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A intenção para se tornar empreendedor tem sido alvo de estudo ao longo das últimas décadas, tomando abordagens distintas (e.g., Hockerts, 2017; Biraglia & Kadile 2017; Krueger, 2017; Fayolle & Liñán, 2014; Marques et al., 2012; Liñán, Rodríguez-Cohard, & Rueda-Cantuche, 2011; Díaz-García & Jiménez-Moreno, 2010; Rauch & Frese, 2007; Santos & Liñán, 2007; Veciana et al., 2005; Ajzen, 1991; Gartner, 1985, 1989; Shapero & Sokol, 1982).

A intenção empreendedora (IE) reflete o plano de um indivíduo para, eventualmente, iniciar um negócio (Shapero & Sokol, 1982; Bird, 1988), tendo sido constatado que a intenção é um preditor para o comportamento empreendedor (Fayolle & DeGeorge, 2006; Kolvereid, 1996; Fishbein & Ajzen, 1975) fomentando o impulso para iniciar um novo negócio (Zhao, Seibert, & Lumpkin 2010). Realce-se que a intenção de realizar determinado comportamento dependerá das atitudes do indivíduo em relação a esse comportamento (Ajzen, 1991), tendo inúmeros antecedentes possíveis (Linan & Fayolle, 2015).

De entre as teorias de intenção empreendedora destacamos a teoria do evento empreendedor (Entrepreneurial Event Model - EEM) de Shapero e Sokol (1982) e a teoria do comportamento planeado (Theory of Planned Behavior - TPB) de Ajzen (1991).

No que concerne à EEM, esta vê a intenção de iniciar um novo empreendimento como sendo dependente de três elementos: (i) as perceções de desejabilidade que assentam no apoio sociocultural e em expetativas de performance e resultados; (ii) a propensão para agir; e (iii) a perceção de viabilidade que representa a capacidade e confiança para agir. A presença de modelos, mentores ou parceiros seria um elemento decisivo para estabelecer o nível de viabilidade empreendedora do indivíduo.

De salientar que Shapero e Sokol (1982) definiram um quadro estrutural que permitiu explorar como as perceções de desejo e viabilidade podem influenciar de forma diferente homens e mulheres no processo de criação de uma empresa. Assim sendo, e continuando o trabalho de Shapero e Sokol (1982), que abordam a temática da intenção empreendedora, Brush, de Bruin e Welter (2014) desenvolveram um quadro conceptual com propostas explorando as perceções de desejo e viabilidade como antecedentes diferenciados entre homens e mulheres no processo de criação de uma empresa. Alertam, também, para o facto de como o processo de criação de uma start-up pode ser condicionado ou facilitado pelas restrições familiares e recursos

domésticos (duplicidade de papeis) e, ainda, como os papeis sociais podem facilitar e/ou impedir uma ação empreendedora feminina em comparação com uma do género oposto (Brush et al., 2014).

Relativamente à TPB, esta delineia três fatores-chave que influenciam a intenção de um indivíduo em realizar determinado comportamento: (i) a atitude face ao comportamento, que afere como o indivíduo avalia a formação de um novo negócio; (ii) a norma subjetiva, que integra o ambiente social percebido com a família e a expectativa dos seus pares ao iniciar um negócio; e (iii) o controlo comportamental percebido, que se refere ao nível percebido de um controlo sobre o processo de formação de um novo negócio. Assim, a TPB salienta que as intenções empreendedoras foram o resultado de experiências prévias refletidas pelo contexto em que se integram os empreendedores, bem como o fruto das suas raízes e relações sociais (Ajzen, 1991).

De salientar, que a desejabilidade percebida e a viabilidade percebida estão próximas da teoria da atitude do comportamento planeado (TPB) em relação ao comportamento e ao controlo comportamental percebido. A principal diferença entre esses dois modelos de comportamento é que a propensão a agir é substituída pela norma subjetiva. Por outras palavras, a teoria do comportamento planeado enfatiza mais o papel das normas sociais vigentes do que a versão da teoria da expectativa de Shapero, que enfatiza mais as características e a experiência empreendedora anterior do indivíduo (Autio et al., 2001).

Assim, a IE de um indivíduo pode ser influenciada por diversos fatores (Liñan & Fayolle, 2015) tais como: valores, crenças, educação (Guerrero, Rialp, & Urbano, 2008), normas culturais (Schmitt-Rodermund, 2004), diferenças de género, experiências passadas ou mesmo familiares que possuam o seu próprio negócio. É de salientar que as intenções de um indivíduo que o levam a criar uma empresa variam mediante aquilo que ele procura atingir, ou seja, uma pessoa pode querer crescer profissionalmente ou então pode apenas procurar ser mais independente (Douglas, 2013).

De referir que estudos acerca das influências sociocognitivas no comportamento empreendedor sugerem que, uma melhor compreensão das intenções dos potenciais empreendedores na fase inicial do processo de criação de uma start-up pode explicar o porquê de empresas lideradas por mulheres acabarem por ser mais pequenas e crescerem mais devagar (e.g., Arenius & Minniti, 2005; Orser & Hogarth-Scott,2002).

As intenções, são assim, o melhor prognosticador do comportamento planeado, sendo que, as expetativas também geram impacto nas aspirações ao crescimento dos potenciais empreendedores e as mulheres têm tendência a terem expetativas mais complexas, quer a nível económico quer a nível social, em relação aos homens, que se focam maioritariamente em expectativas económicas (e.g. Brush et al., 2009; Manolova et al., 2012).

Assim, o estudo de Brush et al., (2014) tem como objetivo explorar o conceito de embeddedness (embeddedness) e a perceção de como este termo é destacado na literatura sobre

empreendedorismo para que se possa estabelecer uma perspetiva contextualmente rica e assim construir um quadro conceptual, posicionando perceções como o desejo e a viabilidade como fatores importantes e fundamentais para a criação de uma empresa. Note-se, que estas perceções são estudadas separadamente como considerações que devem ser tomadas em conta, pois essas mesmas considerações são influenciadas pelo grau de embeddedness existente, o que pode explicar as diferenças constatadas nas taxas de empreendedorismo feminino e subsequentes aspirações de crescimento (Brush et al., 2014).

Considerando o exposto formulamos as seguintes hipótese de investigação:

H(2): O grau de embeddedness (familiar, estrutural e cultural) impacta nas perceções de viabilidade da atividade empreendedora dos empreendedores de empresas do setor agroalimentar

H(3): O grau de embeddedness (familiar, estrutural e cultural) impacta nas perceções de desejo de atividade empreendedora dos empreendedores de empresas do setor agroalimentar

Liñan et al. (2011) concluíram, a partir de um estudo empírico realizado com estudantes universitários, que a decisão de criação da empresa depende não só da perceção de viabilidade e de desejo, como os modelos de intenção empreendedora tradicionais afirmam, mas também da orientação empreendedora do indivíduo. Note-se, ainda, que a literatura prévia identificou o caráter duradouro da OEI como antecedentes da intenção (Ladd, Hind, & Lawrence, 2018; Covin & Lumpkin, 2011; Zhao, Seibert, & Hills 2005).

Considerando o exposto formulamos as seguintes hipótese de investigação:

H(4): A OEI impacta nas perceções de viabilidade de atividade empreendedora dos

empreendedores de empresas do setor agroalimentar

H(5): A OEI impacta nas perceções de desejo de atividade empreendedora dos

empreendedores de empresas do setor agroalimentar