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3. Materiales y métodos

3.2. Métodos

Como já mencionado, as fontes audiovisuais vêm tomando espaço significativo na pesquisa histórica, isto se atribui, também, ao fato de a era da imagem cada vez mais ampliar seu processo de evolução e domínio em nossa sociedade.

Segundo Napolitano, um historiador deve atentar para os planos e sequências5, pois se constituem em unidades básicas para a análise de um filme,

bem como ter um olhar

5 “O plano é o quadro, o enquadramento contínuo da câmera, situado entre um corte e outro. A

sequência é a junção de vários planos que se articulam, por meio da montagem/edição, por alguma continuidade cênica ou narrativa (nem sempre linear)” (NAPOLITANO, 2011, p. 274).

[...] atento a tudo que se vê e ouve no quadro fílmico e às estratégias de ligação dos planos e das sequências: os personagens, o figurino, o cenário, a textura e os tons predominantes nas imagens, o ângulo da câmera, os diálogos, a trilha sonora – musical ou não –, os efeitos de montagem etc. Nessa perspectiva, percebe-se que o elemento verbal (os diálogos, base do roteiro de um filme) é um entre tantos elementos constituintes da linguagem fílmica e o historiador deve cotejá-los com a imagem-movimento que lhes correspondem (NAPOLITANO, 2011, p. 275).

Outro fator para o qual o historiador deve atentar, e que muitos não dão importância, é para a escolha do diretor, isto é, quando o filme é inspirado em algum fato histórico, real ou até mesmo em obra literária, o diretor sempre seleciona eventos para ficarem fora do filme, mesmo sendo um fato importante para estar incluído no mesmo.

A esse aspecto, vale lembrar que o diretor é livre para escolher o que deve ou não incluir, pois não há necessidade de exigir fidelidade ao fato encenado, mas compreender tais escolhas e examiná-las “dentro de uma estratégia de análise historiográfica” (NAPOLITANO, 2011, p. 275). Por outro lado, os filmes também têm a liberdade de desconstruir quaisquer personagens ou eventos monumentalizados pela história oficial. O importante, ao se analisar um filme, é a interpretação dos fatos encenados, e não comprovar a existência ou não dos mesmos.

Napolitano (2011) nos aponta alguns procedimentos a serem seguidos pelo pesquisador com o objetivo de “dar conta da natureza dessa linguagem e das estratégias de abordagem do passado operadas pelos realizadores”. Para tanto, sugere que seja produzido fichamento a fim de atender “a riqueza da imagem em movimento”, sua coerência e relações ao longo do filme analisado. As anotações realizadas devem possibilitar a percepção dos elementos narrativos e alegóricos que constituem um filme – “seus planos e sequências, suas técnicas de filmagem e narração, seus elementos verbais e musicais” (NAPOLITANO, 2011, p. 277).

Salienta ainda que o pesquisador deve sempre estabelecer diálogo entre o filme e demais documentos e discursos históricos, materiais artísticos (visuais, musicais, literários), uma vez que estes podem não se apresentar de forma evidente, mas “aparecem na forma de citações, colagens, composição cênica, construção de personagem, narração em off etc.” (NAPOLITANO, 2011, p. 277). Por isso a

importância de o pesquisador investigar informações extrafílmicas6 para a

decodificação de tais códigos. No entanto, é importante compreender que,

Como em toda obra de arte, existe certo nível de polissemia, mas isso não deve ser o canal livre para análises despropositadas sem a mínima conexão com a materialidade do documento analisado, no caso, o filme em si. Esse é o diferencial da análise histórica mais ou menos acurada. (NAPOLITANO, 2011, p. 277)

Vale ressaltar que, as fontes audiovisuais carregam em si uma visão tradicional em ser consideradas como um elemento a integrar a pesquisa escrita, com o intuito de autenticar o que a fonte escrita apontou. Essa visão, já é considerada ultrapassada, pois embora as fontes escritas tenham sido privilegiadas por um longo período de “exclusividade” e terem se dedicado mais ao procedimento de busca da realidade através da linguagem, não são mais as únicas “escolhidas” pelos historiadores.

No entanto, é importante mencionar que “a questão da linguagem específica de algumas fontes não escritas ainda perturba o trabalho dos historiadores” (NAPOLITANO, 2011, p. 280), pelo fato de que essas fontes acabam por requerer um olhar mais cauteloso do historiador para não superestimar suas variações escritas e nem se permita ceder por completo aos efeitos de realidade advindo de todo o procedimento mecânico do qual se utilizam as fontes audiovisuais. O fato é que “as fontes audiovisuais constituem um campo próprio e desafiador, que nos fazem redimensionar a permanente tensão entre evidência e representação da realidade passada, cerne do trabalho historiográfico” (NAPOLITANO, 2011, p. 280).

De acordo com Karnal e Tatsch (2013), compreende-se por documento histórico “qualquer fonte sobre o passado, conservado por acidente ou deliberadamente, analisado a partir do presente e estabelecendo diálogos entre a subjetividade atual e a subjetividade pretérita” (KARNAL; TATSCH, 2013, p. 24). Nesse caso, o cinema não deixa de estar incluso nesse repertório, embora saibamos que esse tipo de fonte ainda seja um desafio para o historiador. E, por assim

6 Por informações extrafílmicas, Nascimento (2011) assinala: biografias, recepção crítica, polêmicas

entender, ao selecionarmos as narrativas fílmicas que constituem o corpus deste estudo, pretendemos dialogar com essas subjetividades.

Para a seleção dos filmes alguns critérios, que chamaremos de delimitadores, foram imprescindíveis, pois a partir delas foi possível delinear não só o corpus como também o próprio processo de análise deste estudo.

O primeiro delimitador diz respeito aos filmes selecionados, que estes tivessem a criança como protagonista e não meramente “utilizada neles como extras, à margem da ação e não raro de forma decorativa” (TRUFFAUT, 2005, p. 35). Pois, uma vez que pretendemos analisar a infância no cinema, a criança teria que ter maior notoriedade dentro da narrativa fílmica, já que, por muito tempo a criança foi prescindível no cinema – se ainda não o é. Isto porque, há que se entender que fazer filme com crianças não significa dizer que se trata de filmes sobre crianças. Não basta mostrar na tela as brincadeiras que fazem parte de seu cotidiano ou suas ações diárias como algo para ser admirado e/ou motivo para risos e vistos com ternura pelos adultos, mas sobretudo, trazer à tona seus dramas e conflitos, seus questionamentos, suas decisões, sua subjetividade. Com esse olhar que selecionamos nossos protagonistas.

Outro delimitador está relacionado a filmes que protagonizam crianças e contam histórias de infâncias inspirados em obras literárias. Este delimitador faz-se relevante pois, dentro da história da infância, a literatura tornou-se uma valiosa fonte para o historiador, quando da necessidade de ampliação de fontes dentro dessa área. E ainda,

A literatura, entendida como prática simbólica, configura-se como a formulação de uma outra realidade que, embora tenha como referente constante o real no qual autor e leitor se inserem, guarda com a realidade uma relação não de transparência, mas de opacidade própria da reconstrução (GOUVÊA, 2007, p. 23).

Nesse sentido, a literatura mantém um diálogo quase de cumplicidade estética com o cinema quando se trata de reformulação da realidade. E o cinema, embora tantas vezes tenha se inspirado na literatura para suas narrativas, não tem qualquer obrigatoriedade em seguir o roteiro do livro à risca, haja vista ser o filme um novo texto. E a literatura, principalmente a contemporânea, tantas vezes se inspirou no cinema para construir suas narrativas – destacando aqui as não lineares

–, as quais rompem com padrões por muito tempo considerados cânones dentro da história da literatura.

Vale ressaltar que ao apontar este critério, não é nossa intenção em fazer estudo comparativo entre as obras literárias e os filmes nelas baseados. Nossa intenção, foi aproximar duas fontes de pesquisa que por um longo tempo – e talvez ainda – não foram reconhecidas como fontes documentais dado seu caráter ficcional. Portanto, para nós, neste estudo, a literatura e o cinema dialogam, sobretudo, por constituírem o repertório das fontes que trazem em si o conceito moderno de documento.

Como terceiro delimitador, apontamos: narrativas fílmicas que abordam a infância tendo como recorte histórico as primeiras décadas do século XX (1920- 1930). Quanto a este delimitador, vale ressaltar, que dentro do levantamento bibliográfico realizado, percebe-se ainda uma considerável lacuna quanto a este período no que diz respeito a pesquisas sobre a história da infância no Brasil.

A partir do levantamento foi possível perceber que as pesquisas sobre a história da infância no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, ainda são escassas, grande parte destaca o século XIX e segunda metade do século XX, havendo predominância de estudos sobre o período republicano. Dos temas pesquisados destacam-se Assistência, Roda dos Expostos/criança abandonada e criança pobre. As pesquisas concentram-se dentro da tipologia artigo, publicado em eventos, capítulos de livros, dissertações e teses.

Dentro do período em questão, no caso as duas primeiras décadas do século XX, os trabalhos que mais se destacam, muitas vezes citados, e são considerados referência nas pesquisas sobre a infância no Brasil, pertencem ao livro “História das Crianças no Brasil”, organizado por Mary Del Priore, cuja primeira publicação data de 1991, e que conta com a colaboração de historiadores, sociólogos e educadores que demonstram interesse e realizam estudos no que se refere à consciência que se manifesta sobre a condição das crianças e a relação entre o passado e o presente destes sujeitos.

Dos 15 artigos contidos no livro, 07 discutem a infância no século XX, sendo que destes pelo menos 05 discutem as primeiras décadas do referido século, e destes 05, 02 se ocupam apenas da primeira década e as temáticas são muito pontuais, como por exemplo, trabalho infantil e criminalidade. A segunda referência são os trabalhos publicados no livro, “A arte de governar crianças: a história das

políticas sociais, da legislação e da assistência à infância no Brasil”, organizado pelos autores Irene Rizzini e Francisco Pilotti, nasceu de uma proposta latino- americana que, segundo a autora no prefácio à 2ª edição, visava “promover estudos comparados sobre políticas sociais voltadas para a infância com um enfoque histórico” (RIZZINI; PILOTTI, 2009, p. 7).

Embora contribua bastante às pesquisas sobre infância no Brasil e da América Latina, o livro discute mais especificamente sobre a assistência à infância, apesar de apresentar dados significativos sobre legislação e políticas sociais à infância no Brasil, principalmente as que vigoraram no final do século XIX e início do século XX. Irene Rizzini ainda tem outras duas importantes obras que também contribuem para as pesquisas no início do século XX: “O século perdido: raízes históricas das políticas públicas para a infância no Brasil” (1997 – 1ª ed) e “A institucionalização de crianças no Brasil: percurso histórico e desafios do presente” (2004), com foco também na assistência. Ao lado de Irene Rizzini, a autora Irma Rizzini também tem estudos sobre a infância no Brasil, mas com temáticas bem específicas7.

Embora as pesquisas sobre a infância nas primeiras décadas do século XX não sejam tão numerosas, esse período apresenta um cenário turbulento no aspecto social, político e econômico. Período marcado pela crise dos anos 20 e a revolução de 1930, quando ocorreram significativas transformações na sociedade brasileira, como por exemplo, a expansão das empresas e o desenvolvimento das atividades industriais, gerando assim um aumento expressivo das classes média e trabalhadora. Duas legislações marcaram esse período, a saber: a reforma do Código Penal (em 1922) que elevou a maioridade de 9 para 14 anos; e, o Código de Menores de 1927. A democratização do ensino, na década de 1920, foi mais um acontecimento que contribuiu para a mudança de práticas educativas principalmente relacionadas às crianças, quando se atribuiu à escola maior responsabilidade pela

7 Algumas destas informações foram tomadas a partir do trabalho elaborado pelo Grupo de Estudos

de História da Psicologia Aplicada à Infância (GEHPAI), USP, no período de Jul/2001 a Dez/2002, intitulado “Levantamento bibliográfico: história da infância no Brasil”, conforme registro completo disponível no referido site a seguir:

<http://dedalus.usp.br/F/25X1XAB2R4PKNB17E2RM5MYQBFFQQIQ33CHN8XSVRSRURIDTA2- 26494?func=full-set-set&set_number=017238&set_entry=000001&format=999>.

educação das mesmas. Tais fatos apontam para a sugestão de muitos temas de investigação que podem atender a este recorte temporal.

Outro delimitador considerado importante para esta seleção foi a origem do filme. Quando do levantamento de estudos a respeito da infância no cinema, poucos foram as investigações encontradas a partir de filmes brasileiros, assim surgiu o desejo em realizar este estudo com filmes nacionais.

Utilizamos também alguns critérios para descartar os filmes que não nos interessava, dentro do levantamento realizado. Filmes de animação, de terror, comédia, curtas-metragens e documentários formam o repertório dos filmes que não nos despertou interesse para este estudo.

Após levantamento e observação de dezenas de filmes, optou-se pelos filmes destacados no quadro(2) a seguir. Na sequência, uma breve descrição de cada uma das produções cinematográficas destacadas no referido quadro:

Quadro 2: Filmesselecionados para o corpus deste estudo

Fonte: Elaborado pela autora deste estudo a partir de dados obtidos durante levantamento realizado, 2017.

O filme, Menino de Engenho (Walter Lima Jr., Brasil, 1966), inspirado no romance homônimo (1932) de José Lins do Rego, aborda a infância do personagem Carlinhos, um menino órfão, que muito cedo perde a mãe, assassinada pelo pai, devido a um quadro de loucura incontrolável. O pai, após o ocorrido, é levado para um manicômio e, diante desta situação, Carlinhos é encaminhado, pelo tio Juca, ao engenho Santa Rosa que pertencia ao seu avô materno, José Paulino. Sua infância é permeada pela fase decadente do ciclo da cana-de-açúcar – Paraíba, 1920. E é