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In document EUROPEAN SEAFOOD EXPOSITION (sider 35-40)

Oferecer uma escuta implicada é fazem uma aposta e não só ficar na expectativa, papel de sustentar o enigma a que o analista se dá para que o sujeito fale de seu sofrimento sem se silenciar tamponando sua problemática com soluções imediatas e provisórias. Os diagnóstico e medicamentos, como será melhor explorado no próximo capítulo, encobrem o desamparo sem criar recurso para lidar com as dificuldades encontradas ao longo da vida. O sofrimento com o qual nos defrontamos é de outra ordem e merece outra postura profissional, para além das soluções pontuais. A demanda com a qual os pacientes chegam

nos serviços de saúde mental devem ser ouvidas para além do que o sujeito consegue formular nesse momento inicial, ofertar uma escuta é que abre a possibilidade da queixa se tornar uma demanda mais elaborada, “articulando um apelo que o retire do silenciamento” (ROSA, 2013, p. 34).

O analista só dá sua presença, que é implicação de uma escuta, condição da fala. Sua presença mais aguda está ligada ao momento em que o sujeito só pode se calar, em que recua até mesmo ante a sombra da demanda. O analista é aquele que sustenta a demanda, para que reapareçam os significantes em que o paciente está retido. (VORCARO, 1999, p. 81)

Tanto o silêncio que pode acometer a criança quanto a queixa que é feita pelos parentes, são reconhecíveis como o princípio de um endereçamento e só com uma escuta atenta, pode se abrir a possibilidade de uma fala que aponte para as questões inconscientes que enraízam o sofrimento.

A fala primeira é demanda, e toda fala permanece demanda. É, por isso, aliás, que o silêncio em psicanálise é ambíguo: o supremo da demanda é o recuo diante da demanda. A demanda é a primeira ocorrência de um sujeito falante, e que, falando, é ao mesmo tempo um sujeito libidinal, para retomar o termo de Freud, isto é, um sujeito animado por um movimento de apetência enquanto sujeito, não somente enquanto ser de necessidade. (SOLER, 2012, p. 58-59)

Às vezes, oferecer uma escuta é o que permite a criança falar, e devemos lutar para ouvir as crianças para além do que se ouve correntemente atribuindo-lhe um papel de inocência ou desconhecimento, há algo no infantil que se rebela sem que o psicanalista haja, mas se seu sofrimento a silencia é necessário que a intervenção analítica reconstrua junto com a criança um espaço onde sua voz pode se pronunciar. “Escuta em que se articula a presença e a palavra. Presença que o analista é convocado a suportar e servir de mola ao relançamento das significações. Nesse sentido ressaltamos que a ‘presença da palavra’ se suporta pela ‘presença do analista’”. (ROSA, 2013, p. 35)

O campo social é um campo de forças e interesses antagônico, complexo e conflituoso... No entanto, ao se lidar com esse contexto, observam-se a fragmentação e a oposição entre discursos que se rivalizam pelo poder sobre a criança, o adolescente, a família; promovem-se, por vezes, relações inconscientes ou segmentam-se as práticas de intervenção social, seja no campo da saúde, da educação ou no campo jurídico. O conhecimento sobre os indivíduos ignora o contexto de vida do jovem e impõe patologias, retirando do sujeito a efetividade de seu discurso e de sua denúncia. [...](Rosa, 2010, p. 12).

Haver uma escuta analítica não é o único pré-requisito para que emerja um sujeito na criança, porém, reconhecer a demanda onde ela ainda não está elaborada e oferecer uma escuta ao inaudito abre a possibilidade do infans falar, e em sua fala, em algum momento, se colocar como sujeito do desejo, denunciativo das formas de silenciamento que lhe calam. “Considerar as produções linguageiras da criança significantes, portadoras do que nelas se esboça como formação do inconsciente, produz cortes simbólicos no real da linguagem. Mas, para tanto, é preciso um outro humano fazer-se destinatário dessas falas.” (CATÃO, 2009) A escuta analítica é então este receptáculo da voz do infans. O enigmático da fala, do dizer, é o que abre a possibilidade de criação ao mesmo tempo em que denuncia as formas opressoras e danosas que silenciam o sujeito.

Ele, simplesmente, renuncia à inercial reprodução da estratégia hegemônica de silêncio e naturalização e, assim, passa a desconstruir a operação discursiva produtora de sintomas no interior da única realidade que conta para nós “humanos”, aquela mesma do discurso, em que a experiência da palavra é possível. (LAJONQUIÈRE, 2010, p. 43-44)

“Com efeito, a passagem da hipnose para a psicanálise decorre de duas outras passagens: a primeira, da sedução para o amor de transferência, a segunda, vai da importância do olhar para sua destituição, a fim de que o sujeito possa se escutar no que diz e apropriar-se de sua voz.” (CATÃO, 2009, p. 22) Duas passagens que podem ser reconhecidas como os dois tempos de um mesmo movimento, pois, dado que a sedução tinha como primazia o olhar, convocar o olhar do outro, se fazer na cena histérica convocando os cuidados e amores do médico-mestre, sair da sedução e ir para o amor de transferência é transitar da destituição do olhar para o encontro da voz.

Encontrar um espaço de palavra é o que a abre a possiblidade do trabalho analítico com as vias do desejo inconsciente, podendo assim recolocar a questão do sujeito em relação ao Outro. Como vimos até aqui, a posição do analista ampara tal espaço, mas a sua escuta e sua intervenção também devem mover as bases simbólicas da cultura que silenciam o sujeito para que romper com a opressão e o silenciamento se faça como um trabalho coletivo, com o analista compondo forças junto aos demais trabalhadores.

2. A SAÚDE MENTAL E INFÂNCIA, A QUESTÃO DOS DIAGNÓSTICOS E DO

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