• No results found

Målsettinger

In document Evaluering av Friluftslivets År 2005 (sider 37-46)

Na perspectiva de Calvino, Deus comunica-se com os seres humanos através da Bíblia usando a linguagem humana, num processo que ele denomina de “princípio de acomodação”1. O reformador argumenta que Deus “se revela a si mesmo sobre forma de palavras. Porém,

1Segundo Mcgrath, esta abordagem adotada por Calvino tem suas raízes na “teoria da retórica grega clássica,

como simples palavras podem fazer justiça à majestade de Deus? Como Palavras podem atravessar o enorme abismo que há entre Deus e a humanidade pecadora2”?

Ele responde a esta questão com o princípio de acomodação. A palavra acomodação significa “ajustar-se ou adaptar-se para suprir as necessidades da situação3”. Assim como os hábeis oradores deveriam descer ao nível dos ouvintes, da mesma forma, Deus desceu ao nível do ser humano, para revelar-se a nós. Deus como um grande mestre, cheio de condescendência, usou uma linguagem pela qual o homem pudesse compreendê-Lo. Calvino dá vários exemplos de acomodação: as parábolas que usam linguagem e ilustrações apropriadas ao contexto rural da Palestina. A história da criação e da queda (Gênesis 1-3) também é explicada, em muitos de seus aspectos, por este princípio. Assim, conceitos como os “seis dias” da criação ou das “águas sobre o firmamento” são vistos como “adaptados à mentalidade e às perspectivas de um povo relativamente simples”4.

Ele usa principalmente três imagens para descrever a divina acomodação: Deus é pai, sua linguagem se adapta à fragilidade e à inexperiência infantil. “[...] Mas vemos também Deus com freqüência tratando-as com mais delicadeza e mais liberalidade do que trata os demais, como se ele os alimentasse em seu regaço, ninando-os ternamente como a nenéns, e ninando-os mais do que faz a todo o restante da humanidade”5. Deus é mestre, ele desce ao nosso nível, contextualizando-se à nossa ignorância. Nesse ponto, Calvino, mais uma vez, deixa transparecer a influência da retórica grega sobre seu pensamento. Pois nos seus dias, a distância entre os grandes oradores e os ouvintes simples era muito grande, assim cabia ao bom mestre criar pontes para ser entendido, Deus, o maior dos mestres, teria feito algo análogo6. Outra forma, bem conhecida de Calvino para ilustrar a condescendência divina é a figura que retrata a linguagem das Escrituras como o balbúcio de Deus: “Assim como uma mãe ou uma babá se rebaixa para ser entendida por sua criança, falando de um modo diferente daquele que é próprio de um adulto, Deus também se inclina para chegar ao nosso nível”7

Certamente, Calvino lança mão de outras metáforas para ilustrar a linguagem de acomodação: “é com boas razões, pois, que se diz que o infante é lançado sobre ele [Deus]; pois, a menos que ele alimente as mais tenras criancinhas, e exerça para com todas a função de enfermeiro, mesmo ao tempo em que são trazidas à luz, seriam expostas a centenas de

2 Ibid., p.154 3 Ibid., idem 4 Ibid., p.156 5

CALVINO, op. cit., (v. 1), p.346

6 MCGRATH, op. cit., 2004, p.155 7 Ibid., idem

mortes”8. Nos salmos, uma das figuras prediletas é a que concebe Deus como juiz, por isso a Bíblia em muitos textos usa a linguagem da retórica humana numa corte que procura demonstrar que há um veredicto que pode ser de condenação ou absolvição (salvação). Deus quer nos convencer do pecado, rebeldia e desobediência, mas também, de sua justiça e libertação.

Além do mais, na leitura que Calvino faz dos salmos de lamento por diversas vezes ele evoca este princípio de acomodação a fim de explicar a linguagem bíblica. Assim, comentando o Salmo 35:2, diz que, evidentemente, a linguagem não pode ser literal, pois Deus não precisa de ferramentas para destruir seus inimigos. Portanto, ainda que a primeira vista, figuras como espadas e lanças pareçam rudes, na realidade o “Espírito Santo as emprega a guisa de acomodação em relação à fragilidade de nosso discernimento com o propósito de imprimir mais eficazmente em nossas mentes a convicção de que Deus está presente para socorrer-nos9. O mesmo princípio, também, é resgatado na sua exposição do salmo 80: 1-3, em que ele interpreta as palavras “tu que te assentas entre os querubins” como uma referência à presença de Deus no templo, no entanto, ele esclarece que esta linguagem foi usada a “guisa de acomodação à debilidade dos homens, [assim] ele é representado como assentado entre os querubins, para que os fiéis não o imaginassem como estando longe deles”10.

Este princípio serve, ainda, a Calvino para que não precise espiritualizar passagens que pareçam contradizer o ensino bíblico e apresentem uma linguagem quase pagã, por exemplo, quando se diz que “Deus não atenta mais para o homem após sua morte”(cf. sl. 88:5). Por causa disso, sua explicação é que o profeta fala conforme: “A opinião da generalidade dos homens; assim como as Escrituras, de igual forma, ao tratar da providência divina, acomoda seu estilo ao estado do mundo como se apresenta aos olhos [humanos], porque nossos pensamentos só ascendem ao mundo futuro e invisível começando dos primeiros degraus”11.

Dito isto, fica evidente que o princípio de acomodação é fundamental na construção da hermenêutica calvinista, propiciando-lhe uma sustentação dialética em sua leitura bíblica. Pois, ao sustentar a acomodação, Calvino salvaguarda a transcendência (revelação, inspiração e iluminação) e, assim, por um lado, lança as bases para sua aproximação do texto como um livro divino. Por outro, esta acomodação ajudar-lhe-ia, também, a justificar a linguagem antropomórfica e antropopática nas Escrituras, linguagem esta que ressalta o aspecto humano.

8 CALVINO, op. cit., (v. 1), p.485 9Ibid., (v. 2), pp. 96-7

10Ibid., (v. 3), p. 264 11Ibid., idem, p. 376

Por fim, percebe-se, ainda, que este princípio irá influenciar outros pontos da hermenêutica de Calvino, como por exemplo, o princípio de brevidade e clareza e a abordagem pastoral.

In document Evaluering av Friluftslivets År 2005 (sider 37-46)