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serviço, é uma coisa que eu me sinto mais feliz”

O organograma apresentado (Figura 5, p. 118) já demonstra a proximidade ou não das relações socioprofissionais estabelecidas entre os diferentes atores da Organização pesquisada.

Conforme ressaltado, o gerente, o técnico e os funcionários administrativos possuem maior proximidade de contato com os líderes e com os trabalhadores rurais. Contatos estes com diferentes fins, relacionados aos interesses e compromissos organizacionais e dos trabalhadores.

Os líderes fazem a mediação entre a gerência e os trabalhadores contratados. Dentre suas atribuições estão: recrutar trabalhadores; em campo, fazer o controle do trabalho (preenchendo planilha de presença e número de tarefas feita por cada trabalhador); responder pela qualidade do trabalho realizado nas propriedades e realizar os pagamentos dos trabalhadores. São eles que entram em contato com os trabalhadores, caso haja colheita. Responsabilizam-se, ainda, pelo transporte, negociando com motoristas ou fazendo, eles mesmos, o transporte em ônibus próprio.

Alguns líderes do Condômino Rural já atuaram, antes do aparecimento dos condomínios, como ‘gatos’, possuindo habilidades e experiência no tipo de atividade que realizam. Além disto, esta atuação lhes permitiu um amplo conhecimento sobre a mão-de-obra local, o que facilita a contratação de trabalhadores. Eles possuem, assim, bastante autonomia no que se refere ao recrutamento, contratação e demissão de trabalhadores para suas turmas. Qualquer trabalhador, antes de ser contratado, é orientado a conversar com um dos líderes – busca-se evitar a contratação de trabalhadores ‘desconhecidos’. Sendo isto possível, somente neste período da

Na safra de verão esta prática torna-se impossível devido à necessidade de um número bastante elevado de trabalhadores. Nesta ocasião, os trabalhadores vêm de outros municípios ou mesmo de outros estados e são contratados para permanecerem em alojamentos nas propriedades onde são realizadas as colheitas.

Isto dá ‘uma cara’ diferente às turmas de trabalhadores rurais investigadas, tendendo a se perceberem, muitas vezes, como ‘família’. Ocorre a contratação de pessoas mais ‘conhecidas’, sendo comum a presença de relações de parentesco (pai e filhos, marido e mulher, irmãos, dentre outros). Significa, portanto, que não só o prolongamento dos contratos de trabalho fortaleceu as relações e vínculos entre os trabalhadores, mas também esta forma de contratação e organização das atividades de trabalho. As ‘falas’ de um líder de turma e de um gestor, abaixo, revelam esta característica das relações socioprofissionais:

“[...] eu já trabalho com eles há uns dez anos. Esse povo lá do mamoeiro, tudo amigo meu. Eu só trabalho com a comunidade, conheço todo mundo. eles me procura diretamente, nem aqui eles num vêm, me procura antes de vir pra cá. O relacionamento entre eles, é tudo amigo, [...].I” (Líder 4) “Não tem tanta dificuldade porque a maioria são conhecidos, são amigos, são parentes, são até compadres um do outro. Então, tem assim, uma afinidade, respeito entre eles. Apesar de que as pessoas falam: ah, o trabalhador rural é um monte de gente estranha. Não, entre eles, eles se conhecem, se respeitam.” (Gestor 2)

Conforme abordado mais detalhadamente na Seção 4.3, é a relação socioprofissional – a relação positiva estabelecida com colegas de trabalho – um dos elementos responsáveis pelas vivências de bem-estar no trabalho entre os trabalhadores rurais investigados.

Nas observações realizadas e durante a aplicação dos diferentes instrumentos em situações reais de trabalho, isto pode ser observado. Brincadeiras, piadas e atitudes de camaradagem foram percebidas. É comum, por exemplo, o auxílio a um

colega para terminar a tarefa. Esta pode ser dividida (o valor a ser recebido) entre aquele que ajudou ou não. Às vezes é feita somente como ajuda. Uma situação representativa desta afirmação foi observada logo no primeiro contato desta pesquisadora com os trabalhadores e é descrita a seguir, conforme anotado em Diário de Campo, em julho de 200678:

“[...] O técnico de segurança nos explicava como eram demarcadas as tarefas. Segundo ele cada um ia pegando seu canto, depois o líder vinha marcando. Contudo, percebemos um trabalhador realizando a mesma tarefa com uma Senhora e perguntamos por que isto ocorria. O técnico nos disse que isto ocorria com freqüência e o trabalhador nos ouvindo disse que estava ajudando porque a Senhora ainda não tinha conseguido fazer nenhuma tarefa e o marido dela estava passando mal. O marido, mesmo não passando bem, foi trabalhar e agora estava deitado sobre o solo, pois se sentiu mal. O técnico ressaltou que às vezes o chefe anota uma parte pra um e outra para o outro [...]”

Parecem, assim, funcionar como estratégias de mobilização, conforme descrito pela Psicodinâmica do Trabalho, por Ferreira e Mendes (2003), permitindo gerir, de forma mais eficaz, os inconvenientes e contradições do contexto produtivo e, ao mesmo tempo, ressignificar vivências de mal-estar e o sofrimento. A ‘fala’ do trabalhador, colocada como subtítulo desta Seção, é bem representativa do que ocorre.

Nas observações sistemáticas realizadas, buscou-se também atentar para as relações socioprofissionais: se ocorrem e como são estabelecidas. Percebeu-se que, mesmo sendo a colheita do feijão uma atividade individualizada, os trabalhadores, durante sua realização, buscam estabelecer contato com colegas que estão mais próximos. Normalmente estes contatos ocorrem na pequena pausa para “esticar a

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coluna”, como costumam ressaltar, ou mesmo sem pausar, ou seja, realizando o

arranquio.

Assim, no campo de colheita é possível escutar alguém cantando, brincando ou fazendo ‘gozação’ com um colega. Brincadeiras estas que, às vezes, demonstram a percepção de uns sobre os outros, sobre o trabalho, que distraem do cansaço e que acabam funcionando como estratégias de mobilização, conforme ressaltado. Observando a realização da atividade de um dos trabalhadores rurais, ouviu-se, por exemplo, um colega comentando com o outro: “daqui uns dias tem que pegar outra

coluna emprestada, lá no cemitério (risos)”. Ouviu-se, ainda, outros brincando com um

colega chamando-o de “zóio pelado”79.

Não só durante o cumprimento de suas tarefas, mas também durante a ‘espera’ dos colegas que ainda não terminaram suas tarefas, muitos aproveitam para conversar. É um momento de descontração, alguns brincam, contam casos e outros aproveitam para almoçar. Alguns preferem dormir e descansam dentro do ônibus, na sua sombra ou mesmo debaixo dele.

Apesar do aspecto positivo do relacionamento estabelecido com os colegas, ‘nem tudo são flores’. Um aspecto crítico que contribui para criar ressentimentos e ressaltado por dois líderes nas entrevistas, diz respeito à possibilidade de escolha da área para demarcação das tarefas por trabalhadores mais capazes. Costumam escolher melhores áreas e, por isso, os menos capazes reclamam por ficarem destinadas a eles áreas com ‘picão’, por exemplo. Conforme ressaltado, picão é um tipo de infestante que ocorre nas lavouras de feijão e que dificulta o arranquio. Em uma das idas a campo isto pode ser observado. Enquanto era filmado, o trabalhador, que tinha idade mais avançada, queixou-se disto e da área a ele destinada.

79 Zóio (olho) pelado é a designação dada àqueles que querem arrancar muito feijão, para receber muito.

Tal conduta pode contribui para ampliar o custo humano do trabalho daqueles que – por diferentes razões – já produzem menos e para que haja prevalência de vivências de mal-estar no trabalho, criando ressentimentos e desgosto. A própria denominação de ‘zóio pelado’, para aqueles que trabalham demais, completando um número elevado de tarefas e, portanto, valorizado pelos líderes e pela Instituição, parece se constituir numa defesa coletiva que visa à redução desta vivência de mal- estar por aqueles que produzem menos.

Em relação à Organização (na figura dos gestores e do técnico de segurança) prevalece entre os trabalhadores uma imagem positiva. Mesmo com as diversas queixas em relação às condições de trabalho e à organização do trabalho, boa parte dos trabalhadores (9 dos trabalhadores entrevistados) tenta ‘entender’ o lado do ‘Condomínio’ e dos produtores rurais, suas justificativas e problemas enfrentados. Conforme, mencionado, assimilam e reproduzem o discurso da Organização:

“[...] aumentar salário é complicado. Mas isso aí é complicado. Os produtores andam sofrendo porque os preços estão baixo, a reclamação é geral. Tão baixos demais, agora mesmo tá produzindo um feijão caro, fica caro produzi ele e vende barato. Assim eles falam, mas está mesmo.” (TR 1, 43 anos)

“O povo é até que é bão demais, por que os menino aqui, eles num amola ninguém. O Ciclano, o Beltrano, é tudo gente boa. O único problema que tem é que a gente é pobre não tem um alcance maior e então o que faz num dá.” (TR 2, 60 anos)

“O patrão é bão, mas eu gosto é de capinar.” (TR 5, 69 anos)

“[...] a gente num pode falar, porque eles, também,às vez, num têm condição de pagar. Porque o setor de feijão não tem um preço fixo, né? Um dia tá lá em cima, noutro dia desce pra baixo. Se eles for fazer um preço melhor, prejudica eles. E a gente tem que ir se mantendo com esse preço assim, pra a gente se virar, né? (TR 6, 64 anos)

“[...] isso aí tem a ver com o produtor, que o custo pra ele também num é barato. A gente tem que entender.” (TR 13, 37 anos)

Dentro de uma perspectiva mais crítica, pode-se afirmar que assimilação e reprodução do discurso dominante denotam um processo de mediação utilizado pelo conjunto dos trabalhadores. Uma forma encontrada para lidar com as contradições

presentes no contexto produtivo. Conforme ressaltam Pagès et al. (1987) e Schirato (2004), tais discursos refletem a construção de um imaginário social que afeta a identidade, a consciência de si e do outro. Assim, torna-se possível o sacrifício (individual e coletivo) consentido de alguns em função da razão econômica (DEJOURS, 1999b)80.

Sendo “os últimos cidadãos” (HOUTZAGER, 2004), em termos de alcance dos direitos políticos e sociais, a atitude dos trabalhadores não é de se estranhar. A precarização das condições de vida e de trabalho anteriores eram tantas, que o alcançado é visto de forma muito positiva. Ocorre aqui algo semelhante ao observado por Borsoi (2003, p. 100) em um estudo com trabalhadores de indústrias no Ceará – numa região onde prevalecia a atividade rural e onde os direitos sociais relativos ao trabalho eram inexistentes. Segundo ela, mesmo os trabalhadores tendo consciência de que recebiam muito pouco pela jornada de trabalho que cumpriam, pela exigência de produção e pelas condições de trabalho oferecidas, tendiam a perceber as empresas como ‘tábua de salvação’, “daí, a necessidade que têm de defendê-las e até de submeter-se às exigências de produtividade como se isto fosse um processo natural, esperado.”

Estas análises permitiram responder a pergunta inicial desta pesquisa:

• Como se caracteriza o contexto de produção agrícola – as condições de

trabalho, a organização do trabalho e as relações socioprofissionais – no

qual se realiza a atividade de colheita de feijão?

Possui, o contexto produtivo pesquisado, características peculiares que impõem aos trabalhadores, nele inseridos, uma elevada exigência no trabalho. As condições de trabalho disponíveis refletem num grande avanço quando comparada às

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condições anteriores proporcionadas aos trabalhadores clandestinos ou bóias-frias. Não obstante, ainda requerem transformações que levem em consideração o bem- estar dos trabalhadores rurais. Já é sabido, que as atividades manuais tendem a levar ao envelhecimento precoce dos trabalhadores, mais do que outras atividades (WISNER, 1987). Acredita-se, assim, que um trabalho exercido em condições normais (de temperatura, ritmo e pressão) já produz desgaste e leva ao envelhecimento. No caso destes trabalhadores, em condições tão adversas, este processo é acelerado ainda mais, podendo levar à deterioração e, porque não dizer, a uma morte prematura dos trabalhadores.

A organização do trabalho tende a seguir uma lógica taylorista ao igualar todos os trabalhadores e nivelar suas qualidades (COCCO, 2001). O pagamento por produção parte desta premissa e revela-se perverso, na medida em que impõe determinado ritmo/esforço aos trabalhadores, prejudicando, consideravelmente, os trabalhadores mais velhos. Esta forma de gestão, como pôde ser percebida, acaba refletindo nas relações socioprofissionais e mais do que isto, está na etiologia das doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (ASSUNÇÃO; ROCHA, 1995), tão comuns entre estes trabalhadores rurais.

Na próxima Seção, busca-se analisar ainda mais as exigências impostas aos trabalhadores pela atividade.

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