• No results found

Nossa compreensão é que as conclusões a que chegou José Américo no ensaio científico sobre as causas do subdesenvolvimento social e econômico da Paraíba inspiraram a sua criação literária. Nela o autor, por vezes, confunde-se com o narrador, pois, ao tempo em que denuncia a realidade e critica os agentes promotores da pobreza, revela o lugar social de onde fala. Nessa concepção crítica da realidade, defende que a situação de pouco desenvolvimento tem causa na falta de efetivas ações políticas e administrativas dos poderes públicos.

Sob o emblema de Brasil moderno, urbano, industrial e democrático, a intelectualidade brasileira do final do séc. XIX e início do séc. XX produziu intensas reflexões que forneceram elementos para a construção imaginária do social, cujos percalços buscavam explicar a identidade nacional. Compreendemos que, implícita a tal imaginação, pretendia-se estabelecer as relações de causa e efeito entre atraso social e econômico e processo de miscigenação, ou fatores impeditivos para o desenvolvimento do Brasil decorrentes de questões socioculturais.

José Américo de Almeida construiu o que ele chamou de antropossociologia2, um estudo sobre a formação

do povo paraibano, a partir do qual ele identificou, nos tipos regionais, ao contrário de outros intelectuais, positividades no processo de miscigenação.

O primeiro aspecto positivo a que se referiu Almeida foi a criatividade, pois favorece a realização da inteligência para analisar, criar alternativas e enfrentar os desafios a que o povo é submetido. O segundo aspecto positivo ressaltado foi a capacidade de resistência da população

2 Termo cunhado por José Américo para identificar sua proposta metodológica no estudo sobre o processo de miscigenação na paraíba.

em face das adversidades sociais: condições climáticas desfavoráveis, ausência de investimentos públicos, atenção político-administrativa precária. Diante dessa constatação e em face da realidade opressiva, ele atribuiu uma grande responsabilidade aos intelectuais, no sentido de não ignorar e nem calar, mas antes construir uma consciência pública e lutar pela democratização dos bens públicos. O terceiro aspecto positivo concentrava-se na diversidade dos tipos humanos, pois, em harmonia com o ideário de povoar as regiões do país, defendido pelo pensamento nacionalista, os processos de miscigenação favoreciam o crescimento demográfico brasileiro.

O processo de mestiçagem na Paraíba gerou uma diversidade regional semelhante a que ocorreu em outras regiões do país. Por isso, a impossibilidade de existir um único tipo étnico que pudesse representar a identidade brasileira. Essa busca da unidade nacional sob o emblema do nacionalismo, desencadeada pela marcha forçada para a modernização brasileira, gerou um crescimento desigual. Tal condição separou o centro (Sul/Sudeste) da periferia (Norte/Nordeste), reforçando a centralização do poder estatal. José Américo manifestou-se contrário a atribuição de que o subdesenvolvimento da região está ligado a nossa formação étnica, pois, para ele, essa forma de pensar não tinha base científica nem histórica. Criticou também o empirismo como método para compreender a complexidade humana do mundo.

Ao engendrar novas possibilidades de leitura da realidade José Américo desprezou qualquer tipo de visão essencialista sobre a constituição do povo, no processo de formação regional. Não encontrava nenhum fundamento que pudesse justificar ou culpabilizar as raízes étnicas, a mestiçagem como causa da falta de desenvolvimento. Ele entendia que os problemas decorrentes do subdesenvolvimento regional podiam ser explicados pela falta de compromisso político-administrativo dos poderes públicos e não por causa de fatores raciais, como

defendiam outros intelectuais de sua geração.

Sua obra A Bagaceira, reflete o ideário modernista que reclamava à literatura a tarefa de reinterpretar a própria literatura e a história, trazendo para dentro das obras a realidade brasileira em sua diversidade. Para, além disso, sua obra inova no plano da criatividade estética e projeta a literatura como representação social de uma região brasileira esquecida pelos poderes públicos. Por esse motivo, sua prosa teve um papel relevante, ao fazer da literatura um canal de denúncia e critica social ao sistema de exploração capitalista, ao tempo em que discutia em embate com os intelectuais de sua época a questão do nacional.

Nossa compreensão é que a atuação de Américo nos campos literário, científico e político se conjugaram em harmonia em suas obras literárias, seu ensaio científico, no qual engendra uma análise antropossociológica, e em seu projeto político. Em suas obras literárias desenvolve a denúncia e a crítica dos problemas sociais, em seu ensaio científico analisa os problemas da Região Nordeste e no desempenho de suas atividades políticas e administrativas buscou promover ações que se sintonizavam com sua produção ensaística e objetivavam o desenvolvimento regional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do

Nordeste e outras artes. Recife: Fundação Joaquim Nabuco,

Editora Massangana; São Paulo: Cortez, 2006.

ALMEIDA, José Américo de. A Bagaceira [1928]. 34ª ed. Rio de Janeiro: José Olímpio Editora, 2000.

ALMEIDA, José Américo de. A Paraíba e seus Problemas [1923]. 3ª ed. João Pessoa: A União Cia. Editora, 3ª Edição, 1980.

ALMEIDA, José Américo de. Coiteiros [1937]. 2ª ed. João Pessoa: FCJA, 1994.

ALMEIDA, José Américo de. O Boqueirão [1937]. 2ª ed. João Pessoa: FCJA, 1994.

ALMEIDA, José Américo de. Quarto Minguante [1976]. 3ª ed. João Pessoa: JCJA, 1994.

ALMEIDA, José Américo de. Reflexões de uma Cabra [1922]. 2ª ed. João Pessoa: FCJA, 1994.

BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: UNESP, 1997.

BOSI, Alfredo. Moderno e Modernista na literatura brasileira. São Paulo: Ática, 1988.

BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: 8ª ed. Bertrand Brasil, 2005.

CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. In: Ciência e cultura, São Paulo, nº 24, p. 803-809, set. 1972

COUTINHO, Afrânio. Crítica e Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Fortaleza: Edições Universidade Federal do Ceará – PROED, 1987.

FREYRE, Gilberto. Manifesto Regionalista. 4ª ed. Recife: Instituto Joaquim Nabuco, 1967.

LEITE, Lígia Chiappini Moraes. Velha praga? Regionalismo

literário brasileiro. In: PIZARRO, Ana (org.), América Latina,

palavra, literatura e cultura. v. 2. São Paulo: Memorial da América Latina/Editora da Unicamp, 1994.

NAXARA, Marcia Regina Capelari. Estrangeiros em sua própria

terra: Representações do brasileiro, 1870/1920. São Paulo:

Annablume, 1998.

RICOEUR, Paul. O Conflito das Interpretações. Porto: Rés- Editora,1998.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SILVEIRA, Rosa Maria Godoy. O Regionalismo Nordestino. Editora Moderna, 1984.

A AMAZÔNIA DE ABEL POSSE E