2 HOVEDDEL:
2.4 M EDVIRKNING
Falar de uma festa não é falar de todas as festas. Para cada um que participa de uma festa ela possui um significado. As festas na zona rural são permeadas de particularidades, especificidades, que dão a cada uma identidades próprias. O movimento, a realização ou o próprio fazer da festa, as pessoas envolvidas assim como os motivos que deram início a cada festa trazem a compreensão de que as pessoas constroem e reconstroem, historicizam de maneiras diferentes suas práticas235.
Os sujeitos que interagem nesse espaço possuem objetivos e visões diferentes sobre o que são essas festas. Compreende-se que as festas abrigam memórias, identidades e experiências, não somente coletivas, mas, sobretudo, individuais. Cada sujeito se insere de forma diferente em uma tradição, seus papéis e suas representações podem variar de acordo com vários fatores, como: gênero, idade, crenças e vínculo com o lugar.
Os moradores mais velhos dessas Comunidades possuem certa dificuldade em compreender a lógica atual das festas. Alguns entrevistados, na própria Comunidade Cruzeiro dos Martírios, consideram contraditório o número reduzido de participantes na parte religiosa, comparado ao número de pessoas presentes na parte lúdica ou profana, iniciada após as celebrações236.
Para se compreender a variedade de sentidos presentes em um evento e em um único é necessário analisar questões que afligem o homem rural. A festa é um
234 GUIMARÃES, Rosângela Borges. Festas: um espaço da prática social nas localidades rurais.
Monografia (Licenciatura e Bacharelado em História). Departamento de História. Universidade Federal de Goiás. Catalão. 1997. 76 f., p. 11.
235 Id, 1997, p. 22.
236 Informação verbal da Sr Ozair de Sá Souza, 83 anos, esposa do Sr. Lourenço Rabelo de Souza.
momento em que transbordam sentimentos, crenças e também desavenças, muitas delas, pessoais. É possível observar em muitas falas a importância da festa em relação à devoção ao santo homenageado, contudo também questiona-se o rompimento causado por ela na vida cotidiana dos moradores. A festa, por ser um espaço da vida das pessoas, possibilita que os problemas que envolvem o mundo rural nela apareçam, pois é um espaço onde se expressam os modos de vida daqueles que participam dela.
Os embates, disputas e desavenças verificadas na festa têm causas mais profundas do que simplesmente a disputa entre Igreja/ festeiro pelos seus recursos, o que na verdade está em voga é a autonomia e a independência política da Comunidade. A festa, na vida desses sujeitos, assume um caráter de visibilidade e de prática social, já que é um momento de encontro de diversos sujeitos que ocupam lugares diferentes na sociedade e, sendo assim, nela, assumem posturas e têm objetivos diferentes.
Cada festa tem uma série de particularidades, de significados dados pelos sujeitos que dela participam. As inúmeras transformações vivenciadas pelos moradores rurais fizeram com que suas expectativas de vida sofressem transformações. Com base nelas, o realizar a festa se tornou uma obrigação de dar continuidade às tradições locais que, de acordo com a fala de muitos moradores, não podem ser ―perdidas‖.
A festa para seus sujeitos é o espaço que marca, delimita, caracteriza seu lugar. Diferencia uma comunidade da outra, bem como distingue os indivíduos que ali residem. Desse modo, ela cria condições de visibilidade da Comunidade em relação a outras e também em relação aos moradores da cidade. A festa, por ser um espaço de prática social, tem uma dimensão que vai além do festejar. Talvez por isso haja necessidade de resistir, de manter a festa, conservá-la, para que continue sendo o espaço deles, identificando e sendo a expressão de coesão do grupo.
A festa também é o local de construções simbólicas que envolvem disputas hegemônicas e ao mesmo tempo pluralidades visíveis, porém não pode ser configurada como um local de superstição cega em homenagem ao santo. Uma interpretação somente a partir do sagrado não contribuiria para esclarecer os conflitos dessas comemorações, dos jogos de poder e das falas emblemáticas dos moradores que têm o desejo de reconstituir das suas características primordiais.
Essas não são características restritas as festas da Comunidade Cruzeiro dos Martírios, essa situação é própria da religiosidade popular. Estas características não podem ser atribuídas à ingenuidade de seus sujeitos, mas, sim, às construções simbólicas que contribuem na (re)construção de discursos que envolvem inclusive disputas de hegemonia. A partir desse viés, a religiosidade popular envolve questões de
legitimidade e é marcada por disputas e tensões entre seus membros e fiéis, gerando questões e problemas a serem explicados e explicitados237.
A festa para seus sujeitos, tem diferentes ângulos, que podem estar relacionados aos percalços que envolvem sua realização, à preocupação com a realização da próxima festa, à angústia com a suposta incapacidade de sua realização, às disputas que envolvem sua organização ou ao simples desejo de pagar uma promessa. As necessidades de realização da festa podem ser várias. Os problemas para sua dessa realização também podem surgir inesperadamente. Contudo, nas falas dos depoentes, o desejo de louvar os Santos Reis e a importância da tradição se sobressaem entre as demais questões.
Os sujeitos passam a experimentar a festa como o lugar em que se pode vivenciar o aflorar de sentimentos, extrapolar a racionalidade para um plano de possibilidades subjetivas, vivenciar e externar os sentimentos adquiridos a partir dessa aproximação. Então, festejar e celebrar são ações capazes de unir os indivíduos, condessando fé e festa como práticas significativas na vida dos sujeitos. A festa é o que caracteriza a comunidade, cria identidade e a diferencia das outras localidades da região238.
Por meio da celebração coletiva, os indivíduos criam símbolos e significados que contribuem para urdir o próprio sentido do viver:
A festa é assim celebrada no espaço-tempo do mito e assume a função de regenerar o mundo real. Escolhe-se naturalmente, para este efeito, o momento da renovação da vegetação e, se tal acontecer, aquele em que o animal totêmico volta a ser abundante [...] Visita-se o lugar onde o antepassado mítico modelou a espécie viva de que o grupo procede. Este repete o ritual criador que lhe coube em herança e que
ele é o único a saber executar convencionalmente 239.
O entrelaçamento do sagrado e do profano preenche com outros e com os mesmos sentidos o viver dessas comunidades.
Não lembro quando passei a participar da festa, faz muito tempo. Assim... era criança, meu pai, meu pai recebia a Folia em casa e
237MENEZES, Renata de Castro. A benção de Santo Antônio e a ―religiosidad popular‖. In Estudios
sobre Religión. N. 16, dez. 2003 p. 1-6.
238 KATRIB, Cairo Mohamad Ibrahim. Reencontros com a religiosidade brasileira: sujeitos, memórias e
narrativas. In: Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Maringá (PR) v. V, n.15, jan/2013. ISSN 1983-2850, p. 230. Disponível em: http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf15/15.pdf. Acesso: 23 de out. de 2013.
239 DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Trad.
muitas vezes fez a festa da chegada, a chegada da Folia [...] Não tinha
essas coisa tudo que tem hoje, era só o louvor240.
Dona Ozair é uma das frequentadoras mais antigas da Comunidade Cruzeiro dos Martírios, é casada com o Senhor Lourenço Rabelo. Juntos realizaram a edição da festa no ano de 2009 e outras edições ainda nas décadas de 1980 e 1990. Seus filhos e sobrinhos também comumente são festeiros na Comunidade. Os relatos do casal informam o transcorrer dessa tradição e como eles acompanharam as mudanças sofridas. Não foram observadas relutâncias em relação à parte profana da festa, as reclamações ficam por conta do desprestígio da parte religiosa principalmente pelos mais jovens.
Pra mim, no meu interior é uma festa muito boa. O errado é parte social junto com a religiosa, então, assim, ajudo em tudo, mas nessa parte eu sou contra. O que eu acho que a parte religiosa deveria ser mais respeitada. E aí como mistura parte religiosa da parte social, as duas ocorrendo ao mesmo tempo, acaba que a parte religiosa é
desprestigiada241.
Em muitas edições da Festa em Homenagem aos Santos Reis eram comuns torneios de futebol no dia de sábado, que aconteciam no campo gramado que fica ao lado da quadra de esportes. A questão é que muitas vezes os jogos atrasavam e no momento da chegada da Folia ainda não haviam terminado. Torneios de truco e bingos também podiam acontecer simultaneamente à chegada dos foliões, o que gerava um ambiente confuso. Nas últimas duas edições da festa, todos os torneios esportivos e outras atividades foram marcados para o domingo, de forma a evitar maiores tumultos no momento da chegada dos foliões.
Cada sujeito se identifica nessa festividade de uma forma diferente, desde o jovem que participa da parte esportiva ou lúdica da festa até o morador mais antigo que participar da parte religiosa. Entretanto, por mais que a festa esteja imbuída de significados e sentidos diversos não deixa de ser o momento de devoção ao santo homenageado, o momento de pagamento de promessas, a espera de milagres para casos de doenças e o pedido de proteção. Os Três Reis Magos não são diferentes. A eles são destinados cultos, demonstrações de apreço e carinho, invocação, pedido de proteção, favores e graça.
240 Fonte oral: Sr Ozair de Sá Souza, 83 anos, esposa do Sr. Lourenço Rabelo de Souza. Comunidade
Cruzeiro dos Martírios, Catalão (GO), abril/2012.
241 Fonte oral: Sr. Delma Assunção da Silva Freitas, esposa de Leonardo Pereira de Freitas. Comunidade
As duas últimas festas realizadas em Homenagem aos Santos Reis na Comunidade Cruzeiro dos Martírios foram feitas como pagamento de promessa. Na festa 2011, Maria Paulina de Castro havia feito uma promessa para que seu marido, Vanderlei Rabelo de Souza, se curasse de um grave problema ocular que poderia vir a deixá-lo cego. A festa de 2012 foi realizada em cumprimento da promessa feita pelo tio de José Renato Silveira, para que este tivesse sucesso em uma cirurgia de transplante de rins, realizada em 2005. O mesmo tio morreu tempos depois, a promessa então ficou a cargo de Noelma Pereira da Silva Silveira, cônjuge de José Renato.
O pagamento de promessas ou o agradecimento e a necessidade de continuidade da festa foram as justificativas essenciais para a sua realização. As dificuldades, empecilhos e restrições estiveram presentes em muitas falas, contudo o fazer a festa ainda se apresenta nessa Comunidade, assim como em muitas outras, como um meio de identificação grupal e de formar reconhecimento frente a outras Comunidades.
Assim, a festa possui um caráter amplo, pois ela consegue ser, ao mesmo tempo, uma representação dos pensamentos e modos de vida das pessoas em seu cotidiano e um espaço/tempo que quebra as rotinas rígidas impostas ou apresentadas principalmente pelo trabalho, pelo sistema oficial, bem como pelas relações hierárquicas. Aqui ocorre uma inversão da hierarquia social; os sujeitos tidos como subordinados passam ao status de líderes, principalmente pelos seus conhecimentos relativos às crenças nos santos e à organização da folia242.
As festas não são apenas alegria, música e reza, em que a parte religiosa se sobressai. As festas estão integradas em um universo marcado por embates, disputas e conflitos. É um momento de romper com a jornada diária de trabalho, mas também é o momento de sacrifício, renúncias, imposições de serviços etc.
Assim, a festa propõe uma compreensão de como são as pessoas de determinado local, por ser uma prática social que propicia um fervilhar do cotidiano dessas pessoas, por ser um momento de encontro de diversos sujeitos que ocupam lugares diferentes na sociedade e, sendo assim, assumem posturas e têm objetivos diferentes. Desse modo, cada festa tem suas particularidades e significados dados pelos sujeitos que dela participam. Não é possível fazer generalizações ou pensar uma festa como modelo.
242 OLIVEIRA, Simone Gonçalvez de. A bandeira pede passagem. Folia de Reis: fé e festar entre a
tradição e a modernidade. In: PEREIRA, Mabel Salgado; CAMURÇA, Marcelo Ayres. (Orgs.). Festa e