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O apoio do SPN/SNI e da EN às recolhas de melodias de matriz rural levadas a cabo por Armando Leça (Pestana 2012) ou Artur Santos (Cruz 2001), recoletores do material presumivelmente “autêntico” que desencadearia uma “arte saudável” (Rosas 1992, 411), constituía um plano de ação que tornava necessário ir ao Portugal rural encontrar “as manifestações diferenciadoras da raça lusitana” (Id. ibid.) e os materiais característicos de uma presumível unidade nacional.

A institucionalização do “aportuguesamento” nos programas da EN e da “música ligeira” no quadro do GEM revela um dos elementos centrais na construção deste nacionalismo musical, ou seja, a reificação e manutenção da diferença através do aspeto “funcional de toda a comunidade” que converge na ideia de nação e nos valores de raça e de autenticidade. “Aportuguesar” significa, neste contexto, criar uma unidade a partir de um campo ideológico agregador de práticas expressivas dispersas territorialmente, fazendo- as convergir no projeto institucional que enformou a produção da “música ligeira”.

O modo como a “nacionalização” do repertório foi operada através da utilização de melodias de matriz rural recolhidas por profissionais remunerados pela EN para o efeito, como Armando Leça e Artur Santos, enquanto material que conferia “autenticidade”, marca a base identitária do programa proposto por António Ferro. Deste modo, as melodias de matriz rural constituíram a “matéria-prima” vista pelos decisores como o material que garante a autenticidade, legitimando o repertório criado nesta secção do GEM, sendo que para António Ferro, o folclore era uma manifestação hiperativa a precisar

de ser domesticada e desinfectada de influências que poderiam prejudicar o seu carácter “pitoresco” (Diário de Notícias 8/11/1937).

Houve, no entanto, olhares críticos quanto ao uso das melodias de matriz rural e aos gé- neros e estilos musicais inseridos na categoria genérica de “música portuguesa” e sua adaptação aos “tempos modernos”. Para além de Mário de Sampaio Ribeiro (Silva 2005), Fernando Lopes-Graça (1906-1994) foi uma das vozes que mais criticou, neste sentido, a programação e política musical da EN, sobretudo após António Ferro ter assumido a lide- rança da rádio pública e colocado em marcha o seu plano de “aportuguesar” e de “nunca aborrecer”. Para o compositor:

Rotular pomposamente de “música portuguesa” e, pior do que isso, sancionar oficialmente com tal designação todas essas cantiguinhas, marchazinhas, fadinhos e mais coisinhas muito mazinhas, que quotidianamente nos bezoiram aos ouvidos, poderá ser uma coisa muito “nacionalista”, mas nada nacional, no sentido em que o nacional se identifica com as capacidades ou traduz as virtualidades de um povo para criar valores universais ou universalizáveis (Lopes-Graça 1989/1941, 61-2).

O problema que Lopes-Graça identifica nos géneros e estilos musicais transmitidos pela EN é, de facto, a “enormíssima confusão, para não dizer a conscientíssima mistificação, que por aí se faz, a respeito da chamada música popular”, que o próprio considera veementemente como “contrafações da autêntica música popular” (Id. ibid., 48). A crítica de Lopes-Graça ao uso do folclore pelo Estado Novo (Carvalho 1999, 187), nas vésperas do lançamento do GEM, parece intuir o uso que se faria das melodias de matriz rural e da música inspirada em géne- ros coreográficos (como os viras, corridinhos, fandangos, etc.), numa espécie de fabricação “contrafeita”. A utilização dos produtos musicais destas “fraudes” (Lopes-Graça 1989/1941, 60) no seio da rádio pública era ainda adensada, segundo o próprio, pelo problema inerente à produção musical na qual se inseriam. Neste contexto, Lopes-Graça tinha presente que o repertório supostamente “autêntico” visava ser interpretado pela

praga das vedetas e dos vedetos, mais ou menos radiofónicos, a quem deu para imitar o modo particular de cantar dos cantores e cantoras das diferentes regiões de Portugal! Eles cantam «à transmontana», «à alentejana», «à saloia», «à serrana» (...) à «moda da santa terrinha», à moda do diabo que os confunda a todos e mais as suas imitações (Id. ibid., 48).

Como sintetiza Melo, “a criação de espaços próprios para a música tradicional (ou folcló- rica), não ocultava o facto da música ligeira ter maior peso, desde logo pela recetividade social aos fenómenos do «teatro de revista», das «meninas da rádio» e aos espetáculos promovidos por várias orquestras, nomeadamente a da EN” (Melo 2001, 274).

No entanto, para António Ferro, o projeto para a EN e, em particular, o GEM, pretendia veicular uma noção de autenticidade que conciliasse o “moderno” e o “tradicional”. De resto, a súmula da relação entre passado e presente é explicada no Decálogo do Estado Novo, logo em 1934, o qual refere que “queremos um aproveitamento dinâmico da tradição - que chame o País às suas responsabilidades históricas, lhe recorde o orgulho legítimo de antigas glórias” (Decálogo do Estado Novo 1934, 8). Mas o equilíbrio entre a tradição e o mundo moderno, no quadro da modernidade, inscrevia-se como linha orientadora de um Estado Novo que considerava o passado e a tradição como um “recurso permanente às fontes da energia nacional e dum viril propósito de continuar a tarefa. A tradição não é mais do que a soma dos progressos realizados; e o progresso não é outra coisa senão a acumulação de novas tradições” (ibid., 10). Entende-se, portanto, que a recolha de melodias de matriz rural para o GEM não constituía, em si, um fim que visava catalogar e mapear as manifestações das práticas musicais do “povo”. Elas deveriam servir, na perspectiva de António Ferro, como matéria-prima a transformar num produto da modernidade difundido pela rádio pública.

Conclusão

Pretendi nesta comunicação abordar o processo de “aportuguesamento” da “música ligeira” no âmbito da Emissora Nacional e do Gabinete de Estudos Musicais, realçando o campo discursivo que o enformou entre 1941 e 1949.

O arranjo de melodias de matriz rural no GEM, assim como a composição de melodias originais tendo como referência características de géneros coreográficos tidos como “tra- dicionais”, foram assim efectuados no âmbito de um sistema de produção radiofónico que previa a interpretação por orquestras e grupos vocais existentes na EN, como por exemplo as Orquestra Ligeira e Orquestra Típica Portuguesa. A construção do som de uma “comunidade imaginada” (Anderson 1983) que representasse as virtudes da raça, do passado ancestral, de uma tradição atemporal e de identidade nacional, foi negociada tendo em conta vários factores, como os casos dos estereótipos regionais e dos géneros coreográficos a eles associados, composições originais tendo como referência modelos e estereótipos de melodias/danças rurais, bem como a estilização de melodias supostamen- te autênticas em estilos ligados ao Jazz, criando assim a imaginação internacional referida por Ferro (1950, 40). Neste sentido, a utilização das melodias de matriz rural constitui um elemento central na definição do projeto de “aportuguesamento” da música ligeira deli- neado por António Ferro no âmbito da Emissora Nacional.

Arquivos

RDP- Arquivo de Música Escrita; Arquivo Histórico e Arquivo Sonoro Periódicos consultados

Rádio Nacional Diário de Notícias

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Rogério Santos

[Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa]

Professor associado, coordenador da Área Científica de Ciências da Comunicação da Universidade Católica Portuguesa (2006-2013), diretor do CESOP (Centro de Estudos e Sondagens de Opinião) (2010-2012) e diretor da revista Media XXI (2003-2005). Foi quadro superior da Portugal Telecom (1975-2001), onde desempenhou funções de coordenador de comunicação interna e comunicação social. Investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (CECC-UCP). Algumas publicações recentes: A Rádio em Portugal,

1941-1968 (Colibri, 2014), Os dias dos media – uma análise de estruturas organizativas (Universidade Católica Editora, 2012, org.), Do jornalismo aos media. Estudos sobre a realidade portuguesa (Universidade

Católica Editora, 2010), Indústrias culturais: imagens, valores e

consumos (Edições 70, 2007) e As vozes da rádio, 1924-1939 (Caminho,

A rádio em Portugal