embaixador?
Quero deixar claro que nunca tivemos a vaidade de sermos os primeiros a fazer isso ou aquilo. Quando se começou a montar o serviço, buscou-se as primeiras informações no SNI e no Cenimar: "O que vocês têm a respeito disso assim assim?" Eles nos davam o relato. Então nós selecionávamos, estudávamos, ampliávamos ou não esses dados, e passávamos a ter conhecimento de todas as informações. Não existia segredo entre nós, principalmente por que havia honestidade de propósitos. Nós queríamos descobrir as
diversas redes de esquerda, das diversas tendências, e localizar suas lideranças. Então não existia competição.
Por exemplo, coube ao Exército fazer a escuta telefônica da casa do brigadeiro Francisco Teixeira, que era oficial da Aeronáutica, mas �ra um homem totalmente comunista. Nem o Cenimar nem o CISA tinham o controle da companhia telefônica: o Exército tinha. Então, passou a fazer a escuta, a pedido do Cenimar - isto antes da criação do CISA, porque o Cenimar já tinha conhecimen to das ligações do brigadeiro Teixeira com a cúpula do PCB. Foi através dessa escuta que, em certa ocasião, chegou ao conheci mento do CISA que a todo momento aparecia um personagem que, pela seqüência da conversação, deveria ser oficial da Aeronáutica. Em seguida apareceram os trechos da conversação do brigadeiro Teixeira com o redator-chefe do
Correio da
Manhã, sr. Edmundo Moniz. Averiguamos que o pseudônimo se referia ao capitão-mé dico da Aeronáutica dr. Santos, muito amigo do brigadeiro Teixei-200 • Os Anos dp Chumbo
ra, seu companheiro nas jogatinas no tJockey Clube Brasileiro e companheiro do capitão Sérgio Carvalho, servindo no Para-Sal'. E com relação à conversação com o jornalista Edmundo Moniz, houve o descobrimento da grande injúria que estava sendo feita contra a minha própria pessoa, relativa ao lançamento ao mar, a quarenta milhas da costa, de quarenta personalidades políticas. Esta trama fora inventada pelo jornalista Edmundo Moniz e levada aos jornais após dar conhecimento ao brigadeiro Teixeira, que, na ocasião, ainda reagiu contra a inclusão do seu nome na relação de políticos a serem supostamente lançados ao mar. Isto motivou, por parte do sr. Edmundo Moniz, na conversação manti da, a resposta de que a inclusão do nome do brigadeiro Teixeira, daria maior veracidade à história inventada por ele.
Então, nós achávamos que os nossos meios poderiam auxiliar. Se obtivéssemos uma informação antes de outro órgão, com recur sos próprios, podímuos prosseguir caso chegássemos à conclusão de que tínhamos TI1eios para tanto. Agora. na mesma hora que tomávamos conhecimento de uma informação, comunicávamos aos demais. Apenas alguns informes que não eram caracterizados, e portanto não permitiam a certeza absoluta, não se passava adiante. A infonnação só era transferida se houvesse segurança de que a operação estava certa. Nunca existiu vaidade, pelo contrário. Quem quer arriscar a vida por vaidade? Ninguém. Podia acontecer de um órgão sair para uma operação e chegar no local ao mesmo tempo que outro grupo. No seqüestro do embaixa dor alemão aconteceu isso. Nesse caso, ° nosso serviço não chegou,
mas muitas vezes chegamos antes dos outros. Mas qual o meu interesse em dizer que o meu serviço chegou antes do outro? Por vaidade pessoal? Mas não sou eu que estou fazendo a ação! Quem está fazendo a ação, atrás de mim, são coronéis, capitães, tenen tes, sargentos. Eu vou ficar na preocupação de que foi o meu serviço que deu determinada informação? Não.
O meu serviço realmente consegu iu obter a informação de que o Lamarca saiu de São Paulo e foi para o Nordeste, Salvador. Na mesma hora comuniquei ao Exército, que mandou gente atrás. E quem chegou no final da operação'? Foi o Exército. Quem atirou no Lamarca? Foi um coronel do Exército que atirou na cara dele. O Lamarca foi morto em ação de combate, no meio do campo, com tropa do Exército. E quem deu as informações iniciais? Fomos nós,
J,-,'\o PAlILO M'-'R " I RA Rl.' R N I E R • 201
do erSA. Mas isso tem valor para nós? Não. O valor principal é o seguinte: os serviços de informações militares localizaram o La marca e eliminaram esse inimigo do Brasil. Acho que saiu um filme sobre esse homem.
É
um absurdo!É
inacreditável saber que tem gente com a mentalidade de achar bonito dizer que o combate ao regime militar elevou a herói esse Lamarca. Herói, que nada, era um assassino! Um sujeito de vida completamente espúria! Não tinha família, nâo tinha nada; tinha amante, uma vida completamente irregular. Ele roubou, levou-se por um monte de elogios. Não era um idealista, não era um comunista de carteirinha. Era um homem que se tornou, como Prestes, um comunista no decorrer da vida.
Entre os esquerdistas pode haver divergência, vaidade para assumir chefias, funções, para ter mais recursos financeiros, mas entre nós, não. Não tínhamos sequer um tostão a mais, não
tínhamos vantagem alguma. Tínhamos só o risco de vida. Estáva mos fazendo aquilo por idealismo, e o pessoal não acredita. Tínha mos a convicção de que a ideologia marxista e socialista era impraticável para a vida, para a pessoa humana. O humano não aceita o socialismo, porque é uma doutrina econômica que dá iguais direitos a pessoas diferentes. Uma pessoa trabalha, guarda os seus recursos e consegue melhorar de vida. O outro, trabalha dor também, não guarda o que ganhou, torna-se um bêbado, um sem-vergonha, e gasta todo o seu dinheiro. Não vencerá nunca. Vão ter ambos os mesmos direitos? Não. Cada um tem a sua função na sociedade, tem aquilo que merece. Então, como posso aceitar que cheguemos ao final tendo os mesmos direitos às benes ses distribuídas pelo Estado? Não. Ninguém aceita receber coisas iguais de trabalhos diferentes. Na nossa democracia, as pessoas que desempenham funções semelhantes recebem salários iguais ou semelhantes. Já no regime igualitário� socialista, que é uma utopia, eles acham que isso é possível. Quem vai abdicar do rendimento do seu trabalho em benefício de outro que sabe que é um vagabundo, um safado'? Quem vai trabalhar doze horas por dia, quando o outro trabalha uma hora só recebendo igual? Nin guém aceita isso. A gente tem filho, mulher, então trabalha para obter recursos, para que amanhã esse filho e essa mulher tenham a capacidade de sobreviver na nossa ausência. Pois bem, no regime socialista, não. Dizem que garantem a sobrevivência, mas
202 • ( )H AlllJH df'Chumbc
chega na hora, dão urna mlSert3. Isso não está certo. Ninguém aceita a limitação de sua ambição pessoaL Aceita em determinado nível. Em outros, não pode aceitar. Então, o socialismo é uma utopia, Não se pode chegar a essa igualdade, a esse regime mara vilhoso que seria o Nirvana, mudando a mentalidade das pessoas de qualquer jeito. O regime socialista limita a ambição humana, como se fosse possível limitar a vontade humana. Nem Deus, nem todas as religiões que existem no mundo conseguem fa zer com que todos ajam da mesma maneira. Porque a pessoa humana é um conjunto de vontades e instintos dificilmente controláveis.