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O bom aluno é aquele que vê importância na aprendizagem de um novo idioma, ele tem interesse em aprender a língua.

(SR- Roberta)

Nesta turma tem dois alunos que eu considero excelentes: a Marleide e o João Pedro. Eles têm uma vontade de aprender! A Marleide me pediu um livro emprestado e toda aula ela vem me perguntar alguma coisa sobre aquilo que estudou no livro, sozinha. O João sempre me surpreende com as palavras que ele sabe. Tudo que eu pergunto ele sabe em inglês. (...) Ele me falou que ouve muita música e assisti a muitos filmes (...).

(ER - Denise)

É gostar do Inglês (risos), gostar de aprender, sentir prazer, curiosidade, a gente se sente bem quando percebe assim, principalmente um aluno, assim, ele é bom que ele faça um curso a parte, você vê que muitos alunos que desenvolvem bem fazem um curso a parte, mas é tão gostoso quando você vê um aluno que se aprofunda porque ele vê interesse, vê importância, e ele, é ... demonstra aquele interesse, e às vezes você fala nossa a que ponto esse aluno chegou sozinho, você num vê assim, muitas vezes que você interferiu naquilo, mas é muito bom você vê que o aluno se interessou e buscou, é mais, aprender mais a partir daquilo que você falou, muitas vezes”.

Para Denise e eu, o bom aluno é aquele que: (a) acredita que o aprendizado de uma língua estrangeira seja importante. (b) tem interesse em aprender um idioma, (c) gosta de aprender a língua estrangeira, (d) busca por si próprio o aprendizado. Ao observarmos as características do que Denise e eu consideramos ser um bom aluno, podemos perceber que todas elas são perpassadas pela idéia de motivação e autonomia. Neste trabalho, não me

deterei a explorar, com minúcias, ambos os conceitos, já que não é de interesse desse estudo me aprofundar nesta questão. No entanto, abordarei os conceitos de motivação e autonomia de forma que possamos entender, em linhas gerais, quais minhas crenças e da professora Denise no que diz respeito ao papel do aluno no processo de ensino-aprendizagem.

As definições encontradas na literatura acerca do que seja motivação têm como ponto comum que esta seja a combinação do esforço, acrescido do desejo de realizar o objetivo de aprender algo (LIMA, 2005). Assim, a motivação possui um componente cognitivo, o qual auxilia o indivíduo a avaliar a atividade e o impulsiona a colocá-la em prática, e o componente comportamental, o qual pode ser entendido como o esforço conferido para que se realize determinada atividade.

Dessa forma, podemos constatar nos excertos acima que Denise e eu demonstramos entender que motivação é algo que já faz parte do aluno, que ele traz consigo próprio. É algo que vem de dentro para fora. Esse tipo de motivação que nos referimos é denominada motivação intrínseca, ou seja, aquela que está relacionada ao próprio interesse do aluno e à vontade de aprender, em que a motivação é a “própria aprendizagem da língua, cuja recompensa seriam os sentimentos de competência e auto-determinação” (DECI, 1975, apud MIRANDA, 2005, p. 136).

Paiva (2005) inclui a motivação como palavra-chave para se entender as questões relacionadas à autonomia, porque é a “motivação que influencia os diversos graus de autonomia, além de outros, tais como, necessidades, crenças sobre aprendizagem, experiências passadas de aprendizagem ou histórias de aprendizagem, afetividade, auto- estima, afiliação ao idioma, etc.”. Percebemos, assim, tanto eu quanto Denise acreditamos que o aluno deve se considerar responsável pelo seu próprio aprendizado.

Acreditamos, também, que, aquele aluno que busca a autonomia, aprende além dos conteúdos e assuntos formais, ensinados na sala de aula e, de forma mais eficaz. Barcelos (2006b) analisa que os alunos crêem que a escola pública não seja o local mais adequado a aprendizagem da língua inglesa e por isso, as experiências dos alunos de escola pública não são caracterizadas como boas, “embora para alguns essa tenha sido a mola propulsora para que eles se tornassem mais responsáveis pela aprendizagem” (p. 167).

Denise compara os alunos que estudam inglês em um centro de línguas com aqueles que não estudam. Em relação a esse aspecto, ela tem a crença de que mesmo os alunos que só aprendem inglês na escola pública são extremamente capazes de aprender essa língua quando se sentem motivados e responsáveis pelo seu aprendizado. Segundo Paiva (2005), a “autonomia é parte importante do processo de aprendizagem, pois, é ela que faz com que o

aprendiz seja o agente de sua própria aprendizagem e não um objeto que se plasma de acordo com as imposições dos métodos e do professor”.

Nos excertos abaixo, a professora reitera sua crença de que o aluno deve assumir seu papel no processo de ensino-aprendizagem e buscar a autonomia para que seja mais bem sucedido.

4.3.2. “(...) depende do interesse que eles têm né?”

(ER - Denise)

Eu acho que o aluno achar o inglês fácil ou difícil depende do interesse que eles têm, né, então aquele aluno que tem interesse já em casa, antes... na rua, já tudo que é inglês já chama a atenção dele aí então, na escola ele só soma né com aquilo que às vezes tá falando, vai acrescentando, vai perguntando, tirando alguma coisa a mais de você. Agora tem aluno que num tem interesse nenhum, e esse eu acho que ele acha que é coisa do outro mundo.

(SR- Denise)

(...) como não é todo mundo que se envolve com ele [inglês], porque gosta, porque tem prazer, então tem aqueles alunos que se destacam, e que ... assim, chamam, procuram mais você para aprender, pra tirar dúvida, então, isso é uma coisa que me faz sofrer, porque aqueles que muitas vezes têm dificuldade, vão continuar com as dificuldades, porque aqueles que têm interesse, eles te usam mais (...) se não buscarem por si só fora, estudarem em casa, como a gente já falou.

(SR - Denise)

Só que muitas vezes essas atividades voltam em branco. Então também percebo que mesmo você passando, falando pra eles a forma mais fácil de aprender, não têm interesse em aprender fora da sala de aula. Eles querem mesmo aquilo dali, mastigado, pronto.

(ER - Denise)

Eu sonho com o dia que o aluno não fique somente com aquilo que ele vê em sala de aula, que ele também tenha o interesse de estudar em casa e que ele vai ver que com isso ele vai aprender muito mais.

Embora Denise acredite que a motivação seja algo que já faz parte do aluno, que ele traz consigo mesmo, ela busca proporcionar atividades que motivem seus alunos a se interessarem pelo aprendizado da língua inglesa. Para a professora, motivação pode ser considerada a força propulsora, o desejo, o envolvimento, a vontade por trás de todas as ações. É o processo responsável pela intensidade e persistência dos esforços de uma pessoa para o alcance de uma determinada meta. Paiva (2005) defende que os professores devam aprender e praticar formas de ajudar o aluno a praticar a sua autonomia e, aguçar a curiosidade do aluno, assim, fazer com que ele se envolva com as atividades, é uma forma de motivá-lo a buscar o aprendizado com uma menor interferência do professor. Percebo que

embora Denise demonstre acreditar que a motivação é algo que já vem com o aluno, ela empenha-se em buscar atividades prazerosas para os aprendizes.

4.3.3. “(...) pode ser chamativo e interessante no começo, depois ele tem que

estudar sério mesmo”: escola e centro de idiomas, ponto em comum

(ER)

Quem fez um curso de inglês fora, sabe que é assim, que é demorado, que nem todos estão aptos pra isso, que se é uma coisa que você tem que passar horas de estudo... os alunos, hoje em dia, não têm esse hábito desenvolvido... Logo eles param, porque eles percebem que mesmo lá, pode ser chamativo e interessante no começo, depois ele tem que estudar sério mesmo.

O discurso de Denise parece indicar que a motivação, além de ser intrínseca, possa ser, também, algo que vai de fora para dentro, ou seja, que parte da escola, das atividades desenvolvidas, do professor e se dirige em direção ao aluno. Esse tipo de motivação é denominada motivação extrínseca e está relacionada aos estímulos externos, como as condições da escola, as atitudes do professor, e sobretudo, aos fatores afetivos (MIRANDA, 2005). Mesmo considerando a motivação extrínseca de grande importância, Denise aponta a motivação intrínseca como decisiva no processo de ensino-aprendizagem.

Outra crença abordada é a diferenciação entre o centro de idiomas e a escola pública. A professora considera o primeiro mais interessante, “chamativo”, e, portanto, mais motivador do que a escola pública. No entanto, para Denise, há um ponto em comum entre as duas crenças acerca do aprendizado da língua nas escolas públicas e nos centros de língua: independentemente de onde o aluno estude, ele não aprenderá a língua estrangeira se a ela não se dedicar. Isso remete ao papel ativo do aluno.

É interessante notar sua crença de que a motivação intrínseca e extrínseca são os dois lados de uma mesma moeda que se completam: ao mesmo tempo em que o aluno precisa ter motivação intrínseca, para buscar o aprendizado de forma autônoma, ele precisa de motivação extrínseca, ou seja, a ajuda do professor para ter o desejo de construir seus conhecimentos. É ainda importante salientar que a crença da professora em relação à motivação tem a ver também com os papéis que ela acredita que deva desempenhar como docente, da mesma forma que entende que seu aluno possui papel ativo neste processo de ensino-aprendizagem.

Entendo que a relação que se estabelece entre as crenças de Denise a respeito da motivação e suas práticas em sala de aula seja uma relação hermenêutica (RICHARDSON, 1996), já que a professora demonstra acreditar que a motivação intrínseca é a mais importante no processo de ensino-aprendizado, mas procura com muito afinco propor atividades que estimulem a motivação extrínseca.

4.3.4. “(...) Nossa, nós nunca tivemos uma professora que sabe inglês, agora

nós vamos aprender”.

(ET)

(...) aqui no Estado de São Paulo, quando eu cheguei, que eu tomei posse, que eu entrei pela primeira vez... No primeiro dia foram só apresentações, mas eu chamei atenção um pouco dos alunos na época, porque eles falavam assim. “nossa, nós nunca tivemos uma professora que sabe inglês, agora nós vamos aprender” e aí até a professora da escola de línguas da escola daqui me procurou na época e falou “nós estamos tendo uma procura enorme de alunos pelo curso de inglês” ela queria até me conhecer, na época. E aí eu achei interessante, fiquei me achando, com certeza.

A professora, em seu primeiro dia de aula, teve consciência de que, para seus alunos, o domínio da língua pelo professor é essencial para o aprendizado. Os alunos acreditam que se a professora sabe falar inglês, eles também serão capazes de aprender. O fato de perceber ser possível o aprendizado da língua faz com que eles se sintam motivados a procurar um centro de línguas também. Quando a professora diz que ficou se achando (ficou orgulhosa), há algumas questões que podemos inferir de seu discurso: o reconhecimento dos alunos e de outra professora em relação aos seus conhecimentos sobre a língua, principalmente porque a professora que estava elogiando seu trabalho era a professora da escola de idiomas, da qual não se duvida da competência profissional, conforme já tratado neste texto na seção 4.1.9.

4.3.5. Aprender inglês para subir na vida