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Ocorre, no entanto, que, embora o seu uso seja já consagrado como meio de despertar a atenção dos estudantes e como forma de tornar o momento da aula mais instigante, não são tão comuns os subsídios que possam oportunizar um bom aproveitamento da música como concreto objeto de investigação e de estimulo ao pensamento e as sensibilidades que essa ferramenta pode proporcionar. Livros didáticos de História, por exemplo, dispõem as músicas como documentos apenas literários e/ou ilustrativos, sem levar em conta as suas demais potencialidades e dimensões hermenêuticas (AMEDI, 2012, p.3). Como afirmado por Circe Bittencourt (2009, p. 380) “[...] se existe certa facilidade em usar a música para despertar interesse, o problema que se apresenta é transformá-la em objeto de investigação [...] Existe enorme diferença entre ouvir música e pensar a música”.

Um outro elemento a considerar, é que nos últimos tempos as escolas foram envolvidas por novas tecnologias, mudando em alguns casos a forma de apresentar e de abordar certos conteúdos. Tem se formado, no entanto, o que Raquel Barreto (2004) chama de “modernização conservadora”, pela qual tem se alterado os formatos, mas as concepções de ensino continuam as mesmas. Vale, assim, perceber que é necessário vincular o uso de novas tecnologias educacionais com novas perspectivas de ensino. É necessária uma coerência conceitual e prática entre conteúdo e forma. Gonçalves Bezerra, ao se referir aos vários tipos de materiais, potencialmente didáticos, afirma que “[...] o importante é que se alerte para a necessidade de que as fontes recebam um tratamento adequado, de acordo com a sua natureza” (BEZERRA, 2010, p. 43). Nessa perspectiva, cada tipo de documento, fonte histórica, ou recursos tecnológicos, possuem suas particularidades e uma necessidade diferente de abordagem; e a música, principalmente, por envolver a combinação de diversos dispositivos sensoriais como audição, leitura e vibração. Afinal, estamos nos referindo a texto, contexto, intenção, ritmo, melodia, entonação,

gênero e diversos outros elementos musicais e poéticos potencialmente portadores de significação.

Especialmente nas décadas de 1980 e 1990, período da gradual redemocratização do País, algumas das canções lançadas por bandas como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawaii e Titãs, se afirmaram como uma forte manifestação da arte política, trazendo à tona letras com discussões e, até certo ponto sofisticados, conceitos históricos como no caso das músicas “Índios”, “Fábrica”, “A Canção do Senhor da Guerra”, “Capitão da Indústria”, “Homem Primata”, “Desordem”, “Tempo Perdido” e “La Maison Dieu” e nas demais músicas, inevitavelmente, retratava-se, também, o universo social e mental de que os autores partilhavam naquele momento. Nas duas situações, as obras produzidas possuem grande potencial educativo.

Inserido nessa discussão, a presente pesquisa se propôs, então, a fundamentar, orientar e estabelecer critérios quanto a utilização de músicas do rock nacional nas aulas de História no Ensino Médio, tendo como referência três músicas que foram inseridas como ferramentas pedagógicas no estudo de conteúdos do componente curricular História, com turmas de primeiro e segundo ano do Ensino Médio de uma escola vinculada ao Serviço Social da Indústria na cidade de Itapetininga – SP. Ambas as turmas estavam compostas de trinta e dois estudantes, do período vespertino, já bem habituados a proposta sociointeracionista adotada pela rede, condição que os dispõe como suficientemente acessíveis a propostas como a concebida nesse trabalho.

Assim, buscou-se discutir os fundamentos da utilização da música em sala de aula e debater critérios e métodos de análise coletiva de obras musicais, não só como ilustração de contextos históricos, mas também como elemento de “sensibilização” (MORAES, 2000, p. 211) e interação com outras interpretações e representações do mundo. Como apontam Moreira e Kramer, um conhecimento escolar adequado é aquele que possibilita a transcendência ao universo cultural do estudante e para isso “[...] há de se valorizar, acolher e criticar as vozes e as experiências dos alunos” (MOREIRA e KRAMER, 2007, p. 1044). Músicas que fazem parte da cultura de massa são, nesse sentido, um bom ponto partida para valorizar e ao mesmo tempo oferecer novas possibilidades de interpretação ao conhecimento que o estudante já possui.

Oferecer subsídios para melhor interpretar as informações que estão no mundo ao seu redor; assim como, colaborar com o exercício contínuo de familiarizar os estudantes aos próprios métodos de trabalho do historiador.

Foram, portanto, problematizadas letras e melodias de canções do rock nacional, com a seleção de três músicas das bandas Legião Urbana e Os Paralamas do Sucesso, tendo como objetivo instrumentalizá-las para o uso em sala de aula e a identificação de como se desenvolveu a interpretação de determinados eventos e processos históricos, com a inserção da escuta direcionada e análises pontuais por parte dos estudantes sobre os possíveis significados e relações que podem ser estabelecidas, tendo a música como um eixo gravitacional de aprendizagem.

A princípio essa proposta buscou, também, envolver estudantes de escolas públicas, solicitando que professores cedessem suas aulas para o desenvolvimento desse trabalho. No entanto, as duas tentativas, nesse sentido, se mostraram frustradas devido ao estabelecimento de um contexto fragmentado de aprendizagem que já de início conduziu, portanto, a opção pelo trabalho apenas com os meus próprios alunos na escola em que leciono desde janeiro 2016.

A escolha das músicas teve como critérios principais a própria experiência de uso dessas canções nas aulas (antes mesmo da oficialização da pesquisa), e a busca por obras que envolvessem claramente a intenção de representar personagens mediante as contradições de determinados períodos históricos; além disso, que mantivessem ricas qualidades alusivas, tanto em termos textuais como musicais. As canções selecionadas e analisadas deveriam, então, oferecer um suporte para o estudo de conteúdos específicos da disciplina de História. Assim, com “Índios” (Legião Urbana) foi desenvolvido o trabalho sobre o encontro entre o Velho e o Novo Mundo e a conquista dos nativos da América pelos povos ibéricos; e as músicas Fábrica (Legião Urbana) e Capitão de Indústria (Paralamas do Sucesso), juntas serviram como material de mediação para o aprofundamento dos estudos sobre a Revolução Industrial e os movimentos operários de contestação surgidos no século XIX.

O trabalho desenvolvido com os estudantes seguiu a metodologia adotada em anos anteriores envolvendo uma proposta didática orientada pela pedagogia sociointeracionista, sequenciando o levantamento de conhecimentos prévios dos

alunos, aula expositiva, leitura de textos, análise de filmes e, por fim, a audição musical direcionada com solicitação de trabalho escrito sobre os resultados das análises. Essa sucessão, registrada em plano de trabalho docente, teve, então, um reporte na presente pesquisa, na qual se buscou identificar o potencial de construção de sentidos históricos dessas músicas e as principais percepções dos estudantes sobre as obras em correspondência aos conteúdos estudados, os rumos e reverberações da aprendizagem histórica por meio desse emblemático mediador pedagógico com base nos trabalhos elaborados pelos estudantes a partir da sequência pedagógica desenvolvida ao longo das aulas.