6. DISKUSJON OG KONKLUSJON
6.1 M ULIGE INNOVASJONSFAKTORER
Partindo dessa concepção geral de experiência, podemos discutir o conceito derivado de “experiência urbana”, com o intuito de analisar com maior precisão as relações entre os espaços públicos, as atividades humanas e os dispositivos tecnológicos. Nossa análise da experiência urbana será subsidiada por autores que
41 discutem o tema tendo como pano de fundo as repercussões e conflitos advindos da sobreposição dos avanços tecnológicos, das mídias de massa e dos fluxos globais de informação à realidade espacial da cidade vivida. Apesar de alguns desses escritos assumirem um notável teor político, importa-nos mais enfatizar a espacialidade, ou seja, perceber como cada autor observa que o domínio espacial afeta e é afetado pelo assunto por eles tratado. De fato, este parece ser o recorte teórico mais vantajoso para a presente pesquisa, posto que nossa linha geral de investigação, conforme já antecipamos, apoia-se no tripé homem-espaço-tecnologia.
O filósofo alemão Walter Benjamin foi um dos autores que, no início do século XX, tratou das consequências humanas e espaciais das então perturbadoras conquistas tecnológicas de seu tempo. Benjamin se debruçou sobre questões importantes para a presente pesquisa, tais como o corpo e a percepção das pessoas, e sua relação com a identidade e o patrimônio dos espaços edificados.
M. Christine Boyer é uma das pesquisadoras que recorrem à Benjamin para falar da experiência. A autora considera a experiência urbana em termos de uma condição natural do homem que tem enfrentado sérias ameaças diante da propagação dos meios de comunicação eletrônica. Segundo Boyer, “[...] a ascensão da informação árida e factual também é culpada pela perda da experiência sentida”12 (1996, p. 101, tradução nossa). Nessa perspectiva, a mediação tecnológica das interações humanas, através das mídias de massa, estaria decretando o fim não só da “experiência sentida”, mas de toda um regime de comunicação em escala humana, com rebatimentos diretos na percepção do mundo e nas relações intersubjetivas.
Dessa forma, as interações face a face, os modos de percepção e expressão naturais, construídos no espaço e com o corpo, estariam sucumbindo frente à emergência de relações de caráter técnico, frio e abstrato, dominadas por mensagens homogêneas e massificadas e presididas por interesses alheios à
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No original: “[...] the rise of dry and factual information was also to be blamed for the loss of directly felt experience.”
42 pessoa e ao seu espaço13. O urbano emudece e sua experiência é anulada. Nos dizeres de Boyer: “A cidade não mais evoca nosso envolvimento; tornou-se anestesiada, muda, sem uma história para contar”14 (1996, p. 119, tradução nossa).
Olivier Mongin também explora o conceito de experiência urbana, ao destacar o desequilíbrio entre o espaço vivido e o “espaço de fluxos” que estaria acometendo a sociedade na era digital. Ele cita como condições da experiência urbana “[...] o corpo, o espaço e o tempo, a relação de um interior com um exterior, de um privado com um público, de um fora com um dentro.” (MONGIN, 2009, p. 233). Para Mongin, a atual crise dos territórios passa pelo divórcio entre a urbs (a realidade espacial, a forma urbana) e a civitas (a comunidade política da res publica), cuja união dava o sentido de urbanidade e que outrora caracterizava uma experiência urbana que entrecruzava “[...] uma poética, uma cênica, uma política, a que imbrica privado e público [...]” (2009, p. 141). E defende que essa perda de urbanidade é alavancada pelo espaço urbano contemporâneo, caracterizado por uma expansão descontrolada que gera uma espacialidade contínua e indistinta.
Miwon Kwon (2008) situa o problema da experiência espacial contemporânea no contexto de um “atraso cognitivo” que estaria afligindo uma humanidade incapaz de acompanhar avanços tecnológicos tão acelerados e pervasivos. Nesse sentido, a autora faz coro a Donald Norman, quando este observa que “a tecnologia muda rápido, as pessoas mudam devagar.” (2002, p. xiv, tradução nossa).15 Segundo Kwon,
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O modo como Boyer intitula seu primeiro capítulo é esclarecedor: “Desencantamento da cidade: um diálogo improvável entre corpos, máquinas e formas urbanas"; no original: “Disenchantment of the city: an improbable dialogue between bodies, machines, and urban form.”
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No original: “The city no longer evokes our involvement; it has become numbed, speechless, without a story to tell.”
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No original, “Technology Changes Rapidly; People Change Slowly” foi como Norman intitulou uma das seções de seu prefácio à edição de 2002; no corpo do texto ele confronta a “alta tecnologia”, com sua lógica acelerada, ao passo mais vagaroso que caracteriza a vida cotidiana, a natureza humana, bem como a sociedade e a cultura.
43 [...] a desconstrução da experiência espacial em termos perceptivos e cognitivos [...] é o sintoma cultural da realidade política e social do capitalismo tardio. [...] nós estamos errados para esse 'novo' tipo de espaço. Temos deficiência para entender a organização de sua lógica, o que quer dizer que somos sujeitados por ele sem sequer reconhecer a nossa própria sujeição. (2008, p. 152-3).
Paulo Reyes (2005), por seu turno, evoca a experiência espacial, em sua dimensão concreta e ordinária, para enterrar a noção de ciberespaço como “espaço paralelo”. A posição do autor é exemplar, pois ajuda a nos afastar do discurso ficcional e apocalíptico que permeou o tratamento do tema a partir de 1960 e que conheceu seu ápice nos anos 1990, com escritos infestados de termos futuristas, ainda muito utilizados, tais como “espaço de fluxos”, “espaço virtual”, “aldeias globais” e outras metáforas em torno da espacialidade. Para Reyes,
sob um ponto de vista da experiência espacial, tal realidade [a da vida cotidiana] não pode ser reduzida a uma realidade paralela. Se o ciberespaço aponta para uma nova experiência tecnológica, essa mesma experiência não está dissociada das materialidades convencionais do espaço da realidade da vida cotidiana. [...] O que parece mais coerente é pensar esse universo na sua base, na sua constituição, naquilo que o faz surgir, que é o digital. (2005, p. 58).
A esses autores, podemos acrescentar dois filósofos que deram atenção especial à experiência do homem no espaço: Jeff Malpas e Maurice Merleau-Ponty. Malpas (1999) advoga que não há como entender a experiência e o pensamento humanos sem entender o lugar e a localidade; nesse sentido, a análise da mente e do self seria idêntica à análise do lugar. Na mesma linha, Merleau-Ponty sustenta que a existência do homem está essencialmente vinculada à dimensão corpórea e concreta (MALPAS, 1999). Assim, antes de pensar o mundo, estamos no mundo – mais uma vez, a fisicalidade do corpo e do espaço aparecem como instâncias elementares (SANTAELLA, 2009).
Aos dois filósofos citados, poderia-se adicionar ainda Gaston Bachelard, que, conforme lembra Malpas, também discorreu sobre a importância do lugar na conformação da identidade humana. Segundo Bachelard, os espaços interior e exterior (da mente e do mundo) transformam-se um no outro, moldando-se reciprocamente (MALPAS, 1999). Essas perspectivas teóricas tornam possível estabelecer um conceito próprio de experiência urbana. Mas para isso é preciso
44 extrair, daquelas formulações, alguns aspectos essenciais capazes de nortear este percurso analítico e metodológico.
A exposição de Mongin (2009) parece sintetizar os elementos fundadores do tipo de experiência urbana de que tratamos nessa pesquisa: dentre suas condições ele cita o corpo, o espaço e o tempo. Um olhar atento mostrará que, de fato, essas três instâncias permeiam todo o debate em torno da questão examinada. As transformações, os conflitos e os questionamentos acerca da condição humana frente à escalada tecnológica nos espaços da cidade trazem à tona, circunstancialmente, ressonâncias da experiência sobre o corpo, sobre o espaço e sobre o tempo. Estes dois últimos elementos serão tratados à parte nesta pesquisa, uma vez que configuram duas de nossas categorias de análise; então faremos agora algumas considerações sobre o corpo.