• No results found

Freud, ainda neurologista, observou que não eram apenas os doentes que trocavam um termo por outro – parafasia, ou que esqueciam o nome das coisas, mas também as pessoas normais quando, por exemplo, o sujeito diz: “eu sei, mas eu não consigo dizer, está na ponta da língua” (Afasia simbólica). Como explicar a normalidade ponto-a-ponto de pessoas que trocavam um termo pelo outro e não eram doentes? Não havia explicação pela via nervosa. Memória, diz Freud, é outra coisa e o funcionamento não é ponto-a-ponto. A memória não é acionada quando queremos, ela nos engana: “a palavra está na ponta da língua, eu sei tudo o que ela não é, mas o nome dela eu não lembro”. Freud realiza crítica à Teoria Córtico-cêntrica de Meynert e de Wernicke, sobre a hipótese de que cada área do cérebro seria responsável por uma função específica – sensorial ou motora, e argumenta que uma mesma área cerebral realiza várias funções concomitantemente, assim como vimos em Jackson.

Para Freud, haveria a modificação das fibras nervosas pela excitação sensorial que produz outra modificação na célula nervosa central, que se torna, portanto, o correspondente fisiológico da representação. Sensação e associação são dois nomes como designamos duas diferentes perspectivas do mesmo processo. Temos de evitar colocar a representação num ponto do córtex encefálico e a associação em outro. Mas ambas procedem de um mesmo ponto e nunca se encontram em estado de repouso.

A palavra, para Freud, é uma complexa representação, que consiste em um intrincado processo associativo de imagem de leitura, de movimento e som, por meio de uma conexão com os elementos de origem visual, acústica e cinestésica (Freud, 2013, p. 102). A palavra adquire sua significação por meio da conexão com a representação de objeto:

Figura 14. Esquema psicológico da representação palavra (Freud, 2013, p.102).

A representação de objeto é “um complexo associativo composto pelas mais diversas representações visuais, acústicas, táteis, sinestésicas, etc.” (Freud, 2013, p. 102-103). Para Freud, a fala espontânea provém do território das associações de objeto (Freud, 2013, p. 104).

Na Carta 52, que Freud (1996a) escreve ao seu amigo e médico Fliess, em 1886, consta também essa noção de representação-palavra e representação-objeto, para tratar do tema em que o aparelho psíquico é um aparelho de memória. A primeira hipótese de Freud, nesta carta, é a de que a representação funciona em diferentes tempos e que a percepção originária não conserva nenhum traço do que aconteceu:

[...] o material presente em forma de traços da memória estaria sujeito, de tempos em tempos, a um rearranjo segundo novas circunstâncias – a uma retranscrição [...] a tese de que a memória não se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos; que ela é registrada em diferentes espécies de indicações (Freud, 1996a, p. 281).

Por essa via, o aparelho psíquico é um aparelho de memória que implica na insistência de traços. De acordo com Garcia-Roza, “é através dos traços mnêmicos que

os acontecimentos psíquicos ficam gravados de forma permanente na memória, sendo reativados por efeito de investimento” (Garcia-Roza, 2001, p. 201).

Os traços podem ser decifrados a partir de três estratos, pois cada um deles tem seu registro nas variedades de signos. Sobre estes estratos, Dunker (1996) enfatiza que “nexos entre signos é o que define uma língua, pode-se afirmar que cada estrato equivale a uma língua” (Dunker, 1996, p. 53) e que a análise desse sistema de multiestratificação linguística do inconsciente obedece a uma ordem lógica ou semiótica diferente para cada estrato e interestrato.

A inscrição sígnica das percepções é representada por “Wz (Wahrnehmungszeichein) – é o primeiro registro das percepções; é praticamente incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações por simultaneidade” (Freud, 1996a, p. 281). A noção de que a percepção funciona por associações simultâneas anuncia que não há hierarquia, linearidade e cronologia nos traços mnêmicos. O segundo tempo representa a transcrição “Ub (Unbewusstsein) [inconsciência], sendo o segundo registro, disposto de acordo com as relações (talvez causais). Os traços Ub talvez correspondam a lembranças conceituais; igualmente sem acesso à consciência” (Freud, 1996a, p. 282). A retranscrição diz respeito ao terceiro estrato:

[...] ligada às representações verbais e correspondendo ao nosso ego reconhecido como tal. As catexias provenientes de Vb tornam-se conscientes de acordo com determinadas regras; essa consciência secundária do pensamento é posterior no tempo e provavelmente se liga à ativação alucinatória das representações verbais, de modo que os neurônios da consciência seriam também neurônios da percepção e, em si mesmo, destituídos de memória (Freud, 1996a, p. 282-283).

O tipo de traço mnêmico envolvido no terceiro estrato é o da representação- palavra que implica no princípio do sistema de diferença, ou seja, “diferença esta que

expressa a preferência por um caminho em detrimento de outro” (Garcia-Roza, 2001, p. 202).Por essa via, a retranscrição não implica na abolição do estrato da segunda transcrição, mas funciona de maneira inversa, como uma simultaneidade de outra ordem de modo que uma falha ou ausência de tradução em outro patamar do estrato implique no que Freud denominou de recalque (Verdrängung):

[...] dentro de uma mesma fase psíquica e entre registros de uma mesma espécie, forma-se uma defesa normal devida à produção de desprazer. Já a defesa patológica somente ocorre contra um traço de memória de uma fase anterior, que ainda não foi traduzido (Freud, 1996a, p. 283).

A defesa psíquica é desencadeada pela lembrança, a recordação quando desprendida de desprazer marca um funcionamento defensivo, mas se a marca da rememoração produz outro desprazer, está indiciado um funcionamento patológico.

A semiologia das Afasias, em Freud (2013), ocorre em três classes: 1) Afasia verbal: na qual somente as associações entre os elementos individuais da representação palavra estão perturbadas; 2) Afasia assimbólica: a dissociação entre representação palavra e representação objeto; 3) Afasia agnóstica: perda da capacidade de reconhecimento de objetos.

Para finalizarmos, o lugar que a semiologia das Afasias vem aocupar no espaço fonoaudiológico, e que pese o fato de não termos esgotado as vertentes técnico- científicas da Afasia, mesmo porque não era nosso objetivo, podemos verificar que diferentes argumentos e hipóteses sobre causalidade e sintomas da Afasia estão na tradição fonoaudiológica. O princípio etiológico da Afasia, de um lado, recai sobre o determinismo da lesão cerebral e, por outro, pela função de linguagem afetada. Vimos que, a partir das teorias sobre aquisição de linguagem, o patológico se define por fixação, atraso, retenção, apressamento no interior de um processo. Com Broca e

Wernicke vimos a Afasia como perda, regressão, dissolução da fluência na cadeia de fala ou a perda do sentido. Luria nos permite hipotetizar que a perda, a inibição ou a perturbação é na função, que varia segundo a lógica dialogal, a relação linguagem e pensamento, linguagem e corpo, significante e significado, expressão e compreensão e combinação frasal. Com Jackson, temos como princípio etiológico a concomitante dissolução do aparelho de linguagem e do aparelho cerebral. Com Freud, podemos observar a linguagem como modelo do aparelho psíquico (Carta 52) e a hipótese etiológica da “falha na transcrição”, um erro na articulação entre tradução-transcrição- transliteração dos signos, sendo equivalente, a um problema no regulador escrito no sentido, no som, na letra (Allouch, 2007). A negação, oposição e diferença, em jogo na dimensão do excesso ou da falta, da antecipação ou do atraso, da progressão ou da regressão, de modo que o falante nega o signo, significante ou significado, a continuidade ou descontinuidade, o sentido ou não sentido, a ideia ou som, a letra ou o som, a semelhança ou dessemelhança. Podemos, por fim, observar a articulação de hipóteses etiológicas como:

(a) a linguagem como um modelo do aparelho psíquico e a hipótese da “falha na transcrição”, um erro na tradução-transcrição-transliteração. É o equivalente à retenção na primeira posição de De Lemos, que caracteriza os atrasos de desenvolvimento da linguagem.

(b) a linguagem como função intersubjetiva e a relação entre sujeito e Outro, a partir da função de Lei. A lei como função de integração entre sujeito e Outro via fala (leis dialogais), via língua (sujeito ou sentido) e, via escrita (a letra de lalangue – corpo e língua). É o equivalente da retenção na segunda posição de De Lemos, a aparição do sujeito na cadeia significante. É o problema do transitivismo e o da gagueira.

(c) a linguagem como gramática ou estrutura de simbolizações: com Jakobson, observamos, no capítulo anterior, que haveria dois tipos de Afasia, no plano das relações entre a língua e a fala e do sujeito como uma “assunção individualizada” da língua pelo falante. É o caso das afasias.

CAPÍTULO IV