações importantes na avaliação do principal
Certamente, o ISSL é um avanço no estudo do construto estresse no Brasil, em
virtude da escasses de instrumentos psicométricos que possam dar melhores subsídios a
atuação dos profissionais que atuam na área de saúde, bem como sendo utilizado em dezenas
de pesquisas e trabalhos clínicos na área de estresse.