4. PRESENTASJON AV FUNN
4.3 M ANGEL PÅ KUNNSKAP ?
Os domínios de atuação distintos não dispõem de instrumentos lingüísticos desenvolvidos de modo a gerar intercompreensão, reciprocidade de compreensão e compromisso mútuos na linguagem, com autenticidade. O que falta?
Ou ainda, como nos diz Dejours em sua conferência brasileira de 12 de abril de 1994: “A palavra do agente sobre seu comportamento no trabalho é muito problemática e pode ser difícil para ele explicar e justificar seus atos, porque a linguagem não é feita para falar do trabalho. (...) gostaria de dizer que no trabalho existem muitas coisas que nem os operários nem os estudiosos sabem dizer” (DEJOURS, 1999, p. 50).
E mais adiante arremata o seu raciocínio, dizendo:
“Para descrever o trabalho e justificar os atos do trabalho, dispomos de descrições feitas pelos administradores e engenheiros. Nossa linguagem sobre o trabalho é uma linguagem de engenheiros, inapta para descrever o real do trabalho” (DEJOURS, op cit., p. 66).
O saber no trabalho está sempre em funcionamento, produzindo soluções e sanando os desvios que não são contemplados pelo trabalho prescrito na tarefa. Grande parcela deste saber permanece sem uma codificação simbólica inteligível (SCHWARTZ, 1998) aos demais domínios da produção distintos do domínio de atuação dos operadores. O conhecimento que se traduz no trabalho prescrito não abrange a insondável e inesgotável amplitude do saber operatório mobilizado na atividade. Muito da eficiência e da eficácia das tecnologias e dispositivos microeletrônicos empregados na produção funcionam por conta do saber incorporado dos operadores, dos esquemas de ação e das habilidades incorporadas que sequer são conhecidos a fundo pela ciência convencional (SCHWARTZ, op cit).
Mesmo que haja mundo fechado do saber em um dado domínio, pode-se dizer que, neste domínio, tem-se um verdadeiro “mundo comum” (PASTRÉ, 2005, p. 247-251) no qual os agentes compartilham de um “modelo operativo” (RABARDEL & PASTRÉ, 2005) incorporado que os torna capazes de agir.
Este “mundo comum” agrega os agentes de habilidades e competências incorporadas passíveis de intercâmbio na linguagem, mas isola-os dos demais agentes de outros “mundos...” nada comuns uns aos outros ou domínios de atuações distintos. Maturana & Varela (1994) empregam a expressão: “diferentes ontologias da realidade” ou, também, “ontologias constitutivas distintas”. Cabe ressaltar que esta é a vantagem do modelo teórico proposto por estes pesquisadores que conseguem tratar, no nível epistemológico e na necessidade de “modelagem científica do real do trabalho” (CURIE, 2004), aquilo que carecia de uma abordagem epistêmica e teórico-conceitual. Uma nova possibilidade de “modelagem do real do trabalho” (CURIE, 2004) é dada por isto que já fora enunciado pelas ciências da cognição contemporâneas (VARELA, THOMPSOM & ROSCH, 1993; PESCHL, 2000; ROHRER, 2005, 2006; JOHNSON & ROHRER, 2006), que torna-se difícil explicar a cognição situada com base na noção de
representação (VARELA, THOMPSON & ROSCH, 1993; MATURANA, 2001; MATURANA & VARELA, 1994, 2001; MINSKY, 1986; VARELA, 1979, 2000, 2004; JOHNSON, 1987; JOHNSON & ROHRER, 2006; LAKOFF, 1987; LAKOFF & JOHNSON, 1980; HAMEROFF,1998; HAUGELAND, 1981; HEREOF, 1998; SEARLE, 1981; ROHRER, 2005, 2006; PESCHL, 2000), noção complicada e controversa também no terreno das interfaces homem-máquina (BAINBRIDGE, 1987; LAVE, 1996; COLLINS, 1990; DREYFUS, 1979; KEYSER, 1988, 1990; LEPLAT & TERSSAC, 1990). Hoje, tais enunciados ganham força nas teses de Rabardel & Pastré (2005) - o modelo operativo para o operador que “planifica sua ação” (LEPLAT, 1997, 1999), seja nos processos discretos de produção, seja no controle automatizado de processo contínuo numa IPC (Indústria de Processo Contínuo), envolve a noção de “mundo comum”, na qual tem-se que: “este modelo operativo não constitui necessariamente uma representação, no sentido que nós habitualmente damos a este termo, ou seja, uma figuração consciente da situação” (PASTRÉ, 2005, p. 104).
Ou, se há, é conforme abordagem de Peschl (2000): “representação sem representação”. A representação vem cedendo espaço à noção de atuação e de mente incorporada na ciência cognitiva. Ao abordar a questão sob outro ponto de vista, o do embodiment, evita-se o problema de explicação das situações concretas de cognição situada (BAINBRIDGE, 1987; LAVE, 1996; COLLINS, 1990; DREYFUS, 1979; KEYSER, 1988, 1990; LEPLAT & TERSSAC, 1990) trazidos pela noção de representação. É o que também constata Pierre Pastré, ao aplicar a noção de mundo comum na atividade de trabalho:
“ ... falar de « mundo » evita diferenciar o real e a representação que construímos dele. Pois a noção é centrífuga : ela visa um real onde o sujeito faz parte seguramente mas que ele pensa ser capaz de tomar como objeto de conhecimento. Mais ao mesmo tempo o real não se torna « mundo » visto que ele é pensado como uma totalidade coerente, um « cosmos ». A noção de mundo autoriza assim uma dupla atitude, que nós podemos qualificar de epistêmica e pragmática : um mundo, este assim se conhece ao mesmo tempo em que nele se habita. Nós poderíamos dizer que esta noção de mundo permite evitar fazer a divisão entre o que é da ordem do real e o que é da ordem de sua representação : resta aí uma penumbra conceitual, que reforça sobremaneira o sentimento de evidência de um mundo que não apareça contingente a não ser a partir do momento em que ele seja contestado” (PASTRÉ, 2005, p. 249, trad. nossa).
A linguagem comporta duas dimensões: a dimensão da experiência vivida e a dimensão de simbolização; ou seja, a linguagem funciona como vivência de uma experiência e como simbolização desta experiência (DERRIDA, 1967). Portanto, no caso da simbolização, só é possível como produto de uma vivência. Mas, quem o viveu? Quem o viveu não o pode simbolizar e não há, portanto, uma formalização que permita a compreensão dessa vivência das habilidades e dos saberes que, embora não simbolizados, efetivamente movimentam o “real do trabalho” (DEJOURS, 2005). Não há possibilidade de formalização de algo “tácito e puramente vivenciado” (POLANYI, 1983, 1998). Trata-se da parcela do real em que os dados, vividos não podem ser completamente simbolizados e a relação entre atos sensório-motores e atos abstratos da consciência é um tanto quanto complexa para se converter em descrição formal. Neste domínio tácito, mais que em qualquer outro, o real escapa a qualquer tentativa de simbolização ou recua (DEJOURS, 2005), embora esteja repleto de dados que não se tornam visíveis e que ficam reclusos num mundo não simbolizado.
Por um lado, há um saber que possui sua natureza incorporada (tácita) na pura vivência corporal e mental. Por outro lado, não há um conjunto de códigos e símbolos tradicionalmente empregados na tradução desta parcela do real que emerge em situações específicas e, segundo Dejours (2005), “recua diante das tentativas de simbolização”.
Surge no cenário da pesquisa, então, o intrincado terreno da subjetividade (CLOT, 1999), dado na relação do sujeito com seu trabalho, na experiência íntima de situações de ação, na vivência desta ação que se mantém reclusa num mundo único, inacessível a uma relação objetivável com a linguagem. A ação operatória resguarda um terreno vertiginoso que aloja a profundidade do “eu” que se põe em serviço sem que ele mesmo o saiba conscientemente como; e sem que o possa explicar. Sua história, incorporada na forma de esquemas, está aí presente, em cada ato na ação, a se materializar na eficácia que escapa às prescrições e aos domínios de formalização. Há, portanto, uma relação ao saber que não se torna completamente explícita ao próprio sujeito (POLANYI, 1983) e, também, uma ausência de simbolização desta relação (DERRIDA, 1967). Neste campo, a análise remete ao espaço da singularidade
e da subjetividade de cada trabalhador, em sua relação com o saber corporificado, seu mundo único de ação e interpretação.
O uso de habilidades incorporadas aos atos do corpo e aos esquemas incorporados ou “embodied schemas” (ROHRER, 2005) anda junto de uma mobilização da subjetividade no seio do trabalho concreto da fábrica. Emergem daí essas habilidades que se prendem a um uso de si pelo sujeito em sua atividade. Esse campo não cabe nas prescrições e não pode ser simbolizado, objetivado, formalizado. No efetivo funcionamento do trabalho concreto são, assim, mobilizados recursos de um recôndito domínio sensorial-afetivo-cognitivo do sujeito atuante, os quais germinaram e floresceram ao longo de sua história no trabalho, em sua trajetória de vida: a história e o passado, sob as habilidades não formalizáveis do presente, que emergem aqui e ali na manutenção de um fluxo produtivo em aparente continuidade, num tempo presente síntese de um acúmulo do passado, como o vértice de um cone invertido que toca o real do trabalho neste momento de agora, e se liga à duração maior da qual é projeção (BERGSON, 2006).
A experiência e a vida dos homens que trabalham não pode ser colocada entre parênteses, mas são elas que animam a dimensão subjetiva da atividade e conferem um domínio inapreensível do agir operatório. Neste domínio, localiza-se o saber tácito (POLANYI,1983), sem privilégio de formalização.
Os discursos (e códigos lingüísticos) são incompatíveis com um consenso entre diferentes domínios de atuação ou ontologias constitutivas da realidade:
“Em suma, o discurso requer um teste de reciprocidade quanto a como cada indivíduo interpreta suas necessidades em relação aos outros, que são potencialmente afetados pela reivindicação normativa desse indivíduo. A interpretação da necessidade implicada numa reivindicação normativa assim deve ser tal que possa ser “universalizada” – isto é, “comunicativamente partilhada” – se essa reivindicação for para resistir ao teste discursivo e ser, portanto, aceitável a todos os participantes. Supõe-se que o espaço conceitual crítico criado pela aplicação de regras discursiva permita o diálogo no qual os participantes têm, ao menos, a possibilidade de alcançar “interpretações” mais “verdadeiras de suas próprias necessidades particulares, bem como especialmente daquelas que são comuns e capazes de consenso”. Em matérias em relação às quais os participantes podem pressentir interpretações de necessidades comuns, eles podem descobrir um interesse generalizável. E
normas que incorporam tais interesses serão aceitáveis para todos aqueles envolvidos no discurso” (WHITE, 1995, p. 74-75).
No mundo do trabalho, as expressões “universalização” e “comunicação partilhada” são expressões raras quando se referem a atores atuantes em mundos distintos. De fato, não há um discurso elaborado sobre uma estrutura comunicativa que envolva todos os que são atingidos por uma norma proposta; não há, então, “troca de papéis de cada um com todos os outros” (WHITE, 1995).