5.3 Å LYTTE , ” SER OG BLI SETT ”
5.3.1 R OS
No pós-guerra, o conceito de inovação tecnológica se caracterizava pela incorporação de conhecimentos científicos decorrentes da pesquisa aos produtos. Desta forma, o desenvolvimento da pesquisa científica básica era a via quase natural de se obter inovações que pudessem ser utilizadas pelos setores produtivos num processo linear de inovação, Stokes (1997)40: Pesquisa Básica à Pesquisa Aplicada à Desenvolvimento à Inovação
Dessa forma, principalmente no âmbito dos países periféricos, as questões relativas ao desenvolvimento científico e tecnológico ficaram restritas ao ambiente dos cientistas e pesquisadores41. Esses cientistas tinham certa autonomia no direcionamento de suas pesquisas e contavam com apoio financeiro e estrutura institucional, num contexto político e socioeconômico que se baseava no modelo linear de desenvolvimento tecnológico. Nesse contexto, o desenvolvimento econômico dos países seria decorrente de inovações radicais que propiciavam mudanças de paradigmas tecnológicos que, por sua vez, se tornavam diferenciais competitivos, gerando riqueza e destaque internacional.
40 Stokes (1997) mostra que em 1944, nos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt encomendou uma diretriz para a ciência em tempo de paz, a Vannevar Bush, diretor do Departamento de Pesquisa Científica e Desenvolvimento. Cinco anos após, a visão do Relatório de Bush: Ciência, a Fronteira Final, tornou-se uma fundação de política científica para as décadas do pós-guerra nos Estados Unidos, a National Science Foundation. Para Bush, (apud STOKES, 1997, p.3), pesquisa básica é definida como sendo aquela “realizada sem qualquer fim prático” e com a particularidade de contribuir para o “conhecimento geral e para a compreensão da natureza e de suas leis”. Essa pesquisa básica, levaria conseqüentemente a uma inovação por meio do “método linear”, seqüencial segundo o seguinte caminho: Pesquisa Básica à Pesquisa Aplicada à Desenvolvimento à Inovação.
41 O saber científico e o papel das elites acadêmicas e tecnocráticas, fazem parte dos estudos sociais das ciências
que se preocupam com sua evolução como parte do processo social. Veja MERTON, Robert K. Ciência e a
Estrut ura Social Democrata (Capítulo XVIII) in Sociologia, Teoria e Estrutura, São Paulo, Editora Mestre Jou,
1970, pp. 651-662; KUHN, Thomas S. O progresso através das revoluções (Capítulo 12). In A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo, Editora Perspectiva, 1975, pp. 201-216; SCHWARTZMAN, Simon. Como os
produtores de Ciência, tecnologia e Inovação “percebem” a sociedade? In Papel e Inserção do Terceiro Setor no Processo de Construção e Desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação. Rio de Janeiro, Academia
Brasileira de Ciências e Instituto de Tecnologia Social, 2002, pp. 32-35. [www.schwartzman.org.br/simon/ter_set.htm]
Apesar desse modelo ter sido útil para alguns países como os Estados Unidos, onde foi formalmente concebido, não trouxe sucesso para os países periféricos que o utilizaram, tacitamente, no âmbito do meio científico, ou dentro de uma política pública desenvolvimentista, que buscava, principalmente, reverter a disparidade entre os níveis de crescimento dos países chamados “desenvolvidos” e dos chamados “em desenvolvimento”.
No entanto, apesar da significativa taxa de crescimento, observada em alguns países em desenvolvimento nos anos 1970, a forma com que trataram o seu desenvolvimento científico e tecnológico foi determinante para a estruturação de um sistema interno de inovação que propiciasse uma maior independência tecnológica, ou reduzisse, de forma considerável, o déficit da balança tecnológica,42 Anexo II, e que permitisse um crescimento econômico estável, condizente com as necessidades e anseios de suas populações na busca de melhores níveis de renda, qualidade de vida e equilíbrio social.
Entre os anos 1970 e 1980, surgiram inúmeras inovações radicais e incrementais, e também novos sistemas de inovação tecnológica nos diversos países. Esses sistemas de inovação se caracterizaram, de uma maneira geral, por uma participação ativa de três atores principais: o setor produtivo, o governamental e a academia. As inovações, associadas principalmente com a microeletrônica, influenciaram o crescimento econômico mundial. O novo paradigma tecnológico, no decênio de 1980, como uma onda, foi gradualmente absorvido pelas economias dos diversos países. Carlota Pérez (1989), nos mostra que as ondas tecnológicas, principalmente decorrentes de inovações radicais, criam um desajuste tecnológico que vai sendo absorvido lentamente pelas economias que têm dificuldades de responder aos problemas e necessidades do novo paradigma. Apesar dessas dificuldades, surgem “janelas de oportunidades” para as economias retardatárias, como é o caso dos países periféricos, pois com o novo paradigma, essas economias podem reorientar suas estratégias de desenvolvimento e aproveitar o período de adaptação das economias mais desenvolvidas, baseadas no paradigma anterior, e utilizar, com mais agilidade, as tecnologias do novo paradigma, em vez de continuar comprando ou aprendendo tecnologias maduras43.
42 O déficit da balança tecnológica se refere ao de setores de maior absorção ou geração de tecnologias e
inovações que, no caso do Brasil, se apresentaram deficitários nos anos 1990.
43 Para maiores detalhes veja Pérez, Carlota. Cambio Tecnico, Reestructuracion Competitiva – Reforma institucional en los paises en desarrollo. (versión castellana del original inglés publicado como “Discusión Paper Nº 4; Departamento de Planificación y Análisis Estratégico – Banco Mundial; Diciembre 1989”); 48 p.
Seguindo o paradigma tecnoeconômico exposto, os sistemas de inovação se estruturaram e se complexificaram em face da natureza e das especificidades, cada vez maiores, existentes na pesquisa científica e nas tecnologias, em temáticas como as da biotecnologia, tecnologias aeroespaciais e de telecomunicações e nanotecnologia. Além disso, existe atualmente uma grande demanda por bens de alta densidade tecnológica, e crescentes necessidades de resolução de problemas na geração de alimentos, preservação ambiental e de saúde, que demandam pesquisas aplicadas.
Nos sistemas de inovação tecnológica de vários países, o arranjo institucional, é fundamental para a sinergia entre os setores participantes. Esses sistemas se diferenciam, em função de seus planos de ação do grau de participação do setor governamental, do setor indústrial e do terceiro setor no processo de geração, absorção e difusão de novas tecnologias.
Atualmente, a estratégia de inovação define inovação do modo mais amplo, onde o conhecimento é transformado em produtos novos, que podem ser bens e serviços ou uma combinação deles. Inovação também pode ser vista como novos modos de projetar, de produzir e comercializar produtos existentes. O conceito é usado tanto para o processo criativo como para o resultado. A competitividade industrial não decorre somente de investimentos em pesquisa e desenvolvimento para setores com foco em pesquisa de alta tecnologia. Setores de baixa tecnologia também são incluídos no processo de inovação, principalmente com a introdução de inovações incrementais.
Empreendimentos em setores tradicionais onde atuam pequenas e micro empresas, para serem competitivos, devem ser inovadores no trabalho cotidiano. Essas empresas devem implementar a inovação no design de produto, na organização da produção, na logística, no
marketing, nas áreas de vendas, distribuição e suporte e relações de mercado, no
desenvolvimento de novas formas de relação capital/trabalho, na formação de recursos humanos qualificados em parceria com as universidades, etc. Em seu sentido ampliado, a inovação objetiva não só a produtividade e a competitividade como também o bem-estar social e qualidade de vida da população.