A compreensão do ato criador como uma atividade enunciativa e histórica opõe-se, de saída, à dicotomia texto/contexto, uma vez que tal dicotomia poderia implicar numa preferência do analista pelos elementos internos aos textos ou por sua exterioridade. Para Maingueneau (2014, cf. capítulo Para além da filologia), é justamente essa divisão que se coloca na base dos estudos da literatura, representados em seu próprio trabalho pela filologia e pelas abordagens marxistas (como representativas de abordagens que poderíamos chamar externalistas), bem como pela teoria estruturalista e pela Nova Crítica (abordagens internalistas).
Ainda de acordo com o autor, estes dois elementos dicotômicos se revestiriam de maneiras diferentes de acordo com cada uma dessas abordagens, de modo que em determinadas vertentes externalistas o contexto poderia se revestir como reflexo de uma expressão máxima de uma memória nacional (como no caso da História Literária), de um modo de ser e pensar de uma sociedade (caso da Filologia), dos efeitos ideológicos e das lutas de classe (abordagens marxistas em geral) etc. Por outro lado, ainda que as abordagens internalistas abandonassem a noção ampla das obras como reflexo do vivido, voltando-se para a imanência textual, elas ainda sustentariam certa base romântica na medida em que excluíam de suas análises as relações entre as textualidades e o mundo em que circulam26.
Entre os anos 1960 e 1990, outras abordagens de destaque são desenvolvidas, dentre as quais os estudos culturais, os estudos bakhtinianos, os estudos da estética da recepção e a sociocrítica, que mantém como semelhança entre si o fato de se oporem a determinados princípios estruturalistas, em geral aqueles referentes à ideia ampla de imanência do texto. Conforme citamos anteriormente, é também a partir desse período que se desenvolvem os
26
Por essa razão, o autor argumenta que estudar a literatura e estudar o literário implicam duas noções distintas. Para ele, enquanto a literatura são as normalizações e disciplinas criadas no interior do campo literário, o literário informa as condições que o fazem se materializar, de ser produzido e posto em circulação entre as diversas comunidades discursivas. Se nos limitamos a pensar que o literário é um dado material linguístico, com certas normas e determinado suporte, acabaremos deixando de fora questionamentos sobre as condições de sua materialização, deixando de analisar as práticas discursivas que motivam a constituição de um dado material literário.
37
estudos da Análise do Discurso, embora seja somente a partir da década de 1990 que o literário passe a ser investigado mais constantemente pelos teóricos da área (MAINGUENEAU, 2014, p. 46), inicialmente mantendo certas similaridades com a Sociologia do Campo Literário, que buscava compreender o processo literário pelos contratos sociais estabelecidos, marcados em instituições como os mercado do livro, a população de escritores, consumidores etc. No entanto, esse tipo de abordagem não problematizava o que o teórico Bordieu proporia tempos depois: atuam sobre todo contrato as estratégias de legitimação dos agentes, que seguem regras próprias no interior do campo literário, que segue regras próprias.
A sociologia proposta por Bordieu se assentava entre o trabalho com a imanência dos textos e suas exterioridades, entre o formalismo e sociologismo, com o esforço de afastar-se de conceitos psicologizantes que fossem vinculados a uma centralização do autor com fonte do literário. Para Bordieu, era preciso estabelecer relações entre os espaços das obras, que eram concebidas por determinadas posições em um campo de produção:
É associado ao campo um “habitat”, um sistema de disposições incorporadas que faz com que se integrem mais ou menos suas regras implícitas. Os posicionamentos dos atores são determinados aí por essas disposições e pelos possíveis que o campo libera em função da relação de forças num momento dado. Os produtores do campo literário, ao mesmo tempo agentes e pacientes, estão em uma luta permanente para adquirir a maior autoridade, o que os obriga por esse motivo a definir estratégias sempre renovadas. (MAINGUENEAU, 2014, p. 47)
No entanto, a despeito das similaridades e dos interesses em comum sustentados pelos estudos de Bordieu e pela Análise do Discurso literário, podemos deferir uma diferença fundamental entre ambos: se os estudos de base bordieuneana focaram-se sobre a compreensão das representações coletivas que se têm dos escritores, das instâncias de sua legitimação, das regulações das condições de produção e das práticas sociais, uma abordagem discursiva volta- se a compreensão desses e outros fenômenos a partir das atividades enunciativas dos textos, seus processos de retomada e suas marcas inscricionais.
Esse foco enunciativo se faz proeminente, por exemplo, na concepção do conceito de instituição discursiva, a partir do qual Maingueneau (2014) assume certos pressupostos da teoria de Bordieu para estendê-los às manifestações do código linguageiro, dos gêneros do discurso, dos rituais enunciativos, das encenações, de modo que por instituição entende-se simultaneamente
38
- (...) os quadros de diversas ordens que conferem sentido à enunciação singular: estrutura do campo, o estatuto do escritor, os gêneros de texto...; - o movimento mediante o qual o discurso se institui, ao instaurar progressivamente um certo mundo em seu enunciado e, ao mesmo tempo, legitimar a cena de enunciação e o posicionamento no campo que tornam possível esse enunciado. (p. 54)
É a partir da conjunção dessas duas acepções que Maingueneau denominará o discurso literário como um discurso constituinte, balizador das práticas enunciativas de uma coletividade e definidor do funcionamento das atividades que constituem o valor literário.