7. GENERAL DISCUSSION
7.1. M ECHANISMS FOR MIXED TUTOR CHOICE
Soldada/o é a pessoa que faz a segurança da boca ou da/o chefa/e. É um cargo raramente ocupado por mulheres, principalmente pelo discurso gendrado (TERESA DE LAURETIS, 1987), reproduzido pelas próprias pessoas envolvidas com o tráfico de drogas, segundo o qual as mulheres são menos violentas.
Em toda a investigação, apesar de casos em que as mulheres precisaram usar a violência para manterem seu poder de mando (Flora e Luciana admitiram já terem matado várias pessoas, tanto consumidoras/es que servem de exemplo de que a dívida nunca é perdoada, como outras/os traficantes em disputas entre grupos rivais), não foi possível entrevistar nenhuma mulher que havia ocupado (ou que ocupasse) este posto.
É importante evidenciar que a figura do soldado esteja mais associada a grandes bocas de fumo, geralmente existente nos estados que, além de grandes vendedores, estão em constante disputa por territórios, como é o caso do Rio de Janeiro e de São Paulo, no Brasil e de Baja Califórnia e Jalisco, no México. Assim, a figura da/o soldada/o não é comum nem em Brasília-DF e nem na Cidade do México.
Na Cidade do México, o nome dado para este cargo é achichincles, figura que desperta a aproximação de várias mulheres não só pelo dinheiro e poder relacionados
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a ter um companheiro envolvido com o tráfico de drogas, mas pela falsa sensação de segurança que se tem ao viver ao lado destes homens, porque apesar de terem uma proteção imediata de alguém que possui poder e é respeitado na cidade, a longo prazo estar envolvida com o tráfico mesmo sendo apenas a esposa de um deles as coloca permanentemente em risco.
Assim como o relato de Flora (livre, envolvida com o tráfico de drogas na Cidade do México, México), já citado, muitas mulheres buscam nos achichincles a proteção que o Estado não tem conseguido oferecer.Entre se sentirem desprotegidas e serem atingidas pelos “danos colaterais” causados pelo tráfico de drogas nas cidades, parece que a lógica para estas mulheres se constrói no sentido de se protegerem antecipadamente, relacionando-se afetivamente com alguém já localizado dentro destas redes criminalizadas, conquistando proteção enquanto “esposa de fulano”.
Algo interessante a se notar é que no caso mexicano existe nomeadamente58 a figura da/o sicária/o, a qual é um pouco diferente da/o soldada/o, por ser esta a pessoa responsável pela proteção da rede de tráfico de drogas realizando os assassinatos necessários para umadadaorganização. Muitas vezes estes assassinatos não são necessários apenas para dar fim a um problema, mas para utilizar a divulgação de uma morte lenta e dolorosa como aviso para redes de tráfico rivais. Assim, muitas/os sicárias/os, ao invés de esconderem seus crimes, deixam notas escritas ou marcas que auxiliam no reconhecimento da autoria destes assassinatos.
Apesar de haver poucas mulheres ocupando este cargo, assim como em outros que exigem o uso da violência, a recente presença de mulheres como sicárias tem atraído a atenção da mídia e de estudos sobre o tráfico de drogas no México (GÓMES, 2012). O relato de Flora afirma que elas não só existem como seu número tem aumentado. Entretanto, não foi possível entrevistar nenhuma sicária. Um único contato ocorreu nas oficinas realizadas nos estados de Sinaloa e Tamaulipas, onde o tráfico de drogas tem como característica o uso da violência extrema e a presença de as/os sicárias/os enquanto figuras comuns naquelas organizações.
58 Aqui vale ressaltar que, à diferença do México onde cada um destes cargos é nomeado e socialmente reconhecido, a inexistência de um nome em específico para as diversas funções assumidas no tráfico de drogas brasileiro não necessariamente confirma maior homogeneidade, mas a dificuldade socialmente construída neste país em se nomear principalmente categorias relacionadas com a violência e o preconceito.
114 1.7.12 Armeira/o: ter contatos é essencial.
Armeira/o (armera/o, na Cidade do México) é a pessoa responsável por realizar contatos e transações capazes de conseguir armas para a rede do tráfico de drogas. Não se trata de uma figura comum em todos os grupos criminalizados por tráfico, pois a necessidade de armas pesadas só ocorre em redes de tráfico mais organizadas, o que, como já dito, é raro nas duas capitais investigadas. No caso específico de Brasília-DF e da Cidade do México, as armas, por seu pequeno porte,são adquiridas de forma mais fácil, por meio do contrabando mais popular em feiras, centros comerciais populares ou com conhecidas/os.
Este cargo, quando existe, é ocupado por alguém que, ao mesmo tempo em que pode ter contatos privilegiados com a polícia e conquistar as armas por este canal, também têm relações com outras redes de tráfico, como é o caso do tráfico de armas que as importa de países produtores destes objetos.
Além disso, geralmente estas pessoas tem bastante conhecimento sobre armas e sabem como usá-las, o que não compõe o perfil prioritário das mulheres, ainda que algumas delas tenham citado o uso de arma, como Aline (presa em Brasília-DF, Brasil), Flora (livre, envolvida com o tráfico de drogas na Cidade do México, México) e Luciana (presa em Brasília-DF, Brasil). Portanto, assim como no caso da/o soldada/o, praticamente não existem mulheres nesta função, o que explica o fato de não ter sido possível localizar nenhuma delas.
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Como já explicitado, ainda que exista uma significativa diversidade de cargos na estrutura do tráfico de drogas, as mulheres têm ocupado de maneira mais expressiva apenas alguns deles, ainda que hajam mulheres em toda a estrutura organizacional do tráfico de drogas. E há, ainda, uma redução ainda maior de possibilidades ao se analisar o perfil das mulheres que estão presas por este delito, já que o sistema penal não é capaz de alcançar, com facilidade, os estratos mais altos desta rede criminalizada eelas tendem a ocupar os cargos menos valorizados na hierarquia.
Por este motivo, dentre outros, vale conhecer o perfil das mulheres aprisionadas por tráfico de drogas nas duas capitais pesquisadas para se ter uma ideia
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de qual é o específico grupo que a “guerra contra as drogas” tem aprisionado, mostrando o quanto os processos de aprisionamento são seletivos, discricionários e, portanto, frágeis. Este é o foco do próximo capítulo.
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