1 Innledning
1.3 Målesteder
Do ponto de vista discursivo-pragmático, a construção da moralidade faz-se numa dimensão interacional, a partir da interação entre as várias personagens, as quais recorrem aos contos para fazer valer o seu ponto de vista, desempenhando o papel do narrador ou confundindo-se com ele.
3.2.1. Dimensão interacional
Instâncias enunciativas
O narrador principal do Panchatantra é Vishnu Sharma, o sacerdote que nos é apresentado desde o início, a partir da Introdução:
Meanwhile, Vishnusharman took the boys, went home, and made them learn by heart five books which he composed and called: (I) "The Loss of Friends," (II) "The Winning of Friends," (III) "Crows and Owls," (IV) "Loss of Gains," (V) "Illconsidered Action."51
Ryder 1925: 15 A voz de Vishnu Sharma, que se encontra por detrás da narração, é o elo de ligação de todas as narrativas, sendo responsável pela coerência temática e pragmática do texto. Esta é, afinal, a personagem principal e representa a voz da razão, a de uma pessoa idosa, com autoridade para ditar o que está certo e o que está
51 Entretanto Vishnu Sharma levou os rapazes e fê-los aprender de cor cinco livros que compôs,
i tituladosà I à áàpe daàdeàa igos ,à II à áàa uisiç oàdeàa igos ,à III à Co osàeà o hos ,à IV à áàpe daàdeà e sàad ui idos ,à V à átos I efletidos .
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errado e com capacidade de transformar a vida dos três príncipes, incutindo neles valores e contribuindo para o seu desenvolvimento pessoal e social. É, pois, no âmbito da interação entre o pândita e estes três destinatários que se constrói a moralidade da obra.
Enquanto personagem, Vishnu Sharma assume um discurso implicado, dirigindo a palavra diretamente aos três narratários. Esta personagem é, por sua vez, apresentada por uma outra voz, a de um narrador ausente, autónomo, não implicado (o termo é de Bronckart 2008) e distanciado, que se limita a informar: á dà Vishnusharma àtoldàtheàfollo i gàsto à ‘ de à :à .
São cinco as histórias que Vishnu Sharma conta, correspondentes às narrativas envolventes (N-env) dos cinco Livros do Panchatantra. Em cada uma delas, encontram- se encaixados vários contos, narrados pelas diferentes personagens. É também através das interações encetadas por estas instâncias enunciativas que se vai construindo a moralidade. Os seus discursos integram injunções, conselhos ou advertências, sendo sustentados por argumentos que se traduzem em contos, procurando convencer o interlocutor a subscrever o seu ponto de vista. O exemplo seguinte mostra como Cheek (Calila), personagem da narrativa envolvente do Livro I, tenta dissuadir Victor (Dimna), o seu interlocutor, de se imiscuir em assuntos que não lhe dizem respeito:
Wh à eddle,à àdea àfello ? àsaidàCheek.à The eàisàaàsa i g: Death pursues the meddling flunkey
Noteàtheà edgeàe t a ti gà o ke .
Ho à asàthat? àaskedàVi to .àá dàCheekàtoldàtheàsto àof THE WEDGE-PULLING MONKEY. […]
And that is why I say that meddling should be avoided by the intelligent.52
Ryder 1925: 25 Muitas vezes, ouvem-se vozes integradas dentro dos contos apresentados. No conto Ho àtheà o -hen killed the black snake53, uma personagem pede ajuda a um
amigo, o qual tranquiliza-a, dizendo:
52– Por que razão imiscuir-se, meu caro amigo? – disse Calila – Há um ditado: A morte persegue o servo
metediço: observa o macaco que puxouàaà u ha à
– Como é que foi isso? – pe gu touàDi a.àEàCalilaà o touàaàhist iaàd O MACACO QUE PUXOU A CUNHA
[…]
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You need not put yourself out. That villainous black snake is near his doom by reason of his heartless cruelty. For
Of means to injure brutal foes You do not need to think,
Since of themselves they fall, like trees Upon the river's brink.
And there is a story:
A heron ate what fish he could, The bad, indifferent, and good; His greed was never satisfied Till, strangled by a crab, he died."54
Ryder 1925: 76 Assim, a voz que irá contar a história da garça (the heron) é a de uma personagem integrada num conto, sendo este apresentado por uma personagem da narrativa envolvente, a qual é, por sua vez, criada/narrada por Vishnu Sharma, ele próprio uma personagem interveniente na sequência narrativa que surge na Introdução à obra, apresentada por uma voz neutra.
Deste modo, podemos dizer que todas as vozes que se ouvem no Panchatantra fazem ecos sucessivos, contruindo e reconstruindo consecutivamente a moralidade, através das narrativas envolventes e dos contos que vão apresentando. Estas vozes nem sempre personificam comportamentos exímios. É o caso, por exemplo, do chacal Dimna, aliás anunciado em Pn0-I de uma forma que não abona a seu favor: A jackal then estranged the friends / For greedy and malicious ends à ‘ de à :à . Esta personagem representa a voz da traição, tendo como função criar inimizade entre duas personagens.55 Como poderá, então, veicular uma lição de moral?
Ainda que seja a personagem traidora e os seus objetivos nem sempre sejam corretos, os contos que Dimna apresenta contêm uma moral que se encontra de acordo com os valores axiológicos instituídos. É o que acontece, por exemplo, quando Victor (ou Dimna), pretende inverter a situação desfavorável em que se encontra, tentando criar inimizade entre o leão e o touro. Neste caso, o que Dimna apregoa é que podemos inverter uma situação desfavorável utilizando a astúcia (C7) ou a
53 O corvo que matou a serpente.
54 Não precisas de te preocupar. Essa cobra negra vil está perto da sua própria destruição devido à sua
crueldade impiedosa. Pois não necessitas de pensar num meio de prejudicar inimigos bárbaros, uma vez que eles próprios caem como árvores à beira de um rio. E há uma história: uma garça comeu os peixes que pôde, os bons, os maus e os comuns. A sua gulodice nunca era satisfeita, até que, estrangulada por um caranguejo, morreu.
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inteligência (C8). No contexto de N-env-I, esta intenção não é positiva; contudo, os contos em si contêm uma moral que vai ao encontro dos valores axiológicos instituídos.
O quadro 27 apresenta as narrativas do Livro I, a que se segue a mensagem principal que se pretende veicular.56
Por detrás da voz de Vishnu Sharma, os narradores principais neste livro são Dimna, que assume a narração de treze contos, Calila, narrador cuja voz se encontra por detrás de cinco contos, e Lively, o touro, também personagem da narrativa envolvente, que assume três contos. Os restantes contos são da responsabilidade das personagens inseridas nos contos apresentados.
Conforme referido, os contos atribuídos a Dimna assumem uma moral que vai ao encontro dos valores axiológicos instituídos, ainda que essa moral nem sempre vá ao encontro dos seus planos maquiavélicos. É o caso dos contos números 2, 4, 5, 6, 11, 13 e 17. No caso dos contos 4, 5 e 6, a moralidade é semelhante à que se encontra presente no conto 1, que Calila narra para Dimna – neste caso, a personagem em questão reconhece o seu erro, concordando com Calila. Relativamente à moral presente no conto 7 (sempre que a força bruta falha, deve ser adotada uma estratégia astuta), aplica-se, conforme acima referido, a uma situação em que uma personagem astuta se defende de um predador, pelo que a moral tem a sua razão de ser. Contudo, no contexto do conto envolvente, essa moralidade parece ser dúbia, pois surge na sequência da atitude de Rusty (o rei) que não presta atenção a Calila e a Dimna, p ete de doàesteàúlti oàafasta àdoisàa igos:à Rusty must by all means be detached from Lively à ‘ de à1925: 74).
56 Conforme se refere nas opções metodológicas, no início do presente trabalho, neste quadro e nos
seguintes, relativos à apresentação da moralidade, após o número atribuído ao conto, foi indicado o título, o nome da personagem que assume a narração, a personagem a quem o conto é diretamente dirigido e a moral explícita que o narrador pretende salientar, tendo esta sido apresentada através de reformulações interpretativas em forma de macroproposições. Os algarismos inscritos nas colunas relativas ao narrador e narratário(s) referem-se ao número do conto, indicando, deste modo, que o narrador e/ou narratário é/são personagens de conto correspondente a esse número. Assim, por exemplo, o conto 8 é narrado pelo chacal que é uma personagem do conto 7, sendo o narratário do conto 8, a personagem corvo, do conto 7.
120 Quadro 27 - Livro I: A perda de amigos
LIVRO I