Existe outro momento em que Nietzsche trata do conceito de “espírito livre” em MA/HH; entretanto, este momento é cronologicamente posterior, apesar de compor o prólogo. No prólogo inserido em 1886 à MA/HH, emerge a temática do “espírito livre”. O significativo
60 Em uma carta destinada à Mathilde Maier, amiga em comum do filósofo e Wagner, datada do dia 15 de julho de 1878 envia um exemplar de MA/HH assim como fez na época de GT/NT, Nietzsche julgava que estava mais perto dos gregos agora, com MA/HH, do que anteriormente. Isso pode ser um ataque a Wagner, que pretendia fazer renascer a tragédia grega em solo alemão: “[...] cien veces más cerca de los griegos que nunca que antes [...]” (Carta 734). Esse “antes” pode ser entendido como a época em que Nietzsche participava do projeto de arte total de Wagner.
é o fato de Nietzsche, quase dez anos após publicar a primeira edição, ainda atribuir demasiada importância para tal conceito, deixando claro que as reflexões de 1878 permeiam, de certa forma, as elaborações vindouras de seu pensamento filosófico. Estes parágrafos são o testemunho de como um espírito pode se tornar livre.
Nietzsche inicia o famoso prólogo tentando criar uma unidade em sua obra desde GT/NT e JGB/BM; a última foi escrita no mesmo período de confecção dos prefácios de 1886. Esta unidade que encontra é em uma inversão de todos os valores. A segunda conclusão que Nietzsche chega, neste parágrafo, é a de que seus livros exercem um poder de desconfiança, ou melhor, um poder de tornar desconfiado aquele que lê frente aos valores até então estimados. A consequência de suspeitar das verdades pré-estabelecidas geraria um isolamento, solidão (MA/HH, Prólogo 1).
A solidão e o isolamento eram necessários para Nietzsche naquele momento, em 1878, para avaliar seu pensamento: “[...] para me recuperar de mim, como para esquecer-me temporariamente, procurei abrigo em algum lugar – em alguma adoração, alguma inimizade, leviandade, cientificidade ou estupidez” (MA/HH, Prólogo, 1). Nietzsche busca abrigo para se recuperar de si “em alguma adoração, alguma inimizade, leviandade, cientificidade ou estupidez” (MA/HH, Prólogo 1). É interessante notar como Nietzsche cita “inimizade” provavelmente se referindo à Wagner que era, até pouco antes da publicação de MA/HH, um de seus mais estimados amigos. “Cientificidade” aparece, aqui, como um recurso encontrado para combater certas concepções defendidas em suas obras anteriores. Mais ainda, fala da criação de artifícios onde não encontrou abrigo. Este artifício foi a figura do “espírito livre” (MA/HH, Prólogo 2). A criação de artifícios, realizados em 1878, pode ser comparada a atividade do artista, que tem como característica fundamental a criação de artifícios frente a realidade. Cientificidade pode ser entendida como um artifício, também, retórico.
Os espíritos livres são uma criação de Nietzsche para enfrentar e superar uma série de adversidade que se apresentaram naquele momento conturbado de sua vida: solidão, doença e exílio são os principais. Estes espíritos não existem, como disse acima, estes são uma criação de Nietzsche, uma companhia para enfrentar as adversidades “uma compensação para os amigos que faltam” (MA/HH, Prólogo 2). Não obstante, não descarta a possibilidade destes espíritos brotarem na Europa, e julga que sua obra, como um todo, possa contribuir para que o surgimento destes espíritos e até mesmo acelerar tal processo (MA/HH, Prólogo, 2). Em um fragmento póstumo de 1876, Nietzsche fala de autores de “espírito livre” como antecipadores seu tempo 16[28]: “O homem que pensa livremente percebe com antecedência o curso
evolutivo de gerações inteiras”61 (FP 16[28] de 1876). O homem livre se antecipa ao seu tempo.
A possibilidade de surgimento dos “espíritos livres” passa por um processo de libertação. Não uma libertação qualquer, mas sim uma “grande libertação” [grossen
Loslösung], um evento decisivo. Esta se dá quando há uma forte ligação de laços que parecem
impossíveis de serem rompidos. Vários são os laços que ligam o homem a estes – “gratidão pelo solo que vieram, pela mão que os guiou”, “delicadeza frente ao que é digno e venerado desde muito” (MA/HH, Prólogo 3). A grande libertação [grossen Loslösung] é, para este que se encontra desta forma vinculado, como um “tremor de terra”, ou seja, estremece e derruba as venerações anteriores. A partir daí o espírito tornado livre não quer voltar para as amarras de outrora. Tudo isso o faz querer isolamento, afastamento.
A “grande libertação” [grossen Loslösung], é a libertação de coisas que lhe pareciam impossíveis de serem abandonadas – aqui não podemos esquecer de Schopenhauer e Wagner, tão estimados na sua juventude. Não só o abandono de tais figuras, mas também por tudo o que representam: Schopenhauer representa, de certa forma, a tradição filosófica, e Wagner o projeto de renovação cultural tido por Nietzsche, principalmente depois de Bayreuth, impossível.
A doença teria caráter semelhante para a libertação do espírito, ela seria, também, a história da “grande libertação” [grossen Loslösung]. A doença exige o voltar para si e a preocupação com coisas pequenas e próximas (MA/HH, Prólogo 3). A doença ocupa um lugar especial no percurso de libertação, pois ela força a uma autodeterminação da vontade. Ela é uma forma de libertação, amadurecimento e autodomínio do espírito “e permite o acesso a modos de pensar numerosos contrários" (MA/HH, Prólogo 4); autocontrole e disciplina, permitem que o espírito livre não se perca no meio do percurso.
O espírito livre “pode viver por experiência”, algo ressaltado em 16[25] de 1876: “A marca do espírito livre – se considerar a si mesmo como uma doutrina que foi marcada a ferro na humanidade”62 (FP 16[25] de 1876). A importância de viver e experimentar. Todos necessitam da experiência de libertação. Ao privilegiar a libertação por meio da doença, está falando de algo que ele mesmo vivenciou: “É como se apenas hoje tivesse olhos para o que é próximo. Admira-se e fica em silêncio: onde estava então? Essas coisas vizinhas e próximas: como lhe parecem mudadas! de que magia e plumagem se revestiram!” (MA/HH, Prólogo 5).
61“Un hombre que piensa libremente recorre por anticipado el curso evolutivo de generaciones enteras” (FP 16[28] de 1876).
62 “La influyente impronta del espíritu libre – se considera a sí mismo como una doctrina que ha sido marcada a hierro en la humanidad” (FP 16[25] de 1876).
A preocupação com as coisas próximas pode ser encarada como uma forma de se opor às questões metafísicas, pois esta se preocupa com “as primeiras coisas”, ou como é denominada por Aristóteles, “a ciência das primeiras causas”. A doença possibilita a reflexão sobre as coisas próximas:
[...] é uma cura radical para todo pessimismo [a reflexão sobre as coisas próximas] (o câncer dos velhos idealistas e heróis da mentira, como se sabe –) ficar doente à maneira desses espíritos livres, permanecer doente por um bom período e depois, durante mais tempo, durante muito tempo tornar-se sadio, quero dizer, “mais sadio” (MA/HH, Prólogo 5).
Com o aumento da saúde, e o espírito se tornando cada vez mais livre começa a se questionar sobre a libertação de seu espírito. Com a libertação de seu espírito, os questionamentos internos tomam forma exterior e não tem medo de expô-los. Podemos constatar que Nietzsche já tinha questionamentos internos, mas que somente com a obra de 1878 ele pode pronunciá-los em voz alta, com sua própria voz, não fazendo a de outros sua (Schopenhauer e Wagner). O homem deve se tornar senhor de suas virtudes, desse modo, não deve se deixar determinar por virtudes de outrem, mais sim estabelecer quais virtudes seguir. É preciso entender que cada valoração é “uma” valoração (MA/HH, Prólogo 6).
Após estabelecer quais perspectivas seguir e o caminho percorrido até a libertação de seu espírito, o “espírito livre” procede de maneira indutiva ao generalizar seu caso: “‘Tal como sucedeu a mim’, diz ele para si, ‘deve suceder a todo aquele no qual uma tarefa quer tomar corpo e ‘vir ao mundo’” (MA/HH, Prólogo 7). Isto é uma maneira de Nietzsche dizer que para se tornar um “espírito livre” é preciso vivência, experimentar.
No parágrafo sétimo do prólogo Nietzsche encontra a problemática dos “espíritos livres”, a saber: a da hierarquia de valores. Em 1886, Nietzsche preocupa-se com a hierarquia de valores por conta de seu projeto de “transvaloração de todos os valores”. E esta problemática transcende, de certa forma, as preocupações e reflexões de 1878, a não ser que pensemos na inserção de MA/HH naquele projeto (MA/HH, Prólogo 7). Ao atribuir ao espírito livre a vontade de revolver as coisas ou de experimentar como elas se mostram quando são reviradas, tiradas de seu lugar, Nietzsche esta adequando o espírito livre a sua filosofia derradeira da tentativa de “transvaloração de todos os valores” (MA/HH, Prólogo 3). Sendo assim, podemos perceber que há uma pequena diferença em como o espírito livre é tratado em 1878, com MA/HH, e 1886, com JGB/BM: na primeira obra, o foco está em criticar as concepções da filosofia metafísica tradicional a partir da valorização do conhecimento científico; já em JBG/BM o objetivo é apontar os espíritos livre como filósofos que têm como tarefa principal uma “transvaloração de todos os valores”.
3 A IMPORTÂNCIA DE HUMANO, DEMASIADO HUMANO NA OBRA DE