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Um dos pontos fundamentais em que Derrida se mostra herdeiro da filosofia francesa é o tratamento do fenômeno da técnica. Apesar da herança de Heidegger e conexões com a Escola de Frankfurt, ele jamais subscreveu a diferença entre pensamento calculador e meditativo, ou razão instrumental e reflexão (ou razão prática)464. Ao contrário, sempre atento

462 DERRIDA, Jacques. Gramatologia, p. 11. No original: "Tout cela pour décrire non seulement le système de notation s'attachant secondairement à ces activités mais l'essence et le contenu de ces activités elles-mêmes. C'est aussi en ce sens que le biologiste parle aujourd'hui d'écriture et de pro-gramme à propos des processus les plus élémentaires de l'information dans la cellule vivante. Enfin, qu'il ait ou non des limites essentielles, tout le champ couvert par le programme cybernétique sera champ d'écriture" (De la grammatologie, p. 19).

463 Dois exemplos: entre os inúmeros intérpretes e "críticos" que não diferenciam escritura e arquiescritura, acreditando falar-se sempre da mesma coisa. Quando o libelo contra a desconstrução de John Ellis em determinado momento parecia ficar interessante, ao inverter a ideia de que o traço fundamental do etnocentrismo ocidental é a primazia da fala (afirmando o contrário: a escrita seria o principal), imediatamente fica claro que o autor simplesmente não entendeu que o conceito de escritura tem um sentido mais amplo em "Da Gramatologia" e que, lastreado nas teses antropológicas de Leroi-Gourhan, Derrida sustenta que foi necessário todo um arsenal de técnicas (portanto, de escrituras) para que, a partir de diversas "liberações", o ser humano passasse a usar a linguagem falada (ver ELLIS, John. Against deconstruction, p. 21 e mais especificamente p. 25, nota 12). Se o autor não entendeu isso, ou não leu o livro, ou deve ter passado diversas páginas sem compreender o que estava lendo. Segundo exemplo é o caso Habermas que interpretou a "arquiescritura" como "herança judaica" de Derrida (quando ele, à época, sequer tinha contato com os textos judaicos). Segundo Habermas, essa "vertiginosa" arquiescritura seria um "antídoto" contra o "paganismo" de Heidegger, sendo reprovável no entanto por argumentar "à maneira de filosofia primeira" (HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade, p. 251, 254-258).

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Essa distinção é mais tipicamente adorniana e de certa forma se repete na dualidade razão instrumental e razão comunicativa de Jürgen Habermas (STIEGLER, Bernard. La técnica y el tiempo, 1, pp. 16-31; La technique et le temps, 3, pp. 29-30 e 65-91). Mais uma vez poderíamos remeter a Kant (distinção entre

ao caráter protético do pensamento, Derrida procurou manter-se na vanguarda da filosofia da tecnologia, pensando fenômenos como o fac-símile, depois o CD-ROM, o computador e a Internet radicalmente, isto é, enquanto situações nas quais o suporte transforma plasticamente o respectivo conteúdo. Muito antes da explosão da Internet e mesmo da informática se consolidar, Derrida, já em Da Gramatologia, colocava:

Mas, para além das matemáticas teóricas, o desenvolvimento das práticas da informação amplia imensamente as possibilidades da "mensagem", até onde esta já não é mais a tradução "escrita" de uma linguagem, o transporte de um significado que poderia permanecer falado na sua integridade. Isso ocorre também simultaneamente a uma extensão da fonografia e de todos os meios de conservar a linguagem falada, de fazê-la funcionar sem a presença do sujeito falante465.

Evidentemente a influência não apenas de Gaston Bachelard e dos teóricos da ciência da escritura, mas sobretudo do já mencionado André Leroi-Gourhan, é transparente. Derrida, em especial nos trabalhos "Papel-Máquina", "Mal de Arquivo"466 e "Ecografias da Televisão" (o último em conjunto com Bernard Stiegler), tratará de desenvolver e tomar a sério as transformações que as teletecnologias geram não apenas no espaço público tomado classicamente como "político", mas na própria constituição "interna" dos sujeitos e do

imperativo categórico e hipotético) a fonte dessa cisão. Ver, por exemplo, DERRIDA, Jacques. A máquina de edição de texto (PM), pp. 139-152; ver ainda idem, Echographies of Television. In: Echographies of Television, p. 33; De l'esprit, pp. 103-105. Por outro lado, poderíamos lembrar, como faz Bernard Stiegler, que para Derrida os primeiros grandes textos filosóficos sobre a técnica foram de Walter Benjamin ("A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica") e Roland Barthes ("A Câmara Clara"), nesse caso atando certos fios entre Derrida e Benjamin (ver, p.ex. DERRIDA, Jacques. Moscou aller-retour, pp. 82-86). Não se trata, ademais, de desprezar e simplificar o pensamento de Heidegger em relação à técnica, nem de deixar de subscrever as críticas à décalage entre os avanços da técnica e das relações ético-políticas (como mostram os frankfurtianos), mas de não pensar essas questões em termos de oposições, evitando a saída pela via do sujeito (ou da intersubjetividade) (neo)kantiana. No entanto, não é apenas o pensamento alemão que mantém a dicotomia. Veja-se, por exemplo, como o filósofo italiano Giorgio Agamben pensa a técnica em: AGAMBEN, Giorgio. O que é um dispositivo? In: O que é o contemporâneo?, passim. Os autores que parecem mais próximos de Derrida na filosofia da tecnologia podem ser, por exemplo, Simondon, Deleuze, Guattari, o último Foucault, Bruno Latour e Vilém Flusser, para além de outros como Donna Haraway e o próprio Stiegler, já sob sua influência. Por tudo isso, é estranho que Stiegler afirme, alguns anos mais tarde, que Derrida não teria pensado a técnica (Magic Skin: or, the Franco-european accident of philosophy after Jacques Derrida, pp. 104-106).

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No original: "Mais au-delà des mathématiques théoriques, le développement des pratiques de l'information étend largement les possibilités du 'message', jusqu'au point où celui-ci n'est plus la traduction 'écrite' d'un langage, le transport d'un signifié qui pourrait rester parlé dans son intégrité. Cela va aussi de pair avec une extension de la phonographie et de tous les moyens de conserver le langage parlé, de le faire fonctionner hors de la présence du sujet parlant" (De la grammatologie, p. 21).

mundo467.

As práticas da informação, ao atuarem no âmbito do virtual, consolidam todo um novo pensamento distinto do tradicional platonismo filosófico468. Primeiro, porque a esfera do inteligível, do logos, é produzida, não apenas resultado de uma "descoberta" por um intelecto transparente. De outro lado, porque o virtual das novas tecnologias não pode ser desconectado do real: mais uma vez, longe de corresponder a um domínio suprassensível que comandaria de fora a imanência do real, o virtual se inscreve nos suportes que permitem sua existência, numa relação onde materialidade e idealidade se combinam469. Finalmente e exatamente por essa razão, porque isso os torna destrutíveis, longe da intangibilidade eterna da tradição470. Como veremos em seguida, o signo era a ideia mais próxima dessa linha intermediária que antecede as oposições, mais tarde transformado em grafema. O motivo husserliano da escritura como condição da geometria pode ser ampliado indefinidamente: pense-se, por exemplo, nos "supercomputadores" como máquinas de calcular que só podem calcular de modo mais amplo que a própria mente humana por terem um suporte que os qualifica como "super". Se o campo virtual fosse neutro, como a tradição usualmente pensava, não se estaria hoje construindo computadores quânticos produzidos em diamantes e outras modalidades de suportes. O virtual não é puro em nenhum sentido: nem como separado do "material", nem como algo "dado"471. Isso não vale apenas para a comunicação intersubjetiva: modificar o código criptografado da natureza é algo que também vem sendo realizado seguidamente, ainda que muitas vezes com consequências trágicas (p.ex., transgênicos).

467 DERRIDA, Jacques. Echographies of Television, p. 36. Por essa razão, por exemplo, Débray sempre insistiu em aproximar a gramatologia da "mediologia" (p.ex., DEBRAY, Régis. De la grammatologie a la médiologie. In: Un jour Derrida, pp. 48ss).

468 DERRIDA, Jacques. Artifactualities In: Echographies of Television, p. 6. 469

Textualmente: "... a estrutura técnica do arquivo arquivante determina também a estrutura do conteúdo arquivável em seu próprio surgimento e em sua relação com o futuro. O arquivamento tanto produz quanto registra o evento. É também nossa experiência política dos meios chamados de informação" (DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo, p. 29). O do mesmo livro: "... a chamada técnica arquivística não determina mais, e nunca o terá feito, o momento único do registro conservador, mas sim a instituição mesma do acontecimento arquivável. Condiciona não somente a forma ou a estrutura impressora, mas também o conteúdo impresso da impressão: a preensão da impressão antes da divisão entre o impresso e o imprimente" (idem, p. 31).

470 DERRIDA, Jacques. Echographies of Television, p. 39.

471 Esse fenômeno pode ser aproximado do que Stiegler qualifica em diversos trabalhos como "numerização" (p.ex., STIEGLER, Bernard. La technique et le temps, 2, pp. 16-17). A aproximação com a virtualização fez com que se colocasse, geralmente de forma descuidada, Derrida ao lado de Jean Baudrillard. Porém a teoria do virtual de Derrida é completamente distinta da teoria do simulacro de Baudrillard, muito mais uma teoria sociológica que filosófica, sendo que no final da vida o primeiro manifestou diversas vezes sua inconformidade com a "negação do sofrimento real" pela ideia da fabricação virtual e do simulacro, que ele chega a nomear "neoidealismo" (DERRIDA, Jacques. Artifactualities, p. 6; idem, Echographies of Television, p. 77).