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Nesta pesquisa cartográfica, ao habitar diversos territórios, deparamo-nos com uma diversidade de vozes. Porém, considerando os pousos que precisaram ser realizados, debruçamo-nos mais no cotidiano de profissionais que atuam nas equipes da Estratégia Saúde da Família na Unidade Básica Lineu Jucá. Consideramos, assim, as categorias preconizadas na Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011, sendo previsto médico generalista ou especialista em saúde da família ou médico de família e comunidade; enfermeiro generalista ou especialista em saúde da família; auxiliar ou técnico de enfermagem e agentes comunitários de saúde (ACS).

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Até 2017.1, época que o trabalho de campo acontecia, na Unidade Básica de Saúde Lineu Jucá, existiam sete equipes, como ilustra o quadro 1:

Quadro 1 - Descrição das equipes

Qtd Equipes Profissionais

1 Amarela 1 médico, 1 enfermeira, 1 residente de

medicina e família, 4 agentes comunitários de saúde e 1 técnico de enfermagem

2 Verde 1 enfermeira, 6 agentes comunitário de saúde e 1 técnico de enfermagem

3 Azul 5 agentes comunitários de saúde; 1 médico;

1 enfermeira, 2 residentes de medicina e comunidade e 1 técnico de

4 Vermelha 5 agentes comunitários de saúde; 1 médico;

1 enfermeiro, 1 residente em medicina e comunidade e 1 técnico de enfermagem

5 Laranja 1 enfermeira, 4 agentes comunitário de saúde e 1 técnico de enfermagem

6 Lilás 1 médico, 1 enfermeira e 6 agente comunitário de saúde

7 Rosa 4 agentes comunitários de saúde, 1 médica,

1 enfermeira e 1 residente em medicina e comunidade

Fonte: Elaborado pelo pesquisador (2017)

O estabelecimento de uma aproximação no cotidiano desses trabalhadores da Unidade Básica de Saúde Lineu Jucá se deu a partir do contato com um médico de uma das equipes. Esse contato foi oportunizado pela nossa participação, ele como representante da sua unidade de saúde e eu como representante do VIESES-UFC, de um grupo focal proposto pelo Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, cujo objetivo era compreender como os/as profissionais da saúde se relacionam com a problemática dos homicídios de jovens na cidade de Fortaleza. Na ocasião, expliquei-lhe minha proposta de dissertação e agendei visitas à Unidade de Saúde para conversamos mais e eu conhecesse o restante de sua equipe.

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Carlos (nome fictício), médico de família, atua no Lineu desde 2010, onde iniciou o internato. Na ocasião, ele coordenava uma equipe que atua em uma área com bastante indicadores de violência, afirmando ser um dos principais desafios para os profissionais. Sua fala denunciava as inúmeras violações do Estado para com esses usuários/as em não garantir direitos básicos, destacando a ausência de uma agenda interinstitucional em torno da questão da violência urbana contra jovens, sobretudo da questão dos homicídios. Esses elementos serão explorados no próximo capítulo, tendo em vista a força com que emergiu nas práticas discursivas dos/das participantes do estudo.

Ao explicar a proposta da pesquisa, Carlos falou-me de Luana (nome fictício), médica de família de outra equipe, que se dedicara a atividades no Morro de Santiago. Citou, entretanto, que ainda existem várias resistências dos profissionais em produzir ou se engajar em práticas de enfrentamento à problemática dos homicídios de jovens nos territórios que atuam. Essas resistências são permeadas por vários elementos, desde a formação até o modo como se organiza o serviço atualmente. Por isso, os contatos iniciais com Carlos foram levantando possibilidades de delineamento de planos de intervenções articuladas à nossa pesquisa: pensar espaços coletivos com as equipes com a pauta da violência contra jovens.

Carlos chamava atenção para a forma como tem se estruturado a ESF em Fortaleza, direcionada cada vez mais para o âmbito clínico-ambulatorial, o que afasta preocupantemente os/as profissionais dos territórios e de práticas de prevenção e promoção. Ademais, Carlos destacou a verticalização dos programas que, na maioria das vezes, são descontextualizados da realidade (isso inclui a violência contra jovens). As conversas com Carlos também nos fizeram atentar para o imaginário social que é produzido sobre o jovem pobre e negro da periferia, pois essas concepções estão presentes e atuantes no cenário de práticas da ESF e endossam práticas regidas por uma lógica biomédica-individualista sobre os problemas das comunidades, que também será abordada no próximo capítulo.

Embora os relatos apontem para uma ausência de práticas exitosas de enfrentamento à violência contra jovens em nível municipal, o contato com Carlos também nos apresentou algumas frentes em que atuam equipes de ESF do Lineu e que abrangem segmentos infantojuvenis entre seus públicos, sendo elas: 1) Ações na Associação Pequeno Cidadão - espaço ligado à Igreja Católica, mas lócus de atuação da Secretaria de Cultura e, também, ponto de encontro da equipe amarela (ESF Lineu) com a comunidade, sexta-feira; 2) Ações no Ambulatório da Juventude CUCA - intervenções em saúde coletiva com jovens no âmbito da promoção da saúde, responsável: equipe azul, na quinta-feira e 3) Projeto Aqui Tem Sinal de Vida - casa comunitária no Morro de Santiago que canaliza diversas ações em

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um território invisibilizado pelas políticas, inclui-se aqui atendimento (segunda a sábado) da equipe rosa às família desse território. A figura a seguir, retirada da tese em saúde coletiva da professora Tatiana Fiuza, permite visualizar os espaços que cartografamos:

Figura 7 - Espaço cartografado do Bairro Barra do Ceará, Fortaleza (CE)

Fonte: Google Earth (2017).

Essas frentes aconteciam em parceria com outras instituições e, de alguma forma, potencializam a proposta de uma Atenção Primária alinhada com a promoção da saúde. Nesse percurso, acompanhamos a frente do ambulatório do/a adolescente, pois as demais frentes tiveram problemas de descontinuidade, gerando, inclusive, um processo de desmobilização (acontecimento esse que será discutido mais adiante).

Na medida em que acompanhamos tais práticas, aproximamos-nos de algumas equipes e, por consequência, de alguns trabalhadores que possuíam vínculos com os territórios mais afetados pela violência letal contra jovens e, ao mesmo tempo, com territórios com poucos homicídios, apresentando-se frentes de investigação. Aproximação essa que desencadeou entrevistas, conversas no cotidiano e grupos de discussão.

O Quadro 2 permite visualizar os/as participantes das entrevistas e das conversas no cotidiano - definidos/as a partir de critérios de saturação:

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Quadro 2 - Participantes das entrevistas e das conversas no cotidiano

Participante Categoria P Equipe Justificativas

Participante 1 Médico Rosa Atuação no morro Santiago - contato com conflitos territoriais e número de homicídios

Participante 2 ACS Verde Atuação em uma área com um menor número de homicídios

Participante 3 ACS Rosa Atuação no morro Santiago - contato com conflitos territoriais e número de homicídios

Participante 4 Enfermeira Verde Atuação em uma área com menor número de homicídios

Participante 5 Médico Amarela Atuação próximo ao morro Santiago - conflitos territoriais e número de homicídios

Participante 6 Enfermeira Amarela Atuação próximo ao morro Santiago - contato com conflitos territoriais e número de homicídios

Participante 7 Médico Azul Atuação com o público jovem e, também, médico do CUCA. Fonte: Elaborado pelo pesquisador (2017)

Cartografar o cotidiano desses trabalhadores foi uma aposta, considerando o acompanhamento dos processos do nosso objeto-processo. Com a cartografia, tentamos não totalizar esse cotidiano, ou seja, não nos interessou dizer um a verdade, representar. Delineamos, a partir do método, algumas cenas analisadoras.

3.5 As ferramentas metodológicas: triangulando observações-conversas no cotidiano;

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