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Os problemas relacionados à crise energética podem ser observados em áreas fundamentais para o desenvolvimento humano. Tal crise, ao mesmo tempo em que afeta a dimensão social, econômica e ambiental, também é afetada pelas condições destas, criando um ciclo que alimenta o estado crítico do cenário energético.

Em termos sociais, é constatada uma má distribuição do acesso à energia que, por sua vez, contribui para um quadro de desigualdade. De mais de seis bilhões de pessoas no mundo, por volta de dois bilhões ainda não conseguem suprir as necessidades humanas de mobilidade, calor, conservação de alimentos e remédios. Indicativos como este refletem um problema resultante de um crescimento energético carente de planejamento, que é capaz de intensificar quadros de pobreza e gerar conflitos sociais (Devine-Wright, Devine-Wright & Fleming, 2004; Geller, 2003; Improta, 2008; Millennium Ecosystem Assessment, 2005). No Brasil, por exemplo, o rápido processo de industrialização privilegiou a zona urbana, a qual apresentou taxas de eletrificação domiciliar demasiadamente superiores as taxas da população rural, como pode ser visto abaixo (Pereira, 2007).

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Figura 4. Evolução da taxa percentual de eletrificação dos domicílios brasileiros, 1970-

2000. Fonte: ANEEL (2005).

Na esfera econômica, a década de 1970 foi um marco, pois apresentou um dos maiores problemas relacionados à crise energética: as novas formas de comercializar os recursos energéticos, principalmente os derivados do petróleo. A redução da oferta do petróleo por parte dos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) dificultou a compra de seus derivados, causando um desequilíbrio econômico mundial. A nova realidade econômica não coincidia mais com as ilusões que alimentaram a necessidade de consumo dos recursos energéticos até a década de 1960, o que produziu uma onda de recessão nos Estados Unidos, racionamentos de energia no Japão e na Europa e a desestabilização da economia dos países em desenvolvimento, como o Brasil. Enquanto os novos preços e restrições sobre os produtos do petróleo levavam as pessoas a enfrentar grandes filas em postos de gasolina, montadoras de carro investiam em modelos compactos

33 e mais econômicos em detrimento dos antigos modelos luxuosos, mas que consumiam demais (Stern, 2006). Como pode ser visto, de forma geral, foi necessário que a sociedade se adaptasse a uma nova economia.

Já os problemas de cunho ambiental relacionados à crise energética podem ser observados na frase de Trigueiro (2005, p. 210) que diz: “a energia que move o mundo tem cor escura, é um recurso finito e altamente poluente”. Dessa forma, os problemas ambientais vinculados à crise energética são baseados em duas grandes evidências. Primeira evidência: a característica finita dos recursos energéticos tradicionais. Pela primeira vez na história a necessidade de mudanças de fontes de energia se deu, não só pela valorização de uma alternativa mais barata e eficaz, mas por causa de um esgotamento físico de uma dessas fontes. Esse esgotamento se dá porque os combustíveis fósseis, armazenados por milhões de anos no subsolo, uma vez extraídos, não se regeneram (Bermann, 2001; Sachs, 2007; Trigueiro, 2005).

Segunda evidência: mudanças climáticas. Por mais de 250 anos, o fornecimento energético foi produzido a partir da queima (os processos de refinamento) de combustíveis fósseis. Dessa forma, após a queima, os resíduos ficam acumulados na atmosfera em forma de gases de efeito estufa (GEE), a exemplo do dióxido de carbono (CO2). Sabe-se que o efeito estufa existe independente da ação do homem e que o CO2 não causa nenhum dano à saúde e não “suja” o meio ambiente. No entanto, o problema não são os gases que causam este efeito, mas os hábitos de produção e de consumo mal adaptados dos recursos energéticos que intensificaram sua emissão, e, conseqüentemente, aceleraram e desequilibraram o processo de aquecimento da Terra (Pereira, 2002; Pessoa, 2008). Neste sentido, os efeitos das mudanças climáticas causados pelo uso desequilibrado das fontes energéticas tem gerado grande preocupação mundial, principalmente devido as suas

34 conseqüências: aumento da temperatura da Terra, derretimento de geleiras, aumento do nível dos oceanos, mudanças nas estações do ano, declínio da população de espécies animais e plantas. Deste modo, altera-se todo o ecossistema, comprometendo assim, a vida no planeta (Improta, 2008; Kolonas, 2007).

Estima-se que, desde a Revolução Industrial, cerca de 271 bilhões de toneladas dos GEE, tenha sido adicionado à atmosfera, o que influenciou diretamente o fenômeno de aquecimento da terra (Schmuck & Schultz, 2002). E, o que seria um fenômeno físico natural, transformou-se em um sério problema ambiental, com consequências irreversíveis e perigosas para a saúde do ser humano e o equilíbrio da natureza (Improta, 2008; Pereira, 2002; Tolmasquim, 1992; Zelezny & Schultz, 2000).

A constatação de que as fontes tradicionais de energia não se renovam na natureza e que passam por um processo de extração, refinamento e utilização que produz resíduos poluentes, demonstram consequências preocupantes para o meio ambiente e para o ser humano e acabam sendo determinantes para o contexto da crise energética. Neste sentido, o uso destas fontes tradicionais precisa ser repensado com urgência, visto que seu caráter finito e poluente aponta para um problema socioambiental e econômico complexo (Pereira, 2002).

Dentro deste contexto de crise energética é importante considerar o papel da energia elétrica e do seu consumo. A energia elétrica é uma das formas mais versáteis e convenientes de energia, configurando-se como um recurso indispensável e estratégico para o desenvolvimento socioeconômico dos países e de suas regiões (Pereira, 2007). Atualmente, por volta de 35% da energia usada no mundo está na sua forma de eletricidade, indicando a importância desta fonte de energia (Reis et al., 2005). Visando atender a esta grande demanda a indústria elétrica, por meio das usinas térmicas e hidrelétricas, foi se

35 desenvolvendo de forma rápida e com bastante potencial (Pereira, 2005). Entretanto, este consumo sofreu forte aceleração e as demandas de energia no Brasil e em outros países em desenvolvimento começaram a crescer com taxas superiores ao PIB. Em meados da década de 1990, após o plano Real, a taxa média de crescimento de consumo de energia elétrica subiu 6% ao ano.

Assim, o consumo desenfreado de energia elétrica culminou em uma questão que hoje é familiar para a população brasileira: a crise da energia elétrica. Os famosos apagões e o plano de racionamento de energia elétrica do início dos anos 2000 foram decorrentes de períodos de secas. De fato, a seca prejudica diretamente o fornecimento de eletricidade no Brasil devido à dependência que a matriz energética brasileira tem das hidroelétricas. Por isso, uma vez que os níveis das represas baixam, o fornecimento de energia elétrica sofre prejuízo. A realidade brasileira atual continua mostrando problemas com o fornecimento da eletricidade. Segundo comentário de Fariello (2010) o número de horas sem energia, em decorrência de blackouts, cresceu até 70% em 2010, em comparação com o ano anterior. Isso mostra que os miniapagões continuam fazendo parte da vida dos brasileiros e alimentam o estado crítico em que se encontra o contexto energético para o fornecimento de eletricidade. Além disso, faz-se necessário ressaltar que o Brasil não tem autossuficiência energética. Produz 77% da energia consumida no país tendo que importar os outros 23% (Sousa, 2011).

Desta forma, problemas envolvendo a comercialização do petróleo, a iminência de escassez dos recursos naturais, as pressões pela redução das emissões dos gases do efeito estufa (GEE), as medidas para racionalizar o consumo energético e a necessidade de importação da energia elétrica, vêm despertando, nos diferentes setores da sociedade, a necessidade de pensar formas alternativas para a produção e uso dos recursos energéticos, o

36 que conduz a sociedade a uma nova Revolução Energética, capaz de sinalizar “saídas” para a crise em questão (Sachs, 2007) e formas de fazer com que a sociedade não venha a sucumbir (Improta, 2008).