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Machine Learning Techniques

In document Sentiment analysis in social media (sider 21-28)

Conforme referimos anteriormente, em busca de respostas sobre fatores que contribuem na decisão pela profissão docente, a presente análise partiu da questão 1 − Então, gostaria que você me contasse sobre seu processo de escolha profissional. Como se sente sendo professor hoje?

A produção do material discursivo que ora passamos a examinar foi processada por análise com o auxílio do programa computacional ALCESTE, versão 4.5, e com base no aporte teórico que focaliza a primeira parte da questão proposta por Jodelet (2001), quanto a quem sabe? Portanto, adentramos na segunda fase da construção dos contornos da profissão, declarados pelos sujeitos conforme anunciamos no início deste estudo. Elementos do relatório gerado por esse software permitiram-nos verificar as 56 unidades de contexto inicial (UCI) que representam a linha de entrada das entrevistas no programa e confirmam o total de pesquisados. O material original foi dividido em quatro segmentos de texto denominados classes de palavras.

Inicialmente observamos a prova de associação do quiquadrado em relação à classe ( ²>2,00) e selecionamos as palavras por ordem decrescente, com freqüência igual quatro. O programa classificou 337 unidades de contexto elementares (UCEs), das quais 216 correspondem a 64,09% de aproveitamento do material exposto para análise.

Pelo método de Classificações Hierárquicas Descendentes – CHD representado pelo dendrograma da Ilustração 3, o programa dividiu o material em duas grandes partições formadas por UCEs com tamanhos diferentes, que chamamos blocos. O primeiro bloco é denominado de Temporalidade e contexto social da profissão e o segundo de Elementos intervenientes na escolha e na prática profissional.

Percebemos a presença de quatro classes temáticas. As Classes 1 e 4, que são mais próximas, embora, em termos de UCEs, a última seja a mais densa. Na partição seguinte se originaram as Classes 2 e 3. A disposição do conjunto pode ser melhor visualizada a partir das respectivas nomeações.

Classe 1 - Compreensão da profissão: significações contraditórias Classe 4 - O contexto socioprofissional e suas implicações na profissão Classe 2 - Dilemas na escolha da profissão: isto ou aquilo?

Classe 3 - Afetividade e memória: elementos determinantes na escolha profissional dos docentes

Devido à finalidade deste estudo, apresentamos os dendrogramas de classe apenas como anexos. Porém, descrevemos todos os elementos estatísticos que compõem cada classe.

Ilustração 3 - Dendrograma de Classificação Hierárquica Descendente do material das entrevistas sobre a questão 1 - ingresso na profissão

Explicitamos na seqüência as análises das quatro classes referentes ao discurso ingresso no magistério a partir do conjunto de professores entrevistados. As classes se encontram disponibilizadas conforme a ordem das ramificações mostradas no dendrograma. Assim, pretendemos identificar quem são os sujeitos desta pesquisa a partir do que eles pensam acerca da profissão.

A Classe 1, descrita na Tabela 12 subseqüente, propicia algumas trilhas que podem fornecer elementos que contribuem para traçar o referido perfil:

Classe 1 - Compreensão da profissão: significações contraditórias

Tabela 12 - Classe 1 - Distribuição de palavras por índices de quiquadrados e freqüências Classe

Palavras Formas associadas ² Corpus

N %

Hora+ Hora, horas 23,41 7 7 100,00

Tempo Tempo 20,93 20 13 65,00

Atividade+ Atividade, atividades 18,80 8 7 87,50

Aula+ Aula, aulas 16,82 33 17 51,52

Mesma+ Mesma, mesmas 16,56 5 5 100,00

Prepar+ Preparação, preparando, preparei, preparo 16,56 5 5 100,00

estr+ Mestrado 15,28 9 7 77,78

Aposentadoria Aposentadoria 13,19 4 4 100,00

Viv+ Vive, viver 13,19 4 5 100,00

Sair Sair 12,20 6 5 83,33

Pens+ Pensa, pensando, pensar, pensei 10,29 11 7 63,64

Pretend+ Pretendo 10,29 11 7 63,64

Efetiv+ Efetiva, efetivar, efetivo 9,84 3 3 100,00 Remuner+ Remuneração, remunerar 9,84 3 3 100,00 Precis+ Precisa, precisam, precisar, preciso 9,65 9 6 66,67

Deu+ Deus 9,17 7 5 71,43

Ganh+ Ganha, ganhamos, ganhando, ganhar 6,97 8 5 62,50

Continu+ Continuar 6,15 11 6 54,55

Melhor+ Melhorar, melhore, melhoria 5,31 9 5 55,56

Notamos que a Classe 1 contém um discurso basicamente feminino. Dentre a meia dúzia de docentes que mais contribuíram com as discussões, apenas um é do sexo masculino. A maior parte do grupo leciona no nível médio da rede estadual de ensino e duas professoras atuam no Ensino Fundamental. Não há homogeneidade em relação à idade, que se situa em diferentes faixas etárias. Porém, podemos dizer que esses profissionais constituem o compósito do grupo etário fixado entre 31 e 50 anos de idade, englobando professores que vivenciam tanto as primeiras experiências educacionais, de 0 a 5 anos, quanto aqueles em final de carreira, acima de 21 anos de tempo de serviço.

Discutindo sobre as fases iniciais da carreira e a experiência do trabalho, Tardif; Raymond (2000) constata que as bases dos saberes profissionais vão se construindo entre os três e cinco primeiros anos de trabalho. Freqüentemente este é um período em que pode ocorrer ‘choque com a realidade’ em meio a uma mistura de expectativas, de sentimentos fortes e, às vezes, contraditórios que acontecem com professores em princípio de função. Caracteriza-se como uma fase crítica em relação às experiências de ajustamentos às normas, regras e hierarquia que ocorrem na realidade do trabalho. Ou ainda, pode ter a

conotação de decepção, em razão de que talvez o pensado até antes do ingresso na profissão não corresponde com a vivência.

Em função do perfil dos sujeitos delineados nesta Classe 1, que comporta um grupo de estreantes no magistério e um grupo prestes a se aposentar, notamos nas entrevistas elementos que parecem determinar a existência de um movimento de oposição, estabelecido pelos sentimentos de querer permanecer, continuar na profissão e, do mesmo modo, de sair dela.

O fator tempo tipifica a classe temática materializada pelas horas-atividades, percebidas como positivas quando declaradas como um benefício, e como negativas quando julgam as horas insuficientes para o preparo das aulas. Avaliam também os desencontros devido aos horários cumpridos em dias alternados ou rotativos. Este aspecto não coopera para maior interação entre eles.

O período reservado para a preparação das aulas parece ter sanado em parte as dificuldades relacionadas à falta de tempo, retratada também pelo léxico viver, bastante reclamada pelo conjunto de docentes. Segundo eles, administrar os horários das aulas com os encargos e atividades do cotidiano, somando-se a isso o percurso que às vezes precisam fazer de uma escola a outra para aumentar os rendimentos, são aspectos determinantes de suas vidas. Conforme exarado na seguinte opinião:

A gente não tem tempo, o professor não tem um tempo pra viver, pra preparar e outro tempo pra lecionar. Ele tem o tempo todo pra ficar em sala. Fala-se em horas atividades. Horas atividade é um dia. O que você consegue em um dia? E não é um dia todo! (Professora, casada, religião indefinida, 31-40 anos, matemática, 11-15 anos de tempo de serviço, Ensino Fundamental, municipal).

Dados do perfil, constantes na Tabela oito, mostram que há um conjunto de 28% de professores com experiências entre 15 e 20 anos na profissão. Retomamos o léxico aposentadoria na Classe 1, expresso na Tabela 12. Parece que existem expectativas vivenciadas com ansiedade por esse grupo de educadores, pelo fato de terem que sair da profissão à qual sempre se dedicaram e pela oportunidade de poderem enfrentar o desafio de dar início a uma nova etapa de suas vidas, qual seja, permanecer no campo educacional ou engajar-se em outro projeto em área distinta.

Eu estou até preocupada, pois a aposentadoria já está perto e estou pensando um monte de atividade no bairro, para trabalhar com adolescentes essa questão da sexualidade. Já estou programando toda a minha aposentadoria, porque se eu ficar longe dos adolescentes, sem poder passar o que eu sei, eu fico louca. Então, se eu ficar em casa eu morro. (Professora, católica, divorciada, 41-50 anos, Ciências, acima de 21 anos de tempo de serviço, Ensino Médio, estadual).

Os vocábulos remuneração e ganhar foram pronunciados pelos depoentes em referência aos ganhos financeiros, que às vezes são causa de frustração na profissão. Enquanto em seus discursos referentes aos demais assuntos os sujeitos utilizaram pronome pessoal na primeira do plural (nós), ao falarem sobre o assunto em foco usaram a expressão pra mim mesma (o). Diante disso, a questão salarial adquire um sentido muito próprio, particular de cada um.

Sobre esse mesmo aspecto, no estudo realizado em Cuiabá por Batista (2006), o qual reuniu pouco mais de três centenas de professores da rede fundamental de ensino, a remuneração apresentou-se ligada ao trabalho e inseriu-se no contexto dos motivos decisivos para a escolha da profissão. Partindo do entendimento de remuneração como forma de provimento de necessidades, alguns continuam no magistério somente pela sobrevivência, pois os cursos feitos e os concursos prestados só validam a possibilidade de dar aulas. Aliadas a essa questão encontram-se as batalhas ou reivindicações por melhores salários, pois: “[...] os professores sofrem os impactos sociais e econômicos ocorridos nos últimos anos, geradores de perda salarial e de status.” (BATISTA, 2006, p. 108).

Retomando os dados referentes aos sujeitos deste estudo, além da remuneração enquanto característica peculiar de cada educador, o aspecto afetivo também os mantém no exercício do magistério e na profissão.

Eu acho que por amor e porque toda a família do meu pai é profissional nessa área. Eu gosto de dar aula, apesar de ser mais ou menos mal remunerado, mas eu gosto. Ás vezes frustra sim, às vezes dá vontade de sair, às vezes não, às vezes dá vontade de continuar. (Professora, espírita, solteiro, 20-30 anos, Química, 0-5 anos de tempo de serviço, Ensino Médio, estadual).

Apesar dessa constatação, o léxico sair associa-se a depoimentos de um grupo que, mesmo gostando do que faz, encontra-se decepcionado não somente pela questão salarial, mas também pelo desprestígio que paulatinamente vem afetando a profissão, sobretudo por causa da carência de recursos para a realização das suas atividades.

Entendemos que o trabalho é um modo de produção de condições materiais, porém, além de produzir os meios para garantir a existência física dos professores, é também um dos modos de realização de suas potencialidades de vida, que os encaminha para a satisfação pessoal. Não havendo esse contentamento, pode ocorrer uma cisão entre o que almeja e o que faz, implicando na adoção de uma prática educativa mecânica, em um fazer desprovido de reflexões acerca da unidade pensamento-ação, o que pode vir a comprometer a qualidade do ensino, ilustrado por meio deste relato:

[...] pois, tendo apoio e material didático adequado, você pode fazer um trabalho bem melhor. Isso não quer dizer empecilho para fazer um bom trabalho, mas ajudaria a render muito mais. (Professora, casada, religião indefinida, 31-40 anos de idade, Biologia, 6-10 anos de tempo de serviço, Ensino Médio, estadual).

A palavra melhora, na Classe 1, é respeitante à maneira pela qual os docentes enfrentam as dificuldades. Em meio ao conjunto de discursos, parece haver sentimentos de resignação, de consolo ou de conformação, assim expressos:

Eu acredito muito em tudo, eu sou uma pessoa muito positiva, acho que as coisas vão sempre melhorar, tem que melhorar. (Professor, espírita, divorciado, 31-40 anos, Língua Portuguesa, 11-15 anos de tempo de serviço, Ensino Médio, estadual). [...] e não podemos perder a esperança, a gente vai ter uma sociedade melhor. Pela educação a gente ainda pode mudar as coisas. (Professora, católico, divorciado, 41- 50 anos, Língua Portuguesa, acima de 21 anos de tempo de serviço, Ensino Médio, estadual).

Em relação aos aspectos negativos da profissão, os professores não se isentaram de pronunciar aquilo que vivenciam, sendo os aspectos negativos retratados pela categoria denominada mal-estar, conforme analisam Cândido e Batista (2007, p. 19).

Este elemento se circunscreve em dificuldade, desvalorização e baixo salário que rondam a profissão. No entanto, este aspecto parece ser o diferencial nas duas redes de ensino, pois ficou patente como característica dos docentes da rede estadual.

Tendo em vista a metodologia utilizada pelas autoras, o sistema periférico caracterizou-se por comportar elementos contraditórios reveladores de que as dificuldades existem, entretanto: “[...] frente à dicotomia o Núcleo Central, parece referendar o fato de ser professor, de continuar na profissão e fazer isso valer a pena.” (CÂNDIDO; BATISTA, 2007, p. 19).

Em linhas gerais, esta análise, nos permite verificar que o grupo de professores investigados parece conviver com uma experiência caracterizada pela instabilidade, por um vaivém constante entre o sair e o ficar, o qual se corporifica pela utilização dos verbos pensei, vou parar, continuar, porém, aguardam melhoras.

Estas ações no contexto das entrevistas indicam que os recém contratados já pensaram em mudar de emprego, mas consideram as satisfações inerentes à profissão, como o salário seguro, que os permite ganhar bem ou mal algum dinheiro. Analisamos, a partir de Tardif; Raymond (2000), que este movimento entre prosseguir ou deixar a profissão pode ser marcado pelos questionamentos que acontecem na fase inicial da carreira até ocorrer a estabilização profissional, conforme exemplifica o seguinte relato:

Hoje em dia, eu já não me preocupo tanto quanto antes, quando eu tinha uns cinco, seis anos, que eu já trabalhava na área e até pensei mudar. Então, eu achava que poderia mudar de profissão, mudar tudo, fazer vestibular, fazer outra coisa, mas eu

fui gostando. (Professora, católica, casada, 41-50 anos de idade, Língua Portuguesa, 11-15 anos de tempo de serviço, Ensino Médio, estadual).

Apesar das dificuldades e dos enfrentamentos que impedem o exercício prazeroso da profissão, existem recompensas que geram esperança por melhorias e suavizam os entraves, levando os docentes a persistir, a continuar em sua função.

A análise do léxico Mestrado parece ser representada como algo utópico, além das suas condições, sejam elas financeiras e ou familiares. A maneira para enfrentarem o cotidiano e materializarem o projeto sonhado, referindo-se à realização do curso, seria por meio do apoio em um ser transcendental, ilustrada pela expressão se Deus quiser, ou buscando algo do além, fora de si, conforme a entrevista seguinte:

Eu pretendo fazer um mestrado e seguir adiante. Acho que o mestrado seria um sétimo céu para mim. (Professor, católico, solteiro, 20-30 anos, Língua Portuguesa, 0-5 anos de tempo de serviço, Ensino Fundamental, municipal).

O conjunto dos docentes substitutos alega que, antes de entrarem em um curso nesse nível, precisa se preparar para um concurso público, que lhes garanta fazer parte do quadro de professores efetivos das escolas da capital. Dentre o conjunto de expectativas demonstradas, o curso de mestrado comparece relacionado ao verbo pretendo. Todavia, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB n. 9394/96) não faz referência à exigência dessa titulação para se lecionar nos níveis de Ensino Fundamental e Médio, isso talvez configure uma das razões da escassez do título de mestre entre os profissionais.

Quanto à estabilidade dos professores na carreira, os dados parecem dizer que pelos léxicos aposentadoria e aperfeiçoamento ou preparação que ela se consolida mediante a atenção dada a estas expectativas. Em relação à capacitação, sugerem esses educadores que o aprimoramento poderia acontecer por meio de algum tipo de investimento, na forma de cursos oferecidos pelas redes municipal e estadual de ensino.

A seguir, a Classe 4, exibida na Tabela 13, expõe elementos que possibilitam a leitura dos dados acerca do que os docentes pensam sobre o contexto em que se inserem:

Classe 4 - O contexto socioeducacional e suas implicações na profissão

Tabela 13 - Classe 4 - Distribuição de palavras por índices de quiquadrados e freqüências Classe

Palavras Formas associadas ² Corpus

N %

Aluno+ Alunos 23,80 51 36 70,59

Pesso+ Pessoa, pessoais, pessoal, pessoas 14,39 18 15 83,33 Famili+ Família, familiar, famílias 13,36 12 11 91,67

Falt+ Falta, faltando, faltas 11,82 11 10 90,91

Pai+ Pai, pais 11,82 11 10 90,91

Escol+ Escola, escolar, escolas, escolinha 11,51 38 25 65,79

Quest+ Questão, questões 10,84 18 14 77,78

Problema+ Problema, problemas 10,76 13 11 84,62

Condic+ Condição, condições 10,32 7 7 100,00

Complicad+ Complicada, complicadíssimo, complicado 8,81 9 8 88,89

Motiv+ Motiva, motivação 8,81 9 8 88,89

Lado+ Lado, lados 7,30 5 5 100,00

Sociedade Sociedade 7,30 5 5 100,00

(a) gente Gente 7,11 38 23 60,53

Frustr+ Frustra, frustração, frustrado, frustram, frustramos, frustrante 6,58 17 12 70,59

Apoio Apoio 5,92 7 6 85,71

Esperanca+ Esperança, esperanças 5,82 4 4 100,00

Governo+ Governo 4,52 6 5 83,33

Esta Classe é a maior em relação ao número de UCEs, reunindo pouco mais de 40% do material, e comparece ligada à Classe 1. Os léxicos que a compõem formam os discursos de nove docentes, sendo seis homens e três mulheres. Faixa etária característica de 41 a 50 anos de idade, com a média do tempo de serviço entre 16 e 20 anos. O grupo leciona em diferentes áreas, reunindo os professores de Filosofia e Sociologia do nível médio, que em geral ministram aulas de Ensino Religioso também no fundamental.

Enquanto na Classe 1, expressa na Tabela 12, os docentes falaram a partir do pronome pessoal na primeira pessoa do singular, eu, porque reportaram um pouco de suas experiências na relação com o trabalho, nesta Classe 4 empregam o impessoal, a gente, porque nesta análise eles destacam o cenário socioeducacional.

Ainda referindo-se às fases constitutivas da profissão, Tardif; Raymond (2000) observa, sobretudo na terceira delas, o aspecto da socialização, quando acontecem a estabilização e a consolidação de ser professor. Nesta etapa existe um maior investimento na carreira, sedimentando a autoconfiança docente pelo domínio dos aspectos pedagógicos e o alcance de maior equilíbrio profissional. Esse é um tempo marcado pela descoberta dos

alunos reais, substituindo a imagem dos alunos desejados, estudiosos, dependentes, sensíveis às correções ou recompensas.

Se na Classe 1 os docentes fazem referência a alguns elementos que lhes causam frustrações e os desmotivam profissionalmente, agora na Classe 4 aspectos referenciados pelo vocábulo condições permitem evidenciar outros elementos do âmbito da interação social. Assim, os conteúdos semânticos de uma classe enriquecem a outra.

Com vistas à compreensão da Classe 4, verificamos a existência de quatro personagens que vamos entender como grupos: alunos, família, escola e governo. Assim, o contexto lexical parece tratar de diferentes problemáticas circunscritas ao âmbito didático- pedagógico, a saber, as precárias condições de trabalho, a ausência dos pais na educação dos filhos e os lapsos da política educacional que envolve o gerenciamento das escolas pelos governos.

Sobre a palavra alunos, maior quiquadrado, os entrevistados destacam o discrepante nível de aprendizagem entre os educandos que freqüentam uma mesma série, ressaltando, ademais, que em muitas salas de aulas encontram-se estudantes com nivelamentos diferenciados. Esse fator, na acepção dos depoentes, traz-lhes dificuldades, uma vez que se vêem impedidos de prosseguir no mesmo ritmo de ensino, e isso conseqüentemente interfere no adequado rendimento das aulas. Nessa perspectiva, analisamos que o aspecto social, segundo os declarantes, parece interferir também na aprendizagem dos alunos.

Além do problema do desnível apontado pelos entrevistados, a indisciplina em sala de aula e a carência de recursos materiais para a diversificação didático-pedagógica, frente às dificuldades financeiras dos alunos exigem que eles, os professores, além de suas atribuições, se responsabilizem pelos problemas pessoais dos estudantes e seus familiares, como expresso neste depoimento:

A escola, hoje, não consegue cuidar de todos os problemas do aluno. O professor tem que ser professor, psicólogo, neurologista, oftalmologista, enfim, faz a área de médico também. Tem que tratar do aluno e da família. É um problema social e isso me frustra. (Professora, religião indefinida, solteiro, 31-40 anos, Língua Portuguesa, 6-10 anos de tempo de serviço, Ensino Fundamental, municipal).

Sobre este comentário, podemos nos reportar a Alves-Mazzotti et al (2007) na investigação que realizaram envolvendo 15 escolas públicas da rede municipal de ensino de três cidades do estado do Rio de Janeiro, com a participação de 248 professores do Ensino Fundamental. Os resultados daquele estudo mostram diversos aspectos que influenciam as atividades docentes, dentre eles a desvalorização do magistério, que, segundo a pesquisadora,

parece afetar mais profundamente a identidade profissional dos professores que atuam nas 1ª a 4ª séries que a daqueles que lecionam nas 5ª a 8ª séries. Os que se sentem obrigados a responder pelas funções da família na educação da criança, entre outras cobranças, são responsabilizados pelo fracasso escolar, e isso os faz ficar na defensiva.

A insatisfação no trabalho é gerada muitas vezes pelas dificuldades que envolvem os alunos; nesta pesquisa os entrevistados, apontam como possíveis causas disso, o excesso de liberdade que lhes tem sido concedido, prejudicando a comunicação e a relação entre ambas as partes. Nesse sentido, comentaram sobre o papel do Estatuto da Criança e do Adolescente, um documento criado para atender às exigências da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, aprovado em 20 de novembro de 1989 e assinado pelo Governo brasileiro em 1990, e que tem incentivado a proteção excessiva aos adolescentes. Um grupo de depoentes acredita que a proposta do Estatuto vem sendo confundida com uma espécie de cobertura aos comportamentos considerados indesejáveis. É o que apreendemos neste discurso:

O aluno poder fazer tudo que ele quer e quando você vai falar, não pode por causa do juizado do menor ou por causa da Secretaria de Educação. O professor

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