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O poeta, jornalista, advogado, abolicionista e republicano, Luiz Gama é um dos principais intelectuais e ativistas negros do século XIX, o único autodidata e o único a ter vivido oito anos de escravidão.

Nasceu em Salvador em 21 de junho de 1830, i lho de uma africana livre, Luiza Mahin, com a qual conviveu até os sete anos. Seu pai pertencia a uma família baiana de origem portu- guesa e acabaria protagonizando um episódio que marcaria para sempre a dramática história de vida de Gama: arruinado pelo jogo, vendeu o próprio i lho de dez anos como escravo, que chega, nesta condição, à cidade de São Paulo, em 1840. Jovem seguramente superdotado e dono de uma memória e inteligência incomuns, aos dezessete anos aprende a ler e a escre- ver com um estudante de direito que residia na pensão de seu senhor. Doze anos depois, em 1859, ele publica na capital paulista a primeira edição de seu livro único, as Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, uma coletânea de poemas de satíricos e românticos, que teve uma se- gunda edição em 1861 no Rio de Janeiro1. Pela primeira vez, um negro tivera a audácia de denunciar as mazelas políticas, éticos e sociais, bem como os paradoxos raciais da sociedade imperial. Muita curiosidade, portanto, foi o que cercou a poesia de um autor sui generis, pois, em pleno Brasil escravocrata, jamais foram lidos versos de um negro se assumindo como tal. Neste sentido, é Luiz Gama quem i nca a primeira voz negra na literatura brasileira, como o atestam os seguintes versos de seu poema mais célebre, Quem sou eu, conhecido também como A Bodarrada:

(...)

Se negro sou, ou sou bode2,

Pouco importa. O que isto pode ? Bodes há de toda a casta, Pois que a espécie é muito vasta...

Há cinzentos, há rajados, Baios, pampas e malhados, Bodes negros, bodes brancos,

E, sejamos todos francos, Uns plebeus, e outros nobres,

Bodes ricos, bodes pobres, Bodes sábios, importantes, E também alguns tratantes...

Aqui, n’esta boa terra,

Marram todos, tudo berra;3

(...)

1 Luiz Gama, Primeiras Trovas Burlescas e outros poemas. Organização, introdução e notas de Ligia Fonseca Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

2 Bode = nome atribuído na época a mulatos de pele escura. Grifo nosso.

3 Grifo nosso. Este poema, bem como os demais textos do autor citados adiante, podem ser lidos na integra na obra referida na nota anterior em também em: Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas.

Este poema foi considerado por Manuel Bandeira como uma das obras-primas da nossa li- teratura. Em praticamente todos os seus escritos, inclusive jornalísticos, do ponto de vista identitário, Luiz Gama se posiciona como um “sujeito étnico”, ou seja desejando ser assim percebido por seus leitores, em sua maioria brancos, como só poderia ser naquela época. Fiel a suas origens, em outros poemas, Luiz Gama critica duramente a “mulatos” envergonhados que, “embranquecidos” socialmente, renegavam sua descendência africana, como se lê nesta estrofe de “Sortimento de gorras para a gente do grande tom”:

(...) Se os nobres desta terra empanturrados, Em Guiné têm parentes enterrados ; E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,

Esquecem os negrinhos seus patrícios ; Se mulatos de cor esbranquiçada,

Já se julgam de origem rei nada,

E, curvos à mania que os domina, Desprezam a vovó que é preta-mina : Não te espantes, ó Leitor, da novidade,

Pois que tudo no Brasil é raridade !4

De sua pena sairiam outras poesias importantes e que remaram na contramão dos modelos literários da época. Luiz Gama também pioneiro ao louvar a negra mulher amada, como se pode ler em Meus amores, tema que retornaria em Cruz e Sousa, e, principalmente, na produ- ção dos poetas negros do século XX:

Meus amores são lindos, cor da noite Recamada de estrelas rutilantes ; Tão formosa crioula, ou Tétis negra5,

Tem por olhos dois astros cintilantes. (...)

Depois de publicadas as duas edições de Primeiras Trovas Burlescas, o republicano e aboli- cionista Luiz Gama abandona a literatura pelo jornalismo político e pela defesa de escravos nos tribunais paulistas. Mesmo nesta atuação, marcava seu ai liação étnica que, somada aos seus ideais republicanos, cercava-se de uma aura política. Em seus poemas como nos demais escritos, Luiz Gama falava não só por si, mas por uma coletividade. Exemplo disso, uma carta de 1880 ao editor de um jornal paulistano, na qual saía em defesa do abolicionista negro, José do Patrocínio, que sofrera ofensas racistas por parte de um adversário branco:

4 Guiné = no século XIX, designa uma vasta região da África banhada pelo Oceano Atlântico, na parte onde há uma reentrância, que corresponderia hoje a países como Togo, Gabão, Nigéria, Benin, entre outros, de onde provieram muitos dos escravos trazidos ao Brasil, nome pelo qual se referia a África; Preta-mina = referência a uma etnia originária da Costa da Mina, parte do golfo da Guiné.

Ilustrado redator : Acabo de ler, sem espanto, mas com pesar, o (...) escrito, pu- blicado na (...) Província [de São Paulo] de hoje, contra o distinto cidadão José do Patrocínio.

Em nós, até a cor é um defeito, um vício imperdoável de origem, o estigma de um crime ; e vão ao ponto de esquecer que esta cor é a origem da riqueza de milhares de salteadores, que nos insultam ; que esta cor convencional da escravidão, (...) à semelhança da terra, [a]través da escura superfície, encerra vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade. (Gazeta do Povo, 28/12/1880)6

Luiz Gama faleceu em 24 de agosto de 1882, aos 52 anos de idade. Seu funeral i cou registra- do nos anais da história São Paulo como o maior até então, na capital.

Seu legado é imenso. Patrimônio de todos os brasileiros, o exemplo do “cidadão” Luiz Gama deve ser por todos nós conhecido, e, em particular pelas crianças e jovens - negros, pardos, índios, brancos, asiáticos - em particular das classes desfavorecidas, pois a trajetória do ex-es- cravo libertador nos traz uma mensagem clara: a razão, a proi ssão de fé, a determinação e o altruísmo podem levar o ser humano a superar condições trágicas, fatalidades e conformismo. Para saber mais sobre esta brilhante i gura, cuja obras representa a nascente da literatura negra, recomendamos particularmente os artigos e vídeos constantes das referências abaixo.

Referências

FERREIRA, Ligia Fonseca. Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas. In- trodução, organização e ensaios de Ligia Fonseca Ferreira. São Paulo: Imprensa Oi cial, 2011. __________. “Ethos, poética e política nos escritos de Luiz Gama”. In : Revista Crioula n. 12, novembro 2012. Disponível em : www.revistas.usp.br/crioula/article/view/57813/60862 (acesso em 01/12/2014)

_________. “O sonho sublime de um ex-escravo”. Revista de História da Biblioteca Nacional, 2013. Disponível em :

www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/o-sonho-sublime-de-um-ex-escravo (acesso em 01/12/2014)

“Luiz Gama: escravo e abolicionista”. In: Revista FAPESP, 15/05/2014. Disponível em: www.revistapesquisa.fapesp.br/2014/05/15/escravo-e-abolicionista (acesso em 01/12/2014)

Vídeos

Entrevistas com Ligia Fonseca Ferreira, biógrafa e especialista em Luiz Gama :

TV Justiça, programa Iluminuras: www.youtube.com/watch?v=vEJ1Km8H3Zs (aces- so em 01/12/2014)

TVUnivesp, programa Literatura Fundamental 68: univesptv.cmais.com.br/literatura- -fundamental-68-luiz-gama-ligia-fonseca-ferreira (acesso em 01/12/2014)

Programa Canal Livre na Band: tvuol.uol.com.br/video/canal-livre--legado-de-luis-ga- ma-parte-2-04020C983970D0815326 (acesso em 01/12/2014)

Glossário

Corpus = coletânea ou conjunto de documentos [e obras] sobre determinado tema (Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa).