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MACKEREL STOCK COMPONENTS: NORTH SEA, WESTERN AND SOUTHERN AREAS .1 North Sea Mackerel Component

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Table 2.13.1 One area yield per recruit table for North East Atlantic Mackerel (Single recruit)

3 MACKEREL STOCK COMPONENTS: NORTH SEA, WESTERN AND SOUTHERN AREAS .1 North Sea Mackerel Component

“Ele sabia que estava ajudando pessoas muito especiais. Sempre acolheu com o maior carinho e a maior paciência do mundo todos os seus cavaleiros. Ele é um verdadeiro cavalheiro”.

− Trecho do cartaz pendurado na parede da área de recepção do Hangar da Hípica, em homenagem ao cavalo Vagalhão, escrito e assinado por Marina.

Esta seção vem a tratar do modo como os cavalos aparecem, na equoterapia, e as relações que eles estabelecem com humanos e entre si, do ponto de vista dos participantes humanos em tela. Tratando de quem são os cavalos, portanto, eu os situo, neste texto, a partir daquilo que os interlocutores deste estudo pensam sobre o que os cavalos pensam.

O cavalo está associado a processos de mudança, tanto nas pessoas individuais como em seu próprio círculo de relações sociais. A posição e o tratamento dado a eles, no contexto em tela, podem ser analisados em duas esferas: 1) o cavalo objetivado, tomado como uma espécie de “remédio” ou recurso terapêutico, por via da tematização das vantagens que a equoterapia traz para a vida das pessoas, tematização esta que poderia ocorrer dentro ou fora das montarias (na literatura); e 2) o sujeito cavalo ou ser senciente, tomado nas interações vis-à-vis, entre os demais cavalos e pessoas durante as montarias e para além delas.

Neste sentido, acomodados como partícipes ativos, os cavalos são compreendidos tanto como instrumentos, objetos e recursos, de um lado, e, de outro lado, como agentes e sujeitos coterapeutas, em função de uma finalidade que lhes ultrapassa, a saber, a atuação positiva na saúde dos praticantes, embora sejam também, em certos momentos, encarados como sujeitos dotados de seus próprios interesses. Do mesmo modo, se olharmos para as relações atuais entre pessoas e cavalos no fluxo da montaria, como já enunciei anteriormente, a participação dos cavalos oscila em torno do binômio obediência-desobediência (quando sua agência era tanto positivada quanto

194 negativada), mas também se ramifica para diversas outras modalidades de relação.

* * *

Comecemos nossa análise partindo do modo como os cavalos e suas capacidades terapêuticas aparecem na objetivação que os terapeutas fazem do cavalo, enquanto agente de benefícios na equoterapia.

3.2.1. Cavalos multifuncionais133: da máquina ao terapeuta

Por conta de sua movimentação tridimensional, os cavalos podem estimular (o sistema nervoso central), ajustar (o tônus muscular), relaxar (a coluna), aliviar (as dores), favorecer (a postura), investir (na autoestima), mudar (a visão de mundo) e até mesmo reavivar o praticante, tirando-lhe de sua condição passiva.

Já vimos, em diversos momentos do texto, que as explicações ofereciam conclusões sobre o funcionamento físico-anatômico dos cavalos: o cavalo tem um jeito de caminhar semelhante ao caminhar humano (deambulação); o movimento tridimensional, os tipos de passos (ao passo, trote, galope) e sua forma particular de encostar as patas no chão. Estas qualidades, tematizadas como atribuições próprias aos cavalos e benéficas nelas mesmas, têm grande elevo nas explicações de base científica da equoterapia:

Podemos afirmar que o cavalo tem nas ondulações verticais a origem dos seus movimentos, gerando uma posição corporal que provoca a perda do equilíbrio, retomado pelo deslocamento dos seus membros, que por sua vez dão nova disposição à coluna vertebral, e assim sucessivamente, criando uma relação de causa e efeito entre o centro de gravidade, a inflexão da coluna e os deslocamentos dos membros.

Nos deslocamentos, o cavaleiro tem a necessidade permanente de ajustar seu centro de gravidade em harmonia com o centro de gravidade do cavalo, oscilando no sentido lateral, no avanço de cada membro, e no sentido anteroposterior, na distensão dos posteriores e no pouso dos anteriores.

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195 Todas essas ações são transmitidas ao cavaleiro por meio, principalmente, de sua pelve e coluna, causando nele os mesmos movimentos de um deslocamento a pé (Severo, 2010, p.115).

Vejamos, ainda, o seguinte trecho de meu diário de campo, a fim de analisarmos com mais detalhes os papéis que os cavalos vêm a desempenhar na relação com o praticante. Na sessão de montaria dupla com a praticante Silvia e o cavalo Dominó, a garota pouco se manteve ereta sobre o cavalo. Seu pescoço tombava para trás frequentemente (daí a necessidade da montaria dupla), seus olhos estavam semicerrados, sua boca permaneceu aberta, e Marina, posicionada logo atrás dela, limpava a saliva e narina dela com certa frequência, com um lenço de pano dado por sua mãe. Silvia tossia bastante; enquanto isso, Marina fazia movimentos em suas costas, para ajudar a liberar as secreções que a garota “não conseguia engolir sozinha”.

O movimento do cavalo, conforme a terapeuta afirmou, ajudava a promover a circulação de ar no pulmão de Silvia. Além disto, de cima do cavalo, o corpo da garota se movimentava em relação ao chão, o que provocava movimentos distintos ao mesmo tempo no corpo da garota, e fazia com que seu sistema vestibular (responsável pelo labirinto e, portanto, pelas funções de equilíbrio) fosse hiperestimulado, melhorando o controle de sua cabeça. Por ter sofrido uma lesão encefálica quando bebê, Silvia tem déficit do controle neuromotor. Por esta razão, ela contrai seu bíceps, mas

não consegue esticar o braço. Além disto, Silvia tem um corpo hipotônico134 e apresenta

espasticidade.

Marina então segurou as mãos da garota. De trás dela, tomou o braço da garota em suas mãos e o movimentou, desenhando círculos no ar. Este gesto, segundo ela, fazia a mobilização

passiva do braço da garota, o que mantinha a amplitude articular e dava flexibilidade ao tendão de

seu braço. Subindo a ladeira ao lado da pista de areia, Marina ressaltou que, mesmo que a garota

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A hipotonia, porém, não é considerada uma disjunção funcional, segundo informações da terapeuta, porque todas as pessoas têm o corpo “hipotônico” ou “hipertônico” (Marina, por exemplo, seria hipotônica; e eu, hipertônica, ela dissera).

196 estivesse parada em cima do cavalo, o cavalo fazia vinte mil contrações, também chamadas de

cocontrações, que reuniam contrações antagônicas, estas realizadas por diferentes grupos musculares e de forma involuntária. Segundo ela, esta movimentação do cavalo obrigava a alteração muscular, “independentemente de a pessoa querer e conseguir ou não”. E qualquer

alteração muscular, antes de ocorrer, “passa antes pelo cérebro”. Se a criança está bem, a sessão é

ótima. Mas se os praticantes estão com gripe ou dormiram mal, por exemplo, pode haver interferência nos músculos. Por outro lado, mesmo nestas condições, não haveria interferência no

recebimento do movimento do cavalo pelo praticante, porque as contrações musculares consequentes aconteceriam de qualquer modo. Assim ela afirmou: “O processo, a movimentação tridimensional, as cocontrações, e o ajuste tônico acontecem invariavelmente, se o praticante estiver gripado ou não”. Então, conforme entendem os terapeutas, há cérebro mas não há movimento nos praticantes; o cavalo seria, então, o próprio movimento para eles, sendo equivalente à sua força, energia e músculos.

Mas esta explicação foi interrompida, quando Marina, chamando minha atenção, disse: “Olha, o braço dela esticou agora... É por causa do ajuste do tônus que o cavalo fez. É o que eu chamo de milagre do cavalo”. Ela também disse que todos os exercícios que elas estavam fazendo até aquele momento favoreciam a rotação externa e a abdução do quadril da garota.

Numa outra sessão com a mesma praticante, Marina comentou que o ajuste do tônus

equilibra os músculos, estimulando alguns grupos de músculos e relaxando outros. Neste caso,

penso que, ao mesmo tempo em que cavalos equilibram os músculos de praticantes, é como se eles também “equilibrassem” suas relações sociais. Voltando à sessão, Marina completou suas exclamações: “Daí a importância do cavalo. Nenhum terapeuta conseguiria fazer este movimento no corpo da praticante”. Em seguida, ela salientou que o terapeuta era apenas um mediador ali, e que o cavalo era o grande terapeuta. Ela reafirmou o papel ativo e primário do cavalo como agente

197 de impacto na praticante, dizendo: “Silvia está tendo ganho aqui por causa do cavalo, eu só dou uma ajudinha. Estou mantendo ela firme e mudando as posições. O cavalo é o ‘astro’ aqui”.

Mas, depois de alguns instantes, Marina refez o papel atribuído ao animal, ao afirmar que o cavalo era um recurso para intervir com a criança. Também a sentença “o ponto chave é o movimento do cavalo no aspecto motor, que favorece as contrações musculares” e a ideia de que tais contrações, conforme ela disse, são feitas automaticamente pelo cavalo, como um efeito de seu passo, aproximam o cavalo à função de máquina ou autômato (embora poucos momentos antes, naquela mesma situação, o cavalo tivesse sido qualificado por ela como o astro e o grande

terapeuta).

A respeito da condição de máquina atribuída aos animais, é válido lembrar que, até o século XIX, os animais eram tratados como coisas ou máquinas; para o filósofo Descartes, os animais eram “nada mais do que máquinas criadas por Deus” (Francione & Garner, 2010, p.6), com os quais as pessoas se relacionavam sem quaisquer considerações ético-morais. E, ainda atualmente, encontramos animais de tração e de abate cumprindo a função de máquinas.

* * *

Conforme o trecho exposto acima, a tematização das vantagens em montar o cavalo reconhece diferentes graus de agência do animal. Ao nível das explicações fisiológicas: o movimento tridimensional do cavalo influencia o praticante (que “recebe cerca de vinte mil contrações musculares involuntárias, em um período de trinta minutos”); a movimentação obriga a

alteração muscular (independentemente de a pessoa querer e conseguir ou não”); o movimento em

ziguezaguefavorece o autocontrole da pessoa montada; a marcha do cavalo faz o ajuste do tônus muscular dos praticantes (estimulando alguns grupos de músculos, enquanto relaxa outros), e isto desperta contrações musculares involuntárias neles. Como fonte destas mudanças musculares e

198 motoras, o cavalo foi considerado agente de milagre, o grande terapeuta e um astro, como vimos logo acima, na sessão com Silvia.

Mas, além destas atribuições, os cavalos vêm a cumprir funções mais utilitárias, começando pela de mercadorias (uma vez que eles são comprados pelos terapeutas), passando pela equivalência a uma bola de pilates viva (certa vez, durante o atendimento, enquanto o praticante estava na postura de índio morto135 sobre o cavalo, o terapeuta Bruno afirmou que o cavalo era uma bola de

pilates viva porque relaxa a coluna). Ou, então, se concebe o cavalo como uma espécie de

máquina136, que estimula e vibra o praticante (e seu corpo). O espirro do cavalo, por exemplo, produz uma vibração para o corpo daquele que está montado. E esta vibração gerada pelo cavalo, por sua vez, produz diversas sensações no corpo do praticante, por exemplo, ao subir e descer a ladeira.

Em certa medida, os cavalos também vêm a cumprir a função de prótese para os praticantes. Do modo como meus interlocutores se referem a eles, os cavalos podem oferecer apoio, suporte e deslocamento espacial aos praticantes; são capazes de trazer a eles um corpo mais equipado (ao

conceder potência, velocidade e força) e, ao fazer isso, reverteriam a condição difícil ou limitada

dos praticantes. Mas sua função vai além, pois, se, na cadeira de rodas, o praticante geralmente olha apenas de baixo para cima, ao passo que no cavalo ele tem a chance de olhar de cima para baixo137, então os cavalos são agentes que provêm aos praticantes um diferente sentido do mundo e da vida.

E, como sugestão, o cavalo pode ser pensado, talvez, como uma forma de decoração corporal ou uma prótese animal viva (Viveiros de Castro, 1998, p.480), fazendo as vezes de uma

135

Nesta posição o praticante deita-se com a barriga para baixo e seu corpo atravessa, perpendicularmente, o corpo do cavalo.

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Na literatura da área, o cavalo pode assumir o papel de um motivador: “A equoterapia se caracteriza pelo fato de o cavalo ser um importante motivador terapêutico” (Severo, 2010, p.112); ou de máquina animal: “(...) em decorrência de observações constantes da máquina animal relativas às composições musculares e esqueléticas, foram obtidas as noções de equilíbrio, o mecanismo do movimento e os efeitos terapêuticos das andaduras do cavalo” (Severo, 2010, p.113).

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