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Por mais que os seus membros neguem a sua existência no sentido de uma escola, como diz Peter Burke (1997, p. 11), a Escola dos Annales, ou História Nova, nascida em 1929 na França, surgiu a partir dos debates nos campos epistemológicos do século XIX e sobretudo da produção intelectual no campo da historiografia no século XX, com a organização do periódico que teve quatro títulos:

Annales d’Historie Économique et Sociale (1929-39); Annales d’Historie sociale (1939-1942, 45); Mélanges d’ historie sociale (1942-4); Annales: économies, sociétes, civilisations(1946-). Dos membros do movimento, e alguns ligados, Burke

(1997, p. 11) elenca:

O núcleo central do grupo é formado por Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel, Georges Duby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie. Próximos desse centro estão Ernest Labrousse, Pierre Vilar, Maurice Agulhon e Michel Vovelle, quatro importantes historiadores cujo compromisso com uma visão marxista da história – particularmente forte no caso de Vilar – coloca-os fora desse núcleo. Aquém ou além dessa fronteira estão Roland Mousnier e Michel Foucault. Este aparece esporadicamente neste estudo em razão da interpenetração de seus interesses históricos com os vinculados aos

Annales.

As diretrizes da revista e dos estudos que apresentava tratavam de substituir a tradicional narrativa de acontecimentos por uma busca analítica de uma

atividades humanas, e não apenas a história política. E em terceiro lugar, como

coloca Peter Burke (1997, p. 12), a colaboração com outras disciplinas: a geografia, a sociologia, a psicologia, a economia, a lingüística, a antropologia social, etc.

Diante disso, Peter Burke escreve que sua preocupação na obra A

Escola dos Annales (1929-1989) é qualificar o movimento dos Annales não como

uma escola, no sentido de um grupo monolítico com práticas uniformes, quantitativa no que concerne ao método, determinista em concepções e hostil à política e aos eventos. Burke (1997, p. 12) escreve que “esse estereótipo dos Annales ignora tanto as divergências individuais entre seus membros quanto seu desenvolvimento no tempo. Talvez seja preferível falar num movimento dos Annales, não numa ‘escola’”.

O movimento é dividido tradicionalmente em três fases. Na primeira, entre 1920 a 1945, Peter Burke caracteriza o grupo como pequeno, radical e subversivo, batalhando contra a história tradicional, a história política e a história dos eventos através de suas pesquisas. Marc Bloch faz parte dessa fase, como já enfatizado.

A segunda fase, que mais se aproxima de uma escola, segundo Burke (1997, p. 12), funda-se lidando com novos conceitos como estrutura e conjuntura, e novos métodos – “especialmente a “história serial” das mudanças na longa duração”. O exponencial dessa fase foi o historiador Fernand Braudel.

A partir de 1968 surge no movimento dos Annales a terceira fase. Segundo Peter Burke, essa terceira fase foi marcada pela fragmentação. Muitas características anteriores das outras duas fases se perderam. Para Burke (1997, p. 13), a unidade com os pressupostos dos Annales se dá apenas no nível da admiração e na crítica doméstica daqueles que reprovam a pouca importância atribuída à política e à história dos eventos. Membros dessa fase transferiram-se das pesquisas da história socioeconômica para a sociocultural. Já outros aventuram-se numa espécie de redescoberta da história política e mesmo no estilo narrativo. Para Burke (1997, p. 13), o que une essas três gerações, o que lhes dá certa unidade é a “interação fecunda entre a história e as ciências sociais”.

Diante desse apanhado sobre o surgimento dos Annales, usando como base a clássica obra de Peter Burke, cabe aqui ressaltar algumas coisas sobre a primeira geração dos Annales, segundo o que pontua Peter Burke (1997, p. 23):

O movimento dos Annales, em sua primeira geração, contou com dois líderes: Lucien Febvre, um especialista no século XVI, e o medievalista Marc Bloch. Embora fossem parecidos na maneira de abordar os problemas da história, diferiam bastante em seu comportamento. Febvre, oito anos mais velho, era expansivo, veemente e combativo, com uma tendência a zangar-se quando contrariado por seus colegas; Bloch, ao contrário, era sereno, irônico e lacônico, demonstrando um amor quase inglês por qualificações e juízos reticentes. Apesar ou por causa dessas diferenças, trabalharam juntos durante vinte anos entre duas guerras.

Os encontros de Bloch e Febvre em Estrasburgo duraram entre 1920 a 1933. Tais encontros foram de vital importância para o movimento dos Annales, principalmente porque ambos estavam cercados por um grupo interdisciplinar extremamente atuante, segundo Burke (1997, p. 27). Nesse ínterim, logo no final da Primeira Guerra Mundial, Febvre tenta elaborar uma revista internacional com a intenção de dedicá-la aos estudos de história econômica, mas devido a grandes dificuldades foi abandonado.

Em 1929 é Marc Bloch que tem a iniciativa de organizar uma revista, nesse caso, francesa. Ambos, Febvre e Bloch, tentaram solicitar a direção da revista ao historiador de renome na época Henri Pirenne, mas este nega o pedido. Assim, Bloch e Febvre assumem os cargos de editores da revista.

O primeiro exemplar surge em 15 de janeiro de 1929. A comissão editorial reunia, além de “historiadores, antigos e modernos, um geógrafo (Albert Demangeon), um sociólogo (Maurice Halbwachs), um economista (Charles Rist), um cientista político (André Siegried, um antigo discípulo de Vidal de la Blache)” (BURKE, 1997, p. 33).

Diante dessa breve exposição sobre o início dos Annales, e principalmente por se tratar de um assunto complexo, cheio de informações e detalhes, é conveniente convergir especificamente sobre Marc Bloch. Para melhor entender a Escola do Annales, é possível ter acesso a obras de altíssimo nível, como essa de Peter Burke A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa