Para Guilherme Oliveira (2004:159) a Especificidade dos exercícios só é alcançada com a interferência consentânea do treinador antes, durante e após a sua realização. Neste sentido afirma que, “por vezes, os exercícios estão completamente adequados ao modelo de jogo, no entanto, devido à intervenção inadequada ou à não intervenção do treinador eles podem tornar-
se desajustados”. Com esta ideia, o autor supracitado compreende que a dinâmica da situação também é configurada pela mediação do treinador antes, durante e após a mesma. Por isso, a Especificidade do exercício não considera somente a configuração estrutural e funcional dos acontecimentos (Gomes, 2006).
No prosseguimento desta ideia apreciemos o próximo exemplo: o treinador concebe um exercício de 10x10 em espaço reduzido de modo a existirem transições frequentes. No entanto, busca que uma das equipas se preocupe essencialmente com os comportamentos nas transições ofensivas mencionando a esses jogadores, que a equipa ao conquistar a posse da bola deve afastá-la prontamente da zona de pressão defensiva ou seja, jogar para um espaço distinto. Em contrapartida, quer que a outra equipa se centralize nos comportamentos na transição ataque-defesa solicitando aos jogadores mais próximos que formem uma zona de pressão no local da perda da bola. Deste modo, o “mesmo” exercício alcança uma configuração divergente para as duas equipas porque incidem em aspectos distintos. Com esta intervenção, entendemos que o treinador dirige a atenção dos jogadores para os comportamentos que pretende desenvolver, dirigindo os jogadores para longe dos erros evitando que estes se repitam. No fundo, trata-se de contextualizar a dinâmica do exercício para um desígnio ou seja, preocupado com determinados comportamentos. Por isso, os acontecimentos deste exercício ganham um sentido Específico (Gomes, 2006).
No basquetebol poderíamos criar uma situação de 4x4 em ¾ de campo com 2 tabelas, onde uma das equipas estaria preocupada com a organização defensiva e transição ofensiva, e a outra se iria concentrar nos aspectos relativos à organização ofensiva e transição defensiva. Assim, a equipa A começaria em organização defensiva e teria como objectivo recuperar a bola e finalizar em situação de contra-ataque ou entrar em organização ofensiva, por outro lado, a equipa B tentaria finalizar e tentar recuperar a bola na sua
transição defensiva (zona press por exemplo), evitando que a equipa A consiga finalizar ou entrar em organização ofensiva. Desta forma, a dinâmica do exercício tem intuitos Específicos através dos quais direcciona a atenção dos jogadores para determinados comportamentos. No entanto, a Especificidade não se resume apenas ao momento precedente ao exercício mas também à intervenção do treinador durante a sua realização (Gomes, 2006).
De modo a compreender este aspecto, reportemo-nos ao exercício de 4x4, onde uma equipa se preocupa fundamentalmente com a transição ofensiva e outra com a transição defensiva. Vamos imaginar que no decorrer do exercício a actuação do treinador não é congruente com o objectivo do exercício, previamente traçado, corrigindo aspectos esporádicos que se prendam, por exemplo, com a organização defensiva. Desta forma, a sua intervenção no acontecer do exercício não converge no sentido do próprio exercício, levando os jogadores a apontarem a sua atenção para os aspectos que são corrigidos. No entanto, se a intervenção do treinador se prender realmente com o objectivo proposto, neste caso a exercitação sobre as transições de ambas as equipas, reforçando os aspectos positivos e corrigindo os erros, faz com que a dinâmica do exercício se centralize na melhoria desses aspectos. Desta forma, o treinador não só deve explicar os aspectos comportamentais dos exercícios como, durante os exercícios, tem de proceder à orientação dos jogadores no sentido dos comportamentos desejados.
Vamos supor, que uma equipa tem dificuldades em reagir à perda da bola (na transição defensiva), não iniciando de imediato uma pressão sobre o portador da bola, ou sendo deveras lenta a fechar a equipa no sentido de evitar contra-ataques da equipa adversária. Assim o treinador terá de intervir, corrigindo os comportamentos dos jogadores no decorrer do exercício e mais concretamente no momento da perda da posse de bola, para que reconheçam como se movimentarem para tornarem a pressão eficaz, ou evitar a superioridade numérica por parte do adversário. Só desta forma a dinâmica do
exercício adquire o carácter ambicionado, isto é, não basta o exercício estar geometricamente bem construído, mas é necessário que a intervenção do treinador seja precisa e congruente com os objectivos pretendidos, caso contrário poderão estar a treinar e automatizar erros.
A importância deste aspecto é decisiva para dar sentido aos acontecimentos do exercício, onde o treinador deve participar de forma activa através de uma intervenção, também ela, Específica. No entanto, não ambicionamos dizer com isto que o treinador deverá chefiar os seus jogadores porque, como já expusemos, os jogadores e equipa devem ser autónomos no desenvolvimento do jogo uma vez que é isso que acontece na competição. (Gomes, 2006).
Neste sentido Guilherme Oliveira (anexo 1) menciona que o objectivo do treino é preparar os jogadores e equipa para resolverem de forma autónoma os problemas da competição, segundo o modelo de jogo. Pretendemos assim, demonstrar que a intervenção do treinador no decorrer do exercício assenta no desenvolvimento daquilo que o referido autor designa de “criação dialéctica entre treinadores e jogadores”. No fundo, relaciona-se com auxiliar os jogadores e a equipa a resolverem os problemas do jogo, de acordo com uma lógica comum.
Concluindo, pretendemos referir que todos os exercícios, com mais ou menos jogadores, mais ou menos pormenores têm de estar contextualizados pelo sentido do jogo que pretendemos. Assim, um mesmo exercício poderá ser adequado para uma determinada equipa e totalmente desadequado para outra, tendo em conta os respectivos modelos de jogo. Desta forma, torna-se capital referir que a Especificidade se apresenta como um princípios metodológico da “Periodização Táctica”, e assim sendo, é fundamental perceber como é estruturado o processo ao longo da semana.