• No results found

4.1 Arbeidet i lærergruppene

4.1.1 Oppsummering - drøfting

Uma vez examinada a questão da origem da matéria, podemos investigar a argumentação de Plotino que sustenta a necessidade da existência dela no tratado II 4 (12) e de que maneira essa argumentação se relaciona com a questão de sua impassibilidade exposta no tratado III 6 (26). Plotino considera que os filósofos gregos foram unânimes a respeito das funções fundamentais que a matéria desempenha: deve ser um substrato (u)pokei/menon) dos corpos e um receptáculo das imagens das formas inteligíveis (u(podoxh\n tw=n ei¹dwn)314 (II 4 (12), 1, 1-4). A menção dessas duas funções315 indica um claro reconhecimento da importância de Platão e Aristóteles como as suas principais fontes316 sobre o assunto, embora Plotino mencione que os filósofos não chegaram a um acordo com relação ao estatuto ontológico da matéria e sobre o modo de sua recepção das formas (1. 4-6). O filósofo alexandrino reconhece duas perspectivas em oposição, presentes na abordagem do estatuto ontológico da matéria e originadas das concepções cosmológicas e ontológicas das principais correntes da tradição filosófica grega: os estoicos a conceberem como corpórea317 e os platônicos como incorpórea318 (1. 6-18). Ele se

314 Narbonne (1993, p. 309-310), em seu comentário ao tratado II 4 (12), esclarece que Plotino não pretende

identificar o u(pokei/menon aristotélico com o u(podoxh/ platônico, mas que os dois conceitos são apropriados para designar a u(/lh. Além disso, segundo o intérprete, a noção plotiniana de substrato difere da aristotélica, pois Aristóteles confere uma certa substancialidade à matéria considerada como substrato da forma (Met. 1029 a 27 ss.; 1042 a 26 ss.; 1042 b9-10; De An. 412 a 7; Phys. A 192 a 3 ss.), enquanto em Plotino, a matéria permanece sem ser afetada pela forma e privada de substancialidade. Outra observação importante de Narbonne (1993, p. 310) é que o termo aristotélico u(/lh era empregado na Antiguidade tanto para designar a xw/ra de Platão quanto o substrato de Aristóteles.

315 Alguns especialistas como Cornford (1997, p. 181), por exemplo, recusam-se a admitir que o receptáculo de

Platão possa ser chmado de u(/lh pois para o filósofo ateniense a xw/ra seria aquilo no qual (e)n %Ò) as qualidades aparecem, enquanto a matéria aristotélica seria aquilo de que (e)c ouÒ) os seres são feitos.

316

Essa definição evidencia a influência platônica, ao considerar a xw/ra como receptáculo (Timeu 49 a 6; 50 b 6 e 5; 51 a 7), e aristotélica, ao considerar a u(/lh como substrato (Phys. A192 a 31).

317 Conforme S. V. F. II, 309, 326. 318

Plotino parece atribuir aos seus antecessores platônicos uma doutrina que era sua. Segundo Narbonne (1993, 314- 315), a doutrina da completa incorporeidade da matéria é uma contribuição original de Plotino, provavelmente nunca admitida sem restrições antes dele, muito embora tenha raízes no pensamento de Aristóteles no De gen. et corrup.

mostra extremamente crítico em relação aos primeiros319; já com relação aos segundos, parece querer aproximá-los de sua própria doutrina, pois a afirmação de que ela é incorpórea permite, como vimos, que a concebam não apenas como substrato dos corpos, mas também da realidade inteligível, admitindo-se assim dois tipos de matéria: a inteligível e a do sensível (1. 14-18). A doutrina da incorporeidade da matéria possibilita, como iremos examinar, a posterior afirmação da sua impassibilidade, com todas as consequências sobre o estatuto ontológico dos seres sensíveis.

Plotino, no tratado II 4 (12), surpreendentemente não se mostra interessado em investigar o problema da origem da matéria e foca a sua atenção em demonstrar a necessidade lógica da sua existência como receptáculo do vir-a-ser e substrato dos seres corpóreos. O sexto capítulo do tratado II 4 (12) é dedicado à demonstração da necessidade da existência da matéria como condição para a existência dos sensíveis e de sua composição. Plotino busca demonstrar a necessidade da presença de matéria como uma condição para a existência dos corpos, a partir das teorias elaboradas por Aristóteles em Phys. A, 6-9, no De gen. et corrup. 329 a 16, em Met. H 5, 1044 b 27-29320; teorias que têm como núcleo essencial a constatação de um substrato que justifique a geração (ge/nesij), a corrupção (fqora/) e a consequente distinção entre a matéria como substrato e aquilo que ela recebe. Aristóteles, no primeiro livro da Física, buscou investigar os princípios que tornam possível a mudança (metabolh/)321. De acordo com Ross (1987, p. 73- 74), depois de examinar as teorias dos filósofos pré-socráticos, o Estagirita constata que todos

reconheceram os contrários primordiais como princípios, pois “não são gerados uns dos outros e

tudo deve provir deles, condições que caracterizam os princípios primeiros”; devem ser pelo menos dois e destes não pode haver um número infinito. Segundo Ross, ditos princípios não podem se reduzir somente a dois pelas seguintes razões: os contrários não atuam uns sobre os outros, por exemplo, o amor não une a discórdia nem vice-versa e, portanto, deve haver um terceiro a partir do qual um une e o outro separa; como nenhuma substância é idêntica a um dos 329 a 32-33. Ainda segundo esse intérprete, é provável que os autores anteriores tenham entrevisto o risco de confundi-la com um inteligível, caso a declarassem incorpórea.

319 Narbonne (1993, p. 310-311) indica que a corporeidade da matéria é um ponto fundamental de divergência entre

os estoicos e as concepções de fundo platônico-aristotélicas, incluindo-se aí a de Plotino.

320 Vide Igal, 1992 (p. 416, nota 32, v. I).

321 A respeito da mudança e do movimento, ver Phys. E 1, 225 a 1 - 225 a 7 e Met. K 11, 1067 b 14 – 1068 a 7.

Nesses textos, Aristóteles indica quatro possibilidades lógicas de mudança: de não-sujeito para sujeito e vice-versa; de sujeito para sujeito; de não-sujeito para não-sujeito. Esta última deve ser excluída, pois não apresenta oposição de contradição nem de contrariedade, condições em que a mudança pode ocorrer.

contrários, estes devem atuar como adjetivos. Ainda segundo Ross (1987, p. 71-72), considerar os contrários como primeiros princípios implica admitir que a substância procede de não- substâncias, mas como nada antecede a substância, a conclusão é que deve haver um terceiro princípio que funcione como substrato material para todas as coisas e esse substrato não pode se identificar com os corpos elementares, porque estes incluem os contrários em sua constituição. Ross conclui sua apresentação do seguinte modo:

Um único substrato, e os contrários diferindo por excesso e defeito de alguma qualidade, - são estes os princípios que um estudo simples da mudança revela, e são estes, de facto, os princípios a que o pensamento anterior chegou. Nada se ganha, e algo é perdido, pelo reconhecimento de mais de três princípios (ROSS, 1987, p. 74).

Os três princípios pressupostos em toda a mudança são a matéria (u(/lh), a forma (eiâdoj) e a privação322 (ste/rhsij). Aristóteles utiliza um exemplo para mostrar que, em toda a mudança, eles estão envolvidos, conforme o passo a seguir:

Ora, dizemos, pois, que uma coisa vem a ser a partir de outra, ou que uma coisa distinta vem a ser a partir de uma coisa distinta, ou enunciando os simples, ou enunciando os complexos. Digo isso do seguinte modo: há o caso, pois, em que

homem vem a ser culto, há o caso em que o não-culto vem a ser culto ou o homem não culto vem a ser homem culto. Assim, denomino simples, por um

lado, o homem e o não-culto, no caso daquilo que devém, assim como o músico, no caso daquilo que vem a ser [surge], ao passo que, por outro lado, quando dizemos que o homem não-culto vem a ser homem culto, denomino complexo tanto aquilo que devém como aquilo que vem a ser [surge]. E, desses casos, num deles se diz não apenas vir a ser isto, mas também vir a ser a partir disto, por exemplo, a partir do não-culto, vem a ser culto; mas isso não se diz em todos os casos: pois não a partir de homem veio a ser culto, mas sim o homem veio a ser

culto. E no caso dos que devêm tal como dizemos que os simples devêm, um dos

elementos devém subsistindo, ao passo que o outro devém sem subsistir: pois o homem, por um lado, subsiste e é ao vir a ser homem culto, mas o não-culto ou o inculto -, por sua vez, não subsiste, nem simplesmente, nem composto (Phys. A 7, 189b 30-190 a12, trad. ANGIONI, L.).

322 Os tipos de oposição (a)nti/qesij) estabelecidos por Aristóteles permitem um claro entendimento do conceito de

privação. Berti indica que esse quadro está presente em Met. I3 1054 a 23-25 e apresenta as seguintes oposições: a contradição (a)nti/fasij); a privação (ste/rhsij); a contrariedade (e)nantio/thj) e a correlação (ta\ pro/j ti). A primeira não admite intermediário (metacu/); a segunda dá-se em um substrato e admite um intermediário entre ela e seu oposto, a possessão (e(/cij); a contrariedade é vista como privação perfeita, já que os termos se encontram nos extremos de um mesmo gênero; finalmente a correlação, que é uma contrariedade em que os opostos se implicam mutuamente (BERTI, 1983, p. 116-117).

Segundo Lear (2006, p. 96-97), o passo anterior mostra que a mudança pode ser compreendida em dois sentidos: a) o não culto torna-se culto e, b) o homem não culto torna-se homem culto. As duas proposições estão corretas, segundo o citado intérprete, mas a primeira pode ser enganosa caso seja interpretada no sentido de uma geração a partir do não-ser sem mais. A segunda mostra que, em toda mudança, há um sujeito da mudança que permanece, no caso um homem privado de cultura torna-se culto. A mudança compreendida nesses termos elimina o problema da geração a partir do não-ser, negada tanto por Parmênides como por Aristóteles, se aplicarmos a ela os conceitos de ato e potência, pois o homem não culto não é absoluta privação, mas possui a potencialidade de se tornar homem culto. A matéria, como substrato dos corpos que acolhe a forma e como potencialidade capaz de se tornar algo em ato, possibilita todo modo de mudança e, assim, deve ser considerada como o substrato (u(pokei/menon) da geração e da corrupção (De gen. et corrup. 320 a 2-3).

A utilização dessa concepção aristotélica está presente no passo a seguir, em que Plotino afirma que a transformação recíproca dos elementos exige a presença de um substrato que recebe uma forma enquanto se desfaz de outra:

Sobre o receptáculo de corpos, diga-se o seguinte: deve existir algo subjacente aos corpos que seja diferente deles, e a transformação dos elementos uns em outros o demonstra. Pois a corrupção do que se transforma não é total; se não, haverá uma essência que é aniquilada no não-ente; nem, ao contrário, o que é engendrado passa do não-ente absoluto ao ente, mas há a transformação de uma forma a partir de outra. Mas permanece aquele que recebeu a forma do que foi engendrado e abandonou a outra. A corrupção, com efeito, mostra isso de modo genérico: pois é a corrupção de um composto; se é assim, cada coisa é composta de matéria e forma.

II 4 (12), 6, 1-10 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: Peri\ de\ th=j tw=n swma/twn u(podoxh=j wÒde lege/sqw. o(/ti me\n ouÕn dei= ti toi=j sw/masin u(pokei/menon eiÅnai a)/llo o)/n par’ au)ta/, h(/ te ei¹j a)/llhla metabolh\ tw=n stoixei/wn dhloi=. ou) ga\r pantelh\j tou= metaba/llontoj h( fqora/: h)\ e)/stai tij ou)si/a ei¹j to\ mh\ o)\n a)polome/nh: ou)d’ auÕ to\ geno/menon e)k tou= pantelw=j mh\ o)/ntoj ei¹j to\ o)\n e)lh/luqen, a)ll’ e)/stin eiÃdouj metabolh\ e)c eiãdouj e(te/rou. me/nei de\ to\ deca/menon to\ eiådoj tou= genome/nou kai\ a)pobalo\n qa/teron. tou=to/ te ouån dhloi= kai\ o(/lwj h( fqora/: sunqe/tou ga/r: ei¹ de\ tou=to, e)c u(/lhj kai\ eiãdouj e(/kaston.

A partir dessa perspectiva, Plotino desenvolve alguns argumentos (II 4 (12), 6, 1-10) que demonstram a existência do substrato dos corpos. O primeiro argumento assume a posição aristotélica que afirma que nada procede do não-ser, se resolve ou se aniquila no não-ser, este último tomado como privação absoluta do ser e, assim, a geração e a corrupção pressupõem necessariamente um substrato. Segundo Plotino, o processo de geração e corrupção dos seres ou sua mudança requer um sujeito que permaneça e que assuma uma nova forma na medida em que se desfaz da anterior (II 4 (12), 6, 1-10). É dessa maneira que podemos constatar que, no ente sensível, a geração e a corrupção atestam a sua condição de composto de um princípio formal e um material, este último desempenhando sempre o papel de substrato das transformações que representam geração e corrupção. Há, contudo, uma profunda diferença em relação a Aristóteles, como examinaremos posteriormente, e que não está presente nos passos analisados acima: se trata da identificação operada por Plotino entre matéria e privação, o que significa uma rejeição do esquema aristotélico que distingue a ambas323. Mesmo na justificativa da necessidade do substrato em termos próximos aos de Aristóteles, em nenhum instante Plotino recorre ao modelo que estabelece a privação como distinta da matéria, mas apenas afirma que uma forma é trocada por outra no processo de mudança.

Pois bem, do argumento anterior brotam duas novas provas da composição dos seres corpóreos e da função da matéria como substrato. Segundo Plotino, pela indução (e)pagwgh/) sabemos que todo ser composto se corrompe (II 4 (12), 6, 10-11). Pela análise (a)na/lusij) ou divisão (diai/resij)324, Plotino mostra325 que, em determinados seres, podemos distinguir o que é forma e o que funciona como substrato (II 4 (12), 6, 11-13). Cada determinação presente em um ser pode ser diluída em outra e assim sucessivamente, até chegarmos a um substrato último que representa o termo desse processo, como indica o passo a seguir: “E a indução o atesta,

323 Lavaud (2008, p. 28-32) considera que Plotino adota dois modelos acerca da matéria, no tratado II 4 (12). No

primeiro assimila o modelo triádico de Aristóteles, quando explica em II 4 (12), a necessidade da existência da matéria, que desempenha o papel de substrato de contrários. No segundo, a matéria é completamente identificada com a privação. Segundo o intérprete, com este último modelo, Plotino permaneceria mais próximo da tradição platônica. No tratado III 6 (26), Plotino trabalha com as duas perspectivas: a da matéria como substrato de contrários e também idêntica ao não-ser e ao mal.

324

Plotino explica a função da dialética no passo I 3 (20), 4, 1-23.

325 Remetemos para o comentário de Breton (1993, p. 67), que afirma a complementaridade dos dois procedimentos.

Enquanto a análise torna compreensível o composto por seus fatores constitutivos, a indução permite que se faça a inferência, a partir dos casos particulares, da lei universal que rege as mudanças que são consideradas substanciais. Breton (p. 68) faz uma observação muito interessante e resta saber se aplicável a todos os casos: pela análise constatamos que o princípio de algo não é o que ele origina. Assim, no caso dos corpos, significa que tanto a forma quanto a matéria de um composto não são corpos.

mostrando que o que é corrompido é o composto; e a análise também: por exemplo, se o vaso passa a ouro, e o ouro a água, também a água, ao corromper-se, demanda algo análogo.” (II 4 (12), 6, 10-13 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: h(/ te e)pagwgh\ marturei= to\ fqeiro/menon

su/nqeton deiknu=sa: kai\ h( a)na/lusij de/: oiåon ei¹ h¸ fia/lh ei¹j to\n xruso/n, o( de\ xurso\j ei¹j u(/dwr, kai\ to\ u(/dwr de\ fqeiro/menon to\ a)na/logon a)paitei=.). No passo II 4

(12), 5, 6-12, Plotino já havia afirmado que a inteligência pode penetrar e encontrar como fundo de cada corpo, a matéria. Segundo Narbonne (1993, p. 324), isso remete à doutrina aristotélica (Phys. 191 a 7-12) que afirma que a matéria pode ser conhecida por analogia e está para o elemento água como o ouro está para o vaso.

O outro argumento que busca demonstrar que a matéria é um substrato necessário para a existência dos corpos, diz respeito aos possíveis elementos constitutivos destes, que devem ser forma, matéria ou um composto (su/nqetoj) de ambos. Segundo Plotino, não podem ser forma porque possuem massa e magnitude e estas estão ausentes do mundo inteligível; os elementos tampouco podem ser matéria primeira porque se corrompem e esta é incorruptível como matéria de todos os seres; só resta então a opção de serem considerados um composto de matéria e forma: a primeira desempenha no composto o papel de substrato e a segunda desempenha a função de princípio conformador (II 4 (12), 6, 14-19). Temos então a constatação de que até mesmo os elementos constitutivos dos corpos são compostos de forma e matéria, e que esta última deve ser considerada o substrato último e necessário que, no tratado 26, será definido como impassível e jamais constituirá com a forma uma unidade.

Nos capítulos 8 e 9 do tratado III 6 (26), Plotino retoma a argumentação acima acerca do substrato e dos contrários326 para explicar a mudança e mostrar que esta não implica afecção da matéria. Ele parte exatamente da concepção de que toda mudança requer a presença de um substrato e de contrários, mas acrescenta que o sujeito da afecção deve possuir qualidades contrárias aos seres que atuam sobre ele:

De modo geral, aquilo que é afectado deve ser tal que esteja dotado de potências e qualidades contrárias aos agentes que se introduzem e produzem a afecção. Porque, devido ao calor que há num substrato, surge a alteração causada por aquilo que esfria e, devido à umidade que há num substrato, surge a alteração

326 Segundo Berti (1983, p. 116-117), a contrariedade representa a privação perfeita, pois os termos se encontram nos

extremos de um mesmo gênero, como no caso do seco e do úmido, do quente e do frio. Em Met. G2, 1004 a 12-16, Aristóteles mostra que a privação não é a mera ausência de algo, mas é relativa a um substrato do qual é afirmada.

causada por aquele que seca, e dizemos que o substrato foi alterado quando de quente se torna frio ou de seco, úmido.

III 6 (26), 8, 1-6 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: (/Olwj de\ to\ pa/sxon dei= toiou=ton eiånai oiâon e)n tai=j e)nanti/aij eiånai duna/mesi kai\ poio/thsi tw=n e)peisio/ntwn kai\ to\ pa/sxein e)mpoiou/ntwn. t%= ga\r e)no/nti qerm%= h( a)lloi/wsij h( para\ tou= yu/xontoj kai\ t%= e)no/nti u(gr%= h( a)lloi/wsij h( para\ tou= chrai/nontoj, kai\ h)lloiw=sqai le/gomen to\ u(pokei/menon, o(/tan e)k qermou= yuxro\n h)\ e)k chrou= u(gro\n gi/gnhtai. A afecção, no passo acima, é definida como uma alteração causada por uma qualidade contrária, que supostamente modifica o sujeito afetado no sentido de que este assume uma qualidade oposta. Os exemplos dados são os das qualidades primordiais327, o seco, o úmido, o frio e o quente, que agem sobre os seus contrários produzindo as afecções. Em todo esse processo de mudança, Plotino afirma que o substrato último permanece e aduz como prova a transformação do fogo em outro elemento, sem que se destrua a matéria subjacente, mas apenas o elemento que sofre a afecção (III 6 (26), 8, 3-9). Nesse processo de mudança, Plotino identifica afecção e destruição, pois o sujeito que se encontra afetado coincide com o que é destruído, mas de qualquer modo permanece sempre a matéria, mesmo no caso das mudanças substanciais.

Também o atesta a chamada destruição do fogo, quando há transformação do fogo em outro elemento; o fogo, dizemos, perece, não a matéria; assim, também as afecções acontecem no mesmo substrato em que se dá a destruição; por isso a recepção da afecção é caminho para a destruição; e a destruição recai sobre o mesmo substrato que a afecção. Mas não é possível que a matéria seja destruída: pois que poderia tornar-se e como?

III 6 (26), 8, 6-12 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]:marturei= de\ kai\ h(

legome/nh puro\j fqora\ metabolh=j genome/nhj ei¹j stoixei=on a)/llo: to\ ga\r pu=r e)fqa/rh, fame/n, ou)x h( u(/lh: w(/ste kai\ ta\ pa/qh peri\ tou=to, peri\ o(\ kai\ h( fqora/: o(do\j ga\r ei¹j fqora\n h( paradoxh\ tou= pa/qouj: kai\ tou/t% to\ fqei/resqai, %Ò kai\ to\ pa/sxein. th\n de\ u(/lhn fqei/resqai ou)x oiÒo/n te: ei¹j ti/ ga\r pw=j;

O que justifica a incolumidade da matéria, mesmo como receptáculo de um sem número de determinações qualitativas que se afetam reciprocamente, segundo Plotino, é a sua total ausência de determinações, que a torna completamente exterior em relação a tudo o que nela

se encontra e que poderia afetá-la. O desafio aqui consiste em mostrar como é possível que a presença de todas as inumeráveis qualidades que aparentemente deveriam afetar a matéria, não a modificam em absoluto. Plotino procura evidenciar que as qualidades recebidas pela matéria e que estão presentes nela não são capazes de transformá-la e retirá-la da sua natureza, mas que tão somente se afetam reciprocamente, na medida em que são contrárias. Plotino então retoma o argumento inicial do oitavo capítulo e mostra que, em um composto, somente os contrários agem uns sobre os outros:

Quando as qualidades se juntam na matéria, a maioria delas atuará uma nas outras, ou melhor, assim farão as que são contrárias. Pois que causaria a fragrância à doçura, ou a cor à figura, ou o que é de um gênero ao que é de outro? [...] Portanto, assim como o que é danificado não o é por qualquer coisa, do mesmo modo o modificado ou afectado não é afectado por qualquer coisa, mas a afecção será causada em coisas contrárias por coisas contrárias, e as não contrárias não serão modificadas por outras. Dessa forma, as coisas para as quais não existe contrariedade não podem ser afectadas por nenhum contrário.

III 6 (26), 9, 24-35 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: sunelqou=sai de\ ei¹j au)th\n ai¸ poio/thtej ei¹j a)llh/laj me\n ai¸ pollai\ au)tw=n poih/sousi, ma=llon de\ ai¸ e)nanti/wj e)/xousai. ti/ ga\r a)\n eu)wdi/a gluku/thta e)rga/saito h)\ xrw=ma sxh=ma h)\ to\ e)c a)/llou ge/nouj a)/llo; [...] w(/sper ouÕn kai\ to\ blapto/menon ou)x u(po\ tou= tuxo/ntoj, ou(/twj ou)de\ to\ trepo/menon kai\ pa/sxon u(f’ o(touou=n a)\n pa/qoi, a)lla\ toi=j e)nanti/oij u(po\ tw=n e)nanti/wn h( pei=sij, ta\ d’ a)/lla u(p’ a)/llwn a)/trepta. oiâj dh\ mhdemi/a e)nantio/thj u(pa/rxei, tau=ta u(p’ ou)deno\j a)\n e)nanti/ou pa/qoi.

A conclusão da exposição acima é que a matéria, em função de sua absoluta ausência de forma, não possui contrário e não pode ser afetada pelas qualidades que nela se instalam. Desse modo, somente o composto pode ser afetado, permanecendo a matéria em sua natureza. E