Dialética dos extremos e afinidades eletivas: a totalidade aberta
As influências teóricas distintas, a importância dada a dimensões pouco valorizadas e tematizadas pelo pensamento político – imaginação, poesia, religião – e o conjunto de atividades no campo da militância cultural e política que exerceu Mariátegui, dificultam muito o exercício de desvendamento de seu pensamento em uma totalidade significativa. A admirável capacidade de articular diferentes âmbitos da vida em sociedade com a dimensão subjetiva e espiritual da luta social é um desafio à interpretação de sua obra, já que pede daquele que a indaga uma abertura pouco comum à investigação da ciência.
Nesse sentido, não é à toa que alguns pesquisadores e estudiosos de décadas da vida do Amauta parecem concordar que o movimento de seu pensamento apresenta uma problemática filosófica de tal natureza que é preciso uma arqueologia de nossos pressupostos filosóficos para compreendermos sua originalidade de pensamento. É caminhando nesse sentido que entendemos que Mariátegui apresenta mais do que uma obra restrita às análises de seu contexto histórico, ele dá continuidade e enriquece uma perspectiva de conhecimento que transcende o momento histórico tematizado por ele em seus escritos.
Reatualizando para o contexto histórico-mundial do séc. XX a especificidade latino-americana da matriz filosófica do dois como totalidade, Mariátegui apresenta um pensamento que, seguindo a tensão fundamental entre opostos reúne, em uma mesma totalidade, logos e mithos, cisão primordial que funda a razão metafísica, o um como princípio. Explicando como Mariátegui captou essa tensão em seu contexto histórico e a traduziu, escreve Quijano:
Para Mariátegui estava se constituindo de maneira explícita, um campo cultural original [...]. Este campo cultural original implica que
logos e mito não são, não podem ser externos entre si, senão
contraditórios. Pertencem a um mesmo movimento intelectivo em que a imaginação atua como e através do lógico para constituir o conhecimento como representação global ou globalizante em movimento, ato indispensável para outorgar status supra-histórico, mítico e, portanto, àquilo que só pode realizar-se na história através de muitas transcendências e transfigurações (QUIJANO, 1987, p. 109).
Ou seja, Mariátegui propõe uma totalidade entre logos e mithos que fere radicalmente a compreensão do universo a partir de uma razão onde os opostos se encontram separados em níveis, dimensões diferentes. Nesse sentido, Mariátegui irá propor uma alternativa à proposição filosófica idealista do um como princípio.
Confrontando-se a ela em sua manifestação, enquanto pensamento cientificista e liberal, Mariátegui afirma uma perspectiva de conhecimento do real que traz em seu fundamento a emergência de forças opostas. Ou seja, o Amauta se coloca contra a cisão e o domínio entre logos e mithos. Para ele, essa duplicidade não deve se estabelecer segundo os princípios hierárquicos da ciência positivista, mas como combate e luta em um mesmo plano.
Seguindo a noção de dois como totalidade, dimensões apartadas e em relação, Mariátegui defende que a razão científica deve ser confrontada com suas diferentes oposições – mito, imaginação, poesia, tradição – em uma relação de complementaridade e tensão entre polaridades extremas, configurando assim uma dialética dos extremos. Somando-se ao “caldo” filosófico próprio do continente latino- americano, o pensamento do Amauta é prova dessa construção histórica de uma filosofia própria do continente. Sua obra, porém, guarda uma singularidade: para Mariátegui, as polaridades devem estabelecer uma relação de agonia. Admirador confesso de Unamuno (1864-1936), a quem considerava dono de uma “inteligência demasiado apaixonada”, Mariátegui encontrou na obra A agonia do cristianismo a tradução de seu processo criativo e de ação política. Escreve o pensador:
A palavra agonia, na ardente e viva linguagem de Unamuno, recobra sua acepção original. Agonia não é o prelúdio da morte, não é conclusão da vida. Agonia – como Unamuno escreve na introdução de seu livro – quer dizer luta. Agoniza aquele que vive lutando, lutando contra a vida mesma, e contra a morte [...]. Para ele, a morte é vida e a vida é morte. Sua alma, cheia de esperança e desesperança ao mesmo tempo, é uma alma que, como a alma de Santa Tereza, “morre de não morrer” (MARIÁTEGUI, 2005, p. 167).
Nesse trecho, inspirado em Unamuno, Mariátegui defende a agonia enquanto tensão entre opostos. Agonia é a luta entre a vida e a morte que alimenta a alma; alma que caminha e que está “morrendo de não morrer”, ou seja, a fonte de movimento é essa contradição entre opostos que realizam sua presença na forma de luta e interpenetração. Mariátegui revela a sua convicção filosófica e leitura própria da unidade tensional entre opostos, da “guerra originária” que alimenta seu
pensamento. O peruano, que se autodenominava uma “alma agônica”, encontra no pensamento de Unamuno23 uma ressonância, uma afinidade que ele claramente
utiliza para nortear sua própria vida e pensamento. Se, através do tensionamento primordial entre logos e mithos, podemos encontrar o fundamento que reúne o pensamento de Mariátegui ao pensamento crítico latino-americano, é no sentido dado ao termo agonia que encontramos o marcador específico desse pensamento em sua obra. Como explica Galindo:
O verbo “agonizar” é uma espécie de “chave” para o mariateguismo: Ele nos abre ao mundo de sua tensão interna e nos aproxima das polêmicas que marcam sua biografia. Por ambos os caminhos terminaremos nos aproximando da imagem de um marxismo elaborado longe de qualquer academicismo, envolto pelos acontecimentos, submerso na vida cotidiana que nasce nas ruas e multidões que inspiraram o ofício jornalístico de Mariátegui (GALINDO, 1982, p. 14).
Crítico radical da ideia de uma razão que nega a fé, Unamuno defende uma teologia agônica onde o corpo, os sentimentos, a antropormofização da natureza são manifestações de um Deus vivente em contraposição ao Deus teológico, abstrato, produto da razão solipsista. Explicitando que a agonia se expressa não somente na história da sociedade, mas também na vida do indivíduo, nas suas
23 A ideia de agonia expressa em Unamuno pode ser evidenciada em diferentes trechos de sua obra. De modo sintético, podemos dizer que a dialética dos extremos se expressa em Unamuno como afirmação agônica da vida enquanto confronto entre dimensões radicais da existência, como a vida e a morte: “A vida é luta, e a solidariedade para a vida é luta, se faz na luta. Não me cansarei de repetir que o que mais nos une, aos homens uns com os outros, são as nossas discórdias. E o que mais nos une, a cada um consigo mesmo, o que faz a unidade íntima da nossa vida, são as nossas discórdias íntimas, as contradições interiores das nossas discórdias. Cada um de nós só se põe em paz consigo mesmo, como Dom Quixote para morrer” (UNAMUNO, 1952, p. 45). O autor também confronta sua ideia de agonia com a dúvida cartesiana: “O modo de viver, de lutar, de lutar pela vida e viver na luta, da fé, é duvidar [...]. O que é duvidar? Dubitare contém a mesma raiz, a do numeral duo, dois, que
duellum, lutam. A dúvida, mas a pascalina, a dúvida agônica ou polêmica, que não a cartesiana ou
dúvida metódica, a dúvida de vida – vida é luta – e não de caminho – método é caminho, supõe a dualidade do combate” (Idem, p. 67). E explicando o movimento criativo de sua “agonia dialética” ele complementa: “Crer no que não vimos – ensinou-se no catecismo que é a fé; crer o que vemos – e o que não vemos – é a razão, a ciência; e crer o que veremos – ou não veremos – é a esperança. E tudo é crença. Afirmo, creio como poeta, como criador, olhando ao passado, à recordação; nego, descreio como racionalizador, olhando ao presente; e duvido, luto, agonizo como homem” (Ibidem, p. 51). E, se referindo à paz e à guerra, explica de forma clara, a dialética que funda sua ideia de agonia: “Alguém pode dizer que a paz é vida – ou morte – e que a guerra é a morte – ou a paz – pois é quase indiferente assimilá-la a uma ou a outra respectivamente, e que a paz na guerra – ou a guerra na paz – é a vida na morte, a vida da morte e a morte da vida, que é agonia” (Ibidem, p. 50). Ou seja, para Unamuno, assim como para o Amauta, é na discórdia, no movimento de negação e afirmação de opostos que se constitui o conhecimento, o progresso da história, a vida. Unamuno afirmava em reflexões de caráter teológico aquilo que Mariátegui levaria para o campo do pensamento crítico.
aspirações e conflitos, na sua espiritualidade; a tensão agônica se assume como a dinâmica básica da vida e da natureza. Nesse sentido, podemos afirmar que a agonia enquanto luta e necessidade mútua é absorvida de Unamuno como um pilar da obra de Mariátegui, como explica Jorge Oshiro, pesquisador que estuda a influência de Unamuno na obra de Mariátegui:
O pensamento de Unamuno é uma franca rebelião contra a ditadura da razão cartesiana. “Não me submeto à razão e me rebelo contra ela” [...]. E a rebelião contra a nova Inquisição que é a Ciência tem sua contrapartida: a reivindicação e defesa do sentimento, da subjetividade, do irracional, do corpo, da fantasia, da fé contra a razão e a objetividade, a consciência reflexiva a ciência (OSHIRO, 1996, p. 23).
Assim, a oposição entre logos e mithos como agonia inseparável entre os extremos da vida social dos indivíduos representa a lógica primordial que irá orientar todo o movimento do pensamento de Mariátegui, marcado por essa tensão constituinte entre campos distintos. Equação central de sua construção da razão enquanto dois como totalidade, a agonia entre logos e mithos se desdobra, em Mariátegui, em inúmeras dualidades que atravessam sua obra. Como oposição básica à lógica (logos) da ciência, o peruano apresenta a poesia, a imaginação, o pensamento indígena, a mística, a vontade e a fé. Todas essas construções carregadas de pensamento mítico (mithos) seriam o complemento em oposição à razão metafísica isolada do mundo (logos). Nesse sentido, Mariátegui defende uma ciência baseada em uma razão ampliada, onde a ciência seja conduzida por uma “lógica atormentada” (NOVAES, 1996, p. 9) pelas dimensões opostas da realidade social.
Conjuntamente com essa duplicidade elementar entre ciência positivista e seus opostos, Mariátegui também trabalha com outro conjunto de oposições que podemos agrupar na tensão elementar entre religião e marxismo e entre tradição e modernidade. Nesse sentido, o Amauta se esforça em reunir nacionalismo e marxismo, religião e revolução, indigenismo e vanguarda. Coluna vertebral que articula toda a abrangência de sua obra, a tensão agônica do pensamento de Mariátegui é onde reside a maior sofisticação e originalidade do Amauta. Obstinado a perscrutar e reunir os mais diferentes aspectos do real em uma mesma totalidade significativa, Mariátegui realiza um modo definido de pensamento que reinsere a
razão na história e no movimento do real em suas contradições e possibilidades. Alimonda traduz essa especificidade do pensamento amautista ao afirmar que:
O vigor do discurso mariateguiano reside na fusão de diferentes registros, na constituição de um lugar de enunciação que amalgama elementos heterogêneos, nesse impulso amplo que se esforça em traçar uma unidade possível entre formações discursivas que parecem antagônicas (ALIMONDA, 1994, p. 103).
Assim, em Mariátegui encontramos um esforço constante de capturar esferas tidas como opostas e reuni-las sobre o signo da tensão agônica. Diferente da procura pela harmonia que caracteriza o pensamento matemático em sua busca pela relação perfeita e proporcional; em Mariátegui, a contraposição é matéria de sua atitude de confronto com o mundo. Franco opositor do espírito gerado pela sujeição do mundo à análise anestesiada pelos “movimentos medidos e regulados”, Mariátegui entende a relação entre opostos como “vida de alta tensão” capaz construir uma nova civilização24. Contra o pensamento científico burguês – um como
princípio – Mariátegui propõe razão onde a tensão agônica – dois como totalidade – opera, desvendando relações de tensão e copertencimento entre aspectos contrários. Segundo Gutierrez,
[... Mariatégui] levará adiante seu assédio à relação entre classicismo e romantismo, heterodoxia e ortodoxia, materialismo e espiritualismo, moral e economia, liberdade e determinismo, heresia e dogma e outras antinomias. Não se pense, no entanto, que se trata de ceder a uma fácil conciliação entre polos opostos. O que faz Mariátegui é entrar fina e perspicazmente em cada aspecto, ressaltar seus valores e contribuições, descartar interpretações estreitas e renovar as noções com que tentamos apreender a realidade. Não estamos diante de um acomodamento de noções, e sim de síntese (GUTIERREZ, 1995, p.167).
E se aprofundando na explicação do método de Mariátegui, afirma:
O desejo de captar a totalidade da realidade levará Mariátegui a ser atento a polos considerados opostos desta realidade. Primeiro, ele trabalha separadamente, tornando visível seu alcance, logo afina e apura sua análise até o momento que, chegando a um extremo, esse exige o outro. Esse enriquecimento faz com que se estabeleça uma relação em que cada aspecto adquire seu sentido mais pleno. Temos muitas expressões desse procedimento dialético que Mariátegui tinha
24 Uma das grandes obras que exerceu forte influência para Mariátegui tecer suas reflexões sobre a luta entre duas civilizações foi O declínio do Ocidente, de Spengler.
em grande estima e que permite que ele alcance todos os recantos da realidade social e histórica (GUTIERREZ, 1995, p. 166).
Para o pensador peruano, a busca por um extremo termina na exigência do outro, ou seja, é um movimento intencional de busca pelo outro – assim se revela o sentido estruturante da dialética amautista. A tensão máxima, nascida de um esforço reflexivo e prático que opera através dos extremos da realidade social em que está imersa, realiza um movimento onde é buscada uma ligação íntima entre estruturas de realidades aparentemente opostas, distantes em seu extremo. Nesse sentido, a dialética dos extremos, em seu movimento agônico, se realiza buscando capturar as afinidades eletivas25.
Nascida da alquimia medieval e trazida do reino da química para o universo da literatura por Goethe, o conceito de “afinidade eletiva” procura capturar esse movimento íntimo entre duas substâncias, entre duas almas que se amam. É Max Weber que vai transpor essa “metáfora” alquímica literária para o universo da sociologia, quando busca capturar elementos análogos e convergentes entre uma determinada ética religiosa e um comportamento econômico. Realizando uma análise sobre o caminho do conceito desde o seu nascimento científico até a análise weberiana e sua presença em outros sociólogos26. Lowy propõe uma definição:
Afinidade eletiva é o processo pelo qual duas formas culturais – religiosas, intelectuais, políticas ou econômicas – entram, a partir de determinadas analogias significativas, parentescos íntimos ou afinidades de sentidos, em uma relação de atração e influência recíprocas, escolhas mútuas, convergência ativa e reforço mútuo (LOWY, 2011, p.140).
Ou seja, a partir do conceito de afinidade eletiva, é possível capturar um movimento intrínseco à dialética dos extremos em Mariátegui onde, por tensão e copertencimento, oposições extremas realizam um movimento agônico de reconhecimento e inclusão do outro. Essa dinâmica, que segundo Lowy pode operar de diferentes formas – convergência, reforço, atração, influência –, apreende justamente o movimento próprio ao dois como totalidade, já que mantém viva o
25
“São raros os pesquisadores da área da Sociologia das Religiões que não constataram, ao comentarem os escritos de Max Weber, em especial em ‘A Ética Protestante’ e ‘O Espírito do Capitalismo’, a utilização do termo ‘afinidade eletiva’. Mas estranhamente, esse termo não gerou
estudos, discussões ou debates; aliás, não é possível encontrar uma identificação mais ordenada das passagens em que a expressão se apresenta, muito menos uma análise sistematizada de seu significado metodológico (LOWY, 2011, p.129).
pertencimento dos extremos no interior de uma totalidade. Não há uma negação excludente e hierárquica que acomoda âmbitos distintos em uma mesma totalidade já estruturada de forma simétrica.
Porém, como Zeferino (2010, p. 97) aponta, o conceito de afinidade eletiva deve contar, dialeticamente, com suas antinomias pouco eletivas, ou seja, elementos irreconciliáveis mesmo em suas estruturas mais íntimas e que, sendo assim, não se reúnem. Se, por afinidades eletivas, dimensões opostas vão se reunir em suas estruturas mais íntimas, pelas antinomias pouco eletivas se mantém um tensionamento. Ou seja, para Zeferino, essa dinâmica afinidades/antinomias é responsável pela existência de uma “dialética sem síntese” (Idem, p. 106).
Dessa forma, ao pegarmos o caso do movimento específico da dialética agônica de Mariátegui, encontramos o exercício de uma síntese totalizadora aberta, assimétrica e descontínua. Ou seja, a dialética dos extremos em Mariátegui busca desvendar as relações de afinidade e antinomia, mantendo assim o caráter de movimento incessante do conjunto, enquanto totalidade saturada de múltiplos movimentos em seu interior. Mais do que fusão completa ou divergência, o Amauta opera em uma relação tensão e copertencimento entre distintos, o que abre a possibilidade de uma totalidade histórico-estrutural heterogênea, já que reúne lógicas históricas distintas – por vezes contraditórias – em uma mesma totalidade em movimento e abertura constante:
A ideia de totalidade histórica exclui a possibilidade de que uma única lógica presida a constituição e o processo histórico de uma totalidade social concreta, já que essa é historicamente heterogênea e só pode estar integrada por várias e diversas lógicas. Elas se articulam e certamente produzem uma estrutura e se ordenam em torno de uma lógica de conjunto. Nesse sentido, formam uma lógica de continuidade, porém, ao mesmo tempo, no mesmo movimento, não podem deixar de ser diversas e descontínuas (QUIJANO, 1991, p. 12).
Dessa forma, a dialética amautista gera a possibilidade de diferentes relações a partir do tensionamento e copertencimento de polaridades, evidentes em suas proposições sobre a tradição heterodoxa27 e na ideia de uma classe trabalhadora heterogênea em sua composição, própria à especificidade peruana. Esse traço do pensamento de Mariátegui se apresenta com maior nitidez nos escritos realizados
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nos últimos sete anos de sua vida. É a luta do proletariado, em nível mundial, continental e nacional, que serve como bússola para o Amauta em suas reflexões sobre o caminho da humanidade. Guiado pelo eixo comum do anti-positivismo, o Amauta usa das afinidades eletivas para costurar socialismo, indigenismo, vanguardas artísticas e dimensão religiosa em uma única totalidade. Unidas por determinadas condições históricas, essas dimensões se reúnem em uma proposta original, o socialismo indo-americano. Porém, a proposição mariateguiana não se encerra em uma fusão absoluta, em uma unidade fechada. Carregada também de antinomias, as relações que conformam o socialismo indo-americano de Mariátegui não constituíram uma concepção tida como realizada, fusão completa entre extremos. Logo no início da obra Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, é possível encontrar sinais claros dessa consciência do inacabamento de suas próprias concepções. No prólogo que Mariátegui sugestivamente nomeou de Advertência, ele escreve:
Voltarei a esses assuntos quantas vezes me for exigido pelo curso de minha pesquisa e da polêmica. Talvez haja, em cada um destes ensaios, o esquema, a intenção de fazer um livro autônomo. Nenhum deles está acabado: e não estarão enquanto eu viva e pense, e tenha algo a acrescentar ao que tenha escrito, vivido e pensado (MARIÁTEGUI, 2010, p. 32).
E, escrevendo sobre este movimento de realização próprio ao pensamento do Amauta, Galindo (1982) aponta o conjunto de afinidades e divergências no interior da apreensão de totalidade realizado pelo peruano:
O leitor de Mariátegui deve compreender que marxismo e nação formam um verdadeiro problema – no sentido vital da palavra – para o fundador do socialismo peruano. [... Há] uma verdadeira tensão que atravessa seus escritos e sua vida: algumas vezes prima o marxismo, outras, a nação, nem sempre de forma harmônica e, em muitas ocasiões, essa mesma tensão se expressa no contraponto entre vanguarda e indigenismo, entre ocidente e mundo andino, entre a reivindicação de heterodoxia e a exaltação da disciplina. [...] A tensão entre marxismo e nação gerou traços criativos em sua obra, mas também é motivo de contradições (GALINDO, 1982, p. 11).
O pensamento de Mariátegui estabelece assim uma constituição específica à ideia do dois como totalidade, ressignificando essa matriz filosófica em um marxismo agônico saturado de contradições. Perspectiva que nos remete a uma dialética
originária entre a palavra mítica e a palavra lógica; a ideia de movimento enquanto fundamento alimentou a noção do mundo enquanto instabilidade.
Expressa na dialética dos extremos, própria ao ethos barroco em Unamuno, ganha o aspecto de tensionamento entre fé e razão, tensionamento que será apropriado por Mariátegui nas mais diferentes possibilidades de oposição, afinidade